Rezai por mim, pois minha alma está condenada
1 Capítulo 1
Maria adorava ir visitar o túmulo de sua mãe após a escola. Seu meio-irmão, Josué, sempre fazia companhia com ela, mesmo carrancudo.
Maria ajoelhou-se em frente à pequena lápide de pedra que tinha o nome de sua mãe, Helena. Colocou o pequeno porta-retratos ao lado da pedra e abriu a bíblia, para começar a rezar.
Josué estava em pé, ao lado de Maria, ele a observava colocar um véu branco por cima dos cabelos cacheados. Achava ridículo a irmã cobrir sua beleza, mas, na visão dele, ela sempre estava fazendo coisas idiotas. Talvez tivesse herdado a falta de inteligência da mãe deles ou algum retardo mental de quem quer que fosse o pai.
O rapaz se ajoelhou ao lado da irmã, enquanto ela ajeitava a bíblia, e teve rápido vislumbre dos seios dela. Aquilo o fez se agitar e ele virou um pouco a cara.
—Você devia passar menos tempo aqui. –Disse seu irmão, com sua velha mania de não medir as palavras. –Fica perdendo seu tempo aqui e na capela, quando devia estudar e agir como uma pessoa normal.
Maria tocou no crucifixo que levava no pescoço.
—Aqui é silencioso, irmão. –Ela se defendeu. –Sempre calmo. E me sinto perto de Deus e de nossa mamãe.
Josué deu um trago no cigarro e cuspiu fumaça pela boca.
—É calmo porque não tem os idiotas e vadias da escola aqui para te irritar. –Ele disse. –E eles não a irritaríam se você agisse como uma garota normal e parasse de agir como uma matrona para todos os cantos. É esquisito e vergonhoso, irmã. Parece até uma retardada. Eu sempre te falo isso, mas essa sua cabeça oca parece não ter nada dentro, a não ser as rezas do padre.
Aquilo a magoou e ela se retraiu um pouco. Seu irmão sempre sabia ser duro com as palavras, nunca as remediando.
—Eu só queria passar um tempo com a nossa mãe. Não iria querer passar um tempo com ela se pudesse?
Josué balançou a cabeça, negativamente.
—Nossa mãe era uma puta, Maria. –Ele disse, irredutível. –Se fosse uma mulher de valor tinha esperma até dos cachorros do vizinho dentro da buceta dela.
Maria fez uma careta, comprimindo a boca e franzindo o cenho.
—Enrugue a cara o quanto quiser, não muda a verdade; nossa mãe era uma porta aberta pra qualquer pinto murcho que quisesse esguichar dentro dela.
—Josué, não fale assim de mamãe. –Ela pediu.
Josué suspirou.
—Está bem, está bem…
—Sonhei com ela esta noite. –Confidenciou Maria. –Papai também estava lá, mas o rosto estava muito borrado. Talvez ele só tenha sumido da minha mente após acordar.
Seu irmão deu de ombros e esticou as pernas na grama. Usava velhos calções gastos. Tirou o boné verde e mostrou o cabelo castanho, não era cacheado como o de sua irmã, e apesar dele ter apenas vinte e dois, já estava ficando com mechas brancas em vários lugares. A pele acobreada de seu irmão tinha um tom mais rubro que o de Maria.
—Nunca conheceu teu pai, então nem deve imaginar como ele era.
—Eu gostaria de conhecê-lo um dia.
Seu irmão deu uma suave gargalhada e jogou o cigarro fora.
—Do jeito que nossa mãe era, é capaz de você já o conhecer há muito tempo e nenhum dos dois saberem. –Brincou Josué, irritando sua irmã. –Quem sabe? Nosso tio pode ser o teu pai e 'cê nem sabe!
Maria balançou a cabeça. Era assustador ouvir que seu irmão achava engraçado dizer que a mãe deles havia fornicado com o próprio irmão, João.
—Ora, por favor, irmão, não brinque com isso! –Ela pediu. –Deus pode lhe castigar!
Seu irmão fez um gesto com o braço para mostrar que nem ligava para o que ela dizia, e depois pegou outro cigarro.
—Queria que parasse de fumar. –Maria disse, ficando cada vez mais irritada e não conseguindo se controlar.
Dessa vez, seu irmão a olhou com aqueles seus intensos olhos azuis e fez uma carranca.
—E eu queria ter uma irmã, não uma esquisita que se acha a nova Santa Maria, mas que só sabe passar vergonha. –Ele disse com a voz calma, mas cheia de raiva.
Maria corou e ajeitou –ou, melhor dizendo, fingiu ajeitar– o véu que usava e uniu as mãos uma na outra.
Após um tempo em silêncio, enquanto Maria murmurava coisas as quais Josué não se importava, ele resolveu falar.
—Desculpe. –Ele disse. –Sei que não gosta que brinque com você assim.
Maria assentiu e sorriu para ele.
—Irmão, você nunca sonhou com a nossa mãe? –Maria perguntou, pois sempre quis saber se, assim como ela, ele também teve visitas dela. –Já sonhou com o amor dela? Seus beijos?
Josué não compartilhava dos mesmos sentimentos da irmã; ele não tinha vontade de rever a mãe. E, para a sua felicidade, estava livre dela em sua mente.
—Não. –Ele disse, simplesmente.
—Queria muito rever ela. –Disse Maria, novamente, com um sorriso gentil.
Josué suspirou. Sua tola irmã era irritantemente boazinha –ou seja, burra, em sua visão– para as verdades da vida.
Josué lembrava-se pouco da mãe; de como ela o segurava no colo; passava um bom tempo com ele; até se lembrava de fazer um pouco de carinho na barriga dela quando estava grávida de Maria. A mãe, entretanto, morrera pouco depois de dar à luz a nova irmã de Josué. Após isso, coube a avó deles, Joana, e ao tio João cuidarem deles.
Ambos os irmãos nunca conheceram o pai; talvez fosse o mesmo homem, talvez fossem dois homens completamente distintos.
Josué logo sentiu uns pingos baterem contra sua pele e olhou para cima. O céu cinzento estava ficando mais escuro e ele via alguns pontos das nuvens piscarem. Logo iria chover.
Ele colocou o boné verde de volta aos cabelos, jogou o outro cigarro fora e se levantou.
—Vamos. –Estendeu um braço para Maria.
Maria não queria ir; queria ficar e rezar junto de sua mãe. Não queria voltar para casa e no dia seguinte ir para a escola novamente. Estava cansada das zombarias dos colegas de classe.
—Vamos. –Insistiu Josué. –A chuva vai aumentar.
Se sentindo derrotada, Maria abaixou o véu. Fechou a bíblia e o porta-retratos e segurou na mão do irmão para ajudar a se levantar.
—Não precisa mais vir comigo. –Disse Maria, enquanto eles caminhavam. –Sei que não gosta.
Josué deu de ombros.
—É, mas você gosta que eu esteja aqui. –Ele disse, segurando a mão dela. –E eu gosto de estar com você.
O irmão José acenou de dentro da capela, sinalizando que era para eles falarem com ele.
—Ah, inferno… –Disse Josué, mas foi até o reverendo, sabendo que sua irmã iria querer vê-lo.
—Bom dia, irmãos. –Disse o reverendo quando eles chegaram perto da capela. –Louvado seja o senhor.
—Amém. –Disse Maria, sorrindo.
Ao perceber que seu irmão estava quieto, ela deu uma cutucada nele com o cotovelo.
—Amém. –Disse Josué.
Vendo a chuva aumentar, o pastor acenou com a cabeça indicando que os dois deveriam entrar na capela.
—Bem, eu iria anunciar isso na próxima missa –disse o pastor, após fechar a porta, quando todos entraram dentro do recinto. –Mas já que estão aqui…
O coração de Maria logo apertou.
—Oh, aconteceu algo? –Ela perguntou. –Não está doente, está? Nem vai pra guerra, eu espero?
O reverendo balançou a cabeça. Era um homem jovem, com trinta e um anos. Os cabelos eram castanhos, com exceção de uma mecha branca, e tinha lindos olhos azuis. Além de Josué, era a única pessoa com a qual Maria se sentia confortável para falar seus problemas.
—Fica calma, minha filha. –Ele disse, sabendo que a notícia seria um golpe para a pobre jovem. –Estou bem.
A jovem disse amém e fez o sinal da cruz.
—O que iria lhes dizer é que vou para longe; para outra cidade.
Aquilo foi um golpe para Maria.
Com quem ela iria rezar? Com quem ela passaria o tempo, sabendo que não seria chamada de idiota? Com quem poderia compartilhar os pecados que cometeu e pedir perdão aos céus?
Que bom, pensou Josué. Detestava a proximidade daquele homem com Maria; sempre cuidando dela, sorrindo ou a elogiando. Ele sabia que tinha algo ali, algo ruim. Não deixaria ele tocar nela de forma inapropriada; e, caso soubesse que ele o fez, enfiaria um cutelo nele.
—Oh, mas por quê? – Maria perguntou, sentia uma angústia dentro dela.
O pastor olhou para os olhos daquela jovem de quase vinte anos. Eram idênticos aos da falecida mãe dela: pequenos e gentis, com cores que iam de um castanho claro até um leve verde. Tudo nela lembrava-lhe Helena; a pele oliva perfeita, os cachos castanhos, o nariz aquilino.
Olhar para ela, fazia seu coração doer, mas sabia que era melhor para ela; pois sentia que estava esquecendo o que realmente deveria sentir por ela.
—Bom, acho que será melhor para minha esposa. –Ele disse, desviando o olhar. –Pensamos em talvez ter filhos, se assim Deus quiser.
—Oh…–Maria nem sabia o que falar. –Mas, e a capela?
O pastor sorriu de forma triste.
—Ora, logo virá o próximo pastor! –Ele disse. –Seu nome é Joseph, e ele está nessa há mais tempo do que eu. Vai ser bom para isso.
Mas ele não é você, ela pensou. Só a ideia de ficar sem o Pastor José já fazia suas pernas tremerem.
—Entendo. –Disse Maria, tentando não demonstrar nenhum sinal de nervosismo. Era indelicado para uma boa moça demonstrar tais coisas, seu tio dizia. Se ela fosse uma boa garota, teria de guardar seus problemas bobos –sua família sempre lhe dizia que quase todos os problemas dela eram bobos– para si mesma.
O irmão José colocou uma mão calmante no ombro da jovem.
—Ele será bom para você, Maria. –assegurou o pastor. –Vai adorar falar com você, rezar com você… Garanto que não vai resistir aos belos pratos que você faz!
José havia assegurado para que o próximo pastor desse a Maria toda a atenção que ela queria; falou como era solitária, nervosa, do bullying que sofria… Também o avisara sobre o irmão dela, pois Josué era terrivelmente zeloso com a irmã, mas isso também a atrapalhava o relacionamento dela com outras pessoas.
O toque do reverendo no ombro de sua irmã deixou Josué em alerta. Quase que como um tapa, ele afastou a mão do pastor e pegou sua irmã pelo pulso, de forma indelicada e abrupta.
—O papo foi bom, pastor, mas temos que ir. –Disse Josué, levando sua irmã até a entrada sem nem olhar para o reverendo. –A chuva vai demorar muito para parar e precisamos ir para casa agora.
Josué abriu uma parte da porta dupla da capela, deixando o vento frio e a água da chuva entrar.
—Josué! –chamou o pastor. –Por favor, uma palavra? Pode ser a sós.
O rapaz se virou e estreitou os olhos, em clara desconfiança. O que aquele homem iria querer agora?
Maria olhou para o irmão, em um pedido silencioso para ter permissão de sair e correr para o carro. Josué assentiu, e assim ela o fez.
—O que é? –Perguntou Josué, de forma ríspida.
—Eu sei que você é bem protetor no que tange Maria…
—Ela é minha irmã. Preocupante seria se eu num ligasse.
O pastor assentiu.
—Deveras. Os garotos da escola ainda a irritam muito, pelo que ela me conta.
—E por que anda falando tanto tempo com a minha irmã?
—Ela sempre vêm a mim para contar o que sente.
Josué sentiu uma pontada de ciúmes.
—Mas por quê? Ela não precisa, ela tem a mim, num existe motivo para ela não falar comigo!
O pastor assentiu. Ele sabia que a pobre garota não falava nada porquê ou a família não lhe daria ouvidos, ou seu irmão se machucaria lutando contra os garotos da escola.
—Acho que ela se sente envergonhada para falar José –tentou evitar falar mais, esse não era o assunto aqui. –Mas eu só queria lhe dizer que deve dar muita atenção para sua irmã, ainda mais agora, pois ela deve ficar depressiva sem mim…
—Ela tem a mim!
—Mas que não deve ser agressivo com ela –continuou o reverendo, ignorando as palavras de raiva do jovem rapaz.
—Só isso?
—E cuide de si mesmo! –Disse o pastor, rindo. –Sempre carrancudo e seguindo a irmã para todos os lados, isto é, quando não está trabalhando. Onde está a vida pessoal, hein, garoto?
Sem achar graça, Josué apenas se virou e passou pela porta, sem se importar com a chuva forte molhando seu corpo.
Suspirando, José viu Josué partir na chuva a passos largos. Pensou em como ele o lembrava quando era jovem, embora lembrasse mais o velho pai do pastor, que sempre tivera cabelo grisalho, mesmo quando jovem.
Ele nem sabia o que falar para o rapaz, ou para a Maria. Deveria falar algo? Seria certo ou errado?
Sabia que Maria abraçaria a primeira figura paterna que aparecesse, mas era capaz de Josué o agredir fisicamente –E provavelmente ele mereceria isso.
Mas era hora de partir, e ele sabia que devia sair daquela pequena cidade e deixar que aqueles dois jovens crescessem. Um dia, quando voltasse, esperava que ambos estivessem maduros e casados.
Talvez fique eu mais sábio até lá, ele pensou, e ela estará madura o suficiente para me ouvir.
E, se Deus quisesse, ela finalmente teria um homem para chamar de "pai". Talvez José finalmente fosse um homem maduro de verdade quando o tempo passasse –não apenas a idealização da inocente jovem sobre ele ser um– para merecer ser chamado assim por Maria.
Acelerando os passos até a antiga picape azul da família, Josué entra ensopado no assento do motorista. Ao ver sua irmã chorando, ele fecha a porta com raiva e se vira para ela.
—O quê foi? –Ele perguntou, sentindo uma onda de ciúmes tomar conta dele novamente. –Está chorando pelo pastor?
Maria dobrou o véu, até ele ficar pequeno e caber na sua bolsinha.
—Não… –Ela disse, pegando um lenço e secando os olhos.
Josué estava feliz que o homem iria embora. Se isso partisse o pequeno coraçãozinho de sua irmã, tudo bem para ele. Ela já tinha o irmão ao seu lado, não precisava de nenhum outro homem além dele. Ele a protegeria e a consolaria para sempre.
Josué se aproximou e a abraçou, e deixou a irmã chorar em seu ombro. Se a avó e o tio soubessem que ela chorou, era capaz de darem uma surra nela.
Quando ela pareceu se acalmar, ele se afastou um pouco e colocou a mão no queixo dela, fazendo-a erguer a cabeça. Lágrimas escorriam pelas bochechas dela.
Sempre que sua irmã estava triste, Josué sentia uma dor no peito; entretanto, a tristeza nos olhos dela o fez sentir algo diferente desta vez.
—Ora, deixe as lágrimas de lado, irmã. –Ele disse. –Não fique assim. Não gosto de te ver chorar.
Josué lambeu as lágrimas do rosto dela, sentindo e apreciando o sal nelas. Saboreando o gosto em sua língua. O gosto de sua amada irmã.
—Obrigada. –Maria disse, se sentindo envergonhada por deixar se ver chorar. Não sabia se devia se sentir assim, mas sentia mesmo assim. –Desculpe por ser tão chorona.
Josué passou lentamente as mãos pelos ombros dela, descendo até as mãos, levando-as até os seus lábios e beijando os nós dos dedos.
—Você é meu coração, Maria. –Ele disse, sorrindo para ela. –Mesmo que seja um coração triste.
Os irmãos se aproximaram um do outro, colando as testas uma na outra. Ambos se olharam bem nos olhos.
—Agora –Disse Josué. –Você vai me dizer exatamente quais garotos andam te irritando na escola.
Maria mordeu o lábio, se segurando para não roer as unhas.
—Oh, por favor, eu não quero problemas. –Disse Maria, sentindo os olhos azuis do irmão a fixando profundamente. –Deixe para lá…
—Fale. –Ele mandou, e ela sempre foi ensinada que deveria obedecer.
—Eduardo, George e Richard –Ela disse, mas preferiu evitar falar o nome da Isabel e Ana, seria melhor que as duas não se envolvessem nisso. –Mas antes que faça algo…
—Por que te irritaram hoje? –Ele perguntou. –Falaram da sua mãe?
Maria ficou um pouco corada, deixando as bochechas mais vermelhas.
—Sim. Sempre é assim. E… Zombaram de minha "castidade".
Josué assentiu.
—Por favor –Maria implorou. –, não faça nada, irmão. Os três são muito maiores que você, e…
—Tudo bem. –Disse o irmão dela, se afastando dela e se ajeitando no assento. –Não sou louco de atacar os três juntos.
Maria se surpreendeu com a calma do irmão, não era do feitio dele ficar calado. Ela tinha certeza que ele estaria louco para partir para cima dos assediadores dela e ser agredido por isso.
O rapaz passou o cinto e sorriu para ela.
—Vamos pra casa.
Maria havia dado os nomes que Josué já imaginava e conhecia; Eduardo era jogador de futebol do time da escola da irmã, e estava de namoro com uma jovem que ele viu olhar com deboche para irmã na missa, diversas vezes; e, quanto a George e Richard, sabia que ambos trabalhavam em uma mecânica perto da escola.
Maria estava certa, Josué nunca teria chance contra os três juntos; porém, não seria difícil superar esse obstáculo.
Ele iria fazer cada um deles se arrependerem de terem feito sua irmã chorar.
Josué virou a chave e botou a caminhonete para andar. O veículo era velho e tinha um limpador de parabrisa faltando. O metal tremia sem parar, fazendo parecer que ia se desmontar a qualquer momento.
O irmão mais velho ligou o rádio.
"A guerra está tomando proporções que antes eram impensadas", disse o homem da rádio local."Os Estados Unidos agora estão especialmente irritados com o último ataque surpresa, enquanto o Brasil parece querer se unir à guerra após um de nossos navios ter sido afundado."
Grunhindo, Josué desligou o rádio. Não era bom para sua irmã ouvir tais coisas. E ele também não queria saber de nenhuma guerra boba.
Quando chegaram em casa, a chuva ainda estava caindo pesadamente. Maria suspirou, relutante em sair veículo, mas teve que tomar coragem para tirar o cinto e abrir a porta. Os dois irmãos saíram da caminhonete e fecharam as portas bem rápido, saindo apressadamente para entrarem na casa.
A família dos dois irmãos vivia em um casebre que era bem afastado do resto da cidade. Quase indo para o centro da mata. Tinha apenas três quartos; uma cozinha minúscula, que dividia espaço com uma sala pequena; só tinha um banheiro, mas sem chuveiro, de modo que eles usavam um jarro de água e uma banheira para se lavarem.
O tio João deles estava sentado na velha poltrona, ao lado do pequeno sofá, com o boné vermelho cobrindo a cara. O couro preto do móvel já estava desgastado e era possível ver em vários cantos o enchimento exposto. João passava várias horas assim, ou deitado no sofá, bebendo algumas garrafas. Havia deixado de trabalhar após algum problema no antigo emprego que machucara a sua perna.
João retirou o boné da cara ao ouvir a porta da casa se fechando.
—Que porra, olha só como vocês estão ensopados! –Ele berrou, claramente bêbado. –Estão molhando tudo! Será que não tem a merda de um guarda-chuva? Ou enfiaram no rabo de 'ocês? Ah, não, já sei! Deve estar na cabeça oca de algum do'cês, num é? Já que deve estar sempre vazia, deve ter muito espaço aí dentro; pois cérebro eu sei que não tem!
—Boa noite para você também, tio. –Josué disse, com os cabelos pingando e molhado até os ossos.
—Desculpa, tio. –Disse Maria. –A culpa é minha, eu esqueci o guarda-chuva.
—hehehe –Disse o Tio. –É óbvio que a culpa é tua, afinal, puxou a mãe! Bunda grande, mas cérebro? Nada! –Ele pegou uma lata de cerveja do chão e bebeu.
—Odeio quando você bebe. –Disse o sobrinho para tio, sabendo que este sempre estava bebendo.
—O que está acontecendo aqui? –A voz da matriarca da família chamou, saindo do quarto.
Joana era uma mulher baixa e corpulenta. Seus cabelos castanhos haviam ficado totalmente brancos. Seu lindo rosto liso agora estava cheio de rugas e caído, pois a vida naquele lugar escuro e afastado não lhe fez nada bem. A vida não lhe fez bem.
Quando a pequena idosa viu os netos, franziu o cenho e enrugou mais a cara. Deu uma bufada com as narinas.
—Estão ensopados! –Ela exclamou, irritada. –Ora, quantas vezes já tive de lhes dizer pra levarem a porcaria dos casacos e do guarda-chuva? Será que vocês são tão iguais assim à mãe de vocês para não terem um pingo de responsabilidades? Crianças burras! Vão molhar tudo e ainda vão pegar uma gripe! –Apontou para o pequeno corredor, onde ficava o quarto de cada um. –Vão já se trocar! Agora! Ou eu lhes darei uma surra!
Os jovens irmãos foram correndo fazer o que a velha senhora lhes dizia. Após passarem por ela, Joana balançou a cabeça, com uma face desgostosa.
—A culpa é da Maria. –Disse o tio João. –Ela é uma mula como a mãe já foi. E fica andando de forma indecente, tal como a mãe.
Ao ouvir aquilo, Joana soltou um suspiro assustado.
—"Andando de forma indecente"?
O tio assentiu, e bebeu mais um gole.
—Ela está atazanando os garotos da escola, o pastor e, se bobear, até o próprio irmão. É só ver como anda, parece puta. Acho que até o pastor anda de olho nela, de tanto que passam tempo juntos.
Indignada, a avó das crianças foi até o quarto da garota, à passos largos, e abriu a porta. A neta estava quase toda despida, e se secando com uma toalha branca.
Joana viu como os seios dela estavam crescidos. Sabia que iriam crescer mais, assim como fora com sua filha, muitos anos antes. Sabia que sua neta viraria uma puta se deixasse.
—Ora, vejo com que dotes tem conquistados todos. –Disse a idosa, parada na soleira da porta.
A jovem se virou, assustada, e viu a avó a bisbilhotando. Por impulso, cobriu o corpo com a toalha em seus braços
—Vovó?
A velha foi andando lentamente até a sua neta, que era tão baixinha, que as duas quase tinham a mesma altura.
Joana sorriu.
—Você é igual aquela sua mãe. –Disse a idosa. –Não acha que sou cega, não é?
Maria estava totalmente confusa.
—Vovó, por favor…
A avó deu-lhe um tapa no ombro. Não doeu, mas chocou Maria, fazendo-a dar um grito de susto.
Ouvindo isso, Josué foi até a porta de seu quarto e olhou para o de Maria.
—Menina burra! – Joana berrou. –esqueceu o guarda-chuva e mostra os seios até pro tio e pro irmão!
Maria esbugalhou os olhos.
—O quê? Não! Nunca fiz isso!
—Está me chamando de mentirosa?
—Não!
—Como ousa me responder assim! Eu vou lhe dar uma surra que você nunca vai esquecer! Uma que eu deveria ter dado na sua mãe, quando a vagabunda ainda era viva!
—Vovó, fui eu! –Disse Josué.
As duas olharam para ele, surpresas, sem perceber que ele já estava ali olhando elas por um tempo.
—Eu falei que Maria não precisava de guarda-chuvas, e acabei por não levar nenhum quando fui buscá-la. Fui eu quem nos fez pegar um resfriado.
Na realidade ambos nem tinham pensado em levar o único guarda-chuva da casa. Afinal, estava muito sol quando eles saíram.
Ao ver a meia-irmã seminua, Josué tirou os olhos da avó e não conseguiu desviar da beleza de Maria. A jovem deve ter percebido, pois abaixou a cabeça, envergonhada por estar nua e olhar o peito nu do irmão. Ela tentou se cobrir com a toalha, novamente.
A avó o olhou, com certa desconfiança, e então entendeu para quem ele olhava. Joana bufou ao ver o pecado no rosto do neto, e se virou para a neta.
—Se vista! –Ela mandou. –Logo sai o jantar! –Depois se virou para o neto. –E você… Vai levar uma surra.
Maria tentou falar algo, mas seu irmão balançou a cabeça.
Joana levou seu neto para o quarto dela, onde ela pegou um pequeno cinto. Era pequeno e fino, mas era ideal para ela. Principalmente, pela ponta de metal da fivela. Ela o enrolou no braço e apertou o couro marrom.
—Se ajoelhe. –Ela mandou, e o obediente neto fez o que mandou. –Você é uma vergonha.
—Eu sei, vovó. –Ele disse, calmamente, pois não gostava de parecer desrespeitoso com ela. E sabia que havia verdade nas palavras dela. –Me perdoe.
Ao observar aquele jovem, ali, após ver a expressão em seu rosto e o brilho nos olhos ao ver a meia-irmã nua, Joana apenas viu seus velhos pecados. A filha, o filho… O pastor José, se seu palpite estivesse certo.
Todos os seus fracassos unidos em seu neto. A fúria tomou conta dela, e ela pensou em como a sua benevolência custara-lhe muito caro. Em como seus erros haviam afetado, não só ela, mas aos seus filhos também. Não poderia deixar que o mesmo acontecesse com os seus queridos netos. Não, precisava salvá-los do pecado.
—Está perdoado. –Ela disse.
Então o chicote voou contra a pele do rapaz e o arranhou no ombro. Josué fez uma cara de dor, mas não gritou.
—Devia ter feito isso com aquela devassa da tua mãe. –A mulher disse, mas isso não o afetava como afetava Maria. Ele realmente concordava com a avó naquilo.
E então o cinto cantou de novo. E mais uma vez. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo…
Quando Joana parou de bater, estava sem fôlego e com o braço doendo. Seu neto não gritou em nenhum momento, nem quando ela acidentalmente lhe atingiu no rosto. Vários cortes rubras podiam ser vistos na carne branca. A bochecha atingida tinha um enorme hematoma vermelho se formando, ficando cada vez mais inchado.
A avó chegou perto dele e ergueu o queixo dele com uma mão, fazendo-o olhar nos olhos. A idosa sentia orgulho do neto, e de si mesma, pois nenhum dos dois havia vacilado.
Mas também sentia uma satisfação dentro de si, uma felicidade obscura ao ver o resultado de seu trabalho na pele do neto. Assustada, ela preferiu ignorar esse sentimento.
—Você não vai jantar conosco –Ela disse. –Mas vai se sentar à mesa e nos ver comer, mas vai jantar de estômago vazio.
Josué assentiu. Apesar da língua afiada, ele apenas queria o melhor para a família. Sabia o esforço que sua avó tinha com ele.
—saia daqui e vista-se. –A avó disse.
Quando ele saiu do quarto, ela largou o cinto no chão, como se fosse uma cobra atacando o seu braço. Observou o simples objeto com muito, muito medo.
Ela uniu as mãos e começou a rezar.
Josué sentia as costas, os ombros, peito e barriga arderem. Mas estava bem com a dor, pois Maria não sofreu nenhuma. Sua bela irmã não merecia sofrer…
Mas eu sim, pensou Josué. Sabia que merecia aqueles machucados, pois, apesar de negar, estava cada vez mais claro que pensamentos impuros estavam a invadir a mente dele.
Ele mordera o lábio durante os lábios, podia sentir o gosto de metal na boca. Josué se lembrou de ter sentido o gosto de sal das lágrimas de sua irmã, e de ter passado a língua nas bochechas dela. Se lembrou de como a pele dela era suave, de ter visto um pouco dos seios…
O rapaz sentiu um calor tomar conta de seu corpo, assim como a vergonha.
Todo o seu corpo gritou em agonia quando ele colocou a camisa, mas ele nem se importou. Era uma dor boa, uma dor de amor.
Os quatros se uniram novamente algumas horas depois, na hora de comer.
Maria não iria cozinhar naquela noite, de modo que sua avó fez o jantar. A jovem colocou quatro pratos e se sentou de um lado da minúscula mesa de jantar, que era sempre levada pelo tio ou pelo irmão para o centro da sala.
Josué se sentou na frente da irmã. O estado em que seu rosto estava a assustou.
—Desculpe…–Ela sussurrou baixinho, com medo da avó ouvir.
—Tudo bem. –Disse o rapaz.
Antes que pudessem tentar falar algo, tio João se sentou na mesa, em uma das beiradas. O bêbado riu um pouco ao ver a cara do sobrinho, que ficou carrancudo com a atitude, mas nada disse.
A matriarca da família botou comida no prato de todos, menos no de seu neto.
—Josué não vai comer nada?
A avó negou com a cabeça, enquanto se sentava.
—A garota é burra mesmo –disse João. –É só ver o prato vazio dele pra perceber, hehehe.
A jovem ficou corada, mas nada disse.
—Quieto, João. –Disse a mãe do tio, juntando as mãos. –Vamos rezar.
Após as preces murmuradas, os três membros da família com o prato cheio, puderam comer.
—O pastor José vai embora. –Maria disse, entre uma garfada e outra.
—Ah, é? –A avó perguntou. – Por que? Não vai pra guerra, imagino?
Maria balançou a cabeça.
—Também não entendi muito bem. Ele falou algo sobre ter um lugar grande para ter filhos com a esposa, ou coisa assim…
A idosa assentiu. Ela estranhou, mas pensou que fosse melhor assim; até onde sabia, aquele pastor de araque podia ser pai de seu neto… Ou até dos dois! Pelo menos assim ela estaria livre dele. Morria de medo dele tentar algo com a sua adorável e pura Maria.
—Bem, agora é hora de comer, e não de fofocar. –Disse a velha, querendo encerrar o assunto ali. Esperava que logo se livrasse daquele homem nojento e o próximo pastor resolvesse tudo de ruim que ele havia feito.
Terminada a refeição, Maria se levantou e pegou os pratos.
—Deixe pro teu irmão fazer isso. –Disse Joanaz sem nem olhar para nenhum dos dois, enquanto se levantava e dirigia-se até o quarto.
Maria ficou um pouco perdida com o motivo da ordem abrupta, mas seu irmão pegou os pratos.
—Tudo bem. –Ele disse. –Eu limpo os pratos e arrumo tudo aqui, vá tomar o teu banho e dormir, irmã.
Suspirando, Maria acenou com a cabeça, em sinal de concordância e deu um beijo no irmão.
Quando ela foi para o banheiro, tio João se levantou, de forma bamba.
—Bom, já que ela vai usar o banheiro, eu vou soltar um barro. Limpa tudo, sobrinho.
Josué fez uma careta de nojo, e levou os pratos até a pia.
Joana colocou a roupa de dormir, e foi até o espelho. Viu que, apesar de se sentir vivaz como antes, ainda era a mesma velha fraca de sempre. Após observar-se, ela se agachou, meio dolorida, e pegou o cinto. Ao segurá-lo novamente, ela sentiu o couro morno e o sangue coagulado do neto, ela voltou a sentir o mesmo de antes, a euforia quase a possuindo novamente.
Suspirando, ela o deixou em cima da mobília e foi até a cama. Se ajoelhando para rezar antes de dormir, ela implorou para que Deus a guiasse e não a deixasse cair em tentação. Implorou para que Ele lhe mostrasse o caminho para salvar seus netos.
Maria tirou a camisola branca ao entrar no banheiro. Ao ficar em pé na pequena banheira –na realidade, apenas uma bacia enorme–, ela pegou o jarro de água quente e o passou pelo corpo. Tentou esquecer os problemas e pecados daquele dia, tentando apenas aproveitar a água morna em seu corpo antes de dormir.
Sem seu pastor com ela, seriam dias duros para a pobre moça, mas sabia que Deus lhe mostraria o caminho quando ela precisasse.
Através de um buraco feito na parede do banheiro, ele a observava, sem que Maria soubesse. Enquanto todos estavam ocupados e indo para seus quartos, ele aproveitou e escapuliu para fora. Observou as belas curvas do corpo da jovem; os cabelos seguros e sedosos; as pontas dos seios, bem empinados.
Sim, ela o lembrava da mãe, a mulher que ele havia tomado há muito tempo. O pecado que ele havia forçado ela a fazer, o gozo fervoroso de seu corpo suado contra o dela…
O tio João observava sua sobrinha na chuva, enquanto tirava o pau dos calções e o agitava, fervorosamente.
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