Rex Meus

4 Pip, o patinho de borracha


Kenny nunca sonhava. Ou pelo menos seus sonhos nunca eram nítidos o suficiente para que ele se lembrasse com clareza depois, no máximo um tumulto de imagens grotescas que o faziam acordar suado e ofegante no meio da noite. Mas algo particular aconteceu. Podia ser o ambiente daquela cela que proporcionou uma alucinação; podia também ser o fato de que ele não fazia refeição alguma há... Ele nem sabia mais quanto tempo. Apesar de a pequena janelinha oferecer uma noção básica de dia e noite, o tempo pareceu se esticar até o ponto em que rompeu, como um cordão, e agora ele não fazia mais ideia de há quantos dias estava ali. Os elfos lhe ofereceram apenas dois pratos de comida desde que o capturaram, ambas as refeições com cara de comida já mastigada e digerida. Mas ele comeu com as duas mãos, enfiando o rosto no prato de cerâmica como um animal. Seu estômago latejava de dor. Fazia muito tempo que não traziam comida para ele. Fazia muito tempo que ninguém aparecia em sua cela também.

A fraqueza física e a exaustão o confundiram, de forma que ele não sabia dizer ao certo se estava sonhando, alucinando ou se aquilo estava acontecendo de verdade. Deitado no chão da cela, tremendo de frio, o que Kenny viu foi o rei elfo abrindo as grades de sua cela e caminhando em sua direção com um prato em uma das mãos e uma tigela na outra. Não podia ser real, não, porque Kenny enxergava muito bem uma espécie de luz que emanava do elfo, enquanto todo o entorno parecia turvo e confuso, como acontece nos sonhos. Separou os lábios para dizer algo, mas tudo o que saiu foi um grunhido gutural rouco. O rei se ajoelhou ao lado dele. O loiro quase ficou decepcionado com o próprio inconsciente ao perceber que o rei vestia apenas branco, leve como uma roupa de dormir, quer dizer, o quão clichê é isso? Seu cérebro projetar a imagem de uma criatura angelical e iluminada vestindo branco. Ele também não usava coroa.

Tudo isso perdeu a importância quando o braço de Kyle envolveu seu pescoço e delicadamente o puxou para que ele erguesse a cabeça, deitando uma mão leve na testa dele e levando a tigela cheia de água para os lábios do prisioneiro, que gemeu de alívio ao sentir o líquido precioso descendo pela garganta. Não importava que aquilo não fosse real, engolia a água de forma afobada e barulhenta, sentindo um pouco escorrer pelo seu queixo e pescoço. Aquela parecia ser a melhor sensação de toda a sua vida. Foi só quando ergueu sua mão trêmula e imunda para cobrir a de Kyle que Kenny se deu conta. E era tão óbvio. Naquele momento, com a mão carinhosa de Kyle tocando sua pele imunda, erguendo-o do chão com tanta facilidade e o hipnotizando com aqueles olhos verdes gigantes, era tão óbvio.

Tudo ficou claro como água. Kenny finalmente pôde entender porque Stanley olhava o rei com aqueles olhos de cachorro leal que daria a vida pelo seu dono, com puro e genuíno amor e nada mais. Também pode entender porque Christophe quase dilacerou sua garganta quando ele ofendeu Kyle, contrariando as ordens do próprio, enlouquecido pela ideia de alguém no mundo ridicularizar uma criatura tão magnífica. Kenny pôde entender porque todos os elfos pareciam se atirar ao chão quando o rei passava, por vontade própria, não por repressão ou por medo. Ele era...

–Lindo... – Kenny murmurou sem ar, depois de engolir toda a água.

Estava aninhado nos braços de Kyle como uma criança agora, com a cabeça fraca pendendo para trás. Olhos profundamente azuis encontravam olhos terrivelmente verdes.

–Eu odeio ver qualquer ser dessa forma... Humano ou não, eu odeio manter prisioneiros. – A mão delicada do rei acariciava a testa úmida de Kenny, que suava frio. – Eu vejo o bem em você.

Kenny apertou os olhos como as palavras o machucassem.

E não os abriu mais. O sonho todo se desfez em escuridão por alguns instantes, logo dando lugar a outro.

Ele havia se tornado um macaco e brincava no alto das árvores do bosque, sentindo o vento soprar no rosto, pulando habilidosamente de galho em galho. Não havia do que fugir, o que temer. A vida era muito simples. Ele podia jogar o próprio cocô nas pessoas e catar bichinhos de seu pelo. E acima de tudo: ele era livre. Em sã consciência, ele não se lembrava de algum momento em que particularmente tenha desejado ser um macaco. Não, ele gostava de pássaros e de felinos. Mas nas imagens turvas do seu sonho, a vida de um macaco parecia tão espetacular. Tudo tinha gosto de frutinhas e cores bonitas. Tudo era tão verde e Kenny amava, queria morar naquele verde para sempre. Verde como os olhos do rei, exatamente no mesmo tom. Queria morar nos olhos do rei. Essa foi sua última lembrança.

Estava tão imerso em seu próprio inconsciente que não conseguia entender porque sentia sua mão molhada. Olhava para sua mão peluda de macaco e via claramente que ela não estava molhada, então de onde vinha aquela sensação absurda?

Foi só com o barulho de algum objeto de metal caindo no chão que Kenny foi sugado de volta à realidade, abrindo os olhos quase arregalados. A primeira coisa que viu foi outro par de olhos castanhos o encarando como se ele fosse algum tipo de troll ou monstro da floresta. Por alguns instantes, os dois pares de olhos apenas se encararam. Então o homenzinho começou a gritar na cara dele, sem afastar o rosto, fazendo com que o loiro pulasse para trás e retribuísse o grito de pavor, mesmo sem saber ao certo do que ele deveria estar com medo. Kenny se atirou para trás, mas teve sua mão puxada de volta e só então percebeu que um dos pulsos estava algemado à barra de ferro da grade. Ele se agarrou às barras, estudando o rapaz que corria para fora de sua cela com as pernas trêmulas, finas como as de um cabrito. Kenny parou de gritar. O garoto também. Antes que ele pudesse entender que merda estava acontecendo, o quarto estava cheio de guardas com flechas apontadas para ele e olhares ameaçadores nas faces.

–Não, não o machuquem! Ele não fez nada! – o homenzinho assustado gritou. – Por favor. Foi culpa minha, eu derrubei o balde e ele acordou no meio do banho. Por favor, só... Abaixem as armas, elas me deixam nervoso.

Kenny quase sentiu pena do garoto. Era um elfo mais jovem, de cabelos quase platinados de tão loiros e um corte tão quadrado que beirava o ridículo. Vestia calças volumosas em um tom lilás muito claro e um laço imenso amarrado ao pescoço, na mesma cor. Kenny levou a mão à boca para conter uma risada, sentindo-se cruel.

Só então percebeu que o chão da cela estava ensopado e ele não estava vestindo sua camisa. Seu braço inteiro estava úmido, assustadoramente mais limpo que o resto do seu corpo. Havia uma esponja cheia de água no meio da cela e um balde caído, assim como uma caixinha de madeira aberta que parecia conter instrumentos de medicina. Kenny ergueu o rosto com uma expressão confusa para o garoto, que mantinha o punho fechado sobre os lábios e um olhar apavorado conforme os guardas deixavam o recinto, alguns o instruindo para amarrar também a outra mão do prisioneiro.

–Estaremos na porta, Pip. Não tenha medo. – Um deles disse em um tom mais gentil.

Kenny teve pena do pobre garoto. Não entendeu por que os próprios guardas não o amarravam, em vez de deixar um trabalho desses para uma criatura que parecia tão assustada.

A porta continuou aberta, dois guardas atentos acompanhando a situação do lado de fora. Mas o garoto não se moveu. Engoliu seco quando voltou a se virar para Kenny, limpando a garganta como se tentasse (céus, como se houvesse alguma chance depois dessa cena) retomar a postura de autoridade.

–Cara. Você estava me dando banho?

–S-sim. Foram ordens do rei, senhor. – Pip disse com um aceno de cabeça, franzindo o nariz e se policiando mentalmente para não chamar o prisioneiro de “senhor”. Suas bochechas coraram de leve. Ele também tinha um sotaque diferente. Kenny concluiu que ser estrangeiro era algum tipo de pré-requisito para servir ao rei elfo.

–O seu nome é Pip? – perguntou ao garoto com um sorriso divertido, soltando uma risada curta. Teve certo receio de que o rapaz se sentisse insultado (não que Kenny se preocupasse muito em ferir os sentimentos daquelas pessoas, mas esse menino parecia tão perdido que chegava a causar uma espécie de compaixão).

Não foi o caso. Pip parecia assustado demais para se preocupar com ofensas.

–É claro que não! Isso seria muito bobo. É Philip Pirrup!

"Ah, claro, porque isso não é bobo", Kenny pensou, cobrindo a boca com a mão novamente, rolando os lábios para dentro da boca, tentando segurar uma risada inevitável diante daquela figura. Era tão caricato que ele não conseguia sequer escolher sobre o que fazer uma piada. Ao conseguir recuperar a expressão séria, limpou a garganta e coçou atrás da orelha.

–O rei tem algum motivo em especial para me querer limpo?

–Eu... Eu não perguntei sobre isso.

–Eu posso me lavar sozinho, se você repuser essa água.

–Eu temo que não seja possível, senhor. O rei me deu uma ordem. Eu só preciso... – Andando na pontinha do pé, em passos lentos, o rapaz voltou a entrar na cela, sem afastar os olhos do prisioneiro. Mais que depressa, inclinou o tronco e agarrou a alça do balde de forma desajeitada, correndo para trás como se Kenny fosse um leão espreitador e Pip fosse uma zebra. – Buscar mais água.

O garoto loiro saiu correndo, fazendo um barulho terrível nas tábuas de madeira, deixando a porta da cela escancarada. Não que Kenny cogitasse fazer alguma estupidez. Nem poderia, com a mão algemada à barra de ferro. E mesmo sem a algema, os guardas do lado de fora o observavam ansiosos por qualquer movimento brusco, prontos para atirar. Elfos eram malditamente certeiros com seus arcos.

Foi somente na ausência de Pip que Kenny deu uma boa olhada em tudo o que havia em volta. A água com alguma espuma de sabão se espalhava pelo chão da cela inteira, inclusive molhando sua bunda e suas pernas, gerando um leve desconforto. Mas há muito tempo ele já não sabia mais o que era conforto. Bufou impaciente. Era o começo do inverno e só agora o frio começava a se manifestar. Aquela cela já era suficientemente gelada, mas estar sem camisa e molhado no chão prometia uma pneumonia, certamente. Kenny notou sua camisa – nojenta de tão suja, mas cuidadosamente dobrada junto com outra muda de roupa — sobre a cama, ao lado de um prato cheio de comida. O loiro franziu. Isso era esquisito. Esticou o pescoço para enxergar o que havia dentro do prato. Não era a gosma cinza que eles costumavam servir. Eram pedaços grandes de carne e verduras coloridas.

O garoto voltou segurando o balde pela alça e cantarolando uma canção que era familiar aos ouvidos de Kenny, o que era estranho, porque nunca achou que os elfos e os humanos compartilhassem de traços culturais parecidos, especialmente nas músicas. Mas deixou esse questionamento para mais tarde.

–Pip, amigo. Responda-me uma coisa. – Kenny chamou, erguendo a mão livre para que ele entrasse na cela. Pip pareceu aterrorizado, desconfiando de que o prisioneiro tivesse algum tipo de plano, mas teria que entrar na cela de qualquer forma. O fez muito devagar. – Numa escala de 1 a 10, quais seriam as chances do rei ter me feito uma visita noturna ontem?

Agora, um ar de curiosidade dominou a expressão do garoto, tomando o lugar do medo. Seus pés faziam barulho ao pisar na camada fina de água do chão conforme ele se aproximava, dobrava os joelhos e largava o balde um pouco afastado de Kenny. Manteve- se de cócoras para não sentar no molhado.

–Não entendo, senhor...

Kenny fez um sinal com a cabeça em direção ao prato, coçando o queixo. A barba já estava muito maior do que ele costumava deixar, assim como seus cabelos.

–Quem trouxe aquilo ali?

–Eu... Eu não sei, senhor. Já estava aqui quando eu cheguei.

O prisioneiro ponderou um pouco, olhando em direção ao prato, e decidiu por não contar ao rapazinho o que quer que tenha visto na noite anterior. A possibilidade do rei realmente ter ido fazer uma visita e dado água na boca dele fez com que um arrepio sutil percorresse a espinha de Kenny, embora ele não tivesse certeza do que tornava aquela ideia toda tão macabra. Mas tinha um palpite. Não se lembrava, em toda a sua vida, de ter se sentido tão exposto daquela forma antes.

Sem questionar mais nada, Pip mergulhou a esponja no balde e cautelosamente aproximou a mão do braço de Kenny, que o observava com divertimento. Os dedos trêmulos de Pip seguraram o pulso do homem para erguer seu braço e voltar ao que estava fazendo antes. Não seguiu o conselho dos guardas de algemar sua outra mão, mas Kenny não entendeu por quê.

–De onde você é, Pip?

Seus olhos castanhos levantaram para Kenny, parecendo incomodados com a pergunta. Pip umedeceu os lábios, parecendo um tanto nervoso. Kenny podia sentir que suas mãos estavam trêmulas enquanto lavavam a camada grossa de sujeira do ombro dele.

–Da Grã-Bretanha. – ele respondeu baixo.

–Há. Eu sempre gostei mais dos ingleses do que dos franceses mesmo.

Pip franziu as sobrancelhas.

–Está falando do Toupeira?

–Toupeira?

–Christophe. – o garoto respondeu baixinho, espremendo a esponja sobre o tórax de Kenny, que sugou o ar pelos dentes e franziu o rosto, incomodado com a temperatura. – Ele... É assim que o chamamos. Sabe, porque ele consegue cavar buracos e passar por baixo da terra como uma... Ah. Eu não sei ao certo. Mas... E-eu sei que ele deve ter parecido mau. Dentro das condições em que vocês se conheceram. Mas acredite, ele... Não é ruim!

–E o que foi que ele fez pra cair nas graças do rei afinal? Eu só estava lá catando umas maçãs e olha onde me colocaram. Aquele cara é tão humano quanto eu. E muito mais maluco, por sinal.

–Mas ele nem sempre foi aliado. Ele já esteve no seu lugar, é claro. – Pip fez um sinal para que Kenny se virasse e começou a esfregar a esponja pelas suas costas, que pareciam muito mais sujas do que o peito. A calça do prisioneiro já estava toda molhada. – O estado dele era muito pior do que o seu, senhor. Mas o rei viu o bem dentro dele. Defendeu-o quando o conselho quis cortar a cabeça dele. O Toupeira é totalmente grato e fiel a ao rei. – a voz de Pip estremeceu ao final. – Oh, eu... Não deveria estar contando isso, céus.

–Eu odeio ver qualquer ser... Humano ou não, eu odeio manter prisioneiros. Eu vejo o bem em você. – Kenny apertou os olhos e sacudiu a cabeça, perturbado diante da lembrança assustadoramente real daquela voz doce ecoando dentro do seu crânio e o toque gentil da mão sobre sua testa. Inconscientemente, levou a própria mão à testa como se tentasse reproduzir o momento em que tudo aconteceu.

Sentiu a água fria cair sobre sua cabeça. Pip começava a esfregar seu cabelo agora – e deus, e apenas ele, sabia o quanto de sujeira havia naqueles fios. A massagem dos dedos pequenos de Pip foi quase reconfortante para o prisioneiro.

–É, eu... Achei que ele tivesse uma quedinha pela majestade porque ele quase cortou a minha garganta quando eu tirei um sarro do rei. Mas foi só uma piadinha inocente, o cara é irritadinho.

–Ele protege nosso rei acima de todas as coisas. – Pip disse simplesmente.

–Aquilo é vontade de comer o rei, isso sim. – Kenny disse com um sorriso malicioso.

Uma sombra decaiu sobre o simpático rosto de Pip.

–Espero que essa não tenha sido a sua piadinha inocente, senhor. Se fosse, acho que Toupeira teria cortado a sua garganta.

–Porque é verdade?

–Não, porque é desonroso.

O prisioneiro não respondeu. Pip continuou esfregando os cabelos de Kenny até formar bastante espuma, sendo cuidadoso para que não caísse nos olhos dele. Estava perfeitamente ciente do motivo pelo qual fora enviado para fazer isso, em vez de deixar que o prisioneiro se banhasse por conta própria. Kyle estava testando o prisioneiro, oferecendo-lhe alguma oportunidade de tentar agir, tentar escapar ou pelo menos tentar vingar em algum elfo os socos que lhes foram dados.

Mas até o momento, Kenny não havia mostrado qualquer interesse em nada disso.

O silêncio recorreu por quase todo o resto do banho. Pip lavou seus pés, timidamente pediu que ele tirasse a calça e lavou suas canelas e toda a pele exposta abaixo da ceroula. Limpou seu rosto e pescoço com cuidado, usando um pano úmido, concentrando na tarefa enquanto Kenny apenas parecia distante em pensamento. Foi apenas quando Pip comunicou que cuidaria de suas feridas que, para a surpresa de Kenny, uma nova tentativa de conversa aconteceu:

–Eu ouvi dizer que você é um príncipe. – O rapaz disse, puxando a caixa de madeira e tirando um punhado de algodão e um pequeno vidrinho tapado com rolha contendo algum líquido verde que Kenny desconhecia. – Talvez depois do banho você se pareça mais com um.

–Quem te contou essa bobagem?

Pip encolheu os ombros, passando o líquido verde no algodão e colocando-o sobre as feridas da perna de Kenny. Ele esperou que ardesse ou queimasse, mas não sentiu nada. O cheiro de ervas era forte.

–É a história que estão contando, senhor.

Kenny não conseguiu conter uma gargalhada alta diante da ideia.

–Nossa. Não. Quer dizer, a minha irmã é a princesa de Kupa Keep, mas... Eu passei bem longe de me tornar príncipe. Ela mora em um castelo, eu moro em árvores. O trono dela não foi exatamente hereditário. Houve uma revolução pela deposição do antigo rei, e o líder dessa revolução se mostrou opressor quando chegou ao poder. Ele era a face de liderança que provocava medo. Precisava de uma face de amor e compaixão. Essa foi a minha irmã. Todo povo precisa das duas faces para ser governado.

Pip franziu o nariz para a última frase e pensou um pouco a respeito antes de dizer qualquer coisa, embora a resposta já estivesse pronta na ponta de sua língua.

–Nosso povo não teme nosso rei. E-eu não sei como funcionam as coisas no seu mundo, mas... – As mãos do garoto pararam de tratar os ferimentos. Seus olhos castanhos focaram-se em algum nada específico e um sorriso apareceu de surpresa em seus lábios. – Aqui, somos governados com devoção e... E amor, eu acho. As coisas também eram diferentes no Reino Unido, de onde vim, mas sabe, senhor... Presto serviço ao castelo desde muito pequeno, conheço nosso rei desde quando ele ainda era herdeiro do trono. Brincávamos juntos. Não importava que ele fosse realeza e eu fosse um órfão de guerra pobre que servia aos mais ricos. Desde criança, eu o amava e sabia que ele seria um grande rei. Claro, ele pode ser... Temperamental. E quando ele grita, é muito assustador. Mas ele o faz com paixão, por envolvimento pessoal nas questões do povo, nunca de forma repressiva. Nunca de forma injusta. Nosso povo o idolatra porque ele nos idolatra também, ouve nossas necessidades, faz sacrifícios por nós. Nós o amamos e ele nos ama também.

Kenny visualizou em sua mente as feições de Kyle quando ele gritou pela primeira vez, tão irritado com o joguinho que Kenny fazia de dentro da cela no seu primeiro dia como prisioneiro. Tão passional, Pip tinha razão. Havia tanta paixão na raiva das palavras de Kyle e na sua linguagem corporal. Seus olhos pareciam muito mais verdes quando ele gritava ameaças. E Kenny não conseguia entender porque o sorriso em seus lábios brotou com tanta naturalidade, tão impossível de segurar. Passou a mão livre pela testa e esfregou os dedos, suspirando incomodado com as próprias ideias.

–Você sabe que está falando do mesmo rei que te mandou aqui sozinho para dar banho em um prisioneiro com apenas uma mão algemada, não é? É um risco perigoso. – ele disse a Pip como se estivesse se referindo a uma terceira pessoa, um outro prisioneiro, sorrindo maliciosamente enquanto beliscava o lábio inferior.

–Bem, sim. E eu sequer hesitei, senhor. Porque confio nele. E veja só, estou inteiro.

–Por enquanto. – o prisioneiro sussurrou, levantando uma sobrancelha. O sorriso em seus lábios tentava parecer maldoso, mas entregou a graça genuína que ele achava daquilo tudo e acabou por fazer Pip rir também enquanto limpava o olho inchado dele.

* * *

Depois que o britânico foi embora, deixando o local em ordem (secou o chão da cela, levou as roupas velhas de Kenny e o trancafiou novamente), ele se sentia um homem renovado. Isso não era necessariamente bom. Sentou-se à cama e colocou o prato de comida fria no colo, pegando com a mão os pedaços de carne e devorando como um urso. Deus, como sentia fome. Os pedaços de carne eram duros e difíceis de mastigar, mas Kenny engolia praticamente sem tentar, colocando pra dentro tudo o que fosse possível. Seu estômago, que já doía pela falta de alimento, resmungava de novo por não estar preparado para digerir bife mal passado do dia anterior. Mas não importava. Era comida. Era comida inacreditavelmente melhor do que tudo que ele havia comido nas últimas semanas. Comia tão rápido quanto pensava. Seu cérebro trabalhava a mil, pensando em todas as possibilidades que ele tinha de agora em diante.

O rei se importava com ele. Isso era bom. O rei tinha um coração puro o suficiente para dar uma chance a alguém que obviamente não merecia. Ah, ele tinha total consciência disso. Não era hipócrita. Aceitava muito bem o que era.

Porra, aquele viadinho deve ser contagioso, pensava enquanto lambia os dedos. Porque todos falavam e enxergavam Kyle em um patamar tão elevado que isso estava começando a consumir a cabeça dele também. Talvez isso funcionasse a seu favor quando precisasse convencer outras pessoas não tão puras, como o cão de guarda ou o senhor François, de que ele era confiável. Isso era tudo em que os elfos precisavam acreditar agora.

Depois que a carne acabou, ele foi para os legumes. Brócolis, couve-flor, cenoura, tomate, um pouco de agrião. Ele detestava agrião, mas àquela altura, as migalhas dos ratos seriam suficientemente gostosas para ele. Kenny era um homem simples. Não precisava de muito para viver. Era por isso que estava ali.

Mas quando ele estava com as feridas latejando, coberto em imundice e roupas rasgadas, era mais fácil se convencer de que os elfos mereciam o que os esperava. E também se convencer de que ele não era nada melhor do que um ladrão sujo e mentiroso, e nunca seria nada melhor do que isso. Porra, como ele sentia falta de fumar quando as coisas ficavam tão complicadas desse jeito. Agora, em roupas limpas (quase havia se esquecido de como era a textura de uma roupa limpa), com o corpo limpo, os cabelos molhados cheirando a sabão, as feridas tratadas, o estômago cheio e algum senso de conforto... A gentileza desses elfos era quase corrosiva.

Cartman o tinha alertado sobre isso. Previu que isso aconteceria quando ele chegasse ao castelo dos elfos. Kenny podia se lembrar das palavras do seu rei muitíssimo bem, como se elas ainda ecoassem dentro do seu crânio:

Deixe-me te dizer uma coisinha sobre o Kyle. Ele é perigoso pra caralho, Kenny. Você vai dar uma olhada nele e rir, porque ele parece uma garotinha fresca que não sabe nem dar um soco, e provavelmente não sabe mesmo, mas ele não precisa. Ele é lindo, vou te dizer. Ele é tão lindo quanto é uma vadia fria sem coração. Ele vai falar mansinho com você, te seduzir com uma voz falsa de anjo, encarando a sua alma com os olhos verdes dele e eu te juro, porra, até o brutamontes mais grosseiro vai querer cair de joelhos e dizer “sim, mestre”. Diabo, até eu cairia, se não soubesse a cobra judaica imunda que ele é. Tome cuidado. Eu sei que você pensa com o seu pau, e essa é minha única preocupação com você. Se você foder isso pra mim, eu vou servir a sua cabeça inútil em uma porra de uma bandeja de prata. Não fode comigo.

Ele tinha um trabalho a fazer e esse não era o momento de duvidar dos próprios ideias. Kyle tinha visto algo muito errado. Não havia nada de bom dentro dele.

–Porra... – Resmungou baixinho, passando os dedos por entre os cabelos. – Seria tão mais fácil se ele não fosse tão bonito.