Rhorus
11 A víbora
Notas iniciais
A Víbora
A Mata estava em chamas.
Haviam se passado três dias desde a tomada da fortaleza dos Rose e Brynden avançava cada vez mais fundo naquele território, queimando plantações e saqueando aldeias por onde passava. Ele elaborara um plano astuto e peculiar para tomar as outras duas fortalezas que se seguiam, e Dolores Rose tinha um papel importante neste plano.
Antes de partirem de Vila Garden Dolores mostrou para Brynden onde ficava o arsenal de sua Casa e lá a víbora armou e vestiu duzentos de seus melhores homens em cores Rose, e assim partiram para os Lotus – uma outra Casa menor, vassalos dos Templey. Uma carruagem nos estábulos foi enfeitada com uma bandeira vermelha e rosa e homens de Brynden em cavalos carregavam estandartes nas mesmas cores, enquanto o restante da formação marchava atrás.
Assim foram tomadas outras duas fortalezas; os Lotus e os Murdder. Agora, no terceiro dia de investida Brynden planejara algo maior.
A víbora estava no aposento que tomara para si na fortaleza dos Murdder. Era um quarto espaçoso com um dossel em madeira de carvalho no canto oposto ao enorme guarda-roupa; uma coleção de espadas disputava a parede sul com várias cabeças empalhadas dos mais diversos animais, e a grande porta velha já roída por cupins estava trancada.
Dolores também enfeitava o quarto: deitada sobre a cama cobrindo sua nudez com algumas peles. A garota continuava bela mesmo com uma aparência cansada, olhos fundos e cabelos quebradiços – como se já não dormisse há dias. Ela sorria quando via o bastardo que a levara de casa e matara pessoas amadas por ela, e estivera fazendo isso desde sua primeira noite com ele.
Brynden também parecia cansado e meio adoecido naquela noite em questão, como se tivesse envelhecido alguns anos nos três dias que se passaram; sua fala era tossida e necessitava de esforço. Mesmo quando Dolores saía de baixo dos cobertores e ia ao seu encontro, o bastardo se mostrava pouco à vontade com aquilo que ela lhe oferecia. Ansiava que alguém o tirasse dali.
Quando Luxxis bateu em sua porta solicitando uma audiência, Brynden ficou aliviado.
No grande salão daquele pequeno castelo mais cabeças empalhadas se via. Fosse quem fosse Lorde Murdder parecia ter demasiado gosto pela caça. Sobre uma enorme mesa diversas cartas estavam empilhadas e um mapa se dispunha ali, meio aberto, meio enrolado; a grande lareira à esquerda da mesa completava a decoração com suas chamas dançantes que faziam a lenha crepitar.
Luxxis caminhou para trás da mesa e procurou não se impressionar com o que o bastardo fizera a si mesmo. Sua aparência abatida era culpa apenas dele e de sua ganância. Começou então a falar:
– Encontramos as cartas que o Conselheiro dos Murdder trocava com seu senhor. As coisas parecem na mesma: Lorde Kimberly Templey segura as tropas de seus vassalos em Terralta, esperando um ataque do senhor seu pai. Mas nós não temos como saber quanto tempo isso vai continuar, é arriscado continuar entrando mais fundo no território.
Brynden tossiu e cuspiu, e Luxxis pôde ver sangue misturado ao muco.
– Se esqueceu que viemos para atacar Terrata?. – a víbora falou. Agora era seu nariz que começava a sangrar e ele apressou-se em limpar com a manga de seu roupão. – Vamos atacar mais uma Casa e depois decidiremos o que fazer. Os Jhady são os vassalos mais ricos do Senhor da Mata, talvez uma das Casas mais ricas do reino, e fica a apenas um dia de marcha daqui. Usaremos a Dolores mais uma vez. – sua voz estava rouca e ele fazia algum esforço para falar.
– Brynden, me escute. Os mercenários já cobram suas partes para poderem partir, seus soldados mal dormem à noite por temer serem pegos de surpresa pelas tropas dos Templey e nossos navios estão quase sem guarnição em águas inimigas. Não seja tolo, vamos voltar. Todo o saque e destruição que você causou de Vila Garden até aqui não é o bastante? Essas terras não voltarão a ser o que eram tão cedo.
O bastardo pigarreou, cansado daquela conversa, virou as costas fazendo seu cabelo prateado esvoaçar e falou:
– Vamos marchar para os Jhady amanhã, e depois contra Terralta. Pague os mercenários que quiserem partir, mas antes avise-os do saque que estão por perder.
– Tem pelo menos dez mil homens em Terralta, Brynden. Marchar para lá seria loucura.
– Onde está seu espirito de aventura, meu bom capitão?
Quando ele se preparava para sair Luxxis o puxa pelo ombro e o encara nos olhos – os olhos purpúreos e acuadores já não eram tão ameaçadores agora, pareciam meio débeis.
– Pelo menos liberte a garota do Encanto. Veja o que isto está lhe causando. Veja o que está causando a ela.
– Posso aguentar por mais um tempo.
– Isso é feitiçaria, garoto. É magia de sangue. Você sabe que o que tem que pagar cada vez que usa esses poderes escuros. Diga-me, você usou o mesmo com Lorde Hargalen em Salinas, não foi?
– Talvez. Um pouco. Naquele caso era diferente. Hargalen é um homem de mente enfraquecida pelo vinho, então não tem o mesmo preço.
– Mas e a garota? Este Encanto é forte, Brynden, nunca o vi usar um poder tão grande por tanto tampo.
Brynden se lembrava de seus tempos em Asran, vivendo na vila das bruxas. Ele se lembrava dos ensinamentos. Do cheiro de carne humana apodrecendo sobre um altar negro, e da primeira vez que provara o gosto do sangue.
Tudo isso aconteceu há dez anos e os avisos do que tais poderes poderiam lhe causar ainda ressoavam em sua cabeça em um infindável eco torturante. Mesmo assim o bastardo se forçou a sorrir e maneou a cabeça para seu amigo.
– Não se preocupe. Eu sei o que estou fazendo. – Sei?– Avise os homens que sinto-me um pouco indisposto esta noite e diga-lhes que amanhã marcharemos mais uma vez.
De volta a seus aposentos ele foi encontrar Dolores já dormindo. A ruiva substituíra as peles que antes a cobriam por um fino lençol vermelho e suas curvas se acentuavam ainda mais sob ele. Brynden pôde sentir uma fraca animação que cessou quando as vozes começaram:
Por que não tê-la agora? Eu gostaria, ha, eu gostaria de tê-la agora, enquanto ela dorme indefesa., a voz grave falou primeiro, e Brynden desviou os olhos da garota adormecida levando uma mão até sua testa sentindo a temperatura.
– Estou um pouco febril, é só isso.
É, rapaz? Tem certeza?, uma segunda voz falou, dessa vez uma feminina e estridente, como ranger de dentes enquanto centenas de pratos se estilhaçam ao mesmo tempo. Por que não usar a garota e dar um jeito nisso? Sangue de linhagem nobre é capaz de muita coisa, rapaz. E a risada da mulher em sua cabeça seria capaz de acordar o castelo todo se mais alguém fosse capaz ouvir. Brynden caiu de joelhos.
Parem., ele pediu em seu íntimo, e uma centena de vozes se acenderam e começaram a tagarelar ao mesmo tempo levando-o a uma lembrança que há muito ele tentava suprimir sobre seus tempos de viajante.
Fora há dez anos, durante sua estadia em Asran. Brynden acabara de chegar a uma vila meio abandonada rodeada por um mar de flores negras. Uma dezena de casas velhas e roídas se dispunha ao redor de uma maior, esta por sua vez era rodeada de pilares esculpidos com cabeças gritantes tampando os olhos. Brynden estava dentro dela ajoelhado e ouvindo atentamente o que a velha encarquilhada de nariz pontudo que vestia uma túnica negra tinha a lhe dizer; seu nome era Dona Morte, uma bruxa.
– Você tem sangue nobre dentro de si’ssiiiiiim, eu posso sentir. – o bastardo se arrepiava com aquela voz que lhe rasgava os tímpanos, e a forma sibilante que ela dizia sim unindo-o a outra palavra o deixava atordoado. – De Rhorus me dizem. É corajoso por estar aqui’ssiiiiiim, isso eu não preciso que me digam; Isso eu vejo com meus próprios olhos. – Dona Morte falou e em seguida afastou uma mecha rala de cabelo da frente dos olhos e estes se mostraram vermelho-sangue ao redor das pequenas pupilas negras. – Mas ainda não me foi revelado o que o trás aqui.
O Brynden de dez anos atrás era mais prudente que o que marcha Mata adentro com mil e quinhentos homens. Ele abaixava os olhos diante da visão da hedionda senhora e gaguejava ao se dirigir a ela, com as palavras tropeçando para sair. Se Luxxis não estivesse ajoelhado ao seu lado lhe cutucando disfarçadamente o bastardo não teria tido coragem de proferir suas palavras.
– Sua sabedoria voa longe, Dona Morte. É conhecida mesmo lá, do outro lado do grande mar, onde um reles bastardo como eu pôde ler a seu respeito.
Aquilo não era de todo mentira. Nas estantes mais empoeiradas da biblioteca de Pedravelha o jovem Brynden Sand, muito mais chegado à leitura que à lança, havia encontrado em meio a grossos livros pouco chamativos um exemplar de Asran: entre maravilhas e horrores, escrito por um antigo explorador Rhorosi chamado Weimar River. No livro era contado tudo que o homem experimentara no desconhecido continente além-mar; a incrível narrativa dos mares pedregosos da costa Asrenha e dos países de costumes, línguas e religiões completamente diferentes das encontradas em Rhorus haviam chamado a atenção de Brynden, mas o que ele mais gostava de ler era sobre os horrores do longínquo continente; sobre o exército da noite, um grupo tão numeroso de mercenários que podiam assolar uma cidade inteira em uma só noite e o relato de como Weimar seara e marchara com eles; a escalada do homem no monte Nareöndo — uma montanha negra que cospe fogo e exala um forte odor de enxofre — e a descrição que ele fez das harpias que habitavam aquelas encostas fumegantes. Mas o que mais chamou a atenção do jovem Brynden foi o relato sobre Dona Morte, uma feiticeira de sangue que já vivia seu quingentésimo décimo aniversário. Neste capítulo Weimar narrava com crueza o poder da velha e de sua feitiçaria, e foi então que Brynden decidiu navegar até aquele lugar estranho e conhecer melhor sobre aquilo que lera.
Mas quando Brynden finalmente encarou Dona Morte seu verdadeiro querer quase deu lugar à vontade de regressar para casa. E quando a velha lhe sorriu com suas gengivas escuras e desdentadas qualquer esperança que fosse de retornar morreu.
Dona Morte então falou:
– Alguns’siiiim, alguns dos seus já passaram por aqui, mas me recordo apenas de um curioso com uma pena e um pergaminho que saiu daqui vivo. William, Winter, não me recordo. – e quando ela parecia ter desistido de se lembrar do nome fez um gesto virando levemente a cabeça para a esquerda, como se alguém lhe sussurrasse ao ouvido. – Weimar, me disseram. Passou uma quinzena conosco e escreveu um pouco do que viu aqui.
– Ele escreveu e eu li. Venho seguindo o trajeto dele até aqui e gostaria de ficar e aprender contigo. – Brynden falou, e em seguida apontou para Luxxis ao seu lado. – Este é meu capitão. Seu nome é Luxxis e eu gostaria que ele ficasse também.
– Há um preço, leu isso também em seus livros empoeirados?
O Brynden de agora não se surpreenderia com o que a velha sabia do que ele nunca havia mencionado, mas o da época se impressionou e assentiu.
– Sim. E estou disposto a pagá-lo.
Neste momento Luxxis se levantou. Mantivera a cabeça baixa, mas desde que ele chegara à vila já havia ponderado e decidira.
– Brynden, não posso acompanha-lo nisso. Seria arriscado e não tenho interesse nestes assuntos. Acamparei fora da vila e torcerei por você.
Brynden fez que sim com a cabeça e o capitão saiu depois de Dona Morte permitir.
– Brynden Sand é seu nome. Que desfeita não ter se introduzido antes.
– Perdão. Quando podemos começar?
– Não tenha tanta pressa, rapaz. Antes preciso que você saiba que neste dia de hoje será o dia que você verá sua morte, e não haverá nada que você possa fazer para mudar o que está por vir. Se você sobreviver ao processo’ssiiiiim.
Quando Dona Morte lhe serviu o elixir feito de pétalas negras e um líquido amarelo de gosto amargo Brynden a olhou com seus olhos purpúreos e entornou em uma única golada. Primeiro sua garganta ficou em carne viva, depois sentiu como se uma dezena de mãos o estrangulasse e ele quis gritar, mas não conseguiu. Suas pálpebras pesaram e ele logo adormeceu, e enquanto caia em seu sono de morte pôde ver as silhuetas das sombras que enchiam a velha casa.
Em seu sono uma donzela o recebia em um campo de rosas negras, mas em lugar algum ele encontrava a vila das bruxas, no lugar que ela deveria estar havia apenas um estreito e curto riacho vermelho que corria em S como uma serpente, a donzela o guiou até a borda dele.
– É aqui que tudo começa. – ela falou com uma voz doce. A donzela tinha belos cabelos loiros e vestia um vestido branco fino, semitransparente, que fazia realçar os seus seios. – E é aqui que tudo termina.
– Em um riacho? – o jovem Brynden perguntou, ingênuo.
– Em sangue. – a donzela respondeu, sorrindo.
Quando o bastardo se abaixou para olhar a superfície espelhada do riacho de sangue a loira o puxou pelo ombro.
– Você não quer pular para o final, quer? – e antes que ele pudesse responder ela o arrastou para a nascente do riacho. – Parta do principio.
Brynden olhou de onde brotava todo aquele sangue e pôde ver vários crânios amontoados, milhares deles, em uma enorme pilha que parecia vir do centro da terra até chegar à superfície onde o riacho brotava borbulhante, e em meio àquela confusão de crânios e sangue Brynden viu centenas de batalhas em um deserto que ele conhecia muito bem, até que as batalhas cessaram e deram lugar a uma cama de parto, e foi então que o bastardo compreendeu que aquela era a história da Casa de seu pai até o dia de seu nascimento.
A donzela tocou a superfície do riacho em um ponto perto da nascente e a correnteza parou.
– Você está aqui.
Na calmaria. Um rapaz curioso saído de um reino que reestabelecia lentamente a paz, viajando por um continente misterioso buscando aprender mais. Brynden pôde se ver caído no chão de madeira da velha casa rodeado por velas enquanto uma velha rodopiava seu corpo entoando cânticos em uma língua estranha; nas paredes da casa dezenas de sombras humanoides dançavam com Dona Morte.
– Neste ponto seu corpo luta contra o veneno da rosa negra. Seu futuro além daqui? É incerto, e por isso você pode espiá-lo se quiser.
A correnteza voltava a correr lentamente depois de a donzela dizer aquelas palavras e uma brisa soprou no campo de rosas negras que os rodeava. O bastardo se levantou e voltou a acompanhar seu curso, e quanto mais ele espiava pelas brechas do tempo mais ele se convencia de que aquele homem cruel e calculista de cabelos prateados não era ele. O sangue derramado por ele fazia a largura do riacho aumentar e em certo ponto o que ele viu o fez arregalar os olhos.
– O que isto significa? – ele perguntou apontando para o riacho, e a donzela se calou.
Na visão uma víbora coroada se colocava em posição de combate sobre um trono de arenito e à sua frente três caveiras semienterradas pela areia laranja tinham como lápide uma lança coberta de sangue.
Mas o mais perturbador ainda estava por vir.
Em um ponto do riacho mais adiante a visão de um mapa de Rhorus surgiu e ao norte do mapa Brynden pôde ver um gigante bronzeado esmagar a Guarda da Fronteira enquanto uma parede crescia separando o território ao meio, em seguida uma sombra saiu de dentro de uma flor vermelha e ergueu uma espada cinza-esbranquiçada se colocando em marcha ao lado do gigante. Nas terras pantanosas que dividiam o norte da região central uma mulher de cabelos negros chorava ajoelhada em seu luto enquanto um cavaleiro em uma armadura negra marchava contra a sombra e o gigante. No Extremossul uma serpente se enrolava ao redor de todo o deserto, espremendo-o como se todo o território fosse um rato a ser devorado. Na Capital o touro bufava indeciso, pequeno demais para investir contra o gigante, esperto demais para investir contra a serpente, enquanto na Mata um homem de bronze se levantava segurando uma lança de bronze em suas mãos.
O bastardo estava atordoado demais para tentar interpretar tudo aquilo que vira, mas mesmo que tentasse para o Brynden daquela época nada daquilo faria sentido.
Dando um passo a mais ele havia chegado ao fim do riacho e a donzela se aproximava dele tocando seu ombro com leveza.
– Se o veneno não o matar hoje, será nesse ponto que tudo acabará. Olhe.
Ele apertava os olhos lutando contra a tentação de conhecer seu fim, mas por fim a curiosidade se mostrou mais forte.
Quando ele colocou a cabeça lentamente sobre o riacho encarando seu reflexo, todo o sangue virou água lamacenta e ele não foi capaz de ver mais nada. Confuso ele se virou para a mulher loira que o encarou de volta e depois olhou para a água, apontando e dizendo:
– Olhe.
E o bastardo olhou, mas tudo o que ele viu foi uma pequena salamandra saindo na margem oposta do riacho. Quando ele voltou a encarar seu reflexo no lamaçal, descrente, uma flecha vinda das profundezas o atingiu no olho e ele acordou atordoado em uma velha casa de madeira com Dona Morte lhe sorrindo.
– Então você sobreviveu ao veneno’ssiiiim. Beba isto para matar-lhe a sede.
E Brynden entornou o odre e o gosto que sentiu era o do sangue.
– A partir daqui isso será o que te dá poder. O que te aproxima de seus Deuses’ssiiim, eles ouvem aos apelos feitos com sangue humano. Com sangue humano você consegue dobrar os espíritos ao seu querer, consegue dobrar os homens ao seu querer. Você aprenderá mais no tempo que ficar aqui’ssiiiim. Mas não dê ouvido aos espíritos, ou eles consumirão você até deixa-lo doente e louco. – e dito isso ela meneou a cabeça para o lado ouvindo atentamente o que ninguém lhe dizia. – Todo feitiço tem um preço e você aprenderá que pagar pode custar-lhe caro.
~#~
Brynden acordou em seu quarto com um beijo da doce Dolores sem se lembrar de que ponto das lembranças eram apenas lembranças ou sonhos. O sol acabara de nascer e ele já podia ouvir que os homens no pátio já estavam há muito tempo de pé se preparando para marchar, e ele precisava fazer o mesmo. Os homens precisavam de um vislumbre de seu comandante.
– Por que não me acordou antes? – a víbora perguntou se levantando, e descobriu que estava nu.
– Gosto de vê-lo dormir. – a garota respondeu risonha. Naquela manhã ela vestia uma bela camisola salmão e parecia ter recuperado um pouco do brilho que perdera nos dias que vinham se seguindo
A víbora sorriu.
– Nem imagino o que se passa na sua cabeça enquanto me vê dormir. – Se me mata ou se me deseja.
Com certeza que te mata.
Eu te mataria.
Você precisa dar o bote antes dela, víbora.
O aviso da bruxa parecia muito mais sério agora enquanto as várias gargalhadas ecoavam em sua cabeça, e Brynden massageava suas têmporas ponderando o que devia ser feito. Vestiu uma roupa qualquer e foi para o pátio encontrar seus homens.
Aparentemente Luxxis já havia se encontrado com eles e dito o que foi resolvido na noite passada. De todos os mercenários pouco mais de duzentos ficaram, mas os homens pareciam animados com a esperança de um saque ao cofre dos Jhady.
Luxxis estava ao lado de Dixon Sunning e eles pareciam trabalhar na melhor forma de mover o restante das tropas sorrateiramente até Colina Verde, sede da Casa. Quando Brynden se aproximou os dois o cumprimentaram com uma meia reverência, formalidades triviais já que estava no meio de companheiros de guerra, não de subordinados.
– O que foi decidido?
– Seguiremos o leito do rio marrom. – Dixon apontou no mapa. – Neste ponto até Colina Verde o rio é coberto de mata fechada. É longe o bastante da fortaleza para não sermos notados e perto o bastante para chegarmos mais cedo se for necessário.
– Rio marrom. Entendo. Eu estarei na comitiva com Dolores. O plano não mudou. Escolha duzentos homens para irem comigo e atacar de dentro.
– Não vai ter menos de quinhentos homens dentro daquelas muralhas. Os Jhady nunca deixariam seu tesouro desprotegido. – Luxxis falou.
– Ótimo, dois homens e meio para cada sulista de bronze, isso sim é uma luta justa.
Nem Luxxis, nem Dixon riram. Brynden pigarreou e continuou falando:
– Sendo assim espero que o restante dos homens seja rápido.
A víbora prateada andava pela fileira de homens se armando um pensamento lhe ocorria acerca do evento que iria se suceder naquele dia.
Rio marrom...
Ele temia, mas não de todo. As visões que tivera de seu futuro há dez anos, mesmo que encobertas por um véu de mistério, pareciam apontar para um evento maior que antecederia a sua morte. Mas isso não era o bastante para acalmar os temores do bastardo em relação a uma batalha tão desigual quase às margens de um rio marrom.
Ele suspirou, e os espíritos voltaram a sussurrar em seu ouvido.
Você morre aqui, bastardo. E a única pessoa que choraria por você ficará livre do seu Encanto assim que você morrer.
Ele tentava não dar ouvidos e nisso acabou tropeçando nas pernas de alguém, e o jovem soldado se apressou em levantá-lo pedindo perdão sem graça mesmo não tendo errado em nada. Brynden o encarou estreitando seus olhos, e as vozes se calaram com o pensamento que passou pela sua cabeça.
– Qual seu nome, rapaz?
– É Braum, senhor.
– Tem quantos anos?
– Treze, senhor.
– Já esteve com uma mulher antes?
Quando o rapaz se preparava para responder Brynden levantou um dedo em advertência.
– Não minta, eu saberei.
– Não, senhor. – o jovem respondeu por fim.
– Então me acompanhe. Você é justamente o que eu procurava.
Levou o garoto para as masmorras do castelo e todas as celas que deveriam estar preenchidas de prisioneiros de guerra estavam vazias de vida. Meus estoques de reféns acabaram.
~#~
BRAUM
O jovem não compreendeu ao certo o que seu comandante estava lhe pedindo, mas se apressou em cumprir a ordem. Braum o admirava; estivera em Pedravelha assistindo quando a víbora quase matou o herdeiro dos Rowen durante uma luta, e depois disso participou da aclamação quando o homem de cabelos prateados desgostoso com os homens que seu pai lhe cedera discursou: somos todos víboras, nós surpreendemos a todos. O rapaz era um dos sessenta, franzino e sem habilidades de luta ele conseguiu a coragem que precisava para marchar depois daquele discurso.
Desde que se colocara em marcha o garoto ouviu várias e várias vezes os mais velhos falarem das barbaridades que a víbora prateada havia cometido depois de voltar da sua longa estadia em Asran, mas tudo aquilo era difícil de acreditar: como o homem que andava sempre ao lado de seus soldados, dividindo suas refeições e contando histórias, podia ser acusado de tantas monstruosidades? Braum se empenhava em defendê-lo.
Mas ver o corpo do homem que estava acorrentado à parede daquela cela, inerte e desidratado, como se alguém tivesse lhe sugado a vida aos poucos, fazia o jovem Braum tremer. Brynden havia lhe ordenado que limpasse a cela e removesse o corpo de lá, e enquanto Braum o arrastava para uma cova rasa cavada no pátio foi que pôde ver o corte horizontal no pulso do cadáver. Ele sangrara aos poucos até a morte.
De volta às masmorras o garoto foi encontrar Brynden dentro da cela desocupada. O bastardo estava agachado escrevendo algumas runas no chão, em um arco quase perfeito de palavras desconhecidas; nos quatro cantos da cela velas negras queimavam com um cheiro forte.
– Não seja tímido, entre. – a víbora falou se levantando e limpando as mãos cheias de carvão no roupão negro que vestia.
– Não quero atrapalhar. – Braum respondeu da porta. Tudo aquilo era estranho demais e ele ansiava em terminar logo seu serviço ali. – O que mais o senhor deseja?
– Que você entre.
Braum ignorou o tom de voz estranho que a víbora usara e tentou confiar no sorriso amigável que ele lhe sorria, mesmo ganhando feições tão medonhas à luz das velas, com aqueles cabelos quase brancos. Entrou.
– O que deseja? – ele perguntou novamente, mas o bastardo parecia estar ocupado dando ouvidos a alguma outra coisa.
– Eu já disse para esperar! Maldição!
O garoto se encolheu, e enquanto Brynden andava de um lado para o outro da cela ele tentou se esgueirar pela porta afora, mas nesse momento uma lufada de vento vinda de lugar algum fez a porta se fechar com um estrondo, e o trinco se trancou sozinho.
– Eles não vão deixar que você saia daqui, garoto. – Brynden falou e dessa vez se dirigia a Braum. – Não leve para o lado pessoal.
Quando Brynden se laçou sobre ele, Braum que era mais baixo desviou e correu para a porta aos berros. Não tinha para onde fugir. A víbora ria com uma dezena de vozes e se aproximava lentamente, e Braum se desesperara. Era tudo verdade, ele pensou, a víbora prateada é mesmo um monstro, e enquanto seu rosto se cobria em lágrimas ele sentiu seu braço ser agarrado e seu corpo ser arrastado até a corrente.
– Não se sacuda verme maldito. – as vozes falaram em uníssono com seu comandante e o grilhão foi apertado contra seu pulso fino.
O garoto esperneava tentando se soltar e o terror se instalara por completo quando Brynden puxou a adaga do seu cinto e começou a falar em uma língua estranha. As runas no chão pareciam vibrar, mas Braum não sabia se realmente o faziam ou se era apenas um efeito causado pela sua visão turva e embaçada pelas lágrimas. As chamas das velas bruxuleavam e Brynden se aproximou com a adaga em mãos.
– Eu não quero morrer. – o garoto choramingava.
– Você não vai morrer – a víbora disse em contrapartida. – ainda.
A lâmina cortando seu braço livre estava quente ao toque assim como o sangue que começava a escorrer. Brynden se afastou depois e procurou em um canto da cela até encontrar; um cálice de prata encrustado com rubis e que ainda fedia, sujo com o sangue da vítima anterior. Voltou a se abaixar ao lado de Braum.
– É o único jeito deles se calarem por um tempo, garoto. – a víbora falou apontando um dedo trêmulo para a própria cabeça.
Assim que o recipiente colocado sob o braço ferido de Braum se encheu, Brynden o levantou entoando algum cântico ininteligível e bebeu. O vento dentro da cela cessou e Brynden pareceu suspirar, aliviado. Braum que gastara suas forças tentando se soltar estava fraco por conta da perda de sangue, não conseguiu resistir quando a mordaça foi colocada em sua boca.
A última coisa que viu antes de perder a consciência foi Brynden abrindo a pesada porta de ferro, fazendo uma reverência e saindo.
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