O cantar estranho de aves nunca vistas antes podia ser ouvido em meio ao som emitido por criaturas assombrosas. Os guardas da Fronteira ouviam aqueles sons todas as noites e ainda assim não haviam se acostumado.

Como era sabido por eles, todos os dias um dos guardas tinha de ir floresta adentro e verificar se as armadilhas estavam intactas e colocar armadilhas novas em novos pontos. Todo o cuidado era pouco se tratando de vigiar a Floresta da Fronteira. Nesta noite em questão, era a vez do recém-chegado Louis Hertz, um jovem pálido de face maciça como mármore, cabelos negros falhos e um nariz pontudo e grande curvado para baixo. Parecia ser um jovem corajoso, afinal, estava agora participando da Guarda da Fronteira por vontade própria, mas mesmo o mais bravo dos homens estremece ao entrar na Floresta da Fronteira pela primeira vez.

Louis tomou um dos cães de caça pela coleira e caminhou mata adentro. Nenhum muro ou barreira dividia a floresta do acampamento dos guardas, só era possível saber onde terminava um e começava o outro pela maneira que árvores velhas e cobertas de estalactites de gelo e musgo apareciam abruptamente onde o campo aberto terminava. Louis passara pelas primeiras árvores e já se encontrava envolto pelo selvagem som da floresta.

Fazia muito frio e a fina neve da noite começara a cair. O extremo norte estava nos seus dias mais mornos, ainda assim um homem despreparado morreria facilmente, e Louis sabia disso. Levava em seu corpo um punhado de peles de lobo, uma sobre a outra dobrando o seu peso, além da armadura cinza-prateado que os guardas da fronteira usavam há séculos. O cão parecia assustado com os sons vindos da profundeza escura da floresta; Louis não era diferente, tremia de frio e suava em bicas de nervosismo. O som de uma moita alta sacudindo às suas costas o fez virar abruptamente, deixando o cão escapar de suas mãos. Ele estava agora sozinho.

- Maldição! – exclamou se agachando, em seguida chamou o cão em voz baixa: – Volte aqui cão maldito! Volte!

O som da floresta engoliu os passos do cão que já ia longe. Louis estremeceu. Continuou agachado por alguns minutos, ouvindo atentamente os sons vindos da mata quando percebeu que algo se aproximava. O rapaz engatinhou até uma moita alta e desembainhou a espada, segurando-a rente ao corpo, pronto para furar o que quer que estivesse se aproximando.

Os passos esmagando o gelo formado sobre a vegetação rasteira parou de repente. Louis gemeu. Um toque em seu ombro fez com que ele virasse seu corpo rapidamente em um ataque desesperado, caindo sentado no chão depois de atingir algo com sua espada.

Emergiu então das sombras um homem tão grande quanto um urso. Forte e peludo, com os ombros largos cobertos de neve, parecendo o cume de montanhas. Ele recolheu a mão ensanguentada para junto de si e falou com voz estridente:

- Estava cagando, novato? – sua barba era negra e escondia o grande rosto largo, deixando a mostra apenas pequenos olhos cor violeta. Vestia a mesma armadura cinza-prateado dos homens da guarda.

- Senhor, me desculpe. – Louis se levantou usando a espada como apoio. – Eu... Não imaginei que fosse o senhor.

- Tudo bem rapaz! – o grandalhão urrou depois de duas ou três gargalhadas. Enrolando a mão em um pano ele prosseguiu: – Você não é o primeiro a se borrar durante uma patrulha, e não será o último. Com certeza!

Louis ameaçou corar, mas abaixou a cabeça escondendo suas maçãs avermelhadas. O homem grande se aproximou.

- Os outros guardas disseram que você havia partido levando um dos meus cães. Eu tentei alcançá-lo no intuito de alertá-lo sobre o quão traiçoeiros são esses animais, mas pelo visto já lhe é sabido. – olhou em volta, percebendo a falta do cão. – Esses cachorros se recusam entrar na floresta mesmo de dia, não sabe?

- Não queria perder um de seus animais, Senhor Houou. – lamentou.

- Tudo bem. Tenho dezenas deles. Agora vamos voltar, ou você ainda tem de terminar seu trabalho?

- Tenho de terminar... – disse Louis, preocupado.

- Certo. Vou voltar para o acampamento então. – o guarda-caças Houou virou-

-se e partiu deixando um alerta para Louis: — A floresta hoje está mais ativa do que de costume. Cuidado! – E sumiu de vista.

Uma névoa fina começava a subir do chão e junto da neve deixava a floresta ainda mais sombria. Louis não sabia se os vultos que via eram animais ou apenas ilusões criadas pelo medo. Ah, como ele queria ter o cão consigo. Como desejava ainda mais que o guarda-caças Houou o acompanhasse! Mas ele estava só.

Pôs-se então a adentrar ainda mais a mata, afinal, ele não devia se esquecer de que era um guerreiro bravo da Guarda da Fronteira. Sua família era tradicional, e um dos maiores Escudos do Rei, Aron Hertz, fora do seu sangue. Mesmo que apavorado, ele devia achar as armadilhas e terminar seu trabalho para então voltar ao acampamento de cabeça erguida levando consigo talvez até mesmo uma caça, caso tenha sorte com as armadilhas.

O rapaz de repente parou. Acordou de seus devaneios e viu-se perdido. As árvores que levavam às armadilhas eram todas marcadas com cortes pelos guardas que passavam por elas à noite. Era uma forma de não se perder e acentuar ainda mais o caminho para as armadilhas, mas onde Louis estava as árvores eram tão pálidas quanto ele e não havia nenhum arranhão em seus caules. O rapaz teve de se aproximar de uma, tocar seu tronco liso e branco para poder acreditar. Nenhum corte. Ele estava realmente perdido!

E então o som de passos ecoou de algum lugar e uma dúzia de alces correu ao seu encontro saindo de trás do nevoeiro. Louis precipitou-se para o lado e tombou. Era uma vala meio inclinada de aproximadamente cinco metros que levava ao fundo de um poço. A queda pareceu eterna, até que finalmente Louis atingiu a neve no fundo do poço com um tuf abafado. Levantou com dificuldade e tentou se apoiar na parede do buraco, mas no ato de erguer o braço o jovem guarda sentiu uma pontada aguda na região do antebraço que o deixou zonzo. Olhando com atenção viu que o osso trespassava músculo, carne e pele. Era uma dor insuportável. Louis se sentou na neve e segurou o antebraço quebrado que se dobrava de forma não natural chegando a causar náuseas. A ponta de osso estava lá, inclinando-se para fora da pele diagonalmente, o rasgo na pele era pequeno, mas Louis sabia que se aquele osso havia saído com certeza ele entraria novamente.

As peles que ele carregava sobre os ombros estavam espalhadas pelo chão. O rapaz foi ajoelhado até uma delas e a segurou, deixando o braço quebrado pender ao lado do corpo. Usou o braço esquerdo intacto e a boca para rasgar a pele em pequenas tiras, oque deu muito trabalho, mas depois de vários minutos conseguiu tirar uma que pudesse ser usada.

Voltou à parede do poço. O que aconteceria se começasse a gritar?, era o que o jovem se perguntava. Sabia que o acampamento ficava longe dali, e atrasos nas patrulhas eram comuns então era pouco provável mandarem alguém atrás dele. Tinha de escalar, mas antes tinha de cuidar de seu braço. Pegou a tira de couro e colocou sobre a perna. Olhou para o braço. O sangue já estava começando a secar. Ele tinha de ser rápido. Segurou o pulso do braço quebrado e puxou com força, alinhou o osso com o ferimento por onde ele havia saído e colocou-o de volta pra dentro. A dor era alucinante. Era infernal, chegava a afetar todos seus sentidos. A vista de Louis escureceu e um zumbido infernal adentrou seus ouvidos. Na boca sentia um gosto amargo. Ele quis vomitar, mas não houve tempo pra isso, depois de alguns segundos Louis já estava desacordado.

Acordou muitas horas depois. Já era quase meio-dia do outro dia e a luz do sol que se posicionava exatamente sobre a cabeça de Louis ofuscava sua visão. Ainda assim ele pôde ver a silhueta de homens altos de pele caramelada andando por todos os lados em sua volta. Eles não usavam armaduras, apenas enormes peles de lobos e ursos tão grandes que lhes serviam como capa e arrastavam pelo chão. Louis tentou cobrir os olhos com seu braço direito. O braço quebrado. Lembrou-se do ferimento, mas já era tarde, teve tempo apenas para apertar os dentes e não gritar com a dor; a dor que não veio. Louis só compreendeu o que estava acontecendo quando o que havia uma vez sido seu braço estava sobre sua cabeça. Seus olhos já acostumados com a claridade viram que o antebraço quebrado havia sido amputado no cotovelo em um coto horripilante, mas pelo menos a dor já não estava mais ali.

O jovem sentiu-se nauseado e se virou para vomitar. Agora que já podia ver claramente, percebeu que estava em um descampado qualquer dentro da Floresta da Fronteira. Os homens de pele caramelada se assemelhavam bastante com os bárbaros-selvagens das terras-para-lá-da-fronteira, mas falavam a língua comum dos homens civilizados, mesmo que com um sotaque nada civil. Vira também de onde havia saído aquelas peles que vestiam, brancas como a neve, tão grandes e majestosas. Pois lá estavam as cabeças e alguns ossos dos animais; cabeças de ursos e lobos capazes de abocanhar a cabeça de ursos e lobos comuns e ossos duas vezes maiores do que de cavalos se amontoavam no que parecia ser um caldeirão. Louis podia até imaginar animais tão brancos e tão grandes. Só ouvira falar deles em histórias, mas estava certo de que eram peles de ursos-mortases e de lobos-gigantes-das-neves. Chegava a ser amedrontador pensar que animais assim ainda existissem nas extensões desconhecidas da Floresta da Fronteira; que segredos mais estariam escondidos nas profundezas da floresta?

Louis sentiu então alguém se aproximar. Olhou com seus olhos cansados de um jovem que viveu muito mais do que gostaria – e poderia – viver, em apenas algumas horas.

O homem estava lá, parado, era totalmente diferente dos outros de pele caramelada. Este tinha aparência comum, como um homem do continente de Rhorus, e quando abriu a boca para falar viu que se tratava de um:

- Desculpe se não agimos com a devida cortesia. – falou o homem num sotaque comum perfeito. Ele era rechonchudo e tinha dois olhos arregalados e curiosos, além de uns raros fios de cabelo pendendo sobre as orelhas. – Mas sabe, você espantou nossa caça – Louis se lembrou dos alces. Malditos alces. – por isso decidimos que seria justo trazê-lo aqui.

O jovem estava assustado. Pensou se teria entendido direito oque o homem havia lhe dito. Depois, olhou na direção do caldeirão cheio de ossos e cabeças gigantes. Se desesperou:

- Por favor! Por favor, por favor, por favor! – o jovem se debatia inutilmente enquanto proferia as palavras como em uma oração desesperada. Os grandes homens caramelados seguraram seus pés e seu braço esquerdo – o coto do direito não mostrava perigo – tentando fazê-lo parar. – Eu sou Louis Hertz. O herdeiro da casa Hertz. Com certeza você já ouviu falar! Deve saber quem sou! Se é mesmo de Rhorus sabe quem sou! – o gordo de olhos esbugalhados estava agora segurando um cutelo de açougueiro. Seu sorriso era sínico e divertido. Louis continuava lançando suas palavras. Proferindo ameaças: — Se fizer algo comigo meu pai vai cair sobre você e seus homens e esmagá-los como insetos!

O gorducho teve de rir.

- Meus homens? – ele perguntou. – Rapaz, eu sou apenas o cozinheiro. Entenda, ficar acampado nessa floresta infernal por tanto tempo nos faz tomar medidas drásticas. Você espantou nossas caças. Agora há de pagar!

O cutelo trovejou caindo sobre o braço esquerdo intacto de Louis. Malditos alces, ele praguejava enquanto o cozinheiro fazia seu trabalho. Um punhado de alces fugindo vai me transformar em guisado! Aquilo parecia irreal.

O jantar estava sendo preparado ao som dos gritos do jovem Louis. A primeira estrela já despontava no céu da tarde. Não muito longe dali o guarda-caças Houou e outros homens da Guarda da Fronteira riam e se divertiam entornando odres de vinho e comendo carne de alce. Eles de nada suspeitavam.

Notas finais
Olá, olá, me chamo Sandro e esta é a primeira história que posto aqui.
Sempre achei que Rhorus fosse uma das minhas coisinhas mais bem escrita; minha favorita; e por isso decidi postá-la em vez de qualquer outra.
Baseada em livros de fantasia como As Crônicas de Gelo e Fogo - que vocês sem dúvida vão ver uma grande inspiração e talvez até alguma similaridade - e Senhor dos Anéis, Rhorus é minha tentativa de unir fantasia com e realismo, evitando qualquer protagonismo. Minha tentativa de colocar mocinhos de boa índole e crápulas trabalhando juntos em prol de uma causa, e de tentar explorar o lado político de um mundo que aos poucos vai se criando.
Por fim, Rhorus é um grande experimento, e eu espero que vocês gostem.
Tchauzinho.