Right Into Your Heart
1 Ao Fim da Reunião, À Tarde
Naruto Uzumaki abriu a porta de sua sala, no prédio em que deveria ficar o Hokage e também seus conselheiros e braços direito, no último andar, e suspirou aliviado. Acabara de deixar uma reunião que falava sobre novas missões, como classificá-las, para quem distribui-las e quem estava disponível nos próximos dias, e apesar de ser um trabalho que apreciava fazer, naquele dia em especial, ele se cansou. Ouvia aquele conselheiro gordo e de óculos redondos que ele não gostava muito, mas que fazia muito bem seu trabalho, falar e torcia pelo final daquela reunião mais do que torcia pelo fim do dia. Quando ele fechou a ata e os ninjas presentes arrastaram cadeiras para se retirar, Naruto por pouco não soltou um longo suspiro de alívio.
Parte da sua revolta em ter que fazer parte daquela reunião vinha do fato de que Sasuke Uchiha não estava presente. Recebera uma missão dois dias antes, algo que envolvia a busca por uma criatura mágica em uma floresta no outro extremo da Vila da Folha, e não voltou mais. Naruto conhecia muito bem o trabalho que o namorado fazia e sabia que ele era muito bom, portanto, algo de muito errado devia ter acontecido para ele demorar tanto até retornar. Era uma ausência preocupante, o que levava o Hokage a pensar se não seria uma boa ideia solicitar aos conselheiros que uma missão de busca por Sasuke fosse feita.
Estava contemplando as enormes janelas de vidro atrás de sua escrivaninha quando concluiu que estava sendo paranoico. Onde já se viu pensar que Sasuke estava em perigo? Sasuke Uchiha fora um dos principais responsáveis pela nova paz que a Vila da Folha agora tinha, e não ia ser a busca por uma criatura mágica que o poria em perigo, seria? Ele devia estar bem. Talvez o outro extremo da Vila da Folha fosse mais distante do que Naruto supunha, o que justificava a demora.
Ainda estava olhando para a escrivaninha quando percebeu um detalhe sobre ela que não devia estar ali. Aproximou-se do móvel para ter certeza, porque se fosse mesmo o que ele estava pensando que era...
Era uma kunai.
Nada mais natural que houvesse uma kunai na sala de um ninja, principalmente na sala do principal ninja da Vila da Folha. O estranho a respeito daquela kunai, no entanto, era o fato de que ela estava cravada na mesa como se tivesse sido lançada. A julgar pelo ângulo que formava e pelo furo que fora aberto no vidro da janela, por onde ela passou, era possível supor que quem quer que tivesse lançado aquela faca tinha sérias intenções de acertar seu coração, missão que seria muito bem concluída se Naruto estivesse sentado em sua cadeira no momento do ataque.
Alguém tentara matá-lo e não se dera o trabalho de verificar se ele estava na sala. Para ser tão tolo a esse ponto, só podia ser um ninja amador, alguém que merecia ser punido com urgência.
Naruto retirou a longa capa que usara para a reunião, depositou seus papeis em cima da mesa, arrancou a kunai da mesa e dirigiu-se até a janela. Empurrou um dos enormes vidros para frente e arrastou-o para o lado, abrindo uma passagem. Claro que poderia abrir a porta, descer as escadas e seguir pelas ruas como um cidadão normal, mas ele não queria levantar suspeitas. Ninjas da Anbu certamente ficariam em alerta caso Naruto saísse para uma caçada diante dos seus olhos, e não era esse o tipo de atenção que ele queria chamar. Por isso, saltou pela janela, pousou com alguma dificuldade no telhado em frente, que era muitos metros abaixo do nível da sala, deu um impulso para frente e seguiu reto na direção de onde ele imaginava que viera a kunai.
Havia uma torre grande de observação, há muito abandonada, na direção que Naruto seguia, mas ficava um tanto longe. Aquela torre tornou-se desnecessária quando se percebeu que a observação feita lá de cima chamava a atenção dos inimigos e não era nem um pouco eficaz para a sua finalidade. Por isso, foram criadas várias equipes ninjas que faziam a observação em torno do terreno da Vila da Folha como cidadãos comuns, andando de um lado para o outro, mas atentos como linces ao menor sinal de que havia algo de errado. A torre, nesse momento, tornou-se parte de um museu, e só era acessada por quem tinha a devida permissão.
Mas Naruto era o Hokage, e ele duvidava de que precisasse de uma permissão para ir a qualquer lugar que quisesse na Vila que, por direito, era sua.
Saltava telhados e desviava-se de galhos de árvores com a discrição e um verdadeiro ninja. Vez e outra, encontrava alguma criança escondida em meio aos obstáculos, geralmente aquelas que brincavam de esconde-esconde. Com um indicador nos lábios, pedia que elas não fizessem barulho e não fizessem alarde. As crianças ficavam excitadas diante da hipótese de ajudar o Hokage, mesmo que com seus silêncios.
Naruto saltou um prédio e teve que usar um pouco de chakra para ir mais alto e alcançar o topo da construção, que era uma espécie de hotel. Quando pousou os pés na laje, desviou-se no mesmo instante da rota de uma kunai que cortou o ar com ferocidade na direção do seu corpo. Na direção do meu coração, Naruto corrigiu-se em pensamento. Olhou para trás por um segundo, verificando onde a faca fora cravada. Uma criança de olhos arregalados o observava como quem pedia ajuda atrás da árvore onde a kunai sacudia. Naruto fez um gesto de mãos e exigiu que ela fosse para longe, pois corria perigo.
- Não mencione o meu nome – lembrou. – Por favor.
Voltou-se para frente. Se outra kunai estivesse vindo na sua direção, ele teria percebido. Como não notou nenhum novo ataque, seguiu seu caminho.
Saltou um restaurante, de onde vinha um cheiro delicioso de lamen, e teve que dar um novo impulso para alcançar o prédio ao lado, que era uma escola. Já tinha avançado uns bons quilômetros, mas não estava nem na metade do caminho até a torre ainda. O sol, àquela altura, já começava a se por, e Naruto, de alguma forma, temia as vantagens que haveria para o inimigo quando as trevas tomassem conta da Vila. Começava a se arrepender de não ter chamado ninguém para acompanhá-lo. Talvez sua escapada impulsiva tivesse sido um erro.
Como todas as outras que fizera na vida um dia foram.
Quando passou metade do caminho, teve que gastar um pouco de chakra para recuperar o fôlego. O suor descia em bicas pelas suas costeletas e seu peito arfava como o de alguém que já correra muitos quilômetros mais do que podia. Mas ele não queria parar. Passaria a noite em claro atrás de alguém que queria matá-lo, mas não deixaria um assassino fugir sem ser punido.
Parou por um instante atrás de uma coluna para recuperar um pouco mais de fôlego quando seus ouvidos se incomodaram com algo. Olhou para cima a tempo de ver uma kunai descer depois de descrever uma parábola na sua direção. Estava prestes a acertá-lo no coração quando ele se desviou e a kunai cravou-se com força no concreto da coluna, soltando poeira e outros fragmentos no ar. Fosse quem fosse a pessoa que tentava matá-lo, tinha a mira absurdamente boa e conhecia jutsus de manipulação de objetos sem vida tão bem quanto um Jounin.
Talvez fosse um Jounin, Naruto pensou enquanto tornava a percorrer seu caminho. Nada mais explicava tão boa prática com as kunais. Podia inclusive ser um ninja da Folha que tivesse se revoltado por algum motivo e quisesse se vingar matando o principal ninja da Vila. Não parecia algo realmente planejado, mas um ataque feito nas coxas, com pressa. De qualquer forma, uma mira como aquela parecia tão excelente que poderia vir inclusive do próprio Sasuke.
Será que ele foi possuído por algum agouro e agora está tentando me matar?
Naruto sacudiu a cabeça, percebendo, novamente, o quanto paranoico estava sendo. Sasuke estava em missão e era bom demais com suas artes ninjas para se deixar levar por um truque tão barato quanto um genjutsu.
Uma nova kunai ameaçou acertá-lo no coração quando Naruto já estava a poucos quilômetros do seu destino final. Isso o enfureceu por uma série de motivos, que iam desde a ousadia de um inimigo de não sair do seu esconderijo, mesmo quando o seu oponente estava indo na sua direção, quanto pelo simples fato de ele estar subestimando o poder do Hokage. Claro, para atacar com tanta certeza e ainda se achar no direito de aguardar que ele, Naruto, chegasse ao lugar da luta, sem nem mesmo diminuir ele próprio a distância entre os dois, só podia ser alguém tremendamente canalha. Não era um amador, mas um ninja auspicioso.
Tantos pensamentos não demoraram a aumentar a ira dentro de Naruto. Enquanto corria, uma aura avermelhada começou a ganhar cor ao seu redor e a lembrança de caudas – cinco – surgiram às suas costas. Seus olhos se transformaram em um risco rodeado por um círculo vermelho-sangue. Suas maçãs do rosto foram tomadas por marcas que pareciam as mesmas de um felino. Suas presas ganharam tamanho e força.
Uma pisada de Naruto não era mais uma simples pisada, pois tinha o mesmo efeito de um trator jogado dos céus, deixando buracos por onde passava. Naruto encurvou-se para frente e começou a avançar de gatinhas, escalando muros como um cachorro selvagem e lançando-se para o alto da mesma forma.
Chegou ao perímetro da torre de observação e escalou os seus quase quinze andares com as unhas que ganhara. Dava impulsos para o alto e destruía tijolos vermelhos, lançando os escombros ao acaso. Rugia como uma fera, e em nenhum momento fechou os olhos. Visava o topo da torre e pensava em alcançá-la como se sua vida dependesse disso.
Quando se agarrou às cercas da torre, usou os braços como alavanca e lançou-se, depois de um salto mortal, nos espaço onde antes o ninja observador ficava. Sua aura estava quente como brasa e seu olhar, assassino como o de um tigre.
Foi recebido por uma kunai que nunca chegou a acertá-lo, mas que o teria atingido no coração, se ele não tivesse se desviado. Quando reuniu um pouco de raciocínio e decidiu que o melhor era dar uma olhada ao redor, sua aura se abrandou, mas as marcas no rosto e a lembrança das caudas continuaram lá.
Havia um animal sentado a um canto no chão de tábua de madeira da torre. Era uma raposa grande, de pelos felpudos e olhos tão pequenos que pareciam riscos. Era alaranjada e, apesar da expressão jovial que carregava no rosto e de ser uma criatura bastante bela, seu tamanho e o conhecimento que Naruto tinha de raposas como aquela não o deixaram se enganar: aquele era um animal perigoso.
Aliás, era a mesma criatura mágica que Sasuke estava procurando nesse exato momento.
Como a raposa não se moveu em nenhum instante, Naruto teve oportunidade de observá-la por mais tempo. Durante essa observação, foi com algum horror que constatou que o animal ostentava uma fita vermelha no pescoço, tão grande quanto um laço de presente. Aquilo não fazia sentido. Por que um animal como aquele estaria ali?
Naruto esquivou-se para o lado num salto e pousou arrancando tábuas pelo chão quando notou a presença de alguém surgindo pela sua esquerda. Armou as garras, mostrou bem suas presas e contemplou um Sasuke Uchiha surgir das sombras carregando dois espetos grandes do que pareciam bolinhos de arroz, que ele pousou com cuidado sobre uma bandeja na cerca, e uma expressão sorridente no rosto que de forma alguma devia estar ali em um momento como aquele.
Sasuke só podia estar amaldiçoado. Só isso explicava aquele comportamento insano.
- Feliz dia dos namorados, Naruto – foram as palavras que romperam pela boca do ninja.
Naruto ergueu-se numa posição ereta e arregalou os olhos. O espírito da Raposa de Nove Caudas deixou seu corpo com a mesma rapidez com que o tomara. Desviou os olhos do rosto belo e feliz de Sasuke, que o fitava, e virou-se para a raposa mágica no canto. O animal parecia sorrir. Quando se virou para frente novamente, quase deu um salto para trás ao perceber o rosto de Sasuke frente a frente com o seu a não mais do que um palmo de distância.
- O que significa tudo isso? – Naruto perguntou num sussurro.
- Bem, a raposa é um presente para o dia dos namorados – disse Sasuke com seriedade. – Como sei que você gosta bastante dessa espécie de animal, achei que seria uma boa presenteá-lo com ela. Por isso solicitei essa missão um tanto “absurda”.
- Dia dos namorados...?
- E se você está se perguntando o porquê de eu ter tentado acertar seu coração várias vezes enquanto você vinha até aqui, bem, isso foi só uma piada. Uma metáfora, para ser mais preciso. Como você roubou meu coração, e não deve ter a mínima ideia de como é viver sem ele, tentei fazer com que você sentisse o que eu sinto quando estamos longe. Sinto-me ameaçado e vazio, porque você detém o meu coração, e estar ao seu lado é como reavê-lo, o que faz com que eu me sinta completo.
Naruto engoliu em seco.
- Essa é a sua forma de dizer que me ama? – disse, por fim.
- Sim.
- Você poderia ter me matado.
- Eu duvido. Você é o Hokage disso tudo e jamais se deixaria acertar por uma simples kunai.
Naruto encurvou-se para frente e beijou ternamente os lábios de Sasuke. Sentiu arrepios percorrerem todo o corpo e as mãos frias do homem que amava pousarem suavemente em cada uma de suas faces. Suas línguas se massagearam lentamente e seus corpos se aproximaram de forma mais intensa. Naruto sentiu a ereção de Sasuke na própria ereção e decidiu que aquela era a hora de finalizar o beijo.
- Você sabia que poderia simplesmente chegar em casa com essa raposa, entregá-la a mim e dizer que me amava, não sabia? – perguntou depois de um suspiro, os braços repousados nos ombros de Sasuke enquanto esse mantinha as mãos pousadas na sua cintura.
- Claro que sabia, mas isso não tem a menor graça.
Naruto riu e beijou os lábios de Sasuke novamente, dessa vez mais rápido.
- Feliz dia dos namorados, Sasuke.
- Feliz dia dos namorados, Naruto.
Deram-se as mãos e se dirigiram até o quarto do observador, que tinha a entrada entre um balcão e uma parede na torre de observação. Bateram a porta e só então se sentiram mais à vontade.
Além do mais, o que estavam prestes a fazer não podia ser visto por uma raposa mágica filhote como a que Naruto acabara de ganhar de presente.
Fale com o autor