Rieseltia
19 Capítulo 18 - O Verdadeiro Poder do Estrategista
Notas iniciais
— Lúcifer? O lendário demônio? — Os sussurros se espalharam pela sala. Não só as garotas das Guerreiras Imortais, mas Vivian e Luca também estavam completamente surpresos.
Rhonda, que estava até momentos antes com expressão de indiferença, pareceu ficar muito animada.
— Quanta gente. — Lúcifer falou com um sorriso frio, passando os olhos pela sala. — Oh, Gungnir? A quanto tempo que eu não via um de seus fragmentos. E ainda é o sétimo. Nada mal...
Lúcifer balançou a cabeça afirmativamente enquanto coçava o queixo. O sorriso frio continuava em seu rosto.
— Vamos continuar o duelo, Melanie? — Dessa vez foi a voz do Ravel que saiu. Isso pareceu tirar as demais pessoas de sua confusão.
— Ah, certo. Vamos nessa. Dê o seu melhor! — Melanie ajeitou a lança na mão e partiu para cima do garoto.
— Dar o meu melhor? Humana, você está querendo que eu destrua essa escola? — Perguntou Lúcifer com um sorriso cínico. — Contra um mero humano não preciso nem usar a minha habilidade. Mesmo que você possua uma arma sagrada.
O rosto de Melanie ficou sombrio, mas ela não falou nada. Com um movimento rápido ela deu uma investida, visando usar a lança para perfurar, mas Lúcifer desviou sem nenhuma dificuldade. Como se estivesse zombando dela, ele cruzou os braços e foi se mexendo o mínimo possível para se desviar da lança.
— Quem deu um brinquedo afiado para um humano? Tsc, tsc. Não sabem que vocês podem se machucar com isso? — Zombou Lúcifer.
Para quem estava vendo de fora, parecia que os dois estavam brincando. Na verdade, parecia um adulto brincando com uma criança desajeitada. Isso deixou todos de boca aberta. Melanie não era uma das pessoas mais fortes da facção, mas todos sabiam da sua capacidade e ninguém a subestimava.
No entanto, eles estavam vendo essa pessoa não conseguir nem sequer encostar no oponente. Isso fez com que eles sentissem um frio na espinha.
— Um passo para trás. Dois para a direita. Abaixar, mais um para a direita. — Lúcifer começou a contar os seus movimentos com um sorriso maligno.
— Dá para parar de me subestimar? — Melanie bateu o pé no chão e falou irritada, parecendo uma garota de dez anos.
— Quem está subestimando quem aqui, humana? Você acha que merece estar na minha presença só com esse poder? — Lúcifer riu, sua voz grossa ecoando pela sala.
Melanie estalou a língua e deu cerca de cinco passos para trás. Ela preparou a lança e se concentrou. Uma quantidade absurda de aura sagrada emitiu dela.
— Segure isso então! Rajada divina!
Um clarão tomou conta da sala e toda a energia que tinha sido acumulada na lança foi jogada na direção de Lúcifer. Alguns segundos se passaram até que as pessoas da sala conseguissem ver de novo. Os rostos rapidamente se voltaram para onde Ravel estava, porém não tinha nenhum sinal dele. Nem sequer uma poeira.
— Ele foi dizimado? — Uma das garotas perguntou, insegura.
Parecia que ninguém conseguiria responder, mas uma voz grossa e fria veio de trás deles, do topo da arquibancada.
— Dizimado? Aquilo não consegue nem matar um esquilo. — Todas se viraram e viram Lúcifer sentado em uma cadeira, com as pernas cruzadas e a cabeça apoiada na mão.
Luca olhou para Vivian, que também estava estupefata. Nenhum dos dois tinha visto nem ouvido Lúcifer passar por eles.
— Tsc. Ravel, por que você me pede para lutar contra alguém tão fraco? Ah, se os antigos possuidores da Gungnir vissem o que você está fazendo com essa lança... — Lúcifer zombou enquanto se levantava da cadeira. Ele caminhou lentamente para o centro da sala.
Quando passou por perto das pessoas presentes, todas se afastaram.
Melanie não sabia se ria ou chorava. Seu ataque mais forte tinha sido desviado como se não fosse nada. O que ela faria para derrotar ele?
— Habilidade com a lança, eu te daria nota sete. Sinta-se honrada, humana. — Lúcifer coçou o queixo despreocupadamente quando chegou no centro. — Habilidade com o poder divino... Acho que se eu te der dois é um exagero.
As mãos de Melanie que seguravam a lança ficaram escorregadias. Ela nunca tinha estado em uma situação semelhante.
— Vai querer continuar isso? Não me importo de te fazer companhia por mais um tempo. — Riu Lúcifer, o sorriso cínico voltando para o seu rosto.
Melanie não falou nada, apenas respirou profundamente. Em face a uma provocação assim ela geralmente ficaria revoltada, mas não podia fazer nada, pois o seu oponente era um demônio lendário.
Com um passo para frente, Melanie pegou velocidade e partiu para cima de Lúcifer sem hesitação. Sua lança fez um arco de cima para baixo, mas foi parou no meio do caminho.
Arregalando os olhos, a garota viu que Lúcifer estava segurando a lança com dois dedos. Um pouco de vapor começou a sair dos dedos dele.
— Ahh, uma lança com poder sagrado e a única coisa que você consegue fazer é me dar uma pequena ardência nos dedos. — Lúcifer balançou a cabeça enquanto sorria.
A garota tentou puxar a lança, mas ela nem se mexia. Os olhos de Lúcifer ficaram mais frios. A malícia, que tinha sumido logo após ele ter aparecido, voltou a emanar do seu corpo. Seu sorriso frio ficou ainda maior e mais frio. Ele esticou a mão esquerda, como se ela fosse uma lança.
— Vamos acabar com a brincadeira por aqui, humana. — As pernas de Melanie começaram a tremer. A pressão que emanava de Lúcifer era sufocante. Nem mesmo Rhonda e Casandra conseguiam se mover.
Conforme a mão dele ia se aproximando do pescoço dela, o resto do corpo da garota começou a tremer. Quando a unha encostou no seu pescoço, uma lágrima escorreu pelo seu olho.
— Brincadeira! — Riu Lúcifer, soltando a lança e afastando a mão do pescoço dela. Melanie caiu de joelhos no chão, respirando pesadamente. — Não estou com vontade de matar humanos hoje. E o Ravel ia ficar nervoso. Sinta-se grata a ele, humana.
Lúcifer se virou para Rhonda e o seu sorriso frio sumiu, se tornando indiferente.
— Podemos ir para algum lugar conversar sobre a aliança agora? — A voz que saiu dessa vez foi a do Ravel.
Rhonda acenou com a cabeça que sim e indicou que ele o seguisse. Ravel assinalou para Vivian e Luca e os dois se aproximaram.
A garota os guiou até uma sala cheia de móveis que pareciam ser caros. No centro dela tinha uma mesa com oito lugares. Ela se sentou em uma cadeira e Casandra se sentou ao seu lado. Com a mão, ela indicou para que os três se sentassem.
— Muito prazer, meu nome é Rhonda. — Murmurou a líder das Guerreiras Imortais.
Nenhum dos três falou nada. Para a líder estar se apresentando, é porque eles tinham chamado a sua atenção.
— Quem iria dizer que você tinha um demônio lendário no seu corpo? — Ela falou com um leve sorriso. — Isso me faz ainda mais querer fazer uma aliança com vocês.
— Fico feliz que pense assim, mas em uma aliança acho que as pessoas compartilham informações, não? — Ravel cruzou os braços e falou calmamente. — Por que não começa me dizendo o motivo de estar querendo tanto um aliado?
— Realmente, é claro que iremos trocar informações, mas isso só se você aceitar a aliança. — Ela apoiou a cabeça nas mãos e continuou com um leve sorriso.
— Nada mal, isso explica porque você é a líder de uma facção de nível alto. — Ravel sorriu. — Tudo bem, eu aceito a aliança. Agora quero as respostas para as minhas perguntas. É claro que você pode me perguntar o que quiser também.
— Desde dois anos atrás, quando as cinco pessoas mais fortes da facção sumiram, nós estamos em decadência. Precisamos de aliados fortes para poder voltarmos a posição que ocupávamos antes. Só que todas as boas facções de nível médio já estão aliadas a outras facções de nível alto. — Revelou Rhonda lentamente.
— O que você quer dizer com sumiram? — Perguntou Ravel, curioso.
— Saíram em uma missão para a escola e nunca mais voltaram...
Ravel não perguntou mais nada. Era óbvio que Rhonda não queria mais conversar sobre isso.
— Me permita fazer uma pergunta agora. Achei a sua situação atual bem curiosa. Não me parece que Lúcifer esteja controlando o seu corpo a força. Como ele se manifestou?
— Não existe só uma maneira de um demônio se manifestar. A mais comum é a que você falou. O demônio controla o corpo do portador a força. Sua alma suprime a do humano. No entanto, ele não consegue se mover facilmente e o seu poder é drasticamente reduzido.
O garoto respirou profundamente e continuou.
— Mas existem mais duas maneiras dele se manifestar. Essas duas são permanentes, não temporárias. A primeira é o demônio quebrar o selo. Ele ocupa o corpo do humano e a alma da pessoa é destruída. Ele fica com o corpo só para ele, mas isso é muito difícil de acontecer. Ele precisa de praticamente um milagre para quebrar o selo. A segunda é o portador quebrar o selo. A situação é semelhante a primeira. Se o demônio quiser ele pode destruir a alma da pessoa e ficar com o corpo para si, mas ele também pode conviver no corpo. Um corpo com duas almas, para resumir.
As demais pessoas na sala ficaram sem palavras. Era claro que o que Ravel tinha feito era a segunda opção. Mas... a maior surpresa deles era que Lúcifer não destruiu a alma dele, pelo contrário, ele decidiu conviver no mesmo corpo.
Rhonda foi sensível e não perguntou mais sobre o assunto para ele, já que o mesmo se controlou quando ela não queria falar.
— Vamos conversar sobre o que cada um quer com a aliança então? — A líder das Guerreiras Imortais sugeriu. — Pode começar. O que você deseja de nós?
Ravel parou por um momento, pensativo.
— Em primeiro lugar, a sua influência. Só de estar em uma aliança com vocês já nos dá bastante moral. Em segundo lugar, auxilio em desafios e eventos. Por último, um pedido mais pessoal: estou querendo reformar o nosso dormitório, mas precisamos de um lugar para ficar enquanto a reforma acontece. Teria a possibilidade de vocês nos alojarem aqui por um tempo?
Rhonda parou para pensar por um momento. Tirando o último, foi o que ela esperava. Mas o último pedido não era nenhum problema já que eles tinham vários quartos sobrando na mansão.
— Tudo bem, aceito as suas condições.
Ravel deu um leve sorriso.
— E o que você deseja conosco?
A garota fechou os olhos e respirou profundamente.
— Assim como vocês, quero a sua influência. Você é o melhor estrategista da escola, assim as pessoas vão pensar duas vezes antes de nos desafiarem. Quero também que você cuide das estratégias nos nossos desafios.
Ravel confirmou com a cabeça, indicando que concordava com os pedidos, mas Rhonda continuou.
— Precisamos, no entanto, que vocês fiquem mais fortes. O motivo do duelo foi para ver se você tinha o poder necessário para se segurar até conseguir mais membros. Aproveite da nossa influência e desafie quem você quiser.
— Pode deixar. Tenho algumas pessoas em mente já.
— Ótimo. Enviarei o papel com o contrato para você assinar assim que eles estiver pronto. Também preciso te informar que terá uma reunião das facções de nível alta daqui a mais de uma semana. Você precisará estar presente, pois anunciarei a nossa aliança lá. — Ravel confirmou com a cabeça e Rhonda se levantou e esticou a mão para ele. Isso fez Casandra ficar sem palavras. Era a primeira vez que ela via a amiga se esforçar para causar uma boa impressão.
Ravel segurou a mão macia dela por um instante. Quando ele foi soltá-la, no entanto, a sua mão apertou de novo.
— Você tem um poder interessante, humana. Me lembra um antigo inimigo meu. O seu também me deixa intrigado. — A voz de Lúcifer saiu pela boca do garoto, primeiro enquanto ele encarava Rhonda e depois quando ele olhou para Casandra.
— Espero que possamos nos dar bem também, Lúcifer. — Ela falou cordialmente.
— Reduza-se a sua insignificância, humana. — Riu Lúcifer. Ele não falou mais nada. A voz de Ravel saiu para completar. — Ele é sempre assim.
Rhonda só deu um sorriso e balançou a cabeça, indicando que não se importava.
No momento que os três saíram da sala, Casandra se virou para Rhonda.
— O que achou, chefe?
— Acho que tiramos na sorte grande. — Disse Rhonda, mostrando pela primeira vez um sorriso sincero.
Ravel saiu da sala junto com os companheiros e caminhou pela mansão, rumo a saída. Algumas pessoas passaram por eles, mas não sabiam como reagir. Quando estavam se aproximando da porta, Melanie passou por eles. Ela deu um sorriso inseguro para o garoto e continuou a caminhar.
Quando Ravel abriu a porta, a voz de Lúcifer saiu pela sua boca.
— O mais importante para um portador de uma arma sagrada é quanto poder você consegue retirar dela. Lembre-se disso, humana.
Melanie virou-se surpresa, mas Ravel já tinha caminhado para fora. Ela deu um sorriso grato para ele e também continuou caminhando.
Fale com o autor