Ride

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Hope you like it!

RIDE

— Watching every motion in this foolish lover's game haunted by the notion somewhere there's a love in flame – o final da música se aproximava enquanto os casais continuavam a dançar no meio do salão — Turning and returning to some secret place inside watching in slow motion as you turn my way and say.

Os homens que não estavam dançando esperavam que eu terminasse a musica para que pudessem ter a chance de me convidar para subir as escadas. Não estou exaltando a mim mesmas, era apenas meu trabalho, dar prazer a quem pagasse por isso, cantar era só o que eu gostava de fazer. Entre tantos olhares um em especial me chamava atenção por já ser conhecido.

— Take my breath away – o par de olhos continuava fixo em mim, todo movimento que eu fazia era acompanhado – My love.

...

Caí exausta ao seu lado na cama de lençóis vermelhos. Ele levantou seu tronco até apoiar suas costas a cabeceira da cama, pegou um cigarro da mesa que estava ao lado, acendeu com seu isqueiro preto e calmamente deu seu primeiro trago. Eu apenas observava, esperando ele iniciar um dialogo como fizera todas as outras vezes em que vinha aqui ao meu encintro. Quanto tempo exatamente ele tem vindo não lembro, mas foi tempo suficiente para que eu aprendesse algumas de suas manias, como o cigarro após o sexo, o levantar de sobrancelhas quando estava divagando e o sorriso que sempre dava quando me fazia uma promessa.

— Cantou muito bem hoje – falou sem olhar para mim.

— Obrigada – agradeci com um sorriso – foi bom o bastante para você me levar para gravar uma fita?

— Nós já conversamos sobre isso – ele virou para mim – não posso levar você. Como iria explicar para minha esposa e filhos? Você se veste, fala e age como uma puta, não tem como disfarçar.

— Eu sei – sentei junto a ele – mas você sabe que é meu sonho. Não quero viver cantando em um bordel para sempre, quero ser uma cantora famosa.

— Um dia – ele passou o braço sobre meus ombros – eu prometo.

Novamente aquele sorriso que no começo me dava esperança, mas agora me incomodava de uma forma que não conseguia explicar. Depois de varias promessas percebi que aquilo não me levaria a lugar algum. Apenas concordei e deixei que ele me abraçasse.

— Vai passar a noite? – perguntei.

— Sim – ele deitou novamente – está tarde para voltar.

Deitei também e me deixei levar pelo cansaço da noite.

...

O sol já não era visível aquela hora, algumas estrelas se faziam presente juntas a uma meia lua no céu. O som da noite, formado por insetos e pequenos animais, se misturava à nossas risadas. Juntos, meu pai e eu, bebíamos alegremente enquanto ele contava mais uma história de seus tempos de glória. Era quase um ritual nosso, todas as sextas sentávamos na varanda e conversávamos sobre os mais banais assuntos, acompanhados sempre de alguma bebida, até que ele sempre puxava o assunto para uma época em que ele dizia reinar.

— Mas isso aconteceu de verdade – tossiu – eu ganhei e perdi tudo na mesma noite.

— Quer dizer que era para sermos ricos, mas você perdeu tudo em uma aposta?

— Tudo não – tossiu novamente, mas desta vez mais forte – meu velho impala foi o que restou.

— Engraçado – ri – da ultima vez você falou que tinha comprado o carro por uma pechincha de um estrangeiro.

— Esse foi outro carro – tossiu forte e tomou um gole de sua bebida – um opala. Deve ter confundido os nomes.

— Talvez.

Conversamos muito mais naquela noite do que nas outras. Entre uma palavra e outra ele tossia forte e bebia de seu copo, que parecia nunca ficar vazio. Quando achamos que estava tarde o suficiente, levantamos para entrar. Andei na frente e segui para a cozinha, colocando os copos na pia e guardando o que restou da bebida em um armário. Passei no quarto do meu pai para lhe desejar boa noite, porém ele não estava lá. Procurei em todos os cômodos inutilmente, ele não estava em nenhum. Já preocupada, abri a porta da frente para ver se ele continuava na varanda. De fato ele continuava, pelo menos seu corpo sim.

...

O sol que adentrava pela janela me obrigou a abrir os olhos, despertando do sonho, ou melhor, lembrança do pior momento de minha vida. Lembrança do que me obrigou a entrar nessa vida que levava.

— Sonho ruim?

Segui a voz até encontrar seu dono em pé ao lado da cama. Já propriamente vestido ele me encarava sem qualquer expressão facial.

— Mais ou menos – respondi sentando e levando o cobertor até a altura dos ombros.

— Tenho que ir – amarrava a gravata enquanto falava – seu dinheiro está em cima da mesa.

Não disse nada. Assisti ele terminar de dar o nó para então sentar em uma cadeira próxima e calçar seus sapatos. Sem também dizer uma palavra ele foi até a porta.

— Você nunca irá me levar – murmurei – não é?

Ele parou ainda com a mão na maçaneta e virou para mim. Não soube distinguir o sentimento naquele olhar, mas com certeza tinha pena e tristeza ali.

— Sabe que não posso – abriu a porta – se você pudesse ir por conta própria seria mais fácil.

Dizendo isso ele saiu. Ouvi seus passos cada vez mais distantes e apenas uma coisa estava em minha cabeça naquele momento. Eu simplesmente teria que ir até ele.

...

Terminava de colocar minhas poucas coisas no porta malas do meu velho impala. Estava decidido, eu iria correr atrás do meu sonho e assim como meu pai fez uma vez, eu iria ter um reinado sobre o qual pudesse me orgulhar. Ser prostituta com toda certeza não estava incluso nos meus planos, pelo menos não mais.

— Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? – minha melhor amiga desde que entrei ali perguntou – ir atrás desse homem que nem conhece de verdade? Ele pode nem ser um produtor como disse.

— Eu sei – fechei o porta malas – mas eu só vou saber se tentar.

— Você e suas loucuras – suspirou e tirou do bolso do vestido um pequeno envelope – sei que você tem seu próprio e que isso não é muito, mas o dinheiro vai te ajudar muito nisso. Quero que você leve isso que juntei.

— Não posso aceitar, é seu.

— Qual é? Não é como se eu fosse fazer bom uso de qualquer forma – ela sorriu – além do mais você pode me pagar quando estiver famosa.

Aceitei seu envelope e a abracei.

— Sabe mesmo onde ele trabalha? – perguntou depois de nos separarmos.

— Sei, andei vasculhando as coisas dele em uma noite e descobri o endereço.

— Boa sorte então – me abraçou novamente – estarei atenta ao rádio para quando escutar sua voz.

— Até mais.

Entrei no carro e sem pensar duas vezes deixei tudo para trás. Olhando apenas para frente segui a estrada rumo ao meu novo futuro.

...

A cidade grande era realmente tudo que eu esperava. Estava totalmente hipnotizada pelas construções que estavam ao redor, mesmo que já fosse tarde. No relógio de uma igreja marcava meia-noite e mesmo assim as ruas não estavam desertas, pelo contrário. Pessoas iam e vinham em todas as direções.

Estacionei em uma rua e desci do carro. Encontrava-me em frente a uma pousada, e era ali onde pretendia passar a noite. Entrei e de imediato uma senhora me abordou alegando ser a dona do estabelecimento. Ao informar o que procurava fui encaminhada para um quarto de tamanho perfeito para apenas uma pessoa. Já cansada, apenas deitei na cama e me deixei levar por pensamentos. Estava feliz por realmente estar ali, tão perto de cumprir meu objetivo. Apenas alguns sentimentos me assombravam. Será se ele ficaria feliz em me ver ali? E se eu não fosse boa o bastante? E se o público não gostasse de mim?

...

A ansiedade me fez despertar antes do previsto, de modo que muito cedo eu já estava propriamente vestida, apenas a espera da hora certa para sair. Andando pela pousada encontrei a mesma senhora de antes.

— Com licença – chamei sua atenção e lhe mostrei um papel– poderia me dizer onde fica esse endereço?

Depois de verificar o que estava escrito ela me deu todas as informações de que precisava.

Feliz por saber que existia aquele endereço e que realmente era uma gravadora, não consegui me conter e dirigi o mais rápido que pude até lá, encontrando o local ainda fechado. Sem desanimar fiquei esperando por horas até que um rosto conhecido chamou minha atenção. Senti meu coração explodir de tanta ansiedade e corri ao seu encontro.

— Eu consegui – falei perto dele – eu vim até aqui por conta própria.

Ele me encarou e naquele momento, pela ira estampada em seu rosto, percebi que meu sonho tinha sido atirado aos leões.

— O que está fazendo aqui? – ralhou.

— Você disse que se eu conseguisse vir por conta própria seria mais fácil, então aqui estou eu.

— Quão idiota você pode ser? – ele riu em deboche – Só falei aquilo por que não achei que você seria estupida o suficiente para vir até aqui.

Senti minha face molhada por lagrimas enquanto minha cabeça parecia girar.

— Mas já que estou aqui eu posso ter uma chance, não é?

— Lógico que não, nenhuma gravadora contrataria uma puta. Ainda mais uma como você que não leva jeito.

— Mas você disse que eu tinha talento – minha voz falhou.

— Eu menti – ele disse – agora se me der licença tenho verdadeiros talentos para mostrar ao mundo.

Virando as costas para mim ele entrou no edifício. Eu apenas fiquei parada com lagrimas nos olhos, vendo ele se afastar e pensando como eu pude ser tão burra. Lógico que isso iria acontecer, afinal eu era só uma garota de programa, que futuro glorioso eu poderia ter com esse passado?

Depois de um tempo sem reação voltei para o carro e dirigi rápido. Sem se importar em voltar à pousada para buscar o que eu tinha deixado, apenas queria voltar para o lugar de onde tinha saído.

Além do som dos pássaros cantando ao longo da estrada, o único som que se ouvia era o da minha voz, que mesmo embargada pelo choro e dificultada pelo vento ainda cantarolava uma velha musica do blues. Minha musica favorita, a que meu pai costumava cantar pra mim antes de dormir. Naquele momento eu só queria estar com ele e, não sei se pelas lagrimas dificultando minha visão ou a viajem que minha mente estava fazendo ao passado, mas um caminhão em alta velocidade atendeu ao meu desejo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!