Rhorus
15 Yunna
Notas iniciais
O leito do Rio Sinuoso era estreito naquele ponto e podia ser atravessado a pé, e assim estava fazendo a garota. Seu mestre já estava do outro lado seguindo a trilha ainda fresca do cervo que havia passado ali; as pegadas ainda úmidas no chão guiavam o caminho assim como o sangue derramado pelo animal ferido.
– Ele não vai muito longe. – gritou o arqueiro com seu sotaque arrastado, seus cabelos enrolados apresentavam um emaranhado selvagem. – Foi um belo disparo, criança.
A jovem estava com uma aparência melancólica e afundava suas botas pretas na água lamacenta sendo tomada pela nostalgia das tardes de caça com seu senhorio em Riverstone naquele mesmo rio, porém na sua vertente principal e com uma floresta muito mais majestosa e rica de vida ao redor. Já havia quase um mês que ela treinava com Symmeon e ela sentia falta de seu lar original mais do que qualquer outra coisa.
Soltou o rabo de cavalo que prendia seus cabelos brancos e os sacodiu para tirar as folhas secas da estação que estava no fim, depois disse:
– Obrigada, mestre.
Seguiram a trilha por mais alguns metros até encontrarem o animal caído em meio a uma poça de sangue; a flecha atravessada no pescoço marrom do belo cervo foi quebrada e removida pelo professor, Yunna logo atrás assistia tudo e ouvia atentamente o que ele tinha para lhe ensinar que ela já não soubesse.
– A carne do animal é mais macia aqui – ele falou apontando para o lombo – e aqui. – dessa vez apontou para o peito e as cochas dianteiras. – Você não vai querer feri-lo onde é melhor de se comer. Por isso digo que foi um belo disparo.
A garota apenas concordou.
Os dois ficaram sentados no tapete de folhas que cobria o chão por alguns minutos enquanto Symmeon com uma faca de escalpos tirava a pele da caça para ter acesso à carne vermelha e suculenta. Yunna tinha aprendido que não adiantava falar ou discutir com Symmeon Arcolongo, portanto ouvir o que quer que fosse era sempre melhor opção, por conta disso ela ganhou o carinhoso apelido de criança muda de seu professor.
O sol estava alto no céu quando ele finalmente havia terminado de cortar a carne e guarda-la em sua bolsa e as moscas voavam por todos os lados atraídos pelo cheiro da carcaça ainda morna. Yunna se preparava para se levantar e voltar para o galpão quando seu mestre chamou sua atenção.
– Fique sentada, criança muda, e fale.
– O que quer que eu fale, mestre? O senhor dá os ensinamentos aqui.
– Conte-me de sua casa. Sei que sente falta dela, por isso anda distante. Fale-me dos seus pais.
A garota respirou profundamente e colocou o arco composto que ganhara sobre as pernas – um belo arco aliás, branco como osso. Lembrou-se da única coisa que tinha dos pais: um colar com uma pedra azul bebê com algumas inscrições que ela deixara escondido em Riverstone em seu quarto ao lado dos estábulos. A história da sua família era uma história complicada. Ela começou a contar.
– Meus pais eram servos do antigo Senhor Alagado, Lorde Royce River. Eles eram servos fieis assim como quaisquer outros servos para com seu senhor. Minha mãe era ama de leite da senhora River e por isso era bem próxima da família. Meu pai, assim como eu vim a me tornar, era o cavalariço.
“Quando Lorde Royce River começou a tramar tomar o trono do rei ele convocou seus mais fieis vassalos: Os Flintcher de Riorraso e os Nomm que na época eram os senhores de Lamaçal; ainda são, mas outros Nomm, é confuso. Nessa época eu estava sendo gerada no útero da minha mãe e ela não sabia.”
“A trama durou o período da minha gestação, então eu nasci quando a guerra estava para culminar. Lorde Nomm sempre se vangloriou de ter traído seu suserano naquela cruzada sem sentido e por conta disso ele se tornou o atual Senhor Alagado. Eu era ainda um bebê quando as forças dos Nomm se mudaram para Riverstone quinze anos atrás e também quando Lorde River fugiu. Tristefer Nomm não confiava nos criados do antigo senhor e por isso baniu a todos, mas quando viu que minha mãe carregava um bebê ele permitiu que apenas eu ficasse. Ele me deu um lar, enquanto dos meus pais eu nunca mais ouvi falar.”
– E mesmo assim o serviu.
– Sim. Ele foi bom pra mim; mamei os mesmos peitos que o único filho dele e quanto este morreu ainda criança caindo de um cavalo ele cuidou de mim como se fosse sua filha. Deixou que eu praticasse com o arco assim que eu tive o primeiro contato e me encantei; deu-me um trabalho dentro da sua fortaleza e estava sempre comigo, conversando ou caçando e contando histórias.
Symmeon concordava enquanto ela falava e depois de alguns segundos de silêncio voltou a pedir detalhes.
– E sua mãe? Já lhe disseram como ela era?
– A imagem que Lorde Nomm tinha da mulher que me carregava nos braços era a mesma de qualquer mulher comum que você vê na Capital. Assim como meu pai; braços largos, cabelo e barba castanha... comum.
– E essas discrições são tudo que você tem dos seus pais?
– Elas e um pingente que foi deixado comigo quando bebê.
– Se me permite dizer, nunca a vi com pingente algum. Por que você não carrega o único presente que sua mãe lhe deu?
Yunna suspirou.
– Era um colar com uma pedra azul bebê, a cor dos River, e nele está escrito: Nadando rumo à conquista. Um colar na cor dos River com as palavras dos River gravado nele não seria bem vindo em lugar algum do reino.
– Entendo. – o mestre dela falou e depois ficou em silêncio.
– Voltamos então?
– Sim, voltamos.
Fizeram o caminho para fora da Floresta Real e enquanto caminhavam as folhas secas do outono caiam à sua volta. Um filhote de cervo perdido e sem mãe vagava por entre as raízes que se precipitavam para fora da terra e Yunna desviou o olhar com pesar no coração. A conversa com seu mestre havia deixado a garota ainda mais sensível, além da saudade de sua casa que já a atormentava.
Quando finalmente puderam ver a estrada de pedra real e as muralhas da Capital Symmeon adiantou suas passadas a fim de chegar mais depressa no galpão de treinamento e poder preparar a carne o quanto antes, mas Yunna ficou para trás ao ver aquela cena: o cavalo magro e manco carregando um rapaz tão magro quanto em sua garupa. Ele, um jovem que aparentava ter a idade de Yunna, parecia desacordado e se equilibrava com ajuda da sorte. A bondosa garota correu ao encontro do cavalo, mas sua aproximação assustou o animal e o que ela queria evitar aconteceu, e o rapaz caiu.
Vendo-o mais de perto ela notou nele um broche a prender sua capa e viu nele o selo do que seria uma grande casa, a espada no seu cinto confirmava que ele não era qualquer um, mesmo com seus cabelos castanhos, olhos negros e rosto abatido. Ele sequer parecia ser mais alto que ela.
Yunna o chamou então, sacudindo-o pelo ombro. Symmeon já se aproximava.
– Ei, acorde. Você está bem?
O garoto então murmurou com dificuldade:
– Carne... Sinto cheiro de carne...
Yunna olhou para Symmeon que fitou com descrença o faminto rapaz no chão depois com pesar olhou para sua bolsa que pingava o sangue da carne do cervo. A segunda olhada que Yunna deu para seu mestre foi a mesma que uma criança dá para os pais ao ver um cachorro perdido, e queria dizer: vamos levar para casa?, e o mestre assentiu com o olhar de “só por esta noite”.
Já no galpão Yunna tratou da febre do jovem como se já o conhecesse há muito tempo, embebendo panos em água e cobrindo sua testa. Por sorte ele não tinha ferimentos, apenas cansaço e fome, e talvez o princípio de um resfriado. Ele só foi acordar quando a noite já havia caído e pareceu perdido e espantado.
– Onde estou? – ele perguntou colocando uma mão sobre a cabeça e tentando se sentar. Yunna o impediu.
– Não se preocupe, você está na Capital. Eu e meu mestre encontramos você desmaiado e o trouxemos até nosso galpão.
– Você e seu mestre? Quem são vocês afinal?
A garota se afastou da cama e sorriu semisserrando os olhos. Vestia agora roupas mais leves que as que usara para caçar – um vestido de seda verde que ela puxou para os lados pelas pontas enquanto se inclinava, tentando ser cortez.
– Sou Yunna, e meu mestre se chama Symmeon Arcolongo. E você?
– Sou Allan... – ele falou, e com um clarão em sua mente ele concluiu com estranheza. – Sir Allan Coldstone, na verdade.
– Um cavaleiro? Fico honrada em poder ajudar. Veio para o torneio?
– Sim. – Ele respondeu. – Se quiserem eu pagarei pelo tratamento, mas acho que preciso procurar um lugar para ficar.
– Acredito que meu mestre não se importaria em hospedá-lo aqui. – Yunna falou.
Symmeon que estava do lado de fora do quarto escutando abriu a porta e disse:
– Claro que poderá ficar, sir, desde que pague.
E assim foi.
Allan se recuperava rápido, Yunna não podia deixar de notar. Dois dias se passaram e o jovem cavaleiro já estava no pátio praticando com sua espada e desferindo golpes em bonecos de palha, enquanto Yunna como sempre pelas manhãs saia pela capital para comprar pão e peixe, neste dia decidiu pedir para Allan acompanhá-la.
– Já esteve na Capital? – ela perguntou enquanto eles andavam pelo porto. Dezenas de embarcações aportadas e centenas de homens gritando e vendendo. Alguns trapaceiros jogavam cartas sentados em barris enquanto homens magros vindos de outros continentes levantavam remos de embarcações esguias, tudo combinado com um odor pútrido de tripa de peixe. – Se não, bem vindo à Capital.
Allan olhava para os lados aturdido, a mão pousada no cabo da espada como um bom soldado faz.
– Parece amável. – ele disse.
Yunna sorriu.
Eles compraram alguns peixes no porto e adentraram outro bairro da cidade. Quanto mais distantes da água, menos fedia a peixe e mais fedia a merda. Mendigos por todos os lados e viajantes entupindo estalagens por conta do torneio enquanto guardas armados de lanças patrulhavam as ruas. Sem dúvidas não era uma boa visão para alguém que estava pela primeira vez na Capital, mas era ali que ela fazia compras.
Os dois entraram em um mercadinho onde dezenas de sacos com sementes estavam espalhados pelos cantos, carnes penduradas em varais sobre suas cabeças e uma velha desdentada de raros cabelos brancos jazia imóvel atrás de um balcão.
Sir Allan puxou a espada de prontidão.
– Devo buscar ajuda?
– Está tudo bem. – Yunna tentou acalmá-lo. – É assim mesmo. Dona Glória. – a garota gritou se aproximando do balcão. Sem efeito. Tocou um sino disposto à esquerda e a senhora levantou em um pulo.
– Pois não, pois não, quem é? – ela perguntou franzindo os olhos. – Ah filha, é você. O que deseja?
– Um saco de pães e um de carne, por favor.
Enquanto as duas negociavam Allan tentava compreender o que acontecia, ainda com a espada em mãos e a boca aberta, decidiu se aproximar.
– Dona Glória, este é Sir Allan Coldstone. – Yunna os apresentou. – Ele acha que a senhora devia cuidar melhor da sua loja.
A velha riu.
– Ninguém faria nada comigo. Eles sabem que a pupila do Arcolongo é minha cliente. Hihihi.
Terminando as compras eles saíram mais uma vez pela cidade. Allan não falava muito, afugentado pela beleza da garota de cabelos brancos, mas Yunna alegre com sua nova companhia, não parava de falar. A garota estivera só com seu mestre desde que chegara há quase um mês e seus únicos contatos externos eram com o vendedor de peixe e Dona Glória, ter uma nova companhia quase a fazia esquecer que estava longe de casa.
Andaram por uns dois bairros e finalmente chegaram ao centro. Allan sabia que era o centro por conta de uma estátua gigantes do rei Bullbuster que construiu a Capital, a fortaleza Monte d’Ouro se erguia às costas, dourada e prateada, reluzente.
– Agora sim, bem vindo à Capital. – Yunna falou, sorrindo.
Allan olhava estupefato para a fortaleza. Tanto ouro, tanta prata, tanta riqueza, era incrível que estivesse tudo nas mãos de uma só família.
– É realmente incrível.
– Sim. E no torneio todos estarão lá para nos fazer ricos também.
– Você também vai participar?
– Claro. Faz parte do meu treinamento em arquearia.
– Boa sorte para nós então.
– Sim, boa sorte.
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