Rigoroso como Você
1 Rigoroso como você
Notas iniciais
Espero que gostem.
Rigoroso como você
Há algum tempo atrás, surgiu um país grande em extensão, mas pequeno em todo o resto. Esse pequeno, mas grande país se chamava Brasil. Brasil era uma colônia de Portugal e digamos que vivia lhe dando um imenso trabalho com sua teimosia e petulância.
Brasil era teimosa, vivia desobedecendo ao irmão mais velho e não se controlava quanto ao que queria fazer. Se surgia a vontade, ela simplesmente fazia sem se importar com as consequências. Por exemplo? Bem, uma vez estava chovendo muito lá fora, mas Brasil queria ir brincar com Abel — seu grande cachorro branco — e Rio — sua arara azul. Portugal havia saído, pois tinha assuntos pendentes a resolver com o Espanha.
Enquanto isso, a pequena garota ficava observando a chuva da janela de casa, usando seu vestido leve e elegante e com o cabelo preso em duas curtas tranças negras que escorriam por seus ombros. Se dependesse de Brasil, ela vestiria apenas uma camisa branca e uma bermuda curta, mas Portugal era rigoroso quanto à imagem que ela iria passar aos demais países.
Normalmente Brasil mantinha esse tipo de coisa na cabeça. Tudo o que o irmão a ensinava e etc. Entretanto, quando queria se divertir, ela sempre dava um jeito de se esquecer de tudo. Essa tarde era uma dessas.
Brasil olhou furtivamente para Abel pelo canto do olho. O cachorro estava com a cabeça apoiada em suas pernas enquanto ela observava a chuva por trás do vidro.
-- Quer ir brincar, Abel? -- perguntou.
O cachorro ergueu a cabeça e lhe lançou um olhar curioso.
-- Não podemos. Se ficarmos molhados, Portugal vai ficar furioso...
Abel baixou as orelhas melancolicamente e soltou um guincho baixo. Brasil riu baixinho e olhou pela janela de novo, sem conseguir resistir.
-- Bom, ele não está aqui agora, não é? -- ela se levantou e começou a caminhar com o cachorro em direção à porta. Abel balançava o rabo alegremente quando passaram pela porta.
A chuva continuava forte, mas isso não era problema. Brasil e Abel ficaram divertindo-se e brincando enquanto Rio observava debaixo de uma árvore -- a arara odiava se molhar. Brasil caiu numa poça de lama em meio às brincadeiras, manchando todo o vestido que antes fora de um rosa claro e doce, de um marrom rude e cor de terra. A tarde passou rápido e depois de algumas horas, Brasil foi para baixo da árvore com Rio e Abel, sorrindo e acariciando-os. Abel balançou-se todo, expulsando a água de seus pelos e molhando ainda mais Brasil. Ela riu, sentindo-se molhada e pesada. Sentou-se sob a árvore.
-- Ah isso valeu a pena! -- exclamou para os animais. -- Adoro sentir a água fria caindo em mim! Portugal me pergunta por que eu não tomo um banho de água fria, mas não é a mesma coisa!
Rio soltou um pio desconcertado.
-- Suas penas não estão tão molhadas quanto meu cabelo, não reclame! -- riu-se a menina. -- Seria legal se pudéssemos chamar o América para brincar com a gente... Ele é um dos únicos da minha idade por hora. Portugal não gosta que brinquemos com o México... E o Itália é divertido, mas ele é mais velho... Apesar de que acho que não se importaria de brincar conosc... Oh-ou.
Um barulho surgiu mais à frente e, sob um guarda-chuva vermelho e verde, um homem alto, com cabelos castanho-escuros presos num rabo de cavalo caído de lado e um uniforme limpo e elegante, estava parado olhando para Brasil com desgosto. Ela se levantou receosa, pensando se correr era uma boa opção. Ela sempre fora mais rápida que Portugal, sempre. Mas ele sempre a encontrava, onde quer que se escondesse.
-- Eu estou muito irritado contigo, Brasil. Venha aqui, agora -- disse com seu sotaque europeu.
-- .... Portugal.... -- murmurou a garota, prevendo a bronca. Ela caminhou até ele e juntos, entraram em casa sem dizer uma palavra. O mais velho colocou o guarda-chuva no lugar e quando Brasil fez menção de ir até as escadas, ele segurou seu ombro.
-- Não. Espere. Trarei uma toalha -- ele subiu as escadas com uma expressão impassível no rosto, provavelmente pensando em como começaria a bronca. Ele voltou depois de alguns segundos com duas toalhas. Uma, estendeu para Brasil, que se enrolou, começando a sentir frio. E a outra jogou sobre o cachorro, que começou a esfregar-se nela. A garota espirrou, como se para dar início ao discurso do maior:
-- O que tu pensaste ao sair com esta chuva? Não te passou pela mente que poderias pegar um resfriado? E agora? Tu estás encharcada, Brasil! E teu vestido está completamente enlameado!
-- Desculpe-me, Portugal...
-- Desculpas estão fora de cogitação – ele suspirou. – Ora pois, nunca vais mudar, não é mesmo?
Ela desviou o olhar dele.
-- Nunca vou ser o bastante, vou?
-- Quando aprenderes como tu deves se comportar, sim – ele disse com a voz dura e autoritária de sempre. – Agora suba e tome um banho, eu prepararei o jantar. E estás de castigo devido à tua petulância, não vais sair para brincar amanhã.
-- Mas Portugal!
-- Sem “mas”, Brasil! Obedeça! Quem sabe se começares a ouvir o que os mais velhos lhe dizem, não aprendes a agir corretamente?
Com essas palavras, Portugal dirigiu-se a cozinha enquanto Brasil começava a subir as escadas com Abel em seu encalço. Rio preferira ficar lá fora, já que tinha seu ninho quente e seco entre os galhos das árvores. Brasil parou na metade da escada e passou a mão nos pelos molhados de Abel, fazendo beicinho.
-- Por que Portugal não pode gostar de mim assim, Abel? Do jeito que eu sou. Ele sempre briga comigo e exige que eu seja diferente.
O cachorro soltou um chiado baixo e triste. Quando Brasil foi subir os últimos degraus da escada para o segundo andar, escorregou. No ímpeto de manter-se em pé, suas mãos agarraram a primeira coisa que lhe surgiu – o que ocasionalmente era a pequena toalha de uma mesa de canto do segundo andar, logo depois da escada. Sobre a mesa, havia um vaso que escorregou com o puxão e caiu junto com ela. Brasil rolou até metade da escada e os pedaços do vaso quebraram-se ao lado dela.
Os passos apressados de Portugal ecoaram quando ele voltou ao salão principal. Ele arregalou os olhos e franziu o cenho respectivamente enquanto corria até a garota.
-- Estavas brincando na escada, Brasil? – esbravejou. – Quantas vezes eu já não lhe disse para tomar cuidado?!
Portugal ajoelhou-se ao lado da garota que agora desabava em lágrimas.
-- Eu não estava brincando! – exclamou ela. – Eu estava molhada e escorreguei!
Ele hesitou por um momento, mas começou a tirar os cacos de vidro de perto dela. Abel no segundo andar, parecia preocupado, mas não ousava aproximar-se.
-- Estás machucada? – perguntou Portugal.
-- Meu joelho dói... – Brasil murmurou chorosa.
Ele olhou para a perna dela e notou um corte horizontal que sangrava. Portugal suspirou e um vinco severo se formou entre suas sobrancelhas.
-- Consegues levantar? – perguntou.
Ela assentiu e ergueu-se com dificuldade. O irmão ajudou-a a terminar de subir as escadas e levou-a até seu quarto.
-- Sente-se na cadeira da escrivaninha – disse Portugal, indo até o armário e pegando no topo do mesmo uma caixinha de primeiros-socorros.
Ele se ajoelhou ao lado de Brasil e começou limpar o ferimento.
-- .... Portugal.... – Brasil murmurou em voz baixa.
-- Hm? – disse o outro com voz firme.
-- Você nunca me deixou entrar no seu quarto assim...
-- Claro que já permiti.
-- Mas não tão dentro... Você nunca deixou que eu chegasse perto da sua escrivaninha...
Ele terminou de limpar a ferida e começou a usar gaze e esparadrapos para fazer o curativo.
-- Isso porque tu não conheces uma palavra chamada autocontrole. Não consegues parar de correr e brincar, não posso permitir que meus documentos importantes sejam vítimas de teu desleixo.
Ela corou.
-- Estou quieta agora...
-- Agora. Brasil, não te faças de desentendida, sabes que é ligeiramente hiperativa.
Ele terminou o curativo e fechou a caixa de primeiros socorros num estalido, erguendo-se e colocando-a na prateleira mais alta novamente. Brasil continuou sentada.
-- Agora vás tomar banho, e cuidado para que não molhes o machucado – disse ele, saindo do quarto.
Brasil observou enquanto ele passava pela porta. Quando dirigiu-se ao banheiro, encontrou Abel no corredor. Sorriu para o cachorro e abraçou-o.
-- Portugal foi legal comigo hoje, Abel. Não é bom? – ela deu uma risadinha, e então foi tomar banho.
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