Rhapsody Of The Moonlight
1 Dragondawn
O vento soprava contra os longos cabelos negros da garota, enquanto ela entoava uma lânguida melodia para o horizonte alaranjado, na atmosfera calma do anoitecer. Podia observar as luzes dos candelabros e lampadários nas ruas de seu vilarejo calmamente, no topo da colina em que estabelecia-se, bem como ouvir a fauna da densa floresta logo atrás de si. Completava dezesseis primaveras neste dia, mas não fazia questão de participar das festividades; ao invés disso, agraciava os pássaros com suas cantigas e com o doce som de seu violino. Logo que a Lua passara a iluminar a noite, entretanto, fora interrompida por sussurros soprados ao seu ouvido. Retornara, então, ao seu vilarejo, onde apenas as poucas tabernas e estalagens permaneciam abertas. A diminuta vila em que morava era permeada por grandes casas, com dois ou mais andares, e as ruas eram cortadas por carruagens pomposas, em sua grande maioria; um nebuloso céu cobria a atmosfera do local permanentemente, fazuendo-se uso de candelabros por todas as ruas. A garota dirigia-se ao afastado castelo de sua família, apenas uma dentre os poderosos clãs que rodeavam as cidadelas humanas.
Em um dos sinuosos becos que ladeavam a cidade, a garota pudera observar a grande biblioteca com luzes que permaneciam acesas. Alimentada pela curiosidade e por um leve instinto, adentrara as pesadas portas entalhadas, passando sem cerimônias pelas gárgulas que adornavam o topo da construção, sobre a marquise. No interior da biblioteca, a atmosfera era calma e uma diminuta penumbra fazia-se presente — consequência das velas e lamparinas que iluminavam fracamente o ambiente. A jovem seguia por entre as altas estantes que continham pergaminhos e grandes tomos sobre diversos assuntos. O interesse sobre a sessão ocultista, no sótão da biblioteca, que sempre a consumiu, instigara-a a seguir até o local. A ausência de escrivães lhe era estranha, mas não importava-se contanto que pudesse saciar sua curiosidade. Assim sendo, prosseguira silenciosamente por entre as estantes, e subira os dois lances de escada que a levavam até o terceiro andar da biblioteca. Lá, havia ainda algumas mesas com pergaminhos antigos, e um misterioso indivíduo de longos cabelos doirados apresentara-se à bela garota. Trajava vestes nobres — um fraque negro completo, e uma cartola — tais quais o longo vestido em tons de vinho que a mesma usava.
–Estávamos lhe esperando, milady.
Um ar de confusão formou-se na expressão da garota. Seus olhos encontraram-se com os do belo loiro, e o profundo azul dos dele a encantaram.
–Lhe conhecemos melhor do que a ti mesma, Celene. Venha comigo.
Entorpecida pela crescente curiosidade e pela envolvente voz, não ousaria recusar. Subira as últimas escadarias logo atrás do misterioso rapaz, com nuances de dúvida permeando sua mente, mas não suficientemente grandes para que desistisse de entender o que se passava. Sendo assim, entrara em uma sala espaçosa, agradavelmente iluminada. Sentados em diversas cadeiras, rodeados por mesas que continham tomos e candelabros, haviam mais cinco nobres. Duas delas, belas mulheres com grandes vestidos negros, penteados aprimorados e delicados acessórios. Os outros três homens trajavam casacas e ternos, e liam os manuscritos com auxílio de monóculos. Todos os presentes na sala eram não muito mais velhos que Celene, talvez com uma diferença não maior do que de seis anos de idade. A sala em si continha diversos símbolos, e no topo central da cúpula havia uma abertura, pela qual era possível observar perfeitamente a Lua na metade de sua trajetória pelos céus.
–Não tenho dúvidas de que a nascida sobre a regência noturna está entre nós. — citou um dos presentes, ao mesmo que amarrava seus longos cabelos negros. — É ela. E está na hora.
–Na hora...? Eu... Expliquem-me o que está acontecendo, por favor. Como vocês me conhecem? Quem são vocês?
–Não podemos, minha querida. — uma das mulheres presentes docemente respondeu-lhe. — Você precisará ver por si mesma.
Os olhares de todos cruzaram-se por um instante, e o chão passou a brilhar em runas. Assim que pensara em qualquer coisa, Celene encontrava-se no topo da mesma colina que estivera há algum tempo atrás. Os olhos dos seis indivíduos passaram a brilhar em diferentes tons, e em uma fração de segundo, transformaram-se em grandes animais mitológicos, dos quais havia-se ouvido falar apenas nas lendas de velhos pergaminhos. Os dragões que a rodeavam entoaram suas melodias em conjunto para o luar crescente, e cruzaram os céus majestosamente. Celene apenas observava o espetáculo acontecer diante de seus olhos, e segurava os lados da saia de seu vestido volumoso, impressionada. Uma das dragonesas tomou a garota em seu torso e levou-a até o interior da densa floresta, na beira de um calmo lago. Logo, seguiram-se todos os outros dragões, pousando na planície onde as árvores rodeavam de todos os lados. O mesmo loiro que a havia encontrado primeiramente aproximou-se da jovem e tornou a falar, calmamente.
–Nós somos os dragonborns, nascidos sob a influência de um fenômeno específico. Fomos agraciados com diferentes especialidades, mas você, Celene... a esperamos por anos. Você é diferente de nós, diferente de todos.
–Então... todas as lendas sobre a magia são reais? Os animais mitológicos, as raças místicas, tudo? Nós fazemos parte desse mundo? Eu sou uma de vocês..?
–Você é mais do que isso. Tem em suas mãos o destino da fantasia, a proteção do nosso mundo de sonhos. — prosseguiu uma das dragonesas, com seus envolventes olhos esmeralda nos de Celene. — Você é a nascida sob a Lua, no evento raro do eclipse. Todas as mitologias de todos os mundos tem como principal superstição o eclipse solar, e esse acontecimento é seguido de inúmeras consequências.
Outro indivíduo aproximou-se da garota e entregou-lhe um pequeno pergaminho, feito de algum material desconhecido para a jovem. Celene desenrolou-o, e pôde ler em uma bela caligrafia uma profecia.
Quando o luar em terra vier por se manifestar
E a doce melodia das primaveras entoar
Preparar-se-vos ao crepúsculo por chegar
Ou à aurora a nos guiar.
Um tanto confusa, a garota guardou-o consigo.
–Eu gostaria de saber seus nomes, dragonborns. E também, por favor, gostaria de entender o que realmente eu sou, ou o que eu precisarei fazer...
–Perfeitamente, minha querida. — sorriu-lhe a graciosa morena em sue vestido preto-azulado. — Eu sou Luinókë, a dragonesa lazúli. Esta — prosseguiu, fazendo um leve gesto para a loira ao seu lado — é Láiquë, a dragonesa esmeralda.
O loiro que a havia guiado na biblioteca fitou-a e, com gentileza, replicou.
–Eu sou Alurea, o dragão doirado, seu guardião. Os outros aqui presentes são Lókërne, o dragão rubi; Varnékë, o dragão castanho; e, por último, Malókëna, o dragão topaz. E você, Celene... Silmaranelókë.
–Perfeitamente, minha querida. Você é conhecida dentre todos os ventos, e todos nossos pergaminhos falam sobre você. Agora, precisamos que descanse. Encontraremos-a mais tarde, quando for propício. Namarië!
E então, encontrara-se sentada em sua cama, com as mesmas vestes. Tudo permanecia igual, e Celene imaginara não passar de um sonho. Um sonho lúcido — até demais...
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