Rex Meus
20 Renascer
Um homem loiro acordou na floresta.
A chuva caía ferozmente sobre seu corpo.
Sua visão ainda era turva e deturpada, enquanto os olhos se acostumavam com a ausência de luz, revelando o formato das folhas e dos galhos de árvores acima da sua cabeça, protegendo-o um pouco da chuva como uma cabana. Logo, os olhos azuis voltaram a se fechar pela ardência provocada pela água que caía sobre seu rosto e pela dor cortante que atravessou o seu crânio, como uma faca afiada, fazendo com que ele levasse as duas mãos à cabeça para apertá-la com suas palmas, gemendo abafado. O movimento fez com que as folhas secas embaixo de seu corpo fizessem barulho, algumas quebrando sob o peso do homem loiro. Silenciosamente, ele desejou que fosse de manhã, pois o breu da floresta e os sons de animais que ele não podia enxergar estavam começando a deixá-lo nervoso. As gotas de chuva escorriam por dentro das narinas, provocando uma sensação terrível de afogamento. A respiração era pesada, longas e arrastadas tomadas de fôlego em pausas necessárias para que sua cabeça parasse de girar, como se estivesse bêbado, só que sem o êxtase agradável que o álcool trazia. O nariz do homem escorria um pouco se sangue, que logo a chuva lavaria, mas ainda manchava seus lábios em um vermelho que contrastava maravilhosamente com os olhos azuis, agora finalmente abertos. A coisa mais azul que existia.
Ele tinha coisas a fazer. A dor na parte de trás de sua cabeça já não era mais tão latente, então o homem loiro pôde erguer o pescoço, piscando lentamente para que o acúmulo de água escorresse por sua face, misturando-se às outras centenas de gotas. Seu corpo estava gelado como o de um cadáver, e não era para menos; estava completamente nu, no meio da floresta, sob uma chuva torrencial. Escorregou a mão pela cara, tentando inutilmente secá-la com o braço igualmente encharcado, na tentativa de voltar a enxergar alguma coisa. Não estava muito fundo na floresta, só precisaria andar um quilômetro para deixá-la, e então saberia exatamente o que fazer, para onde ir. Respirou fundo. As costas, a bunda e a parte de trás das coxas estavam sujas de lama, causando uma sensação úmida e desconfortável em sua pele alva. O cabelo era o pior. Mas teria tempo para se limpar mais tarde; precisava ter suas prioridades no momento, e a chuva logo o lavaria.
Apoiou-se nos joelhos para levantar. Endireitar o tronco causou uma pontada no rim, como se tivesse levado um chute nas costas, mas não fez nada além de liberar um grunhido de dor. O topo de sua cabeça chegava a formigar, tamanha era a força dos pingos de chuva que atravessavam a folhagem das árvores sobre sua cabeça. O homem loiro deslizou a mão pela testa, umedecendo os lábios, sentindo o gosto de sangue. A lama escorria entre os dedos, sujava sua testa, impregnava nos cabelos, e ele tinha certeza de que devia estar fedendo, mas não podia sentir. A respiração continuava ofegante, pesada, fungando ao puxar o ar pelas narinas, sentindo o desconforto da água que inalou anteriormente.
Os pés descalços afundavam na lama conforme ele andava, primeiro em passos lentos, acostumando seu corpo a sustentar o próprio peso novamente. Não era uma tarefa fácil, ele estava ciente disso. Os joelhos falharam quando o homem loiro tentou acelerar o passo, sentindo a maciez da terra molhada sob seus pés. Era gostoso. Fez uma pausa para alongar, acostumando os músculos com o movimento, parando um momento para encher os pulmões de ar, como se pudesse sentir em cada célula do seu corpo: estava vivo. A água gelada escorria pela pele, e ele tremia, sentia cócegas, e era quase agradável. O tronco do homem loiro estava exposto, o coração acelerado batendo dentro do peito largo, braços fortes e duros contraídos pelo vento frio que acompanhava a chuva, o abdômen definido e o pênis flácido à mostra, os pelos molhados do corpo emaranhados cobrindo a pele arrepiada.
Ao longe, sob o barulho alto da chuva, podia ouvir o som da marcha dos soldados que treinavam para a batalha. Gritos, xingamentos, sons metálicos de espadas colidindo. A chuva não importava a ninguém, pois os treinamentos continuariam mesmo embaixo de uma nevasca, dia ou noite. A guerra chegava ao fim, o homem loiro podia sentir o cheiro. Precisava fazer sua parte para se certificar de que o lado certo vencesse.
Estava acostumado a subir em árvores. Com a pele completamente exposta, raspou a coxa em uma casca do tronco, fazendo com que o sangue escuro escorresse e fosse diluído pela água. Não sentiu dor. O pé também estava cortado, mas ele não sabia como havia acontecido, e apenas quando estava sobre a árvore é que seu pé começou a arder. Não parou para observar o corte, pois os olhos de falcão estavam focados no guarda que vigiava a entrada dos fundos do castelo. O homem loiro precisava de roupas, e o guarda tinha roupas.
Sorriu. Talvez sua sorte estivesse começando a mudar.
* * *
Gregory massageou as têmporas, com os cotovelos apoiados na mesa. Sua cabeça estava prestes a explodir, ele podia jurar, e tudo o que gostaria naquele momento era tomar um chá de camomila sentado em sua poltrona no completo silêncio. Não era assim que Gregory passaria aquela noite. Os olhos estavam avermelhados pela falta de sono, lacrimejando, e bocejava, dando continuidade a uma sequência (iniciada por Chrisophe, contagiando o restante do grupo).
Na mesa redonda, havia um mapa de Zaron desenrolado, amassado nas pontas, riscado de vermelho pelo litoral, com uma série de xis e círculos em pontos específicos. Uma pilha de quatro livros estava perigosamente próxima da beirada da mesa, ameaçando cair, mas ninguém pareceu dar atenção. Havia também uma carta. Em torno da mesa, sentavam-se Gregory, Stanley, Wendy e Token. Henrietta e Christophe fumavam na janela. Quando Wendy bateu os olhos em Henrietta com o cigarro longo entre os dedos, ofereceu um olhar de reprovação quase que instintivo ao pensar no bebê que ela carregava, mas Henrietta não percebeu. Ou talvez apenas não tenha dado importância, visto o olhar cansado em seu rosto, as olheiras profundas, o vazio nas pupilas. Wendy não disse uma palavra a respeito.
Os cabelos negros de Wendy estavam presos em um coque no topo da cabeça, expondo as orelhas pontudas com brincos de pérola muito menores do que ela costumava usar. Estava diferente. Stanley observava a diferença em Wendy quando ela estava pronta para o trabalho sujo. Sabia tirar os vestidos de renda e seda para vestir peças de camponesa. Sua beleza parecia muito mais forte, rígida, o olhar compenetrado jamais deixando Gregory. Stan abaixou a cabeça e correu a mão pelo topo da cabeça, sentindo os próprios cabelos, limpando a garganta. Token também encarava na mesma direção que Wendy, logo ao lado dela, com a curva entre o dedo indicador e o polegar bem encaixada no próprio queixo.
–Isso está totalmente fora de cogitação. – Gregory finalmente disse, colocando a palma sobre a carta endereçada de Kupa Keep.
–Nada está fora de cogitação. – Token respondeu imediatamente.
–Isso está. Não me diga que algum de vocês realmente acredita que é uma boa ideia entregar o cetro a esse doente. Ceder à chantagem de um terrorista? E quem disse que nós podemos confiar que ele vai cumprir a parte dele?
–Calma. – Wendy respondeu de forma autoritária. – Nós estamos analisando. Pare de tirar conclusões por todos nós.
Stan levou as duas mãos ao rosto pra esfregá-lo, recostando-se para trás até se apoiar no encosto da cadeira, respirando profundamente. Precisava de silêncio, algo que não experimentava há bastante tempo; mas sabia que todos no recinto preferiam estar em outro lugar, um lugar em que não fosse preciso pensar em nada. Podia ver nos olhos de cada um deles. Stan se sentia desconectado daquelas pessoas, ao mesmo tempo em que as entendia, porque sua mente não estava de fato ali com seus companheiros. Não havia se pronunciado mais, não gastava seu tempo especulando em voz alta. Sua mente trabalhava a mil por hora.
Seus olhos azuis cruzaram com os de Christophe, que se escondia atrás da fumaça azulada do cigarro, com os lábios entreabertos e os olhos estreitos, desconfiados. O contato visual durou cerca de quatro segundos. Sabia o que o homem francês estava pensando, e considerou que talvez fosse melhor que ele verbalizasse o pensamento, em vez de deixar Christophe fazê-lo. Mas Stan não teve tempo de fazer nada a respeito.
–Tudo bem, sejamos democráticos aqui. Alguém realmente acredita que nós devemos aceitar a chantagem de Cartman? – Gregory perguntou, olhando em volta.
O guerreiro ergueu as sobrancelhas quando assistiu a Christophe apagar o cigarro no peitoril da janela, jogando-o para fora casualmente, finalmente se aproximando da mesa. O homem se colocou entre Wendy e Stan, apoiando a mão sobre a superfície lisa da mesa. Suas unhas estavam tão roídas que haviam sangrado um pouco, e o sangue seco na carne exposta das pontas dos dedos dele. Sua cabeça ainda era protegida por ataduras, que Wendy se certificava de trocar duas vezes ao dia, porque ambos sabiam que Christophe não o faria sozinho. Ele não gostava, naturalmente, mas a mulher não lhe dava muitas escolhas.
–Qual é a sua ideia, Gregory? – Christophe perguntou com uma voz rouca, talvez um pouco irritada.
Gregory ergueu uma das sobrancelhas, dando um ar exagerado à expressão de arrogância comum em seus traços. Havia um brilho surpreso em seus olhos, o que era de se esperar, isto que Christophe não abria a boca para dizer nada nos últimos dias. Gregory e Christophe raramente estavam de acordo, não importava o assunto, mas em todas as interações entre os dois homens, era possível sentir uma tensão mal resolvida em torno deles, que afetava todos os envolvidos. Wendy pôde sentir um frio na boca do estômago, Stan sentiu um arrepio na espinha, Token fechou a expressão imediatamente. Porque todos conheciam, e podiam sentir, que não havia meio termo entre Christophe e Gregory.
Se Gregory tivesse alguma ideia de como responder àquela pergunta, já teria despejado suas palavras com aquela propriedade de quem sabe de tudo, de quem não tem dúvidas. Por mais desagradável que fosse a entonação de Gregory, ela sempre dava aos outros uma sensação de segurança, pois assim como Christophe, Gregory era uma dessas pessoas que sempre sabiam o que era melhor (embora raramente concordassem), ou era essa a impressão que passavam, de qualquer forma. O loiro deslizou a língua pelo lábio superior, quebrando o contato visual, sacudindo a cabeça negativamente.
–Nós invadiremos Kupa Keep. Estamos em maior número, nossos homens são mais treinados.
Christophe abriu um sorriso amarelo, doentio e irônico, correndo a língua grossa pelos dentes mal escovados. Soltou o ar pelas narinas, assemelhando-se a um búfalo prestes a atacar. Wendy levou as mãos aos braços da cadeira, agarrando-se a eles para aliviar a tensão no corpo, e Stan cobriu a mão dela com a sua, sem afastar os olhos de Christophe.
–E o que vai impedir que Cartman nos mande partes do corpo de Kyle nesse meio tempo, enquanto você planeja seu ataque?
–Nem diga uma coisa dessas. – Wendy respondeu, não dando a Gregory qualquer chance de réplica. O homem loiro ergueu o queixo, pendendo o rosto para o lado de forma torta, estreitando o olhar com desconfiança, estudando a postura do francês que agora se apoiava na mesa com as duas mãos e inclinava o tronco na direção de Wendy.
–Vocês não entendem a gravidade do que está acontecendo aqui. Não é o que você quer ouvir, mas é a verdade. Dêem-lhe a porra do cetro.
–Christophe. – Token respondeu, em um tom de aviso, mais do que de represália. – Nós estamos lutando uma guerra por causa do cetro. Vidas terão sido desperdiçadas, todo o nosso trabalho, todo o ouro investido, todas as negociações serão jogadas pela janela, todas as batalhas vencidas... Não é simples assim. Cartman vai... Fazer coisas horríveis se possuir o cetro.
–Eu não ligo se ele vai enfiar o cetro no cu.
–Kyle liga. – Stan disse sutilmente, umedecendo os lábios de forma nervosa ao sentir o par de olhos castanhos de Christophe correndo para encontrá-lo. – Você sabe que ele vai nos mandar marchar imediatamente de volta caso Cartman tenha o cetro. Ele não vai aceitar.
Houve um momento inesperado de silêncio. Se qualquer outra pessoa tivesse proferido as mesmas palavras, talvez a resposta fosse outra. Mas não foi qualquer outra pessoa, foi Stanley Marsh, e isso fez com que Christophe selasse os lábios, pressionando-os de forma nervosa, rolando-os por dentro da boca como se precisasse conter as palavras como vômito. Balançou a cabeça sem dizer que sim ou que não, perdido nos próprios pensamentos.
–Talvez... – Stan prosseguiu, visivelmente incomodado pelo silêncio. – Se houver uma maneira de usar o cetro para...
–Nós não podemos fazer isso e você sabe. – Henrietta interveio de longe, a voz mais agressiva do que de costume.
Mas Stan não sabia. Não realmente. Os membros do conselho se entreolharam brevemente. Apenas cinco pessoas tinham verdadeiro conhecimento das propriedades do cetro da verdade; Gregory, que respondia pela força militar do reino. Token, que era representante máximo das forças políticas do Arvoredo e conselheiro pessoal do rei. Henrietta, que ministrava todos os assuntos relacionados à feitiçaria. Wendy, a voz do clero, que tratava de todas as questões espirituais e curativas. E o rei, Kyle. Apenas os membros do Conselho obtinham conhecimento do verdadeiro poder do cetro, o que projetava muitas lendas e boatos acerca do que se podia ou não realizar.
–Há regras. Para todo tipo de mágica, há regras. – Henrietta prosseguiu, receosamente, buscando algum olhar de reprovação nos rostos dos outros conselheiros. Umedeceu os lábios manchados de batom cor de vinho, dando uma última tragada em seu cigarro (o último que fumaria em muito tempo), apagando-o no cinzeiro de cristal que Christophe optou por não usar. Aproximou-se da mesa. – Mas o poder do cetro é superior a todas essas regras. Pelo menos para quem o possuir. É uma mágica em sua forma mais pura, sem picotes, sem restrições. É... Maravilhoso. Maravilhoso demais para que qualquer indivíduo de qualquer raça possa lidar. Dizem que o poder suga sua energia de tal forma que você ficaria louco só de tê-lo em mãos.
–Você nunca o viu? – Stan perguntou.
Christophe vagarosamente ergueu o tronco e estreitou os olhos em desconfiança para Henrietta, afastando as mãos da mesa.
–Nenhum de nós viu. – Token respondeu por ela. – Nem mesmo sabemos onde ele está.
–O quê? – Christophe perguntou, pensando em voz alta, com as sobrancelhas grossas franzidas. – Vocês estão travando uma guerra por um pedaço de pau que nunca viram? Como sabem que essa merda existe de verdade?
–Pare de chamá-lo assim. – Henrietta disse, irritada. – Você não faz ideia do que está dizendo.
–Ilumine-me.
–O cetro revela coisas horríveis que existem dentro de nós. Não o chamam de cetro da verdade à toa, ele revela quem você é, tudo de bom e tudo de ruim, quando você o toma. Kyle sabia disso. Ele sabe disso. É por isso que ele nunca expôs a ninguém, porque o poder do cetro te dá o falso êxtase de que você é um deus. É por isso que uma criatura tão diabólica causaria uma destruição inimaginável caso o possuísse, como o Rei do Chapéu fez. Você sabe disso, Christophe, você estava lá. Não podemos deixar que isso se repita.
Stan foi provavelmente a única pessoa que percebeu como o homem francês mordeu o interior das bochechas para não responder nada assim que o nome do Rei do Chapéu foi mencionado. Para o restante da mesa, não houve qualquer mudança na expressão de Christophe. Ele também não respondeu.
Então, o guerreiro perguntou:
–Cartman seqüestrou a única pessoa que sabe onde está o cetro?
Houve um silêncio longo. O ar estava tão tenso que poderia ser cortado com uma faca.
–Não exatamente. – Token respondeu em uma voz rouca antes de beber de um copo d’água. – Apenas a família real sabe.
Um suspiro longo escapou das narinas de Christophe, enquanto ele balançava a cabeça negativamente e cruzava os braços, fechando ainda mais a expressão. Stan o observou rapidamente, logo voltando seu rosto em direção a Token novamente, mas o conselheiro encarava o copo de água que havia acabado de colocar sobre a mesa, como se sentisse vergonha do que tinha acabado de dizer.
Stan ergueu as sobrancelhas, entreabrindo os lábios levemente. Sentiu a mão pequena de Wendy escorregar pelo seu braço, mas ignorou o toque.
–Ike? Não. Ele é só um menino. Ele provavelmente nem se lembra. – Disse, com os olhos focados em Token, que abaixou mais a cabeça e fechou os olhos, escorregando a mão pela testa.
–Tudo bem, ouçam. – Gregory anunciou em voz alta repentinamente, posicionando as pontas dos dedos na superfície lisa do mapa disposto sobre a mesa, levantando-se de sua cadeira. O tom arrogante estava lá novamente, e isso trouxe certo conforto a quase todos na sala. Apontou com o dedo indicador para baixo, colocando-o sobre o desenho de Kupa Keep no mapa, retratado em amarelo e vermelho. – Nós não podemos abrir mão do cetro, mas não podemos negá-lo. Eles têm nosso rei. Nós não podemos correr riscos, porque Cartman não tem nada a perder. Vamos fazer com que ele acredite que tem. Vamos responder a esta carta... – Gregory agarrou o pedaço de pergaminho entre os dedos, amassando-o descuidadamente enquanto o erguia. – Este insolente e estúpido pedaço de papel... Concordando com os termos dele. E no que diz respeito a qualquer um fora desta sala, é exatamente isso que faremos.
Stan cobriu o rosto com as mãos.
Christophe deu as costas a ele.
Token franziu o rosto em uma expressão de reprovação.
Wendy fechou os olhos e soltou um gemido baixo.
Henrietta não mudou de expressão.
Ninguém se atreveu a fazer qualquer pergunta. Gregory afastou mais as mãos, escorregando-as pela mesa, inclinando-se para frente. Seus olhos eram focados, determinados, contemplando o nada absoluto como se o futuro começasse a ser rabiscado à sua frente.
–Henrietta. – Gregory chamou, sem olhar para ela. Os olhos negros da mulher rolaram na direção dele, mas continuou exatamente na mesma posição, com a boca e linha reta e os braços cruzados, a expressão em branco. – Sem o dono do cetro... Sem Kyle, não tem nada que nós possamos fazer, certo?
–Acredito que nem com ele. É poderoso demais. Essas... Restrições e regras da feitiçaria servem para proteger quem as pratica, para manter a ordem. Seria preciso um feiticeiro poderoso demais, experiente demais, para conduzi-lo. Cartman tem isso a seu favor, ele entende detalhes horríveis da feitiçaria.
–E quem teria experiência o bastante para acompanhar Ike até a onde o cetro está e trazê-lo conosco na viagem?
–Espere, espere. – Wendy interrompeu, erguendo a palma. – Por que você quer levar o cetro se não poderemos usá-lo a nosso favor? Isso é arriscado demais. Especialmente para Ike.
–Porque nós não vamos enganar Cartman com um pedaço de madeira qualquer. A energia do cetro pulsa, você pode sentir atrás dos olhos. – Henrietta explicou em um tom blasé, indiferente. – Se queremos que ele acredite que terá o cetro, precisamos levá-lo. Ele tem que senti-lo. A ganância o deixará cego, e aí talvez... Possamos fazer algo a respeito.
–Talvez. – Gregory murmurou em concordância, mantendo-se de pé.
Começou a massagear o pescoço tenso, deitando a cabeça de um lado ao outro, piscando demoradamente. Enquanto seus olhos estavam abertos, mantinham-se presos nos contornos do mapa, cautelosamente desenhados a mão por um mestre albino que conhecia Zaron como sua própria palma. Traçava mentalmente o caminho que teriam que fazer, e em que ponto se encontrariam com o exército humano. Umedeceu os lábios devagar, erguendo os olhos para Stanley, que o encarava do outro lado da mesa. Logo ao lado de Stan, encontrou o par de olhos de Wendy Testaburguer ardendo.
–Vocês estão propondo uma traição. – Wendy disse em um tom alto o suficiente para se referir a todos os presentes, mas seus olhos jamais deixaram os olhos de Gregory.
–Para haver traição, é preciso haver confiança. – Christophe murmurou, ainda de costas, irritado com a conversa. Virou o rosto de lado, não o bastante para encontrar o olhar de Wendy. – Na guerra, isso não existe.
A aprovação de Christophe, ainda que em um tom grosseiro, aliviou as linhas de expressão no rosto de Gregory, tais linhas que faziam com que ele parecesse muito mais velho sob a luz dançante nas velas sobre a mesa e nas tochas das paredes.
As palavras pareceram fazer com que Wendy cedesse à ideia, consentindo com seu silêncio, erguendo um pouco o queixo para observar a chama da vela à sua frente, em uma expressão pensativa. Token apoiou os cotovelos na mesa, sacudindo a cabeça perdidamente. Estava sem palavras, o que era preocupante para um homem cujo trabalho era sempre saber o que dizer. Algumas outras palavras foram trocadas, vozes falando ao mesmo tempo, Christophe cuspindo no chão, Wendy se levantando da cadeira enquanto levantava a voz para Gregory, Henrietta alcançando outro cigarro que logo desistiu de acender. Token não prestou muita atenção em nada disso. Estava ocupado roçando os dedos pelos lábios, analisando suas opções.
Logo, calaram-se. Wendy pôs as mãos na cintura e bufou, assentindo com a cabeça. Gregory desviou o olhar para Token e ergue as sobrancelhas, tentando ler a expressão no rosto do homem. Token respondeu imediatamente. A voz saiu em um tom calmo, complacente, como se fosse óbvio:
–Isso não é certo.
Não havia julgamento naquelas palavras. Gregory endireitou o tronco devagar, segurando na beirada da mesa e apertando entre os dedos, as feições elegantes de seu rosto rígido como o de uma estátua. Seus olhos azuis encontraram Stanley, que mantinha a cabeça baixa e as mãos unidas sobre o colo, como uma criança autista no meio do caos.
–Você está terrivelmente quieto. – Disse ao guerreiro.
Stan levantou a cabeça, distraído, com os dedos roçando no maxilar. Olhou em volta, como se só então percebesse a presença de outras pessoas no cômodo. Seus olhos estavam pequenos, como se ele estivesse com sono. Piscou lentamente antes de focá-los em Gregory, soltando um grunhido fraco do fundo da garganta, abaixando a mão ao colo novamente.
O silêncio se restabeleceu.
O guerreiro sacudiu a cabeça como se não quisesse dizer uma palavra, pressionando os lábios juntos, esfregando as mãos quentes entre as coxas.
–Token tem razão. Não é certo. – Disse em uma voz rouca, quase tímida. – Eu costumava... Acreditar nisso. Em honra acima de qualquer coisa. Se você me propusesse apunhalar um homem pelas costas alguns anos atrás, eu sairia dessa sala imediatamente. Mas... Depois do que esse homem fez com Gerald Broflovski, que foi meu segundo pai a minha vida inteira... – Fechou os olhos e pausou para um suspiro profundo. – Depois de invadir nosso lar e assassinar nossos guardas de forma tão covarde que eles sequer souberam o que os atingiu. Eu não me importo se não é certo. Eu não me importo com a justiça. Eu só quero o Kyle de volta. Eu quero a cabeça de Eric Cartman numa lança.
Token uniu as mãos em frente ao rosto, com os dedos entrelaçados.
–Estou de acordo com isso. – Disse.
–Excelente. – Gregory respondeu com um sorriso satisfeito. – Mas ainda precisamos de um feiticeiro que saiba manuseá-lo, contê-lo. Que o mantenha protegido e saiba usá-lo caso seja necessário. Não podemos entregá-lo nas mãos de qualquer um.
–Kyle já antecipou isso. – Token informou calmamente. – Em qualquer caso de emergência, devemos trazer os gêmeos da montanha para cuidar do cetro. É isso que Kyle faria caso estivesse aqui.
–Ah, não. – Gregory resmungou, olhando brevemente para o lado, esfregando os olhos com a mão enquanto abaixava a cabeça. Conforme seu coração batia, a veia na testa latejava de dor, um tanto saltada pelo estresse. – Terrance e Phillip não.
–Quem? – Christophe perguntou impaciente, levando uma mão ao quadril dolorido.
Stan levou o dedo indicador e o polegar ao osso do nariz para esfregá-lo, fechando os olhos por um momento antes de respirar fundo e explicar:
–Eles são feiticeiros elfos, mas não são de Zaron. Vieram da mesma terra nortenha de Ike, mas são parte de uma tribo chamada Duo. Eles são um tanto... Estranhos.
–Mas temos outro problema. – Henrietta disse subitamente, alcançando um dos livros da pilha sobre a mesa, derrubando os dois livros de cima para pegar o terceiro, abrindo-o sobre a mesa e folheando-o enquanto falava. – Cartman usou uma magia antiga, um feitiço negro que apenas os espíritos da floresta conhecem, para mobilizar os guardas. Adhuc retines, é uma magia com os olhos. – A unha comprida de Henrietta percorreu as letras minúsculas da página amarelada número 406, escrita com tinta de pena. – “Adhuc retines, que os olhos vermelhos sejam o início, o fim e o meio. Apenas aquele cuja retina é queimada pelo senhor da escuridão pode realizar tal feitiço.” Ninguém sobrevive a esse feitiço. A pessoa é completamente congelada e não pode sequer piscar, jamais poderá. Foi isso que fizeram com os guardas do castelo. Com... Michael e os outros.
–Damien. – Token resumiu.
–Et succendit hominis. O homem queimado. – Henrietta prosseguiu. – Foi o que ele fez com os guardas da torre. Eles morreram... Queimados por dentro. Acho que eles não esperavam que houvesse tantos guardas na torre.
–Mas por quê? – Wendy perguntou, cruzando os braços, franzindo as sobrancelhas. – O que Damien ganharia ajudando Cartman?
–Talvez ele não esteja ajudando Cartman. Talvez... – Token especulou, alisando o próprio queixo. – Ele esteja usando Cartman para conseguir o cetro.
Henrietta negou com a cabeça, mantendo os olhos atentos nas letras minúsculas do livro enquanto passeava entre a página 101 e a 102, com uma leve ruga entre as sobrancelhas.
–Eu duvido muito. Damien é uma criatura da floresta. Ele não é socializado. Apenas homens de cultura civilizada entendem a natureza do poder, aqueles que vivem em uma sociedade. Damien não quer controlar nada... Ele é livre de padrões culturais. Mas não trabalharia para o Cartman gratuitamente, ele deve querer algo bastante pessoal. – A mulher falava, mas seu cérebro continuava focado na leitura daquele livro grosso e pesado. A capa do exemplar era bordô, e na frente havia escrito em letras grandes e douradas da língua élfica antiga: “A Floresta Secreta: um estudo analítico sobre criaturas florestais e sua mágica”. – Damien é de uma raça de demônios quase extinta.
–Céus. – Wendy disse baixinho, aproximando-se de Henrietta. Houve uma sombra aterrorizada que decaiu sobre suas feições, mas Wendy tentou manter a expressão sob controle enquanto tentava virar a página do livro. – Procure na... 160. 162, tem uma descrição das co-relações entre as raças florestais.
Stan franziu a testa, perguntando:
–Você sabe isso de cor?
Mas as duas mulheres estavam concentradas demais procurando a página correta, estudando o que quer que estivessem lendo.
Enquanto isso, Gregory limpou a garganta e suspirou fundo, dando uma boa olhada nos rostos tensos dos homens ao seu redor. Voltou a se sentar vagarosamente, massageando o próprio pescoço duro, deixando a dor transparecer em seu rosto enquanto o fazia.
–Nós não temos muito tempo. – Começou a dizer, tentando projetar mais a voz em autoridade. – Token. Você ficará aqui, responsável pelas funções do rei, certo? – Token apenas assentiu com a cabeça. Gregory começou a bater o pé no chão repetidamente. – Muito bem. Stan e eu partiremos com o exército assim que recebermos uma resposta de Kupa Keep a respeito da troca.
Christophe franziu as sobrancelhas e deu um passo lento à frente, mantendo os braços cruzados em frente ao peito, virando o rosto de forma desconfiada. Seus olhos brilharam como os de um leão que avista a presa, e Gregory pôde sentir perfeitamente o olhar do francês queimando em seu rosto, mas se recusou a encará-lo até o momento em que Christophe disse:
–Não esqueceu de nada?
Gregory ofereceu a Christophe um olhar quase paternal, impaciente, que ocultava uma óbvia preocupação – embora o loiro não fosse exatamente eloqüente quando se tratava de verbalizar sentimentos dessa natureza. E Christophe também não interpretaria de uma forma positiva, independente de como ele se colocasse. O olhar fez com que o francês fechasse o punho e o colidisse sobre a mesa, fazendo com que o copo de água de Token tremesse. Token cobriu o copo com a mão e repreendeu Christophe com o olhar, mas manteve-se em silêncio.
–Pare com isso. – Gregory respondeu com uma voz levemente esganiçada, perdendo a compostura durante um momento. Passou a mão pelos cabelos para alisá-los para trás. – Você absolutamente não está em condições de viajar.
–Eu não preciso da sua permissão pra porra nenhuma.
–Eu sou um general. – Gregory disse mais alto, voltando a se levantar da cadeira, empurrando-a para trás com o movimento.
–Do seu exército. Eu pareço uma merda de um soldado pra você?!
–Você sempre com esse complexo de rebelde sem causa. Kyle não está aqui para justificar a sua agressividade, você deve obediência.
Assim que Christophe começou a caminhar na direção de Gregory com os passos de um touro furioso, Stan praticamente voou de sua cadeira em direção ao francês para colocar a mão no peito dele e impedi-lo de alcançar o loiro, que agora estava de pé com uma mão na cintura e a outra apoiada sobre a mesa, oferecendo um olhar audaz e inabalável. Mas seu coração estava acelerado, Stan podia perceber. Gregory não era um homem fraco, de forma alguma, mas era um militante que se dava muito melhor no campo da estratégia do que na força braçal. Ele estremeceu de medo por um segundo, embora não tenha deixado ninguém notar, pois seu queixo permanecia erguido.
–Toupeira. – Stan disse em um tom baixo, como se quisesse ser ouvido apenas por ele. Os olhos do francês permaneciam com o brilho raivoso, os dentes aparecendo entre os lábios como se ele estivesse prestes a rugir. – Três dias atrás você ainda não conseguia andar sozinho. Abriram a sua cabeça com uma pedra, você não deveria estar se forçando. Talvez... Viajar essa distância, sob essas circunstâncias, seja demais agora.
Christophe arrancou a mão de Stan de seu peito e o encarou de frente, precisando olhar para baixo para encarar aqueles olhos de um azul escuro profundo. Os olhos de Stanley tinham um efeito calmante na maior parte do tempo, mas nem eles foram suficientes para que Christophe relaxasse.
–Eu estou por aqui com vocês me dizendo o que eu agüento. – Respondeu em um tom alto, intimidador, bem perto do rosto do guerreiro.
Por um segundo, Stan não fez ideia do que dizer. Encarou o outro homem com certa dor, roçando os lábios em hesitação. E no segundo seguinte, considerou-se um homem de sorte pelo alívio que foi a tomada de fôlego brusca de Wendy, que levou a mão ao peito e proferiu em voz alta, chamando a atenção de todos:
–Meu Deus.
Henrietta não disse nada, apenas levantou o rosto vagarosamente, pálida como um cadáver. Wendy virou-se para ela, em busca de um olhar de compreensão, mas não recebeu nada em troca, então voltou a encarar os rostos curiosos que interromperam o conflito para ouvi-las. Token apertava a mão com força em torno do seu copo de água.
Após um suspiro arrastado, foi Henrietta quem fechou o livro sem pressa e limpou a garganta, explicando em um tom calmo:
–O sangue azul de um elfo sacrificado corresponde a um século de vida para um demônio. Essa é a recompensa de Damien.
–Kyle? – Stan perguntou antes mesmo que ela terminasse de falar. Seus lábios permaneceram entreabertos, e o corpo anestesiado. Ele sentia os membros amolecerem lentamente. Fechou um pouco as pálpebras, pendendo com o rosto para frente diante do silêncio das duas mulheres. – Kyle é a recompensa dele?
Sentiu uma mão firme e quente em seu ombro, apertando-o de leve. Sabia que era Christophe. E aquela mão impediu que ele se inclinasse para frente e vomitasse ali mesmo. Engoliu seco.
O único som que invadia o ambiente era dos pássaros noturnos que gritavam lá fora, um som tão corriqueiro no Arvoredo que ninguém mais o percebia. Gregory deixou o corpo cair pesadamente na cadeira, apoiando o cotovelo na mesa e percorrendo a palma pelo maxilar, onde uma camada fina de barba loira começava a crescer. Ele nunca havia sido visto com a barba mal feita antes. Percorreu a língua pelos lábios rachados, sentindo os olhos ardendo de exaustão.
–Isso é apenas mais um motivo para não perdermos tempo. – Tentou dizer em uma voz firme, que saiu cheia de falhas, roçando a ponta do indicador no polegar enquanto prosseguia. – Token e Wendy cuidarão do reino. Henrietta entrará em contato com os gêmeos, tratará de que eles venham conosco. Mandarei um dos mensageiros responderem à carta de Cartman como se acreditássemos na barganha dele. Mas Stan e eu chegaremos lá com nosso exército antes disso, pegaremos os humanos despreparados. E exigiremos que a troca seja feita longe do campo de batalha. Eu liderarei os homens, Stan estará lá com os gêmeos para a troca, e ele não sentirá nem o cheiro do cetro caso não vejamos Kyle são e salvo. Se ele realmente pretende dar o nosso rei de comida a Damien, é melhor que pense duas vezes.
–Nesse caso... Não é mais prudente manter o cetro oculto? – Token perguntou cautelosamente.
–Não, porque se o plano de Cartman não é fazer a troca, ele provavelmente planeja invadir o reino novamente para revirar cada canto. Precisamos tirar o cetro do Arvoredo. Existem grandes chances de que... – Hesitou por um momento, lançando um olhar a Stanley antes de continuar. – De que ele esteja torturando Kyle para descobrir onde está. Com feitiçaria. Feitiçaria do tipo que não o deixará mentir. Precisamos fazê-lo entender que não está no controle, que depende de nós para ter o que quer. E você. – Apontou para Christophe. – Não discutirei mais. Mas fique avisado de que, se você cair na hora errada, eu não vou te carregar.
Christophe o encarou com a mesma expressão vazia, sem piscar. Stan virou o rosto de lado para ele, sem olhá-lo, mantendo o foco no chão.
–Eu o carregarei. – Sussurrou ao Toupeira, alto o bastante para que os outros ouvissem.
–Alguém tem que conversar com Ike. – Wendy disse em uma voz fraca.
Stan pressionou o polegar sobre o próprio olho, fazendo uma careta sutil antes de dar dois passos em direção à porta, empurrando Christophe acidentalmente ao passar como um homem bêbado.
–Eu falo com ele. – Anunciou antes de deixar a sala.
Christophe rolou os lábios para dentro da boca como se quisesse dizer algo, mas segurasse o pensamento para si. Logo seguiu o guerreiro sem deixar escapar qualquer palavra.
Poucos segundos após a porta se fechar, o copo de água que Token segurava em sua mão estourou em um som estridente, assustando todos os restantes, com exceção do próprio Token, que ainda segurava alguns cacos de vidro em seu punho fechado, escorrendo sangue entre os dedos. A água começou a se espalhar como uma poça sobre o mapa, alcançando a beirada da mesa e pingando no chão, assim como as gotas de sangue da mão de Token escorriam até gotejarem sobre a água na superfície da mesa, diluindo-se. Lentamente, Token virou o rosto para a própria mão, ao perceber os olhos arregalados de Wendy.
–Perdão. – Disse baixinho.
* * *
Stan roia as unhas. Roeu sua vida inteira, e por mais que Kyle dissesse que era um hábito terrível, ele jamais viu mal nisso. Cravava as pontas dos dedos nos braços nus de Christophe, tão grossos e duros, que sentia a carne logo acima das unhas ardendo pela força com que segurava. Seu rosto molhado estava deitado contra o ombro do humano, as lágrimas escorrendo pelas bochechas e molhando a manga da camisa do Toupeira, os dois homens de pé escondidos na curva do fim do corredor que levaria às escadas, Stan encurralado como um animal na parede soluçando enquanto tentava segurar o monstro que crescia dentro dele, o sangue nos olhos que instigava o desejo de matar qualquer coisa, qualquer um, porque ele precisava sentir algo além de dor. Christophe não o abraçava, não exatamente, apenas o segurava com força no lugar enquanto o corpo de Stan tremia, quase que compulsivamente, a boca sempre aberta sugando o ar em gemidos abafados pelo soluço do choro espremido, apertado, como seu peito estava naquele momento. Apertado demais para que o ar entrasse nos pulmões, apertado demais para que o coração batesse. A dor era física. Em determinado ponto, Stan começou a sacudir a cabeça negativamente, negando aquela realidade, sendo esmagado por ela. Escorregou na parede um pouco para baixo, e teria caído no chão se as mãos firmes de Christophe não estivessem ali, se o corpo do homem à sua frente não parecesse maior do que a parede de tijolos ali atrás, e era a única coisa que mantinha Stan são naquele momento. O que escapou dos lábios de Stan então foi um grito abafado pelo peito do homem francês, e ele esfregava o rosto contra o tecido grosseiro da camisa preta de Christophe, à qual se segurava como se sua vida dependesse disso, encolhendo-se como uma criança, como um filhote de bezerro se aninhando à mãe morta.
–Eu não consigo... – O guerreiro sussurrou sob ofegos pesados, a voz trêmula e fraquejando, acompanhado de um gemido de dor. – Eu não consigo viver sem ele.
Christophe apenas fechou os olhos e envolveu a parte de trás da cabeça de Stan contra o seu peito. Não sussurrou nenhuma palavra de conforto, não disse que tudo ficaria bem. Apenas esteve ali. Era tudo o que podia fazer.
O herói havia caído.
* * *
O homem loiro estava vestido como um guarda. Porém, não era um guarda. Passou despercebido pelos guardas da madrugada, pois vestia a mesma armadura com os mesmos tons de vermelho e dourado, e qualquer um o confundiria. O elmo cobria boa parte do seu rosto, então não podiam identificá-lo, mas não tentavam fazê-lo sob a luz tortuosa das tochas. Estavam desinteressados. Conversavam sobre mulheres, o que fez o homem loiro revirar os olhos ao passar por eles. A roupa era pesada e desconfortável, tornando seus passos barulhentos. Se não estivesse disfarçado, talvez isso fosse um problema.
Encaminhava-se a uma cela específica. O cheiro das câmaras dos prisioneiros era terrível, e fez com que o homem loiro franzisse o nariz, mas engoliu a insatisfação para vestir uma expressão serena ao encontrar que vigiava as celas de madrugada, comunicando tranquilamente que ele havia sido chamado na serraria e que ficaria no lugar dele até que voltasse. Era apenas uma das mentiras que o homem loiro contara aquela noite. Seus olhos azuis reluziram de satisfação ao que o guarda, sem questionar, levantou-se da cadeira e se dirigiu ao caminho da serraria, que ficava do outro lado do terreno do castelo, e ele teria aproximadamente 15 minutos antes que o homem voltasse questionando que ninguém o requisitara na serraria. Era tão fácil se aproveitar da preguiça dos guardas de Kupa Keep – guardas estes que o homem loiro conhecia muito bem. Usariam qualquer desculpa para dar uma volta no meio da noite, em que nada acontecia.
Assim que foi deixado sozinho, o homem loiro correu em direção à porta de madeira para espiar a pequena abertura de grades, precisando se colocar na ponta dos pés para olhar dentro da cela. Demorou algum tempo até enxergar o corpo pequeno encolhido no canto, sobre uma pilha de feno, sentado de frente para a parede. Sentiu um aperto no coração. As nuvens da chuva encobriam a luz forte da lua cheia que brilhava no céu, tornando a cela escura. O homem loiro franziu a testa e alcançou no bolso o molho de chaves que havia roubado do almoxarifado meia hora antes.
O som da chave sendo inserida na fechadura fez com que Kyle virasse o rosto em direção à porta, os olhos verdes inchados e avermelhados. Havia um corte aberto em sua bochecha, provocado pela lâmina de uma espada, e a visão assustou o homem loiro, que segurava a maçaneta da porta com uma mão e levava a outra ao peito apertado. Kyle perdeu o ar. Colocou as duas mãos imundas no chão sujo, o rosto elegante mais fino do que da última vez que o homem loiro o vira, pela falta de nutrição. Kyle parecia doente. As olheiras profundas, o cabelo crespo sujo, as maçãs do rosto destacadas pela magreza, os lábios cheios de feridas. Mas um brilho intenso nos olhos de esmeralda, um brilho esperançoso.
Demorou até recuperar a voz, perguntando com a voz trêmula, quase assustada:
–Kenny?
O homem loiro sorriu. Deu um passo à frente, tirando a chave da fechadura e encostando a porta. Umedeceu os lábios ansiosamente, e então deu passos acelerados em direção ao elfo, ajoelhando-se perto dele. Kyle estreitou os olhos irritados pela iluminação que veio de fora ao abrir a porta.
–Eu sinto muito, docinho. – O homem loiro sussurrou, esticando a mão para tentar tocar o rosto ferido do elfo.
Mas Kyle, como um animal selvagem, recuou contra o canto da parede, pressionando as costas para trás como se quisesse atravessar os tijolos. O brilho se esvaiu e as pálpebras se abriram, arregalando os olhos verdes, contraindo os músculos da face enquanto tremia de fraqueza.
–Lady McCormick? – Kyle perguntou baixinho, levando uma das mãos à própria garganta cheia de marcas roxas.
Butters manteve os olhos fixos na mão fina do rei elfo. Separou os lábios ao perceber que as unhas longas haviam sido arrancadas, uma por uma, deixando apenas a carne exposta e ensangüentada. Levou a própria mão para cobrir a boca, oferecendo a Kyle um olhar que era familiar ao elfo, pois era exatamente assim que sua mãe, Sheila Broflovski, o olhava quando ele se machucava brincando no pátio. Cobriu a mão direita com a esquerda, que ainda tinha todas as unhas intactas, como se tivesse vergonha, abaixando-as lentamente.
O homem à sua frente tinha as feições de Kenny McCormick, tão semelhante que era perturbador, e a visão fez com que o elfo encolhesse o nariz pela amarga vontade de chorar. Mas segurou firmemente. Olhando de perto, podia ver que Butters tinha traços muito mais delicados, mas os olhos eram exatamente iguais aos de Kenny.
–Majestade... – Butters sussurrou, erguendo novamente a mão revestida por uma luva, oferecendo uma carícia breve no braço fino de Kyle, que o observava de lado. – Não tenha medo de mim.
–O que está...? O que você quer?
–Precisava ver que estava bem. – Respondeu falando ainda mais baixo, inclinando-se para frente, chegando mais perto dele. – O que aquele monstro fez com você?
Kyle tremia de frio, quase nu. Butters quis muito levar algo para ele vestir, mas se qualquer um dos guardas visse isso, poderia causar problemas tanto ao elfo quanto ao plano. A resposta foi uma sacudida de cabeça, enquanto o ruivo tentava se manter sob controle, encolhido contra a parede gelada.
–Pobrezinho. Eu não tenho muito tempo. Mas saiba de uma coisa. – A mão enluvada subiu ao rosto de Kyle, e o elfo não lutou contra, permitindo que os dedos de Butters roçassem pela sua bochecha ferida. – Eu vou tirar você daqui. Quero tranqüilizá-lo, Majestade.
Um brilho curioso surgiu nos olhos do elfo. Ele ergueu o queixo, expondo seu pescoço longo e branco com hematomas, abraçado ao próprio tronco, engolindo seco.
–Por quê? – Perguntou e uma voz amarga, incrédula.
–Há tantas coisas que você não vai entender agora, vossa Graça... Mas por favor, não chore. Espere por mim amanhã. Eu tenho uma ideia.
Por mais que o elfo desejasse cuspir na cara daquele homem à sua frente, desprezando toda a sua doçura, não acreditando em nenhuma palavra dita, e desejasse puni-lo por ser tão igual ao fantasma que Kyle via todos os dias dentro de sua cabeça, ele apenas fechou os olhos úmidos e assentiu. Não estava no fundo do poço porque não havia perdido a esperança ainda. E não havia nada que a princesa pudesse fazer que fosse pior do que aquilo que ele já estava vivendo. Kyle não havia perdido ainda.
Um som no corredor fez com que Butters se levantasse, assustado. Uma voz surgiu ao longe:
–Quem está cuidando dos detentos?
–Eu, senhor! – Butters respondeu lá de dentro, em um tom tão másculo e grave que não parecia a mesma pessoa com a qual Kyle havia falado há poucos segundos. Porque a pessoa com quem ele havia conversado era Marjorine. Butters ofereceu um olhar longo ao rei elfo, sussurrando o mais baixo possível. – Espere por mim.
O homem loiro saiu da cela e voltou a trancá-la, explicando ao carcereiro que entrou para dar uma lição no elfo que não parava de chorar. O carcereiro o olhou de perto, de cima a baixo, com os olhos semicerrados em desconfiança.
E lá fora, a chuva caía.
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