Right Now
1 Capítulo Único: Agora mesmo
Notas iniciais
Right Now
Bem, meu nome é Kuchiki Rukia e eu sou a pessoa mais azarada do mundo. Por onde eu deveria começar para confirmar ainda mais essa constatação? Acho que posso começar pela parte que quebrei a perna em pleno ano novo. Sim, isso aí. E de um jeito estupidamente ridículo, só para dizer.
Se tivessem me deixado ficar em casa curtindo meu coração partido, nada disso estaria acontecendo! Nadinha! Eu queria ficar em casa tomando champanhe e me entupindo de uvas — eu realmente adoro uvas. Porém, meus amigos — aqueles cavalos — iriam comemorar o ano novo na casa da Matsumoto, e pela primeira vez, todos estariam lá, inclusive ele.
Só para esclarecer, ele é o meu ex-namorado, bom, passou a ser há alguns dias. Ele — continuaremos a chamar assim porque pronunciar o nome dele ainda é dolorido — me abandonou depois de acabarmos o colegial. O esquecimento por parte dele em relação a mim foi algo que não pude suportar. Para alguém que dizia me amar, foi um golpe brutal em meu coração.
Sabe qual é o problema de você começar a namorar seu melhor amigo que é amigo dos seus outros amigos? Não importa o quanto você tente evitá-lo, você não vai conseguir, porque ele é amigo dos seus outros amigos. E eu não sou do tipo de pessoa que faria os meus outros amigos escolherem entre mim e ele.
(Quantos amigos em uma frase só, socorro.)
Okay, isso ficou muito estranho.
Resumindo: É isso.
Vamos voltar à história original. Enfim... Eu não queria ir, porque ficaria um clima muito esquisito e não gostaria de estragar o ano novo dos meus melhores amigos por causa disso, mas ao mesmo tempo, eles ficariam chateados se eu simplesmente não fosse, já que seria o primeiro ano novo em que todos estariam juntos. Acabei resolvendo ir no final das contas.
Eu ainda não sei porquê, mas deixei Orihime enfiar um salto agulha de quinze centímetros no meu pé. E o resultado não foi outro: me esborrachei no chão de um jeito nada elegante e quebrei a perna de brinde.
Agora estou no hospital com a perna engessada e sozinha. Por opção, é claro. Jamais faria com que meus amigos passassem o bendito ano novo no hospital comigo, mas acho que estou começando a me arrepender dessa escolha.
Ainda não é meia-noite. Faltam quarenta minutos. Uma enfermeira muito bonita e gentil veio me perguntar se não gostaria de me juntar a outros pacientes para esperar o começo de um ano novo. Aceitei, era melhor do que ficar apodrecendo no meu quarto assistindo aqueles programas podres de fim de ano que infestam a televisão.
A enfermeira bonitona me levou na cadeira de rodas, ainda não podia andar. De qualquer forma, foi muito divertido, principalmente na hora em que um médico gostosão cantou a enfermeira — de uma maneira bem discreta — e ela ficou toda “amolecida” e se distraiu largando a cadeira de rodas, que saiu desgovernada e só parou no elevador. Foi uma experiência e tanto!
Depois que a enfermeira reconquistou a cadeira de rodas — e pedir milhares de desculpas, coitada — me levou até o lugar em que o resto dos pacientes estavam. Fiquei um pouco surpresa ao ver que a maioria dos pacientes presentes eram jovens, aparentavam ter entre 17 e 23 anos. A enfermeira pareceu notar meu espanto.
— São pacientes da ala de câncer — explicou perto do meu ouvido e soltei uma exclamação. — Consegue usar a cadeira sozinha? — Assenti mesmo sendo mentira. — Estou saindo por um instante. Divirta-se! — E saiu acenando.
Okay, dona enfermeira, nós sabemos bem quem vai se divertir essa noite!
Continuei parada na entrada do salão — estava morrendo de medo da cadeira de rodas ficar desgovernada novamente e eu acabar matando alguém. Observei as pessoas que estavam presentes por um instante.
Elas pareciam tão felizes, tão vivas, estavam rindo, sorrindo e brincando, e fiquei imaginando... Se eu estivesse no lugar de uma delas, será que eu reagiria assim? Será que eu teria forças para sorrir mesmo sabendo que eu poderia não me recuperar? Eu acho que não. E por conta disso, eu sorri. A maioria deles eram tão jovens quanto eu e ainda assim eram tão fortes.
Percebi que tinha uma longa mesa coberta por toalhas simples e brancas, encostada em uma das paredes com muita comida e bebida. Nossa, seja lá quem que montou aquela mesa, realmente caprichou.
Tinha uvas!
Meu Deus!
Eu precisava ir lá! Olhei para minha cadeira desconfiada, será que eu conseguia chegar lá sem matar ninguém ou sem provocar algum tipo de desastre? Hum... Difícil escolha, mas ainda assim resolvi arriscar.
— Bem, acho que não custa nada tentar...
E quando eu menos esperava, alguém esbarrou em mim sem o mínimo de delicadeza e a cadeira saiu andando sozinha. Desesperada, segurei as rodas da cadeira com todas as minhas forças e por um milagre consegui parar antes de atingir alguém ou de esbarrar na mesa de comida.
Com um esforço fenomenal, girei a cadeira para ver quem tinha sido a santa pessoa que tinha feito aquilo comigo. Me deparei com um rapaz com cabelo tingido cor-de-tangerina, que mantinha uma expressão indiferente no rosto e as mãos no bolso de sua calça apertada — até demais para um homem, diga-se de passagem.
— Ei, você não presta atenção por onde você anda? — resmunguei, olhando para a o meu quase-assassino.
— Eu é que pergunto! — rebateu e eu arqueei uma sobrancelha ligeiramente, como se estivesse dizendo “se você ainda não reparou, estou em uma cadeira de rodas!”. — Eu quis dizer... Você não presta atenção por onde você fica? Ali não é lugar para ficar estacionada.
— Qual é o seu maldito problema? — gritei, fuzilando-o com os olhos.
— Você estava no caminho! — respondeu simples e pausadamente, e deu de ombros, como se eu fosse retardada.
Sabe aquele momento em que você nunca conversou com uma pessoa na vida e mesmo assim você já a odeia? Pois é... Estou nessa situação agora mesmo. Se eu pudesse, levantaria dessa cadeira e daria uma voadora nesse cara!
— Você poderia ter pedido licença, se você não percebeu, eu poderia ter me acidentado gravemente por sua falta de educação! Estúpido!
Quando eu iria continuar a insultá-lo, uma garotinha com cabelos bem curtos e castanhos e com olhos claros e alegres apareceu. Ela correu na direção do tangerina-podre e abraçou suas pernas finas de Pinóquio.
— Onii-chan! — exclamou feliz, enquanto eu observava com uma cara de tacho. — Você veio!
— Claro que sim. Como eu poderia não vir visitar você no ano novo? — disse, adquirindo um tom suave, assim como sua expressão.
Admito que por um instante fiquei surpresa. Aquele cara era o mesmo que tinha tentado me matar há poucos minutos?
— Hum? Quem é essa onee-san? — perguntou ao se dar conta da minha presença.
O assassino tentou abrir a boca para responder, mas ficou sem falar nada. Afinal, ele não sabia meu nome e seria vergonhoso dizer para sua irmã que eu era uma vítima sobrevivente de seu atentado.
— Sou Kuchiki Rukia — apresentei-me e dei um sorriso discreto. — E você?
— Meu nome é Kurosaki Yuzu! — respondeu alegremente. — E você já deve saber, mas esse é o meu irmão Ichigo.
“Morango?”
Meus olhos foram na direção do tal de Ichigo imediatamente, e quando nossos olhares se encontraram eu consegui ver ali, no fundo de seus olhos, uma dor sombria, uma dor imensurável. E então percebi, que mesmo que seus lábios forçassem um sorriso para sua pequena irmã com câncer, seus olhos não diziam o mesmo. O que era estranho, já que a pequena Yuzu esbanjava vida e alegria.
— Ah sim! Kurosaki-kun, não é? — murmurei provocativa e ele me olhou com aquela carranca de quem chupou limão e não gostou e mesmo assim continua chupando. — Pena que seu irmão não seja tão adorável quanto você, Kurosaki-chan.
— Oh! O onii-chan foi rude com você, Kuchiki-san? — perguntou, uma expressão raivosa em sua face.
Resolvi dar o troco.
— Não foi nada cavalheiro! Esbarrou em mim e nem pediu desculpas! — acusei, forçando lágrimas de crocodilo para fazer minha encenação ficar mais real.
— Peça desculpas a Kuchiki-san, imediatamente! — ela mandou, olhando furiosamente para Ichigo. Pela sua expressão, já estava na cara que ele não negaria nada a ela.
Pude ouvi-lo murmurar “isso é trapaça” antes de se dirigir a mim com um sorriso amarelo e dizer:
— Perdoe-me se fui grosseiro Ku-chi-ki-san. Não era a minha intenção.
Não pude conter meu sorriso de satisfação-barra-vitória ao vê-lo tão encabulado por ter que se desculpar e por uma estranha ter que vê-lo ser mandado por sua irmã mais nova. Com falsas lágrimas nos olhos, disse:
— Tudo bem, Kurosaki-kun! Mas só o perdoarei por completo se pegar umas uvas para mim — abusei. Não tinha nada de mal em fazer isso, ele quase me matou afinal de contas.
Ichigo me olhou com uma carranca maior ainda — se é que era possível – e estalou a língua, mas não discordou. Apenas saiu e me deixou sozinha com a pequena Yuzu.
— E então, Kuchiki-san, você está sozinha? — perguntou casualmente e apenas assenti. — Então... Você gostaria de passar o ano novo conosco?
Como eu poderia negar quando ela me encarava com aqueles olhos tão vivos e alegres? Sem saída, apenas assenti novamente. Se fosse pela felicidade da garotinha, eu me sacrificaria em passar o resto meu ano novo com aquele mal educado.
— Vamos logo, onii-chan, ou vamos perder os fogos! — chamou, acenando para Ichigo que já estava praticamente do meu lado. — A Rukia-chan virá conosco. Posso chamar assim, certo?
— Está tudo bem — afirmei, sem conseguir conter o sorriso.
Depois de me dar o prato com uvas — eu chequei para ter certeza que não era outra tentativa de assassinato —, Yuzu obrigou Ichigo a me empurrar até a sacada para vermos os fogos de artifício. Engraçado como o tempo passou rápido enquanto conversávamos e riamos. Quando vimos faltava apenas um minuto para meia noite.
Fizemos a contagem regressiva e admito que foi emocionante virar o ano com pessoas que, até um tempo atrás, eram completos estranhos. Nós brindamos alegremente quando deu meia noite — eu e o morango com champanhe e Yuzu com suco — e desejamos apenas coisas boas, porque realmente estávamos precisando.
Depois de alguns minutos, levamos Yuzu para o quarto. Ela estava tão cansada! Não era para menos, ficou acordada até tarde. Não demorou mais que alguns minutos para que ela adormecesse. Ficamos em silêncio por um instante, até Ichigo quebrá-lo:
— Você quer voltar lá pra fora?
Encarei-o por um instante, tentando ver algum motivo por trás daquele convite. Não encontrei nenhum, mas também não tinha nenhum para recusar. Ainda desconfiada, disse:
— Tudo bem, não vai me jogar pela sacada, não é?
— Você não vai esquecer isso, não é? — resmungou, revirando os olhos e já me empurrando para fora do quarto. — Eu já me desculpei e aquilo foi sem querer.
— Rum! — resmunguei e fiquei em silêncio até chegarmos a sacada.
Quando chegamos, Ichigo me deixou por mim mesma e se apoiou nas grades da sacada, seus olhos indo em direção ao céu estrelado.
— E então, como você quebrou a perna? Você deve ser muito azarada para ter conseguido isso logo hoje — comentou casualmente.
— Por que está interessado, Kurosaki-kun? — alfinetei.
— Chame apenas de Ichigo.
— Certo, Ichigo! — murmurei entediada. — E bem, eu quebrei a perna de uma forma realmente tosca — informei sem olhá-lo nos olhos.
— Como? — perguntou totalmente curioso, seus olhos se voltando para mim.
— Você irá rir! — afirmei. Ichigo fez uma expressão como se estivesse dizendo “apenas fale logo”. — Eu caí tentando usar um salto. — Não demorou mais que alguns segundos para que eu pudesse ouvir sua risada, decidi apenas ignorá-lo. Estúpido! Se ele soubesse como é difícil se equilibrar naquela coisa, não estaria rindo! — O melhor, é que no fim das contas não tive que encontrá-lo — sussurrei para mim mesma.
— Ah, tinha alguém que você não desejava ver? — indagou e dessa vez me encarou diretamente.
Droga! Ele escutou. Titubei por alguns segundos, pensando se deveria falar ou não. Por fim, perguntei:
— Eu posso confiar em você? — Meu tom de voz saiu tão frágil e me odiei por isso. Ichigo pareceu notar, já que seus olhos adquiriram um brilho estranho, ele apenas assentiu e eu continuei: — Realmente tinha alguém que eu não queria ver, mas eu estava indo para não fazer desfeita para meus amigos.
— Ah! Era alguém importante? — perguntou enquanto sentava no chão.
— Sim... Era... — respondi simplesmente.
Senti aquele gosto amargo da angustia subir pela minha garganta. Ainda não tinha chorado, desde que tinha terminado com ele, ainda não tinha derramado uma lágrima. Será que eu era um monstro por isso? Por não ter chorado por meu relacionamento de três anos ter acabado de forma tão vergonhosa e abrupta? Por não ter chorado pelo homem pelo qual me sacrifiquei, me doei e me esforcei ao máximo?
Naquele momento, senti vontade de chorar. Depois de semanas, as lágrimas simplesmente vieram, enquanto eu conversava com um estranho. Não pude contê-las, deixei que caíssem e manchassem meu rosto e não escondi. Segurei o soluço pesado que iria escapar por minha garganta. Não tive coragem de conversar sobre isso com ninguém, então, me forcei a continuar:
— Era alguém que me fez gastar três anos da minha vida e depois me abandonou como se eu fosse nada, me esqueceu como se eu não fosse importante. — Engoli outro soluço e passei a mão pelo rosto tentando limpar as lágrimas que insistiam em continuar caindo. — E me fez sentir culpada por coisas que não eram minha culpa.
— Sério que você está chorando por alguém assim? — retrucou de repente, me surpreendendo. Seu olhar estava tão fixo no meu, ele estava tão sério que parecia outra pessoa. — Alguém que fez isso com seus sentimentos, não merece suas lágrimas ou sua dor. Talvez você não consiga superar agora mesmo, mas eventualmente irá conseguir.
— Como você pode ter certeza disso?
— Porque eu também já fui abandonado por alguém que eu gostava. Eu entendo como você está se sentindo. E sei o quão difícil é — disse, seu olhar agora distante. — As pessoas, os amigos dizendo que entendem você, sendo que isso não é verdade. Ninguém entende o quão profunda uma dor pode ser, até que a mesma dor o apunhale.
Fiquei em silêncio. Não sabia o que dizer, mas de algum modo aquelas palavras me acalmaram e me deixaram feliz. Algo dentro de mim se libertou e tomou ciência de que por muito tempo estive presa a algo que ao invés de me trazer felicidade, me fazia infeliz. E agora, eu estava finalmente livre.
Livre da dor, livre de tudo que me fazia mal.
— Obrigada — foi tudo que pude falar, as lágrimas agora de felicidade, descendo pelo meu rosto. — Eu até beijaria você por essas palavras.
Ichigo soltou uma sonora risada, parecendo constrangido.
— Uma garota não deveria falar essas coisas. — Deu uma pausa e suas bochechas coraram. — Mas eu beijaria você de volta.
Sabe de uma coisa que eu aprendi com o tempo? Que nem sempre as coisas que mais queremos vêm agora mesmo, às vezes temos que batalhar um pouco mais por elas. Assim como temos que aprender a dar valor naquilo que realmente importa. Nós, humanos, nos agarramos demais a dor, com aquilo que nos faz sofrer.
Então, por que não deixar que agora mesmo tudo isso se vá?
Naquele instante, quando eu conheci Kurosaki Ichigo, eu não poderia saber que minha vida mudaria para sempre. Não sabia naquele instante, que ali, naquela noite de ano novo, naquela noite em que achei que era a pessoa mais azarada do mundo por parar no hospital justo naquele dia, por achar que deveria ter me esforçado mais por aquele quem eu julgava sendo o amor da minha vida, acabei realmente encontrando o amor da minha vida.
E agora mesmo, dez anos depois, eu não tenho dúvidas sobre isso.
O amor veio e continua aqui, pulsando como se tudo estivesse acontecendo pela primeira vez.
Agora mesmo.
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