Ribburn Falls
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acordei no dia seguinte com sussurros do lado de fora da porta do meu quarto. Reconheci mamãe e Dmitri, mas a terceira pessoa eu não conhecia, ainda.
– Você trouxe a destruição para Ribburn Falls, Maddison. — A terceira pessoa, um homem, aumentou seu tom de voz e parecia furioso com a direção que a conversa estava tomando. — Ou será que você não confia mais nas profecias de sua própria espécie? — Ele pareceu rosnar.
– Ela é minha filha, Rixon, e ficará comigo até quando ela quiser. Concordo que Johanna é muito poderosa, mas não vou abrir mão do meu próprio sangue por causa de uma superstição sem sentido! — Mamãe retrucou.
– Rixon, nós ficaremos de olho na garota. Qualquer acontecimento estranho e ela será mandada de volta para Paris em um piscar de olhos. — Dmitri murmurou. Ficaram em silêncio por um momento, até Dmitri completar. — Você tem minha palavra, Sr. Morris.
Houve um suspiro alto e naquele momento, eu já estava sentada à frente da porta, para ouvir melhor. Esse tal de Rixon nem me conhece, mas estava certo de que eu faria alguma coisa ruim. Mas o que eu poderia fazer? Eu mal conseguia segurar algo pesado!
– Se Ribburn Falls entrar em guerra novamente e essa garota permanecer aqui… — Rixon fez uma pausa — O sangue dela estará em minhas mãos.
Pelos passos fortes e apressados, presumi que Rixon estava partindo. Mamãe e Dmitri continuavam na frente da minha porta.
– Você acha que ele estava falando sério? — Dmitri perguntou em um sussurro, logo após ouvir a porta da frente se fechando. Mamãe suspirou.
– Gostaria que tudo fosse um blefe, Dmitri.
– O que vamos fazer agora? — Ele perguntou.
– Bom, não há nada para fazer. A matilha de Rixon ficará no pé de Jazmynne. Só temos que tomar cuidado para que a profecia não se realize. — Mamãe murmurou distraida. Eles começaram a se afastar e eu, finalmente, pude soltar a respiração que estive segurando.
Fui tomar banho para clarear meus pensamentos e tentar entender tudo o que tinha acontecido. Ao que parece, o tal Rixon já me odiava. Ótimo começo, Jazmynne. E todos acreditavam em uma profecia que, provavelmente, falava sobre mim destruindo a cidade… Por mais que eu odiava aquela cidade, aquele clima sombrio e fechado, eu não destruiria Ribburn Falls de propósito. Afinal, foi aqui que eu nasci e passei uma pequena parte da minha infância.
Quando terminei de tomar banho, vesti uma roupa confortável e quente. Não eram nem oito horas da manhã e já estava chovendo. Tenho certeza que ao meio dia, a chuva irá parar e dar espaço para o sol. O clima em Ribburn Falls era assim, meio bipolar e difícil de entender. Mas apesar disso, havia certas partes da cidade em que a névoa simplesmente não desaparecia, nem com o surgimento do sol. Era um tanto quanto sinistro.
Saí do quarto e fui para a cozinha, onde mamãe e Dmitri estavam sentados na mesa. Mamãe lia um jornal local, enquanto Dmitri comia preguiçosamente uma tigela de cereal.
– Bom dia, querida. — Mamãe levantou seus olhos do jornal e sorriu para mim, quando entrei. Seus cabelos estavam um pouco bagunçados e ela tinha um brilho exausto nos olhos. Se eu pudesse chutar, diria que ela não tinha conseguido dormir muito essa noite. O que me faz pensar que, talvez, eu tenha sido o motivo de sua insônia. Expulsei o sentimento de culpa e sorri de volta, pegando uma tigela e enchendo-a de cereal e leite.
Sentei na mesa com eles e comi em silêncio. Ninguém parecia muito animado para falar algo também. Imagino que o ocorrido com Rixon tenha deixado os dois pensativos.
– O que você pretende fazer hoje, Jazzy? — Mamãe quebrou o silêncio. Ela usou meu antigo apelido, me trazendo lembranças de quando eu era criança e nossa família ainda estava intacta. A última vez que tinham me chamado de Jazzy, foi no dia em que papai e eu partimos, aos meus 5 anos. Engoli em seco, sentindo as lágrimas se acumularem. Não, Jazmynne, você não vai chorar hoje. Não.
– Não sei. Acho que vou dar uma passada na biblioteca e ver que livros eles têm por lá. — Murmurei, baixando meus olhos para a tigela, assim ninguém me veria lutando com as lágrimas.
– Se você quiser, Dmitri pode ir com você. — Mamãe disse, dando de ombros. Dmitri engasgou com o cereal e lançou um olhar furioso para mamãe, mas não protestou. — Ele está por dentro dos lugares que jovens costumam frequentar.
Olhei para Dmitri rapidamente, captando seu desconforto. Ele não gostaria de ser visto com a garota que irá destruir a cidade, com toda certeza.
– Não é necessário, mãe. Eu prefiro ir sozinha, se não tiver problema. — Sorri fracamente para mamãe. Dmitri parecia um pouco mais aliviado e sorriu agradecidamente para mim.
Mamãe assentiu com a cabeça, voltando sua atenção para o jornal. Enquanto eu comia, minha mente viajou. E se Rixon viesse atrás de mim? Eu não saberia como me defender. Uma parte de mim queria dizer que mudei e ideia e arrastar Dmitri comigo, mas eu sabia que isso só o deixaria furioso e, consequentemente, me deixaria furiosa por não conseguir aproveitar o dia. Além do mais, Dmitri era forte, mas não passava de um garoto e Rixon parecia ser velho o suficiente para acabar com ele.
Quando terminei o café da manhã, fui para meu quarto e peguei minha bolsa, enchendo-a de itens que eu precisaria, no caso de Rixon quiser ter uma “palavrinha” comigo. Talvez eu estivesse sendo paranóica, mas não custava nada estar preparada. Me despedi de mamãe, acenei com a cabeça para Dmitri e saí de casa, tentando me recordar do caminho para a biblioteca, no centro da cidade. Olhando agora, pela luz do dia, a casa de mamãe parecia tão abandonada quanto à noite. Anotei mentalmente que iria convencê-la a fazer uma reforma, antes de eu ir embora.
O bairro era repleto de casas, todas pequenas e simples. Algumas crianças brincavam no meio da rua, despreocupados com os carros que não passavam ali. Se estivessem em Paris, provavelmente já teriam sido atropelados.
Não demorou muito até que eu chegasse no centro. A biblioteca ficava de frente à praça principal, um grande edifício aparentemente reformado recentemente, com as paredes pintadas de um tom creme. Havia poucas pessoas por ali, apenas alguns casais adolescentes na praça e pessoas apressadas. Me aproximei da biblioteca, subindo os degraus que davam para a porta, quando um ruído logo atrás de mim me parou. Uma sensação estranha percorreu minha espinha, fazendo cada pêlo do meu corpo se arrepiar. Uma mão gelada pousou-se no meu ombro e eu me virei, pronta para retirar o estilete da minha bolsa, quando vi que era um casal aparentemente inofensivo.
– Opa! — O homem retirou sua mão do meu ombro — Não quis lhe assustar, sinto muito.
– Tudo bem — Resmunguei, tirando a mão da bolsa. Olhei desconfiada para o casal, querendo entender por quê fiquei em alerta. Algo me dizia que eu não deveria confiar neles.
– Você é filha da Maddison Hart, certo? — A mulher perguntou, sorrindo docemente. — Sou Johanna Farwell, amiga dela. E esse é meu marido, Sean.
Johanna… Johanna… De onde eu conhecia aquele nome? Olhei para a mulher novamente, analisando cada detalhe de seu rosto, na tentativa de me lembrar. Mas é claro! Mamãe mencionou uma Johanna, na discussão com Rixon. Ela tinha dito que Johanna era poderosa. Mas quais eram as chances daquela Johanna, ser a mesma Johanna da discussão?
– Prazer em conhecê-los. — Sorri fracamente, olhando para a porta da biblioteca procurando uma maneira de fugir, caso algo acontecesse.
– Nós gostaríamos muito de ter uma conversa com você, senhorita Fontaine. — Sean falou, seus olhos demonstravam preocupação. Ou eu estava enxergando errado? — Há algo que você precisa muito saber, antes que seja tarde demais e… — Sean parou de falar no momento em que outra mão — uma bem quente dessa vez — pousou-se sobre meu ombro. Olhei para o lado, surpresa em ver Dmitri, lançando um olhar repreensivo para o casal. — Oh, Dmitri! Que surpresa ver você por aqui! — Sean cumprimentou Dmitri, seu sorriso se tornou frio, mas Dmitri pareceu não perceber ou simplesmente ignorou.
– Enfim, só viemos conhecer a filha da Maddison. A última vez que a vimos, ela ainda era uma criancinha. — Johanna disse, acariciando meu braço. Ela olhou para Sean, sorrindo pela última vez para mim e ambos se afastaram, atravessando a rua.
Dmitri ficou parado ao meu lado, seguindo o casal com o olhar até que estivessem longe o suficiente, então virou-se para mim. Olhei para ele desconfiada.
– O que foi isso? — Perguntei, arqueando a sobrancelha. — Eles só estavam sendo gentis!
– Sei disso. Ser gentil é o que eles mais sabem fazer. — Dmitri murmurou, entrando na biblioteca. Segui-o, um pouco atordoada.
– Espera! — Puxei meu braço, fazendo ele parar. — Por que você está aqui? Achei que não queria me acompanhar. — Dmitri suspirou, olhando para mim. Seus olhos azuis fixaram-se nos meus e eu não conseguia desviar o olhar, por mais que eu quisesse.
– E eu não queria. Mas sua mãe achou mais seguro se eu viesse e pelo visto, ela estava certa. — Ele se soltou do meu puxão, seguindo adiante. — Ela mal saiu da toca e os predadores já partiram para cima… — Sussurrou para si mesmo, olhando despreocupadamente para mim, como se estivesse tranquilo por saber que eu não ouviria. Mas ele estava errado, eu escutei muito bem o que ele tinha dito.
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