Right Here

1 Eu Estarei Bem Aqui


Notas iniciais
Eu sei que estou mega atrasada com minha long e sorry àqueles que a acompanham. É que ultimamente tá meio tenso. Faculdade. -_- Estou há dias querendo escrever algo com essa música que acho extremamente linda e que, embora seja de uma banda cristã, combina perfeitamente com LuNa. :3 Então ontem tive um surto de romantismo e ela finalmente surgiu!

Um arco-íris brilhante me chamava à atenção no horizonte. As gotas de chuva caiam calmas, sem pressa, formando pequenas partículas de água sobre as folhas amareladas que o outono trazia junto do Sol ameno. Eu caminhava entre a grama que fora molhada pelo orvalho matutino e pela garoa fina que caiu sobre a ilha por toda a noite e continuava a precipitar. Era um dia tranquilo, com um ar inspirador. Eu tinha vontade de sorrir por qualquer motivo simplório, até mesmo porque do ar fresco que eu respirava.

Além de todo o ambiente propício para uma bela caminhada à luz do Sol recém-nascido, aquele também era um dia especial. Um dia que marcava uma das datas mais importantes da minha vida e que com certeza contribuiu para que eu fosse a mulher tão satisfatoriamente feliz que eu era.

Aquele dia marcava o meu 30º aniversário de casamento.

Trinta anos... Trinta anos que desconheço o que é ser infeliz.

Não é para qualquer um, principalmente quando seu casamento surgiu em meio a um bando pirata exótico e com o marido mais problemático que você poderia desejar. O mais teimoso, mais bobo, idiota, inocente, irritante e o mais encrenqueiro. Pensando bem... O que eu posso fazer se, além disso, ele também é o mais alegre, gentil, carismático, afetuoso, amável e apaixonante?

Ora... Não me chame de maluca por estar contradizendo a mim mesma. Quando se trata de um homem como o meu marido, é difícil não se contradizer. Considerando que nossa própria relação é a mais contraditória de que você já ouviu falar.

Algum canto de passarinho fez com que eu me virasse em direção ao som que anunciava um dia alegre.

― Luffy... ― Minhas lágrimas caiam sem eu se quer controlá-las. ― Me ajude...

Sinto o surrado chapéu de palha ser colocado sobre minha cabeça e seu dono caminhar à frente.

― É pra já!!!

(...)

― Nami!!! Você é minha nakama!!!

Um sorriso surgiu por conta própria em meus lábios. Já tinha parado de caminhar e nem havia percebido. Eu encarava o ninho de rouxinóis em uma árvore próxima.

Opressão, medo e dor eram coisas cotidianas na minha vida naquela época. Todos aqueles anos já havia feito com que eu simplesmente perdesse a esperança de que qualquer pessoa poderia me ajudar. Fizeram com que eu me tornasse fria e falsa com todos à minha volta. Perdi a conta de quantas vezes minhas lágrimas secaram e no final de tudo, ele estava ali. O tempo todo, vendo cada lágrima que eu derramava pelas mentiras em que acreditei. E mesmo depois de tê-lo traído, de tê-lo mandado embora da minha vida, fora ele quem nunca mais permitiu que mentissem para mim. Fora ele quem me libertou.

Posso ver cada lágrima que você chorou
Como um oceano em seus olhos
Toda dor e as cicatrizes te deixaram fria

Posso ver todos os medos que você enfrenta
Em meio a esta tempestade que nunca vai embora
Não acredite em todas as mentiras que lhe disseram.

A chuva começava a engrossar, embora ainda não passasse de uma garoa tranquila. Apenas apreciava tudo o que me cercava.

O sentimento que me tomava naquele momento era a pura e simples tristeza. Não achei que um dia eu voltasse a me sentir daquela forma. Tudo o que eu podia fazer era chorar, enquanto eles tentavam me consolar de alguma forma. Eu estava tendo uma semana realmente boa, quando a notícia que a interrompeu chegou. A carta que Nojiko me mandou não poderia ter sido mais arrasadora. Havia perdido o mais próximo de pai que eu tive.

Gen-san falecera no início daquela semana por conta de uma pneumonia grave.

Estava sem chão, sem céu, parecia que o mundo inteiro havia caído sobre mim assim que li aquela frase. Gen-san se fora e eu nem tive oportunidade de me despedir. Não pude nem ao menos me preparar.

As lágrimas que corriam sobre meu rosto eram constantes e abundantes. O bando inteiro estava ali comigo e confesso que se não fosse por eles, não sei como eu estaria naquele instante. Mesmo que permanecessem apenas em silêncio, sentados na grama do convés ao meu lado, só em ter a presença de cada um deles por perto, eu me sentia um pouco melhor. Ainda assim, completamente arrasada.

Minha cabeça estava baixa e minha vista embaçada por conta das lágrimas e, por isso, só percebi o abraço quando dois braços firmes me envolveram e me apertaram de leve. Automaticamente retribuí o gesto, escondendo meu rosto no ombro dele.

― Eu... Eu o perdi... ― O choro engasgava minhas palavras. ― Eu o perdi, Luffy...

― Uma vez Jimbei me disse uma coisa... ― A voz dele era suave, como dificilmente podia-se ouvir vinda de nosso capitão. ― Não pense no que você perdeu... Pense no que ainda tem.

― Nós ainda estamos aqui, Nami. ― Chopper completara, também me consolando. O que fez com que eu apertasse ainda mais os braços que me acolhiam e então um sussurro gentil e audível apenas a mim surgiu.

― Eu ainda estou aqui.

Estarei bem aqui, para te segurar quando o céu cair
Serei sempre aquele que se porá em teu lugar
Quando a chuva cair, eu não te deixarei
Estarei bem aqui.

O tempo começava a esfriar e então gargalhadas altas me chamaram a atenção. Olhei para o lado e vi um casal jovem rindo de algo que parecia realmente engraçado, sem se preocuparem com o tempo que mudava aos poucos.

Quando eu era jovem também não me importava com isso. Hoje em dia, no entanto, já estou aqui começando a sentir meus músculos se enrijecerem por conta da brisa gélida que soprava. Contudo, minha sensibilidade ao clima continuava a mesma e logo percebi que dali a pouco tempo uma chuva realmente forte iria cair.

Não que isso me assustasse ou me alarmasse demais. Já enfrentei muitas tempestades navegando o navio do Rei dos Piratas. Assim como ele me ajudou a enfrentar muitas.

Inclusive pessoais.

― Por que diabos eu me importo com isso?! Por que estou assim por alguém que eu conheço a menos de seis meses?! ― Oh, sim! Eu estava com raiva. Por quê? Porque eu me apaixonei por um idiota. Algum problema com isso?

― Hum... Porquê você gosta dele? ― Ora! E ele ainda queria me lembrar disso?

― Não é óbvio?! É claro que é por isso, seu idiota! Não precisa esfregar na minha cara. ― Ralhei extremamente irritada. Por que mesmo eu estava conversando sobre isso com meu antigo capitão? Oh, lembrei. É porque ele foi o primeiro que encontrei na minha frente.

Ele riu, dando de ombros. O que definitivamente me deixou com mais raiva. Bebi o máximo de sakê que o fôlego me permitiu e voltei a encher a caneca.

― Eu não to esfregando nada na sua cara. Só respondi sua pergunta. ― Fez bico como se estivesse emburrado.

Eu que havia sido traída por meu maldito namorado ― no momento ex-namorado, só pra constatar ― e ele que se fazia de emburrado?!

― Cale a boca! ― Ordenei, agora prestes a voar no pescoço daquele borrachudo bobalhão. Suspirei frustrada. ― Eu queria que fosse a Robin na minha frente agora. ― Lamentei deitando minha cabeça contra a mesa amadeirada do bar.

― Ela está à três quarteirões daqui, caso queira saber. Mas isso me magoou.

Ora... Esse paspalho...

― Você não está ajudando em nada, sabia? Só está aí falando que avisou que não era pra ir na dele e que você sabia que ele era um idiota desde o início.

― Bem... Eu disse tudo aquilo porque estava com ciúmes, então... ― Ele deu de ombros, porém aquela frase me fez levantar a cabeça novamente, o encarando.

Não me julguem. Já fazia cerca de três anos que nos “aposentamos" ― sim, entres aspas, porque um bom pirata nunca se aposenta de verdade, menos ainda um tão problemático quanto o rei deles. E pouco antes disso acontecer, fui surpreendida com o fato do meu capitão bobalhão e infantil ― tá, hoje em dia nem tanto assim. A idade faz coisas que fogem à nossa imaginação, por mais fértil que ela seja ― estar apaixonado por mim. Fiquei completamente confusa na época, mas então achei melhor deixar aquilo de lado. Concluímos que o melhor era continuarmos com o relacionamento que sempre tivemos: bons e velhos companheiros ― bem... Ao menos foi a conclusão a que eu cheguei....

Enfim, o fato é que aquele tema nunca mais esteve no meio de nossas conversas. Até àquele momento.

― Hum... ― Fiquei sem palavras, confesso. Contudo, logo me recuperei e voltei ao meu estado catastrófico de raiva, frustração e depressão pós-traição. ― Viu só?! Essa conversa não está ajudando em nada. Só me deixando com mais raiva. Dele e agora de você. ― O olhei de cara feia.

― E o que você quer que eu diga, Nami? ― Questionou de forma tranquila. ― Que o que ele fez foi algo horrível e que eu acho repugnante? Que ele foi um grande idiota por ter feito isso com você? Que foi mais idiota ainda porque quem saiu perdendo dessa história foi ele mesmo? Que não vale à pena você sofrer por um cara como ele? Bem, se você quiser eu posso dizer tudo isso. Mas me diga uma coisa, isso vai te ajudar de alguma forma? Vai levantar seu ânimo? Ou vai fazer você ficar com mais raiva ainda dele e encher a cara? ― Ele apoiou a cabeça sobre a mão direita. Esta, por sua vez, estava apoiada sobre a mesa. ― Não acho que isso vá ser de grande ajuda. ― Sorriu de forma ainda tranquila, me encarando.

Permaneci encarando aquele sorriso por alguns segundos, até que percebi que toda a fúria que me consumia por dentro, dissipava-se aos poucos. Suspiro em meio a um sorriso de lado, modesto, embora sincero.

― Você tem razão. Acho que não vai adiantar muita coisa. É... ― Tomei um gole do sakê e sorri divertida. ― Até que você ficou menos idiota com os anos, capitão.

Ele riu. Aquela risada contagiante que só ele sabia dar.

― Eu não afirmaria isso com tanta certeza.

― Enfim... Acho que vou andar por aí. Reencontrar o pessoal. Afinal, já faz meses que não vejo ninguém. ― Avisei já me levantando. ― Você vem?

Ele recostou-se na cadeira e sorriu.

― Nah. Fiquei com eles a manhã inteira. ― Deu de ombros. ― E o Zoro está realmente bravo comigo. ― Fez uma careta, pensativo. Tudo o que pude fazer foi rir.

― Acho que realmente estava errada sobre os anos, agora há pouco.

Nós dois rimos juntos. Eu não ria daquela forma desde que decidi deixar o bando na ilha em que resolveram se instalar para viver com o idiota que, descobri há poucos dias, havia me traído.

Não tinha como ter dúvidas. Meu lugar era exatamente ali. Eu estava voltando para casa.

Caminhei em direção à saída do bar, sorrindo, leve como não me sentia há muito tempo, quando ouvi sua voz me chamar novamente. Olhei de volta.

Novamente ele apoiou seu queixo sobre a mão apoiada pelo cotovelo na mesa e sorriu.

― Sabe onde me encontrar, caso precise.

Mostrar-te-ei o caminho de volta para casa
Nunca te deixarei sozinha
Permanecerei até amanhecer

Te mostrarei como viver de novo
E curarei tudo que está quebrado por dentro
Deixe-me te amar, quando você vier despedaçada.

Depois de caminhar mais um pouco, resolvi me sentar em um dos banquinhos da praça. Passei a observar melhor as outras pessoas que transitavam pelos corredores cimentados ou sentadas, como eu, aproveitado o amanhecer. O frio começava a me incomodar. Sabia que não deveria permanecer ali por muito tempo, a imunidade de pessoas velhas não era lá das melhores. Embora também não estivesse com um pingo de vontade de voltar para casa por enquanto.

Por um momento, me perdi nas ondas fracas que as gotas de chuva causavam no lago. Alguns metros adiante, enxerguei um filhote de cachorro sendo carregado pela mãe para baixo de um dos bancos, junto aos outros quatro, os quais já estavam por lá. Ele não parecia gostar, mas a mãe também não parecia se importar muito com isso.

Mães... Sempre dedicadas a protegerem seus filhotes. Sempre pensando nas consequências. E o que seria delas se não se apegassem a alguém para se fortalecerem, porque vou te dizer: Mãe sofre, viu?

Meu coração estava apertado como em muitos anos não ficava. Chopper estava dentro da sala hospitalar há mais de duas horas, com o meu filho na mesa de cirurgia.

O dia corria muito bem até que Usopp chegara avisando: Seion havia sofrido um acidente grave e estava entre a vida e a morte na UTI. Meu céu não podia ter caído mais catastroficamente. Estava sem chão, e desesperada por notícias dele.

O corredor do hospital parecia mais um velório, de tão denso que estava. O bando todo estava ali. Eu andava de um lado para o outro, agoniada, deixando a angústia tomar conta de mim. Os outros permaneciam enfileirados no corredor ou sentados nas cadeiras de espera. Todos muito próximos. Luffy estava sentado na última cadeira do corredor com seus cotovelos apoiados sobre os joelhos e a cabeça baixa, encarando o chão.

Observei-o por alguns instantes e então, percebendo que eu o encarava, ele estendeu sua mão direita, me chamando com um sorriso singelo, mas que naquele momento era tudo o que eu precisava. E foi o que fiz. Assim que me sentei ao seu lado, senti seus braços fortes me envolvendo em um abraço que era o único capaz de me tranquilizar.

Era inacreditável como até mesmo em momentos como aquele, a confiança que ele transmitia para todos nós era palpável e gigante.

Mesmo que a paz e a esperança parecessem tão distantes, ele permanecia firme, confiante, perseverante e determinado a vencer qualquer que fosse o obstáculo. E era exatamente assim que ele fazia com que eu também me sentisse.

Ele confiava em Chopper e confiava que Seion, mesmo tendo tão pouca idade, iria superar aquele momento. Ele era um Monkey. E todos ali eram parte dos Chapéus de Palha. Eu também era e iria ser tão forte quanto sempre nos esforçamos para ser.

Estarei bem aqui, para te segurar quando o céu cair
Serei sempre aquele que se porá em teu lugar
Quando a chuva cair, eu não te deixarei
Estarei bem aqui

Quando o amanhecer parecer longe de mais
Venha até minha mão
Quando esperança e paz começarem a desaparecer

Imóvel eu estarei
Bem aqui, para te segurar quando o céu cair.

Serei sempre aquele que se porá em teu lugar.

Observei por mais alguns instantes a cadela lambendo com todo o afeto seus filhotes, quando de repente senti meus braços sendo cobertos por algo quente e macio. Meu casaco estava bem ali.

― Não temos mais idade pra ficar pegando resfriados e Chopper me mataria caso isso acontecesse por descuido meu.

Sorri e então as palavras saíram da minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar nelas.

― Obrigada. ― Ele me olhou indagador, o que fez com que eu logo completasse. ― Por estar aqui.

As gotas de chuva começavam a engrossar de verdade. Ele se sentou ao meu lado e com aquele sorriso que só ele podia me dar envolveu meus ombros com o braço direito, enquanto o esquerdo abria o guarda-chuva; então disse o que sempre me dissera por 50 anos.

― Eu estive aqui por cinco décadas, estarei aqui por mais quantas a vida nos permitir.

Quando a chuva cair, eu não te deixarei
Quando a chuva cair, eu não te deixarei
Estarei bem aqui.

Notas finais
Até mais. ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!