Ribelle Amato
25 Capítulo 23 - Aflita
Notas iniciais
Capítulo 23 – Aflita
FOI PRECISO MUITO AUTOCONTROLE meu para eles não me tirarem da sala do Doc. Digo, eu estava ansiosa. Ansiosa, aflita, preocupada, nervosa!
– Rachel, pare de roer as unhas. — disse Jamie, ao meu lado, tirando minha mão esquerda da frente da minha boca e segurando-a firme sobre a sua.
Estávamos na sala de Doc. Cristal e Sol já foram retirados e colocados em criotanques sobre sua mesa. Eu, Jamie, Melanie e Lily estávamos apenas observando enquanto Peg, Candy e Doc faziam todo o serviço de retirar as Almas. Mas ainda falta Matt e eu acho que esse seria o ponto crucial do meu dia. Eu esperei tanto por esse momento que nem sabia mais como explicar o turbilhão de sentimentos dentro do meu peito.
Eu estava a ponto de ter um ataque cardíaco dos infernos.
– Rocker, você precisa relaxar um pouco. — Lily colocou a mão confortavelmente sobre meu ombro no momento em que eu comecei a arquejar sem parar ao ver Peg colocando um Corta Dor sobre a língua de Rick.
Ou já seria Matt? Eu não tinha como falar enquanto estava desacordado.
– Jamie, acho melhor você levá-la para o corredor. — Melanie disse e quando Jamie veio colocar o braço sobre meu ombro, eu simplesmente desviei.
– De jeito nenhum! — eu exclamei. — Vou ficar aqui até Mattew acordar!
– Mas pode demorar dias. — avisou Lily.
– Não me importo. — insisti, enquanto me afastava deles e ia mais para perto do catre em que estava o corpo de Matt.
Fiquei sentada no outro catre, quietinha e sem mexer um músculo que fosse. Doc fez um corte sobre a cicatriz que já estava sobre a nuca de Matt, enquanto Candy vinha correndo segurando um criotanque vazio em mãos. Enquanto escorria uma pequena quantidade de sangue do corte, Peg começou a fazer movimentos circulares na nuca de Matt até que eu vi algo prateado escorregando por ali direto para os dedos de Peg. Devo dizer que Rick, tanto quanto Cristal e Sol, era lindo. Uma pequena vida prateada, cheia de energia e amor. Eu não a via como uma centopeia. Eu a via como uma libéluba.
Peg colocou a Alma de Rick cuidadosamente no criotanque e Candy logo o fechou e levou para junto de Cristal e Sol. Doc repetiu o mesmo processo que fez em Lindsay e no hospedeiro de Sol. Deve ter passado uns cinco remédios sobre a nuca de Matt, mas eu não sabia quais eram. E também não me importava nem um pouco. O que me importava nesse momento era Matt. Doc disse alguma coisa, mas eu não ouvi, e logo Melanie, Lily e Candy saíam. Doc foi até sua messa, que ficava um pouco mais distante ali no pqueno hospital. E eu ainda não mexia um músculo sequer. Eu não conseguia. Apenas olhava para o rosto sereno de Matt, em expectativa.
Eu estava feliz. Aquele não era mais Rick, a Alma que infectava o corpo do meu irmão. Sim, eu gostei de Rick, mas nunca deixei de pensar nele como uma doença. Não penso assim de Peg ou Sunny — não são parasitas pois já não existe mais um humano habitando a mente de suas hospedeiras. Mas aquele era meu irmão. Meu irmão que resistira, meu irmão que instruíra-os a não virem para não causar problemas. Meu irmão — que sobrevivera para voltar a estar ao meu lado. E que estava aqui agora, há apenas uma consciência de distância. Não queria me mexer, eu tinha medo de que se o fizesse talvez a tênue esperança dele voltar seja desfeita. Tudo bem que ele resistira todos esses dois meses, mas nada garante que ele possa ter se perdido no processo da retirada da Alma.
Depois de mais alguns minutos, Peg sussurrou alguma coisa para Jamie e saiu. Jamie, por sua vez, veio até mim e se sentou ao meu lado no catre. Eu ainda continuava sem desviar meu olhar de Matt, acompanhando cada pequeno, cada minúsculo movimento de seu tórax em movimento. Eu sentia a tensão em meus ombros como um peso de um tanque que pesava toneladas. E eu acho que Jamie também percebeu, pois logo se sentou atrás de mim e colocou as mãos sobre meus ombros, massageando-os.
– Você precisa relaxar, ruiva, ele vai acordar.
– Mas vai demorar? — perguntei, manhosa, enquanto relaxava sob seu toque e arrancava um riso dele. Eu não costumava ser manhosa e disso Jamie sabe muito bem.
– Cada um tem seu tempo, Rachel. — ele sussurrou ao meu ouvido. — Ele logo vai acordar.
Suspirei, derrotada. — Ele precisa acordar logo. Aguentei dois meses e meio, não acho que vou aguentar mais alguns dias.
– E ele vai. É só ter paciência. — Jamie disse, soltando meus ombros e me puxando pela cintura em direção ao seu peito. — Agora tente descansar um pouco. Você precisa dormir.
– Mas que quero estar acordada quando ele acordar. — eu insisti, tentando me desviar de seus braços.
– E vai estar. Eu fico aqui acordado, qualquer coisa eu te chamo. — ele disse e eu finalmente cedi.
Jamie se encostou contra a parede e me puxou contra si, fazendo com que eu apoiasse minha cabeça contra seu peito.
– Promete que vai me acordar? — eu bocejei antes mesmo de terminar. Somente agora que eu relaxava meu corpo que eu percebia o quão cansada estava.
– Prometo. — ele disse, mas sua voz saiu longínqua e eu rapidamente caí no sono.
Dessa vez, sem sonhos.
~*~
– Rachel. — eu ouvia uma voz meio ao longe me chamando. — Ruivinha, acorde. Matt está acordando.
Não sei se foram as últimas palavras que me fizeram acordar com um sobressalto ou saber que foi Jamie que chamou ao meu ouvido. Acordei meio atônita, tentando focalizar minha visão o mais rápido que conseguia e sentindo uma tontura por causa do esforço. Coloquei uma mão sobre minha cabeça e Jamie me ajudou a me sentar. Quando olhei para o catre ao lado, vi as mãos de Matt mexendo levemente.
– Matt! — exclamei, indo de encontro ao catre e agachando ali ao lado, apertando forte sua mão.
Senti um leve aperto em minha mão, como se ele estivesse querendo responder. Jamie foi para o outro lado do catre.
– Converse com ele, Rachel, isso sempre ajuda.
– Mas o que falo?! — perguntei em um tom aflito, quase desesperado.
Jamie parou para pensar um pouco. — Pergunte de algumas coisas que ele lembra. Fale sobre suas lembranças.
E então eu comecei a falar.
– Mattew Heymiswit, acho bom que você acorde. Você não tem ideia de como eu fiquei uma pilha de nervos nesses dois últimos meses sem você! Demorei duas semanas para encontrar esse lugar e quase desidratei no deserto apenas para manter nossa promessa de que se algo acontecesse, eu teria que vir achar sozinha. — fiquei meio receosa de dizer isso com Jamie ali, não conseguia me lembrar se já havia lhe dito isso. — Não foi nada fácil, eu não sabia lavar um prato e tive que aprender isso e a fazer pão também, acredita?!
Seus lábios se mexeram levemente para cima e eu tinha certeza que ele queria rir da minha cara assim como Jamie agora estava fazendo.
– Se lembra quando mamãe insistia em tentar me ensinar a cozinha e eu quase botava fogo na casa? — as risadas de Jamie aumentaram e a mão de Matt apertaram meus dedos. — Tenho certeza que você se lembra quando eu queimei aquele fogão lindo preto de seis bocas que ela tanto idolatrava. Sabe qual foi a melhor parte de ter acabado com ele?! Você ter levado a culpa porque ela se recusava a acreditar que eu estava matando aula apenas para acabar com aquele fogão que ela achava que eu idolatrava! Mulher doida, não é?!
– Finalmente descobri de quem foi a culpa...
Eu virei a cabeça para o lado quando reconheci sua voz inconfundível, cheia de sarcasmo, garantindo que era ele mesmo ali dentro, e não uma Alma. Mas não precisava reconhecer o tom de voz. Foi preciso apenas olhar em seus olhos de um verde opaco parecidos com os meus para confirmar. Não havia nenhum reflexo prateado ali.
E eu tinha meu irmão de volta.
Fale com o autor