Rex Meus

8 Natureza da guerra


O dia preferido de Ike Broflovski era a festa do fim da colheita. No início de todos os invernos, os elfos tinham a tradição de dar uma festa em agradecimento aos deuses e aos céus pelos frutos da temporada, assim como para fazer oferendas por um inverno farto. Desde que era pequenininho, Ike esperava ansiosamente pela noite da festa em que o reino inteiro se reunia para dançar as canções típicas, comer bem nas barraquinhas, soltar flechas ao alto, participar dos jogos e celebrar a vida. Todos eram irmãos na festa do fim da colheita. Ele amava os preparativos, o cheiro do pão de alho que seria servido junto com a carne de carneiro, as bebidas de frutas batidas, os sorrisos nos rostos de cada habitante. Rico ou pobre não importava.

Mas naquele dia em especial, Ike estava mais ansioso ainda do que normalmente pela festa. Primeiro, porque aquele também era o dia em que as tropas élficas retornavam às suas casas depois de mais uma batalha. E Stan estava bem. Ike sempre corria como uma criança pelos corredores quando ouvia que o exército estava de volta, e só sentia paz novamente ao abraçar Stanley o mais apertado possível, tendo certeza absoluta de que ele estava vivo e inteiro. Ike sabia que não deveria sentir tanto medo, especialmente se quisesse ser como Stan algum dia; ele deveria ser mais corajoso e entender que, na guerra, vidas se perdem. Mas a ideia de perder um amigo tão próximo arrancava um pedaço do garoto e não havia como fingir que não. Ele também podia ver perfeitamente o vazio nos olhos de seu irmão todo o tempo em que Stan estava longe em batalha. Porque Stan era família para eles.

Esse não era o único motivo para a ansiedade de Ike. Havia algo de incomum prestes a acontecer naquela noite. Seu irmão, o rei, apresentaria ao povo um novo cidadão. Um cidadão que, até pouco tempo, era mantido atrás das grades por ser considerado perigoso. Ike não poderia estar mais sorridente com o fato de Kenny ter sido solto. Ele não compreendia exatamente o que o levou a ser preso para começo de conversa, e isso era algo que ninguém se dava ao trabalho de explicar. Mas Ike estava feliz que, qualquer que fosse o motivo, já não era mais importante. Nos últimos dias, Kenny andava livremente pelo castelo e era sempre observado com desconfiança e cautela, mas seu charme e suas palavras mansas sempre acabavam levando as pessoas a conversarem com ele. Os rumores corriam pelas vilas, muito fora do alcance do castelo. Então, uma apresentação se fazia necessária. E isso aconteceria na festa daquela noite.

A festa corria pelas vilas do reino dos elfos, todo decorado e iluminado com luzes de papel penduradas pelas casas, enquanto comida era servida livremente pelas ruas e conversas eram jogadas fora, gargalhadas eram dadas aos montes, crianças corriam e brincavam por todos os cantos. Mães cortavam bolos quentinhos para servir a bêbados de rua, poetas recitavam sobre bancos para o entretenimento do público, casais passeavam de mãos dadas, homens ofereciam flores a moças feias e desconhecidas. Músicos tocavam nas calçadas e rapazes convidavam moças de todas as idades para dançar. Cachorros corriam livremente pelas flores, inclusive Sparky, que nunca se afastava muito de Stanley.

Ike devorava um bolinho de arroz que Stan havia buscado para ele. O guerreiro estava com a cabeça e o braço enfaixados, mas ele não falava sobre a batalha, não falaria nada sobre a guerra durante aquela noite. Era muita noite de celebração. As estratégias, os relatos e as preocupações podiam muito bem ser adiadas.

–Não quer ir encontrar seus amigos?

O garoto estava distraído batendo o pé conforme a música e observando os casais que dançavam, com um sorriso fraco no rosto. Olhou para Stan, registrando a pergunta, ainda mastigando um pedaço do bolinho.

–Estou esperando alguém.

–Ah, Ike. Aquele humano de novo?

–Não o chame de “aquele humano”. – o garoto respondeu rindo. – É racista.

–Ser humano é o menor dos defeitos dele, acredite.

–Por que você não gosta dele?

–Eu não o conheço.

–Então conheça! – E então Ike levantou o braço o mais alto que pôde, olhando para o meio da multidão, pulando e gritando – Kenny! Aqui, vem cá!

A cabeça cheia de cabelos loiros logo se aproximou, pedindo licença aos elfos com seu sorriso sempre tão sedutor. A expressão de deleite não se desfez ao notar a presença de Stanley, que o observava sem qualquer tom acusatório, embora Ike pudesse sentir a tensão subentendida no ambiente: ainda que Kenny parecesse não captar ou fingisse que não. O loiro envolveu o braço sobre os ombros do jovem e deu-lhe um tapinha nas costas.

–Fala, moleque. Como é que vai?

Kenny segurava um copo de cerveja típica, produzida em território élfico, e rezava a lenda que só não era mais gostosa que a dos anões. Ele jamais adivinharia que criaturas tão delicadas entenderiam sobre a arte da cervejaria, mas estava errado. Assim como estava errado em muitas presunções estereotipadas a respeito dos elfos.

Ergueu seu copo em um cumprimento silencioso ao homem de cabelos negros parado próximo a eles, com um sorriso no canto dos lábios.

–Stanley. Não o reconheci sem uma espada apontada nas minhas fuças.

–E eu não o reconheci de banho tomado, estamos na mesma.

O loiro soltou uma gargalhada genuína; não forçada em defensiva, mas em um tom de quem, de fato, acha graça. E isso desconsertou Stan um pouco. Ele não sabia o que fazer disso. Para ser honesto, Stan sequer fazia ideia de como deveria se sentir diante daquela situação toda. Havia voltado da batalha naquela mesma manhã e Kyle o contou que Kenny andava livremente pelo castelo e que as coisas seriam assim de agora em diante. Ele não demonstrou qualquer insatisfação a respeito porque sabia que não adiantaria de nada, e se servisse para alguma coisa, seria apenas para irritar Kyle. Stan não queria isso.

Mas ele também não queria um homem tão certamente mal intencionado andando entre eles, falando com Ike como se fossem amigos. O brilho de admiração nos olhos do rapaz mais novo o incomodou profundamente.

Foi Kenny quem decidiu quebrar o silêncio:

–Eu sabia que você não era esse herói imaculado incapaz de dizer uma maldade. Viu só? – o loiro disse ao guerreiro, apontado para ele sua garrafa de cerveja. – Eu já gosto mais de você agora.

–E de onde você tirou essa ideia de mim?

–Ah, não sei. Deve ser porque você sempre toma banho.

Inevitavelmente, Stan lhe ofereceu um sorriso no canto da boca; embora não tenha olhado diretamente para Kenny ao fazê-lo. Sorriu para si mesmo, olhando o chão, sem saber ao certo porquê. O humano retribuiu com satisfação e deu um gole em sua cerveja, gostando da ideia de que os elfos tinham que prestar atenção ao que ele dizia agora, para não serem mal educados.

–Então. – Kenny prosseguiu, afastando seu braço de Ike e se colocando entre Stanley e o garoto. – Parece que você levou uma surra. Como foi a batalha? O gordão estava lá?

Os olhos azuis escuros de Stan o encararam agora sem a mesma simpatia, carregados de acusação. Um olhar tão rígido contrastava muito com todo o clima suave de festa que acontecia em volta deles. Simplesmente não parecia haver espaço para tristeza e conflito naquele lugar.

–Eu não acho que isso seja da sua conta.

Kenny ergueu as mãos em defensiva, como se quisesse se mostrar desarmado.

–Ei, só estou tentando conversar aqui. – E depois, bufando, virou-se novamente ao garoto de cabelos negros que já havia terminado de comer seu bolinho, e agora observava os dois homens com curiosidade. – Cadê o Kyle afinal?

Poucos segundos depois de ele soltar a pergunta, foi o próprio Stanley quem apontou em direção ao pequeno pódio de madeira construído no centro da praça em que a festa ocorria. Eles estavam um pouco afastados, mas a visão era boa o suficiente. Era provável que Stan e Ike tivessem escolhido aquele lugar justamente para ter uma boa visão do palco em que os membros do conselho se reuniam, dentre eles a cabecinha ruiva coroada aparecia de relance através da multidão.

No exato momento em que o rei apareceu sobre o pódio, podendo ser visto de todos os cantos da praça, o povo se calou. A música diminuiu, as conversas foram interrompidas, as danças foram pausadas e quem estava mastigando alimento engoliu prontamente para focar toda a sua atenção no que estava prestes a acontecer. Kenny olhou em volta com curiosidade, admirando pelo fenômeno em massa que o ato simples do rei havia causado. Ele não precisou fazer nada além de aparecer para o povo, e imediatamente todos os ouvidos se abriram, todas as cabeças se viraram para encará-lo com admiração.

E Kyle sorriu para eles. A luz da lua brilhava tão forte sobre os elfos naquela noite, como se soubesse que eles pediam para ser agraciados. Iluminava o rosto de Kyle, talvez mais do que os lampiões pendurados, fazendo com que ele parecesse uma criação mítica do próprio Deus enviada para dar o recado mais importante do mundo aos terrestres.

E sua mensagem começou:

–Meu povo. Como todos vocês sabem, essa é uma noite de dar graças. E eu não poderia estar mais grato por estar aqui, por poder olhar nos rostos de cada um de vocês em meio aos tempos difíceis de uma guerra, vê-los felizes e protegidos dessa insanidade. Porque não podemos nos esquecer, meus irmãos, em momento algum: enquanto nós nos damos ao luxo de festejar e celebrar a vida, há aqueles que lutam e pagam pela nossa segurança. Ninguém entende isso melhor do que as famílias que não estão aqui essa noite, pois passarão a madrugada velando seus amados filhos, irmãos, amigos, primos, pais. Enquanto o meu coração finalmente encontra paz, por todos os meus amados que voltaram sãos e salvos esta manhã, eu jamais me esquecerei que há corações carregados de dor e de luto. Perdemos três homens. Três jovens preparados que viviam pela sua causa, que é a nossa causa. Ao abraçar meu querido Stanley essa manhã, ao senti-lo vivo em meus braços, eu não podia parar de pensar nas mães que esperaram tão ansiosamente pelo retorno dos seus garotos, e descobriram que esse retorno não acontecerá. Há algo que eu possa fazer para amenizar essa dor? Eu acredito que não. Que ninguém pode. Mas eu posso oferecer um conforto a todos os que choram pelos soldados que se foram: nenhum deles morreu em vão. Isso, eu garanto.

Uma das mãos de Kyle estava posta sobre seu peito, enquanto a outra segurava a madeira do pódio firmemente, trêmula como se ele estivesse prestes a desmaiar se soltasse. Kenny não podia ver com certeza, mas enxergava de longe um brilho naqueles olhos que entregava lágrimas não derramadas se formando. Sua voz era repleta de emoção, de dor e esperança, uma mistura que costumava ser tão amarga, mas parecia doce na voz calma do rei.

–Eu peço que acreditem e que busquem paz em meio à guerra. Porque uma noite como essa, em que todos nós nos reunimos em gratidão pela nossa comida e nossa água, mais do que nunca nós sentimos o amor pela nossa terra e por nossos irmãos. Nosso reino, constituído por meus ancestrais, foi construído com essa crença inabalável de respeito ao próximo. Eu vejo isso acontecendo diariamente em nossas vilas, em nossas ruas. O carinho com que um jovem ajuda uma senhora idosa a carregar suas coisas até em casa, mesmo sem conhecê-la. Vejo essa noite mesmo, como todos se oferecem comida, sorrisos e companhia, como estranhos dançam juntos porque todos nós fomos embalados pelas mesmas cantigas e somos todos irmãos. Quero que saibam, meus amigos, que isso muito pouco tem a ver com raça. Um de meus amigos mais próximos e serventes mais fiéis é um humano, feito da mesma carne que os humanos com os quais nosso exército batalhou hoje.

“Não tenham dúvida de que jovens humanos também morreram em batalha. Muitos deles. E as mães desses garotos estão em prantos exatamente como as nossas mães, porque a perda que elas vivem é exatamente a mesma. Não perdemos nossos jovens para os humanos, mas perdemo-nos para a guerra. Uma guerra que não escolhemos lutar, mas que precisamos, por um bem maior. Não posso expressar o quanto eu gostaria que sangue não precisasse ser derramado para alcançarmos esse bem maior, mas isso não é uma opção. Então o mínimo que podemos fazer, em respeito a nossos mortos e àqueles que arriscaram suas vidas, é acreditar. É praticar o bem que nós conhecemos e pelo qual vivemos. Porque se vencêssemos uma guerra a partir de meios cruéis, através de traição e falta de valores, conquistaríamos um mundo no qual não se valeria a pena viver. Qual é o sentido da guerra, afinal? De qualquer guerra?

O sentido é derrotar aqueles que intencionam a crueldade. Eu não acredito em bem e mal. Não condeno os pobres rapazes humanos que lutaram, nem mesmo aqueles que tiraram a vida de nossos elfos, porque soldados não são responsáveis pelo que estamos tentando impedir: que o cetro caia em mãos erradas. Aqueles que seguem a ordem do rei de Kupa Keep são, sim, nossos inimigos. E iremos, sim, derrotá-los com tudo o que pudermos, porque são aqueles que querem nos fazer mal. Mas um rei opressivo sempre resultará em rebeldes que, mesmo vindo daquele reino, mesmo sendo da mesma raça, não acreditam nas causas e nos métodos desse rei. Um humano que deseja proteger o cetro das intenções maldosas do rei de Kupa Keep não é nosso inimigo.

Eu sei que uma boa parte de vocês está preocupada com um humano desconhecido andando livremente entre nós. Acreditem, eu compreendo. Vocês temem por suas crianças, por seu reino. Mas tenham em mente que ninguém deseja protegê-los mais do que eu. O homem que anda entre nós, ainda que vindo de Kupa Keep, não é um inimigo. E eu sei que cada um de vocês perceberá isso com o tempo. Por hora, peço que ouçam o que ele tem a dizer como eu ouvi, com seus ouvidos e corações abertos.”

A mão de Kyle soltou o pódio e se ergueu em direção a Kenny, enquanto os olhos verdes atravessavam a multidão e focavam diretamente nele. A mão chamava o loiro graciosamente, embora tenha levado algum tempo para que Kenny percebesse a dimensão do que estava havendo. Ele olhou para Stan com um ar confuso, depois novamente para o rei.

Olhos azuis se arregalaram em choque.

–Venha cá, Kenny.

–O quê? Não, eu tô legal. Não precisa disso. – Ele resmungou com uma voz baixa demais para Kyle ouvi-lo, olhando para Ike com uma expressão aterrorizada.

O garoto apenas riu e o empurrou.

Em estado letárgico, com todos os olhos do mundo virando-se diretamente para ele, Kenny arrastou os pés receosamente para caminhar na direção do rei. Os elfos abriam espaço para que ele passasse, afastando-se com cautela, sem movimentos bruscos. O ar gelado da noite parecia denso e implacável nos pulmões do homem que não era mais um prisioneiro.

O tempo pareceu se dissolver como uma pasta, ficando gradualmente lento enquanto Kenny atravessava aquele corredor aberto pelos elfos, sentindo olhares de cidadãos de todas as idades, etnias, tamanhos e classes sociais encarando-o com mórbida curiosidade, como se ele fosse algum leão de circo perigosíssimo, mas que só estava ali domesticado para o entretenimento do público.

Ele tentou sorrir para o chão, de forma nervosa, mas acabou parecendo mais assustador do que ele intencionava.

Felizmente, não chegou a ser um caminho longo. Ainda que suas pernas trêmulas se recusassem a parar, Kenny tinha muito mais medo do que aconteceria quando ele precisasse encarar toda aquela gente de cima do pódio. Ele nunca foi bom em falar em público, apesar de nunca ter sido um rapaz tímido. Já previa que comida seria jogada na sua cara e gritos de ódio ecoariam pelos céus abertos. Talvez essa fosse a intenção de Kyle; dar-lhe uma lição sem precisar propriamente se sujar.

Mas o sorriso nos lábios do rei não parecia esconder nenhum divertimento doentio com aquilo tudo. Ele ergueu sua mão com a mesma graça com que o chamou, e Kenny agarrou-a com mais afinco do que pretendia, subindo ao lado de Kyle no pódio, limpando a garganta com a cabeça baixa.

–Que merda você tá fazendo? – sussurrou próximo ao ouvido do rei, sentindo a expectativa agonizante do povo élfico os encarando.

A resposta veio com um simples carinho no ombro:

–Deixe que te conheçam.

Como se fosse simples assim. Aquilo testaria todos os níveis de enrolamento que Kenny treinara sua vida inteira. E ele estava fazendo uma oração com as mãos unidas, talvez pela segunda ou terceira vez na vida, pedindo um pouquinho de sorte a qualquer Deus que escutasse.

Kyle se afastou e o deixou sozinho com o povo.

“Eu... Oi. Bem. Er... Ok. Isso é um pouco difícil pra mim, especialmente depois de um discurso tão... Inspirado e maravilhoso. Céus. Eu deveria ter ido primeiro, assim a barra de expectativas não estaria tão alto agora. Foi mal.

Acho que posso dizer o seguinte: eu não vim aqui pra brigar. Eu não tinha intenção alguma de lutar contra vocês, mas com certeza absoluta eu também não tinha intenção de lutar ao seu lado. Eu não queria ser uma parte dessa guerra de forma alguma, principalmente porque eu não achava que havia um lado bom e um lado ruim. Eu fui criado para acreditar que todo mundo é uma bosta e eu não deveria esperar nada de ninguém. Eu estava vagueando por aí há um bom tempo. Anos, disso eu sei. Então eu cheguei aqui porque eu estava com fome. O que eu estava esperando primeiro era ser torturado por informação, ou então ser largado na cela pra morrer de fome. E... Pra homens como eu, é difícil se assustar com a possibilidade de morrer, sabe, porque eu não pertenço a lugar algum e ninguém sequer sentiria minha falta se eu desaparecesse desse mundo. Eu pensei ‘ah, grande merda, deixe que eles me levem’. Porque eu não tinha nada pelo qual viver, nada pra acreditar. Nada a perder.

Mas as coisas acabaram sendo bem diferentes do que eu esperava. Vocês me deram comida, me limparam, me deram uma chance de falar sem me machucar. Bem, eu levei uma puta surra dos caras que me arrastaram até aqui, isso é verdade. Meu olho inchou do tamanho de uma laranja, deixe-me dizer, não foi nada bonito. Mas isso não conta, porque eles tinham que me trazer para cá e eu estava um pouquinho hesitante, imaginem. Enfim. Vocês limparam as minhas feridas, cuidaram do meu olho. A propósito, Pip está aqui? Pip? É você aí com o chapeuzinho idiota? Cara, Pip é o camarada mais legal do mundo. Vão conversar com ele, pessoal, ele é demais.

Onde é que eu parei? Ah. Sim. Então, até quando eu fui interrogado pela flor Frances que é Christophe, o Toupeira, eu não fui espancado ou ferido de forma alguma. Talvez algum dano psicológico de leve, mas ei, eu sou grandinho! Eu cresci com um irmão mais velho, eu agüento tudo. O que eu quero dizer é: quando você vê uma sociedade inteira que vive de acordo com o senso comum da não-violência e do respeito, vindo de onde eu vim, é chocante. Eu não tenho dúvida de que um prisioneiro elfo, ou qualquer prisioneiro, jamais seria tratado dessa forma em Kupa Keep. Acreditem, gente, eu conheço Eric Cartman. Na verdade, eu o conheci a minha vida toda. É, eu cresci com ele. Mas se acalmem, até quando eu tinha cinco anos eu sabia que ele era um babacão. Se ele capturasse qualquer um de vocês, não importaria o que você estava fazendo quando foi pego, ou mesmo que você não tivesse qualquer relação com o Rei Elfo, não soubesse nenhuma informação sobre a guerra, não importaria em nada, você ainda seria torturado porque é isso que ele acredita que se deve fazer com um elfo. Eu sei, é nojento. Mas era o que eu estava esperando de vocês.

Eu decidi deixar meu reino para trás porque... Quando acabou a rebelião e Cartman tomou o trono, eu tinha altas esperanças de que o senso de liberdade dele seria bom pra gente. Para o nosso povo. Mas não, claro que não. Eu não tive estômago para me curvar a um rei que... Não tem porra nenhuma de senso moral. E eu nunca fiz escolhas certas na vida, eu não sou ninguém pra falar de senso moral, mas até eu sei que Cartman é um monstro.

É engraçado, veja bem. Nosso rapazinho aqui, Kyle Broflovski, eu e ele não nos demos lá muito bem no início. Como poderíamos, né? Mas conforme os dias passavam, eu ouvia a forma com que os homens do castelo falavam a respeito dele. Puta merda, os guardas, Pip, Christophe, Stan, todos eles falavam com e sobre ele como se ele fosse uma espécie de deus ou alguma porra assim. Eu não sabia que as pessoas pudessem ter esse tipo de respeito e... Devoção por alguém feito de carne e osso, assim como eles. Ele é um elfo inacreditável. Representa algo do qual se pode ter orgulho, ele é... O símbolo de algo a ser praticado diariamente por todo cidadão comum. E me deixa um pouco triste, pra ser honesto, porque eu sempre tive orgulho de não pertencer a lugar nenhum. Eu achava que, para ser parte de algo maior, você teria que comprometer todos os seus valores e servir a um filho da puta opressor que apenas te usaria, para quem a sua vida não teria valor nenhum. Então... Ao ver um rei beirando as lágrimas ao falar dos soldados perdidos, essa porra questiona tudo que eu sempre acreditei sobre ser parte de algo.

Eu sei que vocês provavelmente acreditam que eu sou perigoso. E eu posso ser, sabe, é algo que você tem que aprender ser quer sobreviver na floresta. Mas eu só apresento perigo para aqueles que vão me machucar, roubar minhas coisas. Bom, agora eu não tenho coisas pra serem roubadas, mas vocês entenderam. Eu não sou ruim, eu só quero sobreviver. E se o guarda cujo dedo eu mordi estiver por aí em algum lugar, cara, eu sinto muito pelo seu dedo amputado. De verdade. Mas eu não sou nenhum animal, apesar de que eu estive vivendo como um. Eu vivia em uma árvore, cara. As pessoas em Kupa Keep sempre disseram que eu era um bicho da floresta, que era lá que eu pertencia, porque eu não era civilizado o bastante.”

–E o que tem de errado em ser um bicho da floresta? É isso que todos nós somos! – Um homem no meio da multidão gritou com raiva.

Kenny tentou encontrá-lo com os olhos, mas havia gente demais. Eles finalmente começavam a se manifestar, olhando em volta e sussurrando entre si, alguns até gritaram em concordância com o homem. Antes que o loiro soubesse o que estava fazendo, ele colidiu o punho na superfície de madeira e então apontou os dedos para os elfos na multidão, para ninguém em especial.

–Exato! Porra, exato, cara! E que merda tem de errado em ser um bicho da floresta? E se eu for um? Porque muitos humanos falavam como se isso fosse algo do qual eu devesse me envergonhar. Bom, se ser um humano significa assassinar qualquer um que o rei disser que eu devo, traindo tudo pelo qual eu lutei na revolução, sendo um pedaço de bosta hipócrita do caralho que mataria a própria mão por um pouco de ouro, então eu não quero ser humano. Eu preferia muito mais viver em uma árvore, caçar minha própria comida, comer o que eu planto e conversar com os pássaros. Mas nem todos os humanos são assim. A minha raça não é ruim, só está faltando um senso de união, de comunidade, sim. Lá está faltando uma liderança boa e justa. O povo humano é escravo dos desejos de Cartman, isso não significa que eles acreditem no que ele está fazendo. E um rei sem seu povo não é nada. Acreditem, eu quero derrubar aquele gordo puto mais do que qualquer um de vocês. Porque eu estive lá e eu vi a fome, a dor, a miséria em que as pessoas vivem enquanto ele come rosquinhas com a bunda enorme sentada no trono de ouro dele. Eu não posso pedir a vocês que confiem em mim. Mas confiem em Kyle. Ele me conhece.

Kenny nunca havia dito tanta asneira de uma vez só em toda a sua vida.

Mas sem que ele entendesse completamente o motivo – talvez o povo élfico acreditasse tanto no bem das pessoas que tivesse o hábito de enxergar com inocência, talvez eles apenas gostassem de heróis vitimizados – eles pareceram acreditar em cada palavra. E gostavam do que ouviam. A primeira palma foi tímida e receosa, mas Kenny podia ver muito bem de onde vinha: Pip Pirrup aplaudia lentamente, com seu lacinho amarrado em volta do pescoço e seu sorriso caloroso. Os olhos repletos de alegria. A segunda palma, muito mais eufórica, foi dada por Ike Broflovski. Não era tímida e silenciosa, mas sim cheia de orgulho.

Não demorou para que Kyle os acompanhasse, o que puxou o carrinho para que outros cidadãos comuns se manifestassem também em um coro de palmas de aceitação: eles acreditavam nas palavras de Kenny. E como poderiam não acreditar? Ele era apenas um forasteiro sem lar, sem lei, vindo de um reino desafortunado. Um ex-revolucionário cujo coração era puro e corajoso. O príncipe dos pobres miseráveis de Kupa Keep que renunciou à riqueza para viver da terra em protesto aos poderosos. Era nisso que os elfos começavam a acreditar, e era exatamente nisso que Kenny precisava mantê-los acreditando.

A mão magra de Kyle envolveu o ombro dele, enquanto os lábios do rei se aproximavam para beijar sua face. O loiro sorriu de forma quase envergonhada, desviando o olhar e fazendo uma pequena reverência de agradecimento ao entusiasmo daquele povo, que já embalava a uma distância inacreditável. Mulheres, jovens, crianças, idosos aplaudindo em alegria pela esperança de um representante do que poderia ser o fim da guerra.

Pobres almas, Kenny pensava.

Mas então desviou seu olhar ao rei daquele povo, tão sorridente sob a luz da lua, tão feliz com a reação dos elfos. Diante daqueles olhos imensos, daquela alegria radiante, Kenny desejou que tudo o que havia dito fosse real. Ele podia sentir o alívio na mão de Kyle, porque esse era o passo final para o que quer que ele tivesse em mente. O rei abriu os braços e, por fim, disse:

–Agora, celebremos.

* * *

Kenny bebeu como um verdadeiro rei aquela noite. E observou cuidadosamente aos elfos ao seu redor, como eles se movimentavam em ignorante tranqüilidade. Era bonito de ver. Como Ike conversava de pertinho com uma ruiva bonitinha na qual ele estava de olho a noite inteira, e finalmente a oferecia uma flor. O amor dos jovens era algo que fazia até mesmo um cachorro sarnento como Kenneth McCormick sorrir.

Também observava como Stanley, mesmo com o braço enfaixado, puxava aquela belezinha que era Wendy para dançar com ele, segurando firme na cintura dela com seu braço bom, e ela desfazia aquela postura séria de sempre para gargalhar como uma garotinha. E os dois riam como os grandes amigos que eram, sem maldade alguma no toque.

E como elfos pobres faziam fila para segurar a mão de Token, aquele aristocrata, alguns chegando a se ajoelhar à frente dele, beijando as costas de sua mão com tanta gratidão nos gestos e nas palavras. Kenny se perguntava o que ele teria feito de tão especial, mas talvez não fosse nada tão grandioso. Ele lhes dava comida, seu respeito e algumas palavras carinhosas e gentis, sempre com um sorriso sereno nos lábios. Abraçava crianças sujas como se todos fossem seus filhos.

Kenny observava até mesmo o cachorro sarnento de Stan, que pulava em volta dele e latia enquanto ele dançava com moça atrás de moça, passando das mais novinhas às mais velhas, porque ele gostava de dançar quando ficava bêbado. Sparky lambia suas botas e balançava junto com ele, depois saía saltitando para procurar seu fiel dono, como se sentisse culpa por gostar de alguém que Stanley tão obviamente desgostava.

Observava Pip batendo palma enquanto assistia aos casais dançando, e o pequeno homem britânico acenava para ele entre uma dança e outra, mas continuava timidamente sentado em um banquinho com um saquinho de nozes no colo.

É claro, todas essas cenas só chegaram ao seu conhecimento porque ele estava buscando o ruivo com o olhar a noite inteira. Ao terminar a dança com uma mocinha de nove anos que lhe deu uma canseira desgraçada, Kenny bagunçou os lindos cabelos cacheados da elfa sardenta e pediu licença. Foi à barraca mais próxima, pediu uma garrafa de uísque para recompor o efeito da coragem líquida, então caminhou – quase cambaleando – em direção a Stan. Se alguém sabia onde Kyle estava, seria ele.

–Ei, amigão. – o loiro chamou gritando abafado sob o som da música, enquanto Wendy disfarçava o olhar de surpresa e envolvia o braço de Stan no seu, observando o humano com curiosidade.

Stanley franziu a testa, sem intenção de disfarçar.

–Sim?

–Com licença, querida. – Kenny disse, oferecendo uma piscadela a Wendy antes de colocar uma das mãos firme no ombro machucado de Stan, fazendo com que o guerreiro se encolhesse ao toque. Kenny o ignorou e aproximou o rosto do dele como se fosse contar um segredo, demorando alguns segundos para processar as palavras. – Cadê o Kyle?

O lado sóbrio do loiro lhe alertou que havia acabado de fazer uma coisa muito idiota. Ele podia farejar um homem enciumado de muito longe. Era fácil de reconhecer porque ele mesmo era um homem possessivo.

E Stan realmente contorceu o rosto em uma expressão incomodada. Bem, estava escuro e Kenny estava bêbado, mas ele conseguiu enxergar pelo menos isso: o guerreiro não estava feliz com sua pergunta. Agora ele já havia feito, não tinha como reclamar. Kenny deu um gole longo em sua bebida, afastando a mão de Stan, que suspirou um tanto aliviado.

Por fim, depois de hesitar um momento, Stanley apontou em direção ao restaurante cuja cozinha havia sido usada para os preparativos. Mas agora a cozinha já estava fechada e todos já estavam na rua, encaminhando-se para o final da noite. Kenny sacudiu a cabeça.

–O que ele está fazendo lá? Não tem ninguém lá.

Os olhos escuros de Wendy se voltaram ao chão quando Kenny rapidamente olhou para ela, mas logo voltou sua atenção ao melhor amigo do rei, que encolhia os ombros desconfortavelmente. Stan também estava um pouco embriagado.

–Eu não iria lá. Ele está com o Christophe.

Os lábios do loiro se separaram quase que inconscientemente, não exatamente em choque, mas como se o cérebro dele tivesse pausado durante alguns segundos. Maldito uísque. Era tudo culpa do álcool. Os olhos azuis dilatados de Kenny se voltaram para o restaurante enquanto ele processava a informação, enfim absorvendo o que Stan parecia querer insinuar. Então, ele fechou os lábios e os torceu em um bico pensativo, franzindo as sobrancelhas.

Sem mais delongas, sem agradecer ou se despedir, as pernas de Kenny começaram a funcionar antes do cérebro. E o levaram diretamente ao restaurante.