Rhorus

4 Brynden Sand


Notas iniciais
Demorei um pouco a postar, mas aqui está. Capítulo novo da Víbora.

A manhã pareceu chegar depressa mesmo a madrugada tendo se arrastado pesarosamente. A víbora não havia dormido e viu e ouviu os homens de seus irmãos pondo-se em marcha.

Eles não me querem junto., compreendeu de imediato. Mas pelo menos não tenho uma força mínima de sessenta homens. Agora posso me arranjar com estes cento e dez.

Uma hora depois da partida dos irmãos, Brynden saiu de sua tenda e colocou-se em marcha para o porto. Na noite anterior tinha preparado três galeões para levá-los até Sedareia, e naquela manhã eles já estavam à espera. Seus homens se dividiram nos barcos e eles partiram sem tardar. Brynden não pretendia chegar a Terralta com tão poucos homens, e muito menos marchar direto para lá. A Mata era grande, então eles tinham que aproveitar.

A maior parte dos homens de armas da víbora era composta de lanceiros. Em Sedareia, a cidade mais próxima, Brynden esperava conseguir mais artilharia, além de armas de cerco, mas o Senhor de daquela cidade não gostava muito do bastardo de seu suserano.

A viagem durou três dias, sem imprevistos. Vista de longe, a cidade era repleta de construções abobadadas e torres em forma de romã, e o castelo do lorde se estendia na outra extremidade, branco e dourado, contrastando com as dunas às suas costas. Era uma bela cidade se olhando ali do mar.

Eles chegaram aos portos e Brynden desceu apressado, quase nem notou uma aglomeração ali perto. Decidiu parar para observar os dois guardas arrancarem um homem esfarrapado de dentro de uma embarcação, enquanto este por sua vez gritava e esperneava, implorando misericórdia.

– Luxxis, venha cá. Você precisa ver isso. – o bastardo estava com um sorriso excitado no rosto olhando toda aquela cena. Seu amigo e capitão olhava tudo da balaustrada do navio, e desceu ao ouvir ser chamado.

Luxxis já era quase um senhor, duro, robusto, gordo e quase careca, dificilmente impressionável por conta dos anos que passou em alto mar, e principalmente pelos anos que passou como Capitão particular de Brynden Sand, carregando-o de cima a baixo no globo, visitando os mais desconhecidos lugares; era um amigo acima de tudo. Convencido por Brynden, eles começaram a seguir os guardas e a pequena multidão que se formava.

O homem capturado fora levado para a praça, não muito longe dali. Seria uma bela praça, por assim dizer — com fontes, árvores, e um pequeno lago -, se não fossem as duas enormes lanças de bronze posicionadas bem no centro, com um corpo apodrecido empalado em uma delas, exalando um fedor pútrido. O intestino do que uma vez fora um homem pendia do lado de fora da barriga, que estourou com o acumulo de gás por conta da decomposição acelerada – graças ao calor infernal do deserto que os circulava; as órbitas do homem vazias, há muito comidas pelos corvos.

– Morte por empalhamento. – a víbora sussurrou, esfregando levemente o nariz. O cheiro da morte não o incomodava mais. – Este é o castigo empregado àqueles que são acusados de assassinato no Extremossul, e há séculos vem sendo.

O Capitão Luxxis, homem dificilmente impressionável, evitava olhar diretamente para o corpo, e prendia a respiração periodicamente.

– Vamos embora daqui, Brynden. Não temos tempo para esses showzinhos de tortura sulistas. – falou.

– Espere.

O homem anteriormente capturado agora era levado para o centro da praça e colocado de joelhos em frente ao homem empalado, o Gran Juiz da cidade, que até agora se mantivera fora de vista, aparece, vestindo sua túnica branca e vermelha; em suas mãos o Saintrülz – livro de normas e punições dos Sulistas de Bronze, baseado nos contos de Mahak, seu Deus.

–... “E Mahak subiu ao céu, tomando a forma de uma enorme serpente, e toda a vila se viu engolida pela sua sombra” – ele começara a ler, entoando as palavras como em um cântico. E a multidão gritava xingamentos ao homem ajoelhado. – “temor e assombro assolaram à sua população. E ele disse: se roubares, de ti será tirada uma parte; se ferires a alguém, alguém a ti deverá ferir. Mas se matares o que for homem, não há misericórdia para tal pecado; sua vida lhe será tirada, e como um porco será tratado. E cuspiu fogo sobre a vila, e todos os pecadores que nela havia pereceram”.

– Como vocês tratam os porcos por aqui? – Luxxis perguntou a Brynden, atônito.

– Nós o limpamos, colocamos em um espeto e o levamos à brasa. – e a víbora riu. Foi então que o velho capitão percebeu, que durante séculos e séculos a fio, os Sulistas de Bronze haviam interpretado àquelas escrituras da forma mais insana possível.

O homem ajoelhado foi colocado de pé. Seu rosto gasto estava só lágrimas, e ele já não tinha joelhos firmes para se manter. O Gran Juiz acompanhou o acusado e os guardas até um tronco, ali perto sob a sombra, onde o acusado foi colocado de costas e amarrado pela testa, tórax, abdome e quadril, a fim de garantir um ângulo reto. O tronco com o homem, agora deitado na horizontal, foi levantado cerca de um metro e meio do chão, e um dos guardas marchou até ele passando um pano úmido no rosto do réu.

Limpamos, Brynden Sand repetia suas palavras mentalmente, enquanto assistia tudo atentamente.

O Gran Juiz proclamou.

– Este homem é acusado de estuprar e matar mãe e filha, com a ajuda de seu comparsa, julgado há duas semanas. Que a justiça de Mahak purgue sua alma.

Três guardas marcharam dessa vez, caminhando até a grande lança no meio da praça. A lança não usada. O bronze parecia estar quente por conta das semanas que ficou exposto ao sol, mas os guardas não esboçaram dor, apenas seguraram-na e caminharam até o homem preso no tronco em horizontal. O acusado estava apavorado. Gritava e sacudia suas pernas que não tocavam o chão, mas estava incapacitado de se mover mais que isso.

Quando a ponta da lança quente começou a penetrá-lo toda a cidade pareceu ser tomada pelo eco de um grito inarticulado de dor. Os guardas sequer vacilaram. Eles empurravam a lança vagarosamente; fazia parte do ritual de execução: a lança devia entrar pelo anus e trespassar os intestinos, o estômago, passar pelo esôfago, e por fim sair pela boca. Os guardas a guiavam pelo interior do homem, em meio a todo o sangue e dejeto que esguichava e escorria pela haste, achavam o trajeto correto e empurravam. O único som que se ouvia agora eram os gritos do executado, que só vieram a parar depois de 7 minutos, quando a ponta da lança lavada em sangue saíra em sua boca, fazendo-o emitir apenas um baixo som de gargarejo. Ele era forte, só morreu quando 10 minutos já haviam se passado. Os ladrilhos da praça tingidos de vermelho.

Colocamos em um espeto, Brynden repetiu novamente para si mesmo, esperando a conclusão do ato.

Os mesmos três guardas que empalaram o homem desamarram-no do tronco e carregaram-no como um porco para o centro da praça, colocando a lança novamente na vertical e enterrando a base para dar sustentação. O sol o atingia com intensidade assim como fizera com seu comparsa, executado há duas semanas. Era como se uma grande lupa estivesse sobre eles. Uma lupa divina. Os guardas olharam para o espeto de homem a sua frente e fizeram uma singela reverencia, saindo em seguida.

E o levamos à brasa. Fim de ato.

A multidão começava a se dispersar como se nada de mais tivesse realmente acontecido, mas Brynden continuou parado, e Luxxis ao seu lado, completamente atordoado com o que acabara de presenciar.

– Agora entende por que falei que devíamos assistir? – a víbora quebrou seu silencio e perguntou enfim.

– Por que você e seu povo são loucos de pedra?

– Não. – ele riu. – Também. Mas principalmente pra que você pudesse ver do que eu escapei.

E o capitão se calou. Olhou nos medonhos olhos de seu amigo e companheiro de viagem e pareceu ver alguma tristeza, que aos poucos foi se dissipando quando de repente Brynden se lembrou.

– Temos assuntos a tratar nesta cidade. Vamos!

A entrada para o castelo de Noitecantiga era enorme, quase tão grande quanto a entrada do castelo dos Rowen em Pedravelha, mas sem dúvidas o monumento em si era bem mais glamuroso. As pedras brancas de que fora construído foram mineradas nas Minas Salubres, uma pequena ilha no litoral, as pedras extraídas dela era tão alvas que no norte se passariam por neve facilmente. Adentrando às pesadas portas sem escolta, deu de cara com o gordo Lorde Noitecantiga rindo de algumas brincadeiras de seu bobo. A bandeira de sua Casa tremulava na parede às suas costas, negra e rosa, com um morcego voando ao centro.

– Espero não estar interrompendo nada. – a víbora falou sorrindo.

– O que o bastardo dos Rowen faz aqui? – Noitecantiga quis saber, perguntando para seus guardas.

– Ele diz ser importante. A mando do nosso Lorde Rowen.

– Sim. Meu pai mandou-me aqui. – Brynden gritou da porta. – Seria gentil me convidar para sentar. Talvez um pouco de pão e sal para começarmos a conversa.

– Tem medo que eu lhe mate, víbora?

– Não que o senhor me mate. Mas é sempre prudente estar protegido pelos direitos de hóspede debaixo do teto de alguém que te odeia.

– Não há necessidade. – Noitecantiga falou. – O único monstro aqui é você.

Brynden sorriu e caminhou indo se sentar ao lado do gordo lorde.

– Já deve estar sabendo que estamos marchando contra Terralta. – Noitecantiga fez que sim com a cabeça. – Meu pai não teve tempo de reunir os vassalos já que sua ordem foi de última hora. Talvez ele queira provar o valor dos Rowen; o valor dos Sulistas de Bronze.

– Mas em vez de marchar para Terralta você preferiu vir até Sedareia e tentar me tirar algumas tropas. Entendi.

– Vim pedir para que marche por seu suserano. É vassalo de meu pai, senhor, não deve se esquecer.

– Nunca me esqueço. Mas ceder meus homens a você...

Ele nunca vai se esquecer do que fiz com sua filha.

– Se todos pensassem dessa forma, nem mesmo meu pai teria me cedido homens. Estará marchando sob estandartes Rowen, não meus. – a víbora fitou profundamente os olhos do gordo Lorde Noitecantiga que se remexeu em seu cadeirão. – Só quero algumas armas de cerco e homens. Uns cinquenta, se não for pedir demais.

– Essa quantia posso ceder ao seu pai. Mas saia da minha cidade o mais cedo possível.

– Sim. Assim que meus homens estiverem devidamente alimentados.

– Então vá. Pegue seus cinquenta homens, cinco catapultas e cinco aríetes. Saia da minha frente logo, bastardo.

– Como desejar. – Brynden falou se levantando e indo em direção à porta, mas antes de sair parou e falou: — Quando aportei dei de cara com uma execução. Dois corpos na praça, milorde. Está com um problema de criminalidade?

– E o que isso lhe importa?

– Apenas curiosidade. – o sorriso de troça não saía de sua face. – E pensar que por pouco escapei do mesmo destino. Aliás, como vai sua filha? Bela dama, qual era mesmo seu nome...?

O rosto de Noitecantiga enrubesceu e as veias ficaram mais aparentes em sua testa larga. Ele então começou a gritar.

– Vá! Bastardo! Saia já da minha frente, ou eu juro que dessa vez você não escapará de nenhuma execução!

Brynden saiu com um sorriso zombeteiro e bateu a porta. Saltitava e dava suas melhores risadas.

Dói para ele pensar que sua única filha terá um bastardo do bastardo dos Rowen., a víbora pensou sem tirar seu sorriso do rosto. Mas logo ele ficará feliz com tal honraria.

Ele passou parte da tarde recrutando os cinquenta homens e empurrando as catapultas e aríetes para as galés. Seus homens depois de devidamente servidos de comidas e putas já estavam prontos para partir. E assim foi antes do sol se por. A guerra estava por vir.

Notas finais
Olá, olá. Demorei mas cheguei (ninguém se importa. -q) Bom, eu não achei que fosse ficar tanto tempo fora, então não pensei em agendar nenhum outro capítulo, mas aí está. POV de número dois de Brynden Sand. E novamente vocês vão ver alguns elementos tirados de GoT. Neste capítulo eu tentei introduzir um pouco mais o personagem, além dos costumes do Extremossul. E um pequeno spoiler se me permitem: tudo que ele está fazendo servirá pra algo que começa no quarto POV dele. Aí vocês vão conhecer ele de verdade. u.u Enfim, talvez esta madrugada eu poste o próximo capítulo apresentando novos personagens. (Aviso: Pra vocês não perderem o interesse - os poucos que tem interesse - , eu gostaria de avisar que as histórias, mesmo separadas, fazem parte de um todo. Então tudo o que acontece é importante. Leiam pensando nisso. Bye.