Ribburn Falls

1 Capítulo 1


Ali estava eu, parada no meio do pequeno e vazio aeroporto de Ribburn Falls, destruindo qualquer esperança que tinha. Era óbvio que minha mãe não iria me buscar. Por quê, então, eu esperava que fosse? Ela nem pareceu estar feliz quando disse que iria visitá-la!

Arrastando duas malas pesadas, fui até a saída. Eram quase onze horas da noite e as ruas estavam vazias. Com os recentes acontecimentos em Ribburn Falls, somente uma pessoa realmente suicida sairia nesse horário. Eu nunca gostei dessa cidade. Quando meus pais se separaram, eu tinha apenas 5 anos. Minha guarda ficou com papai, porque ele tinha mais condições e a vida em Paris era mil vezes melhor do que em uma cidadezinha desconhecida pelo mundo. Na minha primeira visita à mamãe, me arrependi completamente. A viagem era longa demais e a cidade parecia ter vindo daqueles filmes de terror. E eu tinha quase 6 anos na época. Agora, olhando melhor, nada havia mudado. A espessa neblina ainda passeava pelas ruas, fracamente iluminadas. O silêncio era absoluto. Parecia uma verdadeira cidade fantasma.

– Táxi! — Acenei com a mão, chamando-o. O táxi era amarelo e parecia cair aos pedaços. Uma luta mental acontecia: Ir ou não? O motorista estacionou e me ajudou a guardar as malas dentro do carro. Ditei o endereço de mamãe e ele dirigiu, em silêncio.

Eu estava fazendo a coisa certa. Ribburn Falls passava por um momento difícil, com muitos relatos de ataques à noite e mortes. Que tipo de filha não iria se preocupar com a mãe morando em um lugar como esse?

Lembro-me da expressão de meu pai, quando contei-lhe minha decisão. Apesar de ainda ter 16 anos, ele sempre me tratou como uma adulta. Sempre respeitou minhas opiniões e decisões. Mas a dúvida estava estampada em seu rosto. Acredito que, naquele momento, ele se questionou se iria ou não me proibir de viajar. Por sorte, ele não proibiu. Procurou as passagens o mais rápido possível para me agradar. Por mais que negue, também acho que estava preocupado com a situação aqui. Papai ainda ama minha mãe, é visível. Se dependesse dele, os dois nunca se separariam. Mas tudo foi ideia de mamãe e até hoje ninguém me explicou o motivo real da separação.

– Chegamos.

O motorista anunciou, interrompendo meus pensamentos. Paguei-lhe, um pouco distraída. Ele me ajudou a tirar as malas do carro e logo, desapareceu por entre a neblina. A casa de minha mãe era completamente diferente da casa de papai. Parecia ser pequena, apertada e úmida. As paredes do lado de fora estavam escondidas pela hera que crescia livremente. As janelas estavam fechadas e não saía nenhuma luz de lá de dentro. Será que mamãe já estava dormindo ou eu anotei o endereço errado?

Arrastei as malas com dificuldade pelo grande gramado, até chegar a porta. Toquei a campainha, olhando ao redor. O tempo estava esfriando e o vento gelado se chocava contra minha pele, causando arrepios. Depois de alguns minutos sem resposta, toquei a campainha novamente. Nada. Quando já estava pronta para sair de lá e procurar um hotel, a porta se abriu. Um garoto alto, de cabelos pretos e olhos profundamente azuis me encarou fixamente. Ele não devia ser muito velho e vestia apenas uma bermuda azul.

– Posso ajudá-la? — Perguntou.

– Ahn, sou Jazmynne Fontaine. Aqui é a casa de Maddison Hart?

O garoto me encarou mais ainda. Dessa vez, seus olhos passearam por todo meu corpo até dar um sorriso levemente amigável.

– Ah, sim. Jazmynne. Sua mãe me contou que lhe esperava. Entre, por favor.

Ele pegou minhas malas e me acompanhou, enquanto entrava na casa. Quem era esse garoto? O garoto me guiou até uma confortável sala de estar. Ele colocou as malas no chão e sorriu para mim.

– Espere um minuto que irei chamar sua mãe. — Ele disse, caminhando para dentro do corredor escuro.

Meus olhos passearam pela sala inteira, parando em uma estante com diversos porta-retratos. Grande parte deles eram fotografias minhas, desde bebê até recentes. Papai devia enviar fotos para ela. Mas haviam outras fotos também, de pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Como, por exemplo, aquele garoto.
Uma ideia um tanto nojenta passou pela minha cabeça. Será que mamãe estava com esse garoto? Digo, e se ele fosse o motivo para ela largar papai?

– Minha filha. — Mamãe apareceu sorrindo fracamente. Ela parecia mais jovem do que era. Seus cabelos castanhos caíam em cascata sobre seus ombros e seus olhos cor de mel brilhavam. Ela me deu um abraço rápido e sorriu para mim. — Fico feliz que esteja aqui.
– Realmente? Porque você não demonstrou sua felicidade quando eu lhe liguei. — Falei, cruzando os braços. Mamãe riu alto, afagando meu braço.
– E eu achando que não tinha como você se parecer ainda mais com seu pai... — Ela sorriu – Querida, você sabe que Ribburn Falls está bastante perigosa ultimamente. Você estaria mais segura longe daqui, mas isso não significa que eu não queira te ver.

Estava pensando no que dizer quando o garoto apareceu, sentando-se no sofá e olhando para nós fixamente. Seus olhos azuis tinham um brilho esquisito e eu comecei a sentir medo dele.

– Ah, esse é Dmitri Conley, querida. Ele está passando um tempo conosco. — Sorri fracamente para ele e me voltei para ela. — Você deve estar exausta. Venha, vou te mostrar onde fica seu quarto. — Mamãe passou seu braço ao redor do meu pescoço e me guiou pela casa.

Meu quarto era mais confortável do que eu pensei que seria. As paredes eram pintadas de um tom rosa claro, apesar da pintura estar levemente descascada. Havia uma cama de casal abaixo da janela, um guarda-roupa branco e uma escrivaninha vazia. Dmitri apareceu segundos depois, colocou minhas malas no pé da cama e saiu do quarto, com mamãe acompanhando ele. Acabei dormindo no momento em que deitei na cama e apesar de meus sonhos não terem sido agradáveis, não acordei. Mas a sensação estranha que vinha sentindo desde que coloquei meus pés em Ribburn Falls simplesmente não me abandonava.

Notas finais
Mereço reviews? Querem que eu continue? :D