Riddare Drakar
9 Capítulo 8 - Seu Nome é... Aoda
Notas iniciais
Capítulo 8 – Seu Nome é... Aoda
Sasuke

“-Você tá achando que isso aqui é brincadeira?!”
Estremeci.
“-Eu não sei o que está acontecendo com você, de verdade! Mas, você precisa entender que a guerra dos nossos pais vai se tornar a nossa! Decida logo de que lado você está.”
Senti um arrepio subir pela minha espinha ao lembrar-me da cena.
Olho ao redor e contemplo a vida da floresta, os últimos resquícios do longo inverno se foram, respiro profundamente a fim de revigorar meu espírito enquanto aproveito a doce sensação de ser abraçado pela natureza.
Acho que posso dizer que vaguear por entre todas aquelas árvores estava se tornando o meu mais novo passa-tempo.
Após o treinamento, sai da cidade para espairecer, não teria que me preocupar com a ferraria hoje, e nem nos próximos dias aparentemente, Kakashi disse que com o treinamento ele precisaria se dedicar mais nos métodos de ensino que ele iria aplicar conosco, acho que posso resumir isso em encontrar outras maneiras brutais para sermos suas cobaias. Claro, também poderia dizer que essa era só mais uma desculpa para que ele pudesse negligenciar o trabalho e ficar lendo aquele velho livro com imagens indecentes, Karleks Paradis eu acho, algo como “Paraíso do Amor” de um escritor antigo. Mas, devo admitir que realmente tenho o visto na biblioteca da cidade carregando livros e pergaminhos de um lado para o outro, e se ele estava lá, por livre e espontânea vontade, então aquele velho grisalho pretendia realmente empenhar-se nisso.
Encarei suavemente as folhas das copas das árvores, o verde intenso fez com que a lembrança dos olhos da Haruno surgisse novamente. Suspirei. Os rebentos furiosos da garota persistiam em aparecer no vislumbre da minha mente de tempos em tempos, e as lembranças da bronca que ela me deu vinham junto. Mesmo quando caiu por cima de mim, a determinação estampada em suas íris era inebriante, cheguei a ficar atônito no primeiro momento, mais do que costumeiramente já fico.
Claro, não posso negar que fiquei surpreso com a reação de Sakura, não esperava que ela ficasse tão furiosa, mas não tenho o direito de tirar a razão dela, eu estava tão distraído pensando no Dragão que me esqueci do fato que o que estávamos fazendo ali não era uma brincadeira de criança, poderia ter custado a minha vida e a vida daqueles que estavam comigo.
Dessa vez Fugaku conseguiu provar um ponto a meu respeito.
Ri sem humor, eles devem estar quase chegando ao Ninho considerando a hora que partiram ontem. Dessa vez não quis me ater aos detalhes da expedição, não estava com cabeça para articular uma estratégia contra os dragões sabendo que essa era só mais uma missão inútil.
Afinal, atacar um lugar repleto de repteis cuspidores de fogo é uma ideia, para dizer no mínimo, suicida. Já perdemos muitos de nossos homens em expedições como essa, homens que não lhes restaram nem mesmo uma carcaça para ser entregue ao mar. Mas, infelizmente, não há o que fazer. Enquanto respirar, meu pai vai tentar caçá-los e exterminá-los, não importa as consequências ou o preço que for necessário pagar.
“Eu já paguei caro demais.” É o que ele costuma dizer todas as vezes que alguém retruca sua estratégia ou discorda das expedições. Não deixa de ser verdade, mas o preço também pode aumentar... E ser muito pior.
Voltei meus pensamentos para o presente, ajustando o pequeno cesto que estava carregando em minhas costas e apressando o passo um pouco mais. Antes de vir, passei rapidamente na dispensa da cozinha comunitária e peguei alguns peixes e enguias que tinham sobrado do jantar de ontem. Garanti a Anko que traria em dobro depois para compensar, mas ela não pareceu se importar muito, nem mesmo questionou-me para saber o que eu faria com tudo aquilo, e ainda prometeu-me que não mencionaria nada a ninguém. Apesar de parecer estranho, não me atentei muito nesse detalhe, ela sempre foi muito legal e compreensiva com todos, e não se intrometia na maioria das vezes no que não lhe dizia respeito, a mulher de meia idade tinha um coração muito bom, acredito que se tem algo que ela ama mais do que comida, certamente é ajudar e isso sempre cativou a todos.
Faltava pouco agora, logo meus pés alcançariam a Clareira do Rochedo e, inconscientemente ou não, meu intimo já se ansiava ao pensar que encontraria o dragão negro novamente, por mais incrível e surreal que isso possa parecer, estar ao lado daquela fera que é considerada a encarnação da própria morte fazia-me sentir...
Bem.
Era a primeira vez que chegava a essa constatação, um pequeno solavanco deu indícios no meu peito e senti minhas feições relaxarem. Essa sensação era de uma dose muito melhor do que eu já experimentei em qualquer lugar dentro daquele Império.
Poder ser como eu realmente sou, sem medos ou receios. Sem máscaras ou fingimentos.
Apenas Eu.
E aquele grande dragão.
Poucas são as pessoas que conseguiam me proporcionar uma satisfação tão grande, entre elas estavam apenas meu irmão, Naruto e, até pouco tempo, Sakura... Isso, é claro, se ela algum dia voltará a falar comigo normalmente depois de hoje.
Sinto a carranca voltar quando me lembro que mostrei a ela parte da minha carcaça gelificada no encontro com Fugaku, não deveria tê-la tratado daquela maneira, sei disso, sabia que Sakura não tinha mencionado minha mãe com o intuito de me atingir ou magoar... Mas, isso já aconteceu tantas vezes... Acho que o trauma se alastrou por minhas entranhas e se enraizou de tal forma que sempre que isso acontece acaba jogando-me contra tudo e todos que possam ser uma ameaça, não importando quem seja.
No fim, não acho que ela irá esquecer tão facilmente. Anos tentando manter essa essência maldita escondida para estragar tudo em apenas dois dias.
As memórias do encontro com meu pai se sobrepuseram as outras, foi a primeira vez em muito tempo que o encarei cara-a-cara e não tive medo. Pude ver que mesmo ele estava perplexo, talvez tão surpreso com minha repentina coragem quanto eu. Depois de abandoná-lo na floresta, não trocamos outras palavras, mesmo quando os barcos finalmente zarparam do cais, rumo à um destino desconhecido. Não havia nada a ser dito, de nenhuma das partes.
A despedida com Itachi, por outro lado, causou-me certo aperto no coração, o medo dele voltar coberto por lençóis como muitos já voltaram me amedrontava... Isso se ele realmente voltasse. Não sei o que faria se algo assim chegasse a acontecer.
Ainda, antes de ir, ele me pediu para cuidar da Izumi enquanto estivesse fora, a sua preocupação e seu jeito protetor causava-me graça, ao mesmo tempo em que me preocupava. Mesmo ele, o grande guerreiro de Konoha, estava atado a um acordo de casamento que não desejava e, infelizmente, não havia muito que fazer quanto a isso. No fim, nós quatro iríamos sofrer pelo bem de todos... Menos pelo nosso próprio.
Fui tirado repentinamente dos meus pensamentos quando fui surpreendido pela voz de Sakura, a primeiro momento achei ser uma brincadeira de mau gosta da minha mente, mas o som se repetiu, virei-me e nossos olhos se encontraram, ela ainda trajava as roupas do treino de mais cedo, em uma das mãos estava o seu machado, na outra o escudo, seus cabelos estavam atados em uma trança frouxa e desalinhada, mas que caiam como cascatas por suas costas. Desviei o olhar cogitando brevemente me virar e seguir com meu caminho enquanto fingia não tê-la percebido, mas logo sua voz se fez presente ao alcance dos meus ouvidos e eu soube que jamais conseguiria ignora-la.
— Sasuke...? – Ela estava mais calma, fato. Voltei minha atenção a garota enquanto em minha mente perguntava-me o sentido dessa coincidência. Nos encontrarmos aqui mais uma vez... Seria um sinal de Odin?
Ri internamente, minhas esperanças são tristemente sonhadoras.
— Sakura, o que faz aqui?
— Eu normalmente treino em uma área aqui perto – Fez um gesto com as mãos indicando a direção por onde pretendia seguir – Mas não costumo te ver por aqui, principalmente dois dias seguidos, e ainda hoje carregando um cesto como esse – Ela cheirou mais atentamente o ar – Peixe?
— E-Eu estou fazendo um favor para Anko – Dei uma risada nervosa enquanto coçava minha nuca – A cozinha estava com falta de suprimentos então me ofereci para ir buscar alguns para ela.
— Verdade? Por que ela simplesmente não te pediu para pegar com os pescadores da minha família ou os da família de Naruto? – A garota encarava-me desconfiada, como se quisesse penetrar minha mente ao me encarar com seus olhos tão inquisitivos. A região que suas famílias vivem e regem é justamente a costeira, o que os torna responsáveis pela pesca e pelos navios. Minha desculpa parecia ridícula agora, sei bem disso, mas eu realmente não esperava encontrá-la, ou qualquer pessoa que fosse, aqui.
— Ela disse que queria tentar algumas receitas novas com peixes de água doce – Não sei como estou levando essa história tão longe, mas parece que isso a fez relaxar um pouco mais – Encontrei um rio novo por aqui enquanto explorava a floresta ontem, acabei comentando com a Anko e ela se interessou.
A menina acenou em concordância, mas seu olhar cessou por um momento, a vi fechar os olhos, como se estivesse tentando criar coragem para algo, e enfim voltou a encarar-me, porém, desta vez, pude ver uma leve coloração subir até suas bochechas, o que lhe trouxe um ar delicado e, arrisco até mesmo dizer, fofo, mas nunca ousaria declarar tal coisa diante dela em voz alta.
Mas, considerando o que havia acontecido mais cedo, meu interior não conseguia evitar de se sentir desconfortável.
— Sasuke, eu... Eu queria pedir desculpas pelo que falei ontem com você, sobre sua mãe... Admito que hoje você conseguiu me tirar do sério e não me arrependo do que disse na arena! Sinceramente, não queria ter que te encontrar tão cedo... – Senti uma fisgada no meu coração e obriguei-me a desviar o olhar para meus pés – Mas eu não conseguiria me sentir em paz se não me desculpasse sobre isso. – Finalizou num suspiro.
— Sakura, eu que deveria pedir desculpas... – Não queria encara-la, estava tão envergonhado quanto ela, mas mesmo assim, antes que pudesse perceber, já estava colocando para fora o que começava a se acumular em minha garganta – Mesmo por ontem, não devia ter te tratado tão mal, sem contar que te fiz presenciar uma discussão que não lhe dizia respeito nenhum e hoje agi como um babaca egoísta que se esqueceu de se preocupar primeiro com a segurança dos seus companheiros do que com uma curiosidade sem noção... Desculpa por ter feito isso.
Ela me olhou um pouco surpresa, acho que não esperava ouvir um pedido de desculpas, mas sei que ela ficou feliz com isso. A observo a bastante tempo para saber quando ela gosta de algo, seus lábios curvaram minimamente e seus olhos se arregalam, emitindo um brilho cativante, por fim, ela balançou a cabeça numa maneira de me dizer que estava tudo bem. Acenei igualmente e ficamos por um momento em silencio, sem realmente saber o que dizer. Finalmente, antes que ela questionasse mais alguma coisa, decidi me despedir.
—Bem, eu vou indo, mesmo que os dias estejam mais longos agora, não quero voltar tarde com os peixes para Anko. Nos vemos amanhã, Sakura.
—Certo... Até Sasuke.
Dei um sorriso fraco, balancei minha mão me despedindo e já ia virando de costas quando a ouvi me chamar mais uma vez.
—Sasuke, antes de ir eu... – Ela não conseguiu terminar, por estar distraída acabou tropeçando em uma raiz que estava encoberta pela vegetação. Mesmo tentando me apressar para ampará-la da queda eminente, nossos corpos se chocaram e ambos fomos ao chão, o impacto do escudo contra o meu peito foi dolorido, mas ao menos o cesto ajudou a amortecer a queda.
— Sakura! Você está bem?
— Arg. Acho que sim – Ela largou o machado para tentar levantar mais facilmente, porém, assim que começou a tentar se erguer ambos percebemos que meus braços ainda estavam firmemente enlaçados em sua cintura. Senti os pelos de sua pele arrepiarem, em contrapartida, meus músculos se enrijeceram pelo nervosismo que ameaçava tomar o controle do meu corpo.
— Hum acho que anda caindo muito sobre mim, senhorita Haruno – Disse em descontração para tentar espantar os sentimentos de adolescente para longe, mas algo que realmente não esperava era vê-la ficar completamente vermelha com o comentário.
— Hunf Uchihas são sempre convencidos? Achei que você era uma exceção – Bufou inflando levemente as bochechas enquanto desviava o olhar.
— Está no sangue – Respondi, e mesmo com o rosto virado, pude ver um início de um sorriso surgir em seus lábios.
— Deve estar mesmo – Enfim nos desvencilhamos e ela me ajudou a me colocar de pé – Eu ia te perguntar se tinha conseguido achar mais alguma coisa além do que já sabemos. Não vi nenhum movimento suspeito dos Hyugas e nem ouvi minha mãe comentar nada com muita relevância.
— Na verdade, ainda não. Mas, vou ficar atento.
— Certo. Chegou a comentar com alguém?
— Não também. Precisamos de provas antes de divulgar, porque muito facilmente a noticia vai chegar até o nosso traidor quando dissermos, além do que, pode ser qualquer um ao nosso redor.
—Ao menos a fama sobre sua inteligência era real. Melhor do que ser convencido – Provocou cruzando os braços.
— Devo admitir que não esperava que a grande promessa do império perderia para uma raiz de árvore – Cruzei os braços em desafio, o que só a fez achar graça.
— Estou gostando de ver, Sasuke. É bom saber que há mais do que só um garoto desajeitado ai dentro.
— Sempre há mais – Uma boa sensação me encheu, ao menos em relação a ela eu poderia ficar em paz – Enfim, já vou indo. Nos vemos depois, Sakura.
Acenei e dessa vez me fui floresta a dentro.
}|*|{
Passado certo tempo, percebi uma presença esgueirando-se próximo de mim. Olhei discretamente ao redor buscando o que seria, logo imaginando a possibilidade dos homens de Orochimaru ou até mesmo o nosso traidor estar à espreita, mas relaxei ao reconhecer um tufo de cabelos rosas passando rapidamente antes de desaparecer por trás de uma árvore. Sakura, aparentemente, não tinha acreditado plenamente em minhas palavras e era obvio que a garota estava disposta a descobrir por si só o que eu estava escondendo.
Foi aí que um estalo veio até minha mente. Os restos que Anko me deu eram restos que os pescadores haviam levado... Aquilo tinha cheiro de maresia. Quase bati em minha própria cabeça ao me tocar do quanto tinha sido desatento. Olhando para mim, nem parecia o mesmo garoto que já tinha feito estratégias de ataques muito mais complexas do que uma mentira idiota.
Mesmo não gostando da ideia de ter que enganar Sakura, depois do que conversamos ontem e mesmo hoje durante o treinamento, eu jamais poderia contar a ela sobre o Dragão. Isso poderia colocar a vida dele em risco... Algo que definitivamente não posso deixar mesmo se tratando de Sakura.
Continuei caminhando para parecer que ainda não tinha notado sua presença, olhando ao redor buscava alguma maneira de despistá-la, mas as ideias estavam correndo de mim. Distraído como estava acabei quase pisando em uma cobra, o animal sibilou para mim enquanto encarava-me fixamente, suas escamas eram negras e os olhos levemente avermelhados, ela era grande, talvez se esticada poderia passar tranquilamente de dois metros. Estando em uma posição defensiva, o animal recuou até ficar ligeiramente levantado, imponente, certamente tentando me amedrontar. Pelo que já havia lido aquela espécie não era venenosa, mas sua mordida era extremamente forte, uma cobra arredia, mas muito requisitada pela sua carne saborosa.
Uma Aoda... Afastei-me o suficiente até que ela se abaixou e voltou a rastejar por entre o mato alto daquela região. Depois que finalmente sumiu, preferi desviar meu caminho o máximo para evitar cruzar com ela novamente ou quem sabe com suas semelhantes, era um tipo de animal que vivia em ninhos, se uma estava ali, outras poderiam estar. Por um momento senti um leve sorriso surgir em meus lábios quando um pensamento cruzou meu raciocínio, o Fúria da noite parecia uma Aoda gigante com asas.
Ouvi um crack perto, lembrando-me mais uma vez da presença da Haruno. Olhei ao redor novamente e me foquei nas sombras feitas pelas árvores que se expandiam por todos os lados, o que me fez automaticamente lembrar da estratégia que Shikamaru havia usada mais cedo durante o treinamento.
Por ser membro da família principal, sempre tive um interesse consideravelmente grande em saber as principais habilidades e especialidades dos clãs que compunham o nosso Império para assim usar cada uma ao nosso favor quando necessário, como em guerras ou durante os ataques de dragões.
Da mesma forma como o Nara tinha demonstrado mais cedo seu dom de "sumir", decidi usar aquelas sombras ao meu favor. O horário estava propicio e talvez não tivesse outra chance se não o fizesse agora. Afastei-me o suficiente até ser totalmente encoberto pela negritude momentânea, já por entre as arvores, tirei o cesto das minhas costas, o abracei e comecei a andar sempre mergulhando o quanto pudesse nos pontos escuros e que poderiam confundir a visão de Sakura. Estou ciente que ela é uma eximia guerreira, mas não é como se pudéssemos ser excepcionais em tudo que fazemos.
Logo pude vê-la sair do seu esconderijo olhando por todos os lados a minha procura. Sua confusão estava estampada na sua face pálida. Os olhos verdes inquisidores procuravam minuciosamente, mas não conseguiam me encontrar. Eu a observei em silêncio, mudando minha posição sempre que ela ameaçava se aproximar do lugar certo. Por fim, a vi murchar os ombros e dar meia volta.
Sorri, pois havia conseguido.
O caminho até a clareira não foi muito mais longo. Transpassei o portal de pedra e desci cuidadosamente o rochedo para não correr o risco de desequilibrar com aquela cesta cheia de coisas pedras abaixo. Chegando ao solo novamente o dragão negro já me esperava. Ele estava sentado, como um gato, encarando cada um dos meus movimentos, tirei o cesto das minhas costas e o empurrei com o pé na direção do réptil. No entanto, diferente do que eu esperava, ele não atacou diretamente a comida, como na outra vez. Pelo contrário, abaixou-se em posição de defesa e começou a rosnar para os restos esparramados diante de si.
Estranhando, aproximei-me mais uma vez e fui pegando os peixes um por um enquanto tirava os que estavam mais ao fundo do recipiente. Fiz isso até puxar para fora uma enguia.
No momento em que o Fúria da Noite a viu ele ficou ainda mais nervoso e arredio o que não me tardou em vira-me para o lago e lançá-la o mais longe que consegui.
— Tudo bem, eu também não gosto de enguia.
Mesmo assim o animal não ousou se aproximar, estendi então minha mão segurando um peixe até próximo de sua boca, ele o pegou desconfiado, mas depois de sentir o gosto o jogou para o alto, o atingiu num tiro certeiro para que ficasse bem tostado e o abocanhou logo em seguida num movimento que parecia ensaiado. Depois disso ele foi até o resto dos peixes, assando um a um para se alimentar.
Fiquei ali sentado o observando por um tempo até que uma ideia veio até minha mente.
— Acho que eu sei um nome para você... – Essa frase chamou atenção do Fúria da Noite que voltou seus grandes olhos vermelhos para mim – O que acha de Aoda? – Ri com minha própria piada interna.
Ele pareceu não se importar muito e voltou a comer. Tentei aproveitar o momento de distração do Dragão para toca-lo, estava quase lá, as pontas dos dedos chegavam a formigar de ansiedade, porém no exato momento ele terminou de comer e percebeu o que eu estava tentando fazer, só pela cara que aquele animal gigantesco fez eu soube que ele não tinha gostado nada daquilo, depois de bufar irritadiço, ele virou-se e se afastou.
Por fim, sentei-me sobre uma pedra me sentindo derrotado. Peguei um graveto que estava ali perto e comecei a esbouçar o início de um desenho pelos grãos de areia amarronzada, aos poucos os riscos e traços foram ganhando forma até que a imagem do dragão surgisse na areia, depois de terminar finalmente notei que o Fúria da Noite estava atrás de mim, olhando hipnotizado a imagem de si mesmo diante de si. Antes que pudesse me dar conta, vi o animal agarrar uma árvore com sua boca e tentar me imitar, criando formas abstratas sobre o chão arenoso.
Estava fascinado.
A inteligência daquela besta era surreal e incrível. Não conseguia expressar em palavras o que estava sentindo naquele momento. Queria poder gravar cada detalhe daquela cena em minha mente e rever de novo e de novo para descobrir novas informações a respeito daquele dragão.
Em dado momento me vi achando graça pela falta de jeito dele, mas em nenhum momento a beleza da cena se esvaia. Após terminar, fui tentar sair do grande redemoinho de linhas que me cercavam, porém ao pisar em um dos riscos o Fúria da Noite rugiu, levantei o pé e o dragão voltou a ter sua expressão suave, fiz um teste pisando 2 vezes e levantando o pé novamente para ver suas reações, que se provaram serem as mesmas. Mais uma vez ri comigo mesmo, até dragões poderiam ser sensíveis.
Comecei a sair do meio do desenho tomando cuidado para não pisar em nenhuma linha novamente. Por um momento me senti sendo guiado por uma suave brisa ao passo que pisava calculadamente nos pontos certos, estava quase fechando os olhos apenas para apreciar aquela sensação tão boa e satisfatória que circundava todo o meu corpo.
Então parei.
E quando abri meus olhos...
Encontrei as grandes pedras vermelhas diante de mim.
O anseio de tocá-lo mais uma vez me inundou, e arisquei estender a minha mão, mas logo as presas surgiram em resistência. Admito que a vontade de desistir ameaçou bater à porta do meu coração, mas como numa última tentativa, estendi meu braço com minha mão aberta, virei minha cabeça, fechei meus olhos e me pus a esperar.
O tempo parecia uma eternidade.
Porém, como um doce presente, finalmente senti o Dragão se aproximar, encostando sua cabeça em minha mão. Abri os olhos subitamente e o encarei, certamente com uma expressão que misturava a completa surpresa e incredulidade com alegria. Aquele olhar intenso cor de carmim... Era como se ele estivesse me dizendo que estava me dando um voto de confiança.
O momento, infelizmente, não durou muito, logo o dragão se afastou e foi se deitar, fazendo o mesmo que dá outra vez. Uma pequena deixa para me avisar que estava na hora de voltar para casa.
Não estava a fim de estragar o que eu já havia conseguido conquistar até ali, por isso, peguei novamente o cesto e escalei as rochas alegremente até alcançar a fissura da passagem. Porém, antes de finalmente me ir, virei-me para a clareira e disse:
—Até logo, Aoda!
E sei que o vi levantar a sua cabeça em minha direção.
}|*|{
Já estava dentro dos domínios de Konoha quando me dei por mim. Enquanto voltava, não consegui parar de pensar no animal incrível que era o Fúria da Noite. Agora, mais do que nunca, eu tenho certeza de que não quero matar dragões, eles são criaturas fantásticas! Inacreditáveis e extraordinárias!
Mas... Os ataques ainda me parecem um mistério. Aoda não me atacou porque ele é diferente ou algo o instigava a atacar? Porque tantos dragões viriam até aqui, e somente aqui, em busca dos nossos rebanhos? Nenhuma das terrar vizinhas jamais mencionou ataques ou viram dragões em seus territórios, e se viram, foi a muitos anos atrás, bem longe da nossa geração.
Então por que só aqui?
Já tinha deixado os peixes frescos com Anko, assim que sai da clareira fui até um riacho que conhecia naquela região e pus em prática minhas habilidades de pescaria, estava orgulhoso em dizer que havia enchido o cesto. Ela agradeceu o mimo e me prometeu que faria um prato especial em agradecimento na próxima.
Distraído, não percebo Naruto chegar sorrateiramente e me agarrar pelo pescoço, quase me derrubando no processo no meio da rua.
—Dobe, o que pensa que está fazendo?! – Disse entre dentes ainda tentando me soltar.
O loiro soltou um dos seus sorrisos típicos e bagunçou meus cabelos antes de finalmente me libertar dos seus braços. Apesar de já fazer tanto tempo, ainda me pego perguntando vez ou outra como nos tornamos tão amigos mesmo sendo tão diferentes.
—Parecia pensativo, Teme. Queria ver se conseguia te dar um susto e – Deu dois tapinhas na minha bochecha sorrindo com um ar de deboche – Acho que consegui.
—Até parece – Não pude evitar sorrir também.
Enquanto estávamos conversando, Naruto percebeu Sakura que parecia seguir na direção dos domínios do clã Haruno e, obviamente, ele me arrastou até ela.
—Sakura! Vamos conversar todos juntos!
Ela parou, aguardando pacientemente até a alcançarmos, ela provavelmente estava voltando de seu treinamento já que ainda trajava as mesmas roupas de quando nos encontramos na floresta mais cedo.
—Naruto, não precisava dessa algazarra toda, não sou surda – Retrucou irritada enquanto usava o escudo como um tipo de apoio.
—AH Saky me desculpe, mas não pude evitar, estou muito feliz!
Assim como eu, ela olhou para o Uzumaki sem entender o que raios estava acontecendo.
—Logo vocês saberão, não se preocupem! – E alargou ainda mais o sorriso – Enfim! O que acham de darmos uma volta para matar o tempo e aproveitar que ainda está claro? Poderíamos ir até as Kildenes e relaxar!
— Bem... – Sakura pareceu pensar um pouco, mas não conseguiu disfarçar enquanto olhava de soslaio para mim. Ela provavelmente se lembrou do pequeno incidente na floresta. Posso jurar que vi um leve rubor em suas orelhas, o que não me impediu de sorrir internamente. Dirigi meu olhar para o chão em silencio buscando ponderar, mesmo que quisesse ficar um tempo com eles não poderia dar espaço para a garota perguntar sobre o que fiz na floresta hoje. Sakura não sabia que eu sabia que ela tentou me seguir, e não poderia deixar que ela descobrisse.
— Eu não posso, vou estudar mais sobre os dragões, principalmente para não cometer os mesmos erros de hoje na arena – Interrompi a garota – A gente vai ter muito tempo para isso nos próximos meses. Nos vemos amanhã!
Despedi-me tão rápido que nem dei tempo dos dois responderam. Tenho certeza de que estanharam minha reação, Naruto principalmente. Dei um longo e profundo suspiro ao passo que cada vez mais me aproximava dos domínios Uchiha. Vou precisar fazer por onde para melhorar.
Chegando em casa, segui diretamente para o meu quarto, porém antes de entrar me vi encarando a porta ao lado. Um sentimento triste encheu meu peito e as saudades de Itachi ameaçavam me atingir mais uma vez. O que ele pensaria quando contasse sobre Aoda?
E principalmente, o que meu pai acharia de tudo isso?
Ri sem humor, provavelmente ele decida me deserdar a própria sorte de uma vez por todas.
Já dentro do quarto, joguei minhas coisas sobre uma pequena mesa de madeira, tirando minhas roupas e colocando algo mais confortável. Estava pronto para sair em busca dos livros, porém, antes disso, encarei mais uma vez meu caderno de anotações sobre a mesa e decidi abri-lo. Folhei as páginas até chegar ao meu último desenho feito. Observei a imagem que eu tinha traçado de Aoda no dia do primeiro encontro e peguei-me a olhar fixamente para sua cauda que estava machucada e deformada por minha causa.
“Talvez...”
Uma ideia surgiu.
Não sabia se aquilo iria funcionar, mas era possível.
Peguei ligeiramente um pedaço de carvão e comecei a esboçar sobre um pergaminho, não podia deixar a imagem se perder em minhas lembranças. Nem que aquilo levasse a noite toda, eu iria encontrar um jeito de fazê-lo voltar a voar.
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