Rex Meus
15 Carne e osso
Foi durante a alvorada que o guerreiro subiu as escadas da Torre Mãe, para onde todos os prisioneiros eram levados ao encarceramento. Os pés do guerreiro, revestidos por botas feitas de couro de animal, levavam-no o mais rapidamente possível até o topo, onde residia o traidor. Como um guerreiro, Stan Marsh precisou aprender alguns conceitos básicos ao longo de sua vida. Primeiro, aprendeu que a morte chega para todos. Depois, aprendeu que existem mortes limpas e mortes sujas. Aprendeu sobre honrar os inimigos que merecem, e dilacerar aqueles indignos de honra. Aprendeu a usar a espada com maestria, como se fosse uma extensão de seu braço (e o ferro acabou se tornando seu instrumento de morte preferido, embora o exército élfico fosse composto por grandes arqueiros, em sua maioria). E de todos os homens que Stan Marsh matou, jamais foi movido por propósitos pessoais. Stan não gostava de matar, essa era a verdade, mas se tornar um guerreiro praticamente não foi uma questão de escolha: ele nascera para isso. O sangue não lhe incomodava, a carne rasgada e os órgãos expostos não lhe incomodavam. Essa foi outra coisa que aprendeu, uma das lições mais importantes de sua vida, a de que seres vivos são apenas sacos de carne que podem facilmente ser destruídos. Stan compreendia sua missão, não apenas em um nível filosófico de vida, mas também no nível prático. Ele era um homem que serviria ao seu dever mesmo que isso o levasse a uma morte prematura e cruel.
Enquanto escalava a escadaria interminável daquela torre, ele não era um homem cumprindo seu dever. Não. Stan Marsh apertava o cabo da espada, que estava guardada na bainha, e sua mão livre era um punho apertado de ódio, seus belíssimos olhos de um azul escuro, como o céu ao anoitecer, enxergavam somente o sangue. Ele tinha sede de sangue, como nunca antes em toda a sua vida. Suas feições de um jovem vital e bonito haviam se transformado em linhas marcadas de expressão, os lábios voltados para dentro da boca, o nariz franzido, a testa enrugada.
–Stanley! – Uma voz chamou, muitos degraus abaixo. Mas o guerreiro não ouviu. E se ouviu, não deu importância.
Chutou a porta do topo da escada com toda a raiva acumulada em seu corpo, adentrando o corredor que dividia as celas, repleto de guardas atentos que se assustaram com o estrondoso barulho. Quando avistaram Stan, uma figura tão conhecida e respeitada por eles, colocaram as lanças em posição de guarda. Cada passo que o guerreiro dava pelas tábuas de madeira do corredor, no topo da Torre Mãe, emitiam sons estrepitosos que anunciavam a chegada de algo ruim. Ele parou somente ao encontrar a porta da cela número 907, adentrando o cômodo e ordenando ao guarda responsável para que abrisse a cela imediatamente. Bradley Biggle arregalou os olhos para o sujeito, que bufava como um cavalo, mantendo-se imóvel porque estava incerto sobre qual ordem seguir. O rei havia dito especificamente que o prisioneiro não poderia receber visitas, mas Stan Marsh era a extensão das ordens do rei, e negá-lo não parecia certo. Foi somente quando o guerreiro gritou para que ele abrisse a cela que Bradley obedeceu.
Kenny McCormick não chegou a entender completamente o que aconteceu em seguida. Pois até então, ele estava dormindo. Foi acordado pelo barulho dos gritos raivosos e do ferro da porta de sua cela. Antes que pudesse retomar a consciência e os sentidos, havia um homem enfurecido sobre ele, tão enfurecido que precisava gritar a cada murro, cada soco proferido no rosto do prisioneiro, de um lado ao outro, repetidamente, até que o loiro estivesse cuspindo sangue. Os ossos por baixo das belas maçãs do rosto de Kenny, agora, pareciam esmigalhados. Os olhos eram pressionados para dentro das cavidades a cada encontro com o punho furioso de Stanley, que sangrava, mas o homem não podia sentir dor. Kenny sim, este sentia muita dor. Sentia alguns dentes amolecendo na gengiva, a bochecha cortada por dentro, o crânio latejando a cada paulada contra o chão duro, a carne e a pele do rosto repletas de hematomas que ficariam medonhos no dia seguinte. Sentia o cabelo, que já fora tão bonito, tão limpo e dourado à luz do sol, agora estava grosso e ensopado de sangue. E as palavras de Stan estouravam por dentro dos seus ouvidos:
–Eu confiei em você, seu merda! Nós todos confiamos em você!
Bradley, que se encontrava na entrada da cela e observava à cena atordoado, sem reação, logo foi empurrado com força para o lado enquanto Christophe adentrava o ambiente com pressa, gritando palavrões em francês – porém não alto o bastante para se sobrepor à voz indignada de Stanley – e corria ao encontro dos dois homens no chão. As mãos de Kenny envolveram o rosto do guerreiro e o apertavam com toda a força que lhe restara, mas agora ele estava prestes a perder a consciência.
–Stan, pare com isso. – A voz rouca de Christophe ecoou próxima ao ouvido do guerreiro, enquanto ele envolvia o tronco de Stanley em seus braços fortes, puxando-o para cima até arrancá-lo de cima do prisioneiro, fazendo com que ele soltasse-o. – Você vai matá-lo.
–Eu quero matá-lo, caralho!
Mas Stan chutou o corpo molenga de Kenny com tudo o que seu pé tinha a oferecer, debatendo o corpo nos braços do homem que o segurava. A única resposta do prisioneiro foi um grunhido fraco, enquanto ele se virava de lado e vomitava, cobrindo o próprio rosto com um dos braços.
–Me solte, Toupeira! Me solte agora ou eu juro... – O guerreiro exigia, mas sua voz já não tinha mais a mesma força, e a raiva incontrolável começava a dar espaço a uma tristeza infinitamente mais devastadora. – O rei o quer morto!
Stan chutou o homem ao chão uma última vez antes de Christophe puxá-lo para trás e jogá-lo contra a parede de pedra da cela, segurando-o pelos braços com força e sacudindo-o.
–Não, ele não quer. Ele está sofrendo, não sabe o que diz. – O francês soltou os braços de Stan e levou as duas mãos ao rosto dele, apertando os dedos nas bochechas dele com certa força, aproximando o próprio rosto. – Ouça-me. Você é um homem bom, o melhor que conheço. Eu não vou permitir que suje suas mãos com esse aí. Você é bom demais para matar um homem desarmado, Stanley, isso pesará em seus ombros para o resto da vida. Pense. Pense na dor que o rei sentiria.
–Ele já está sentindo! Você já o viu, viu como ele sofre, viu o vazio nos olhos do rei. Deus, por que está protegendo esse verme?! Você, de todas as pessoas...
–Non, mon ami. – Christophe sussurrou entre os dentes, olhando dentro dos olhos de Stanley, tais olhos que carregavam tanta tristeza e uma camada fina de lágrimas de ódio, com toda a seriedade que possuía, continuando a apertar o rosto dele entre as palmas sujas das mãos. – É você quem quero proteger.
Assim que o guerreiro fechou os olhos, sacudindo a cabeça desoladamente, as lágrimas ardiam por trás das pálpebras e ameaçaram escorrer pelo seu rosto como um sinal de fraqueza, mas o francês o poupou, puxando o rosto de Stanley para que se deitasse contra o seu ombro largo, pressionando uma das mãos na nuca do guerreiro enquanto o envolvia com o braço livre, em um abraço apertado de consolação, do tipo que Christophe nunca aprendera ao certo como se dá. Espalmou uma das mãos nas costas de Stanley e deu-lhe dois tapinhas repletos de camaradagem. A voz de Stan falhava, saía trêmula e rancorosa, cheia de amargura, porém muito baixa para que Kenny pudesse ouvi-lo.
–Eu quero tanto o sangue dele em minhas mãos, em meu rosto... Quero a minha espada rasgando-o do pau até a garganta, quero arrancar o coração dele com minhas próprias mãos. – O guerreiro murmurava contra o ombro do amigo, aceitando o abraço, fechando seus olhos úmidos o mais apertado que podia.
–Je sais, mon cher. – A voz rouca de Christophe sussurrou em resposta, em um acalanto, bem próximo ao ouvido de Stan. Mas em breve, os músculos voltaram a ficar tensos, o que parecia ser a forma natural do corpo do homem francês, e a mão que cobria a nuca do guerreiro rapidamente foi ao maxilar do mesmo, agarrando-o, forçando que Stan erguesse o rosto para encarar a expressão dura dele, os olhos infinitamente repletos de certeza. Christophe não era um homem eloqüente, tampouco charmoso, e não sabia como confortar outro ser humano. Mas proporcionava uma segurança que poucos conseguiam, falando sempre com a voz firme, como se não houvesse mais nenhuma outra verdade no mundo. E aquela voz prosseguiu. – Mas esse desejo, assim como a luxúria, se esvai tão rápido. Eu entendo a sede de sangue, Stanley. Não se deixe cegar por ela.
O barulho seguinte foi um tossido úmido, emitido pelo corpo moribundo ao chão. Kenny tinha um dos braços jogado por cima da cabeça e a outra mão sobre o peito. Virou o rosto de lado para não afogar no próprio sangue que escorria da boca, engasgando, sentindo o sal das lágrimas ardendo dentro de seus olhos. Stanley o observava com desprezo pelo canto dos olhos, aquele homem tão belo, estirado ao chão como um rato, não merecendo respirar por nem mais um segundo. Christophe percebeu esses pensamentos invadindo a mente do guerreiro, e segurou seu maxilar com mais força, para que os olhos de Stan se voltassem a ele.
–Ele pagará. Eu te juro. – Disse ao guerreiro antes de soltá-lo.
* * *
O cigarro queimava na boca do homem, aquela boca tão acostumada com cigarros. Amava o gosto deles, o cheiro, a sensação de tranqüilidade que eles provocavam. Afinal de contas, não era um homem tranqüilo. Se lhe tirassem seus cigarros, ele se tornaria um verdadeiro monstro. Christophe quase sorriu com o pensamento enquanto prendia o cigarro entre o dedo médio e indicador, afastando-o dos lábios e estreitando os olhos ao assoprar a fumaça azulada. Em sua outra mão, havia um pedaço ensangüentado de carne crua que ele roubara aquela tarde da cozinha do castelo. Kenny ergueu uma sobrancelha pela visão daquele estrangeiro adentrando a sala de sua cela, seguido por Bradley, que abriria o portão para Christophe e depois trancaria os dois humanos lá dentro.
Kenny estava sentado no chão, apoiado na parede, com uma perna dobrada, as mãos caídas nas laterais do corpo que latejava. Seu rosto estava inchado, com hematomas roxos, alguns esverdeados em torno, outros mais escuros, quase pretos. E tudo doía. Absolutamente qualquer movimento repuxava os músculos, ardia a carne, fazia-o gemer e se contorcer de dor. Em partes, era um alívio finalmente sentir que ele estava levando algo que merecia. Christophe fez um sinal com a cabeça para Bradley, que agradecia e ao mesmo tempo o mandava desaparecer dali. Não se aproximou muito de Kenny antes de lançar o pedaço de carne para perto dele; a carne caiu ao chão em um barulho terrivelmente molhado. Kenny precisou rir da situação.
–Eu não estou com tanta fome assim. – Ele disse ao francês, que levou o cigarro à boca novamente e retribuiu com um sorriso horrivelmente irônico. Ironia o deixava mais feio. Mas nenhuma espécie de sorriso parecia caber bem nos lábios de Christophe.
–É para seu rosto. – Ele explicou como se fosse óbvio, gesticulando com a mão próxima à face, formando uma espécie de garra com os dedos, enquanto dois deles seguravam o cigarro, e a fumaça subia pelo seu rosto enquanto ele falava. – Ajuda a diminuir o inchaço.
–Ah. – Kenny disse no mesmo tom inteligente, e sorrir era doloroso, mas ele preferia agüentar tal dor antes de demonstrar ao outro homem o quanto a surra de Stanley o destruiu, por dentro e por fora. Esticou-se devagar, franzindo o nariz sem poder conter a expressão dolorida, agarrando o pedaço de carne com a mão. Estava gelado ao toque e parecia estar mergulhada em sal há poucos momentos. – Um homem inteligente, percebo. Cheio de truques.
–Seu nariz está quebrado. – Christophe observou, brincando com o cigarro entre os lábios, e havia certa malícia em seu tom, levantando o queixo. – Quer que eu coloque-o no lugar?
–Eu passo. Obrigado.
Ele levou o pedaço de carne gelado ao rosto, grunhindo de dor ao tocá-lo em sua face, desconfortável pela temperatura. Céus, como era gelado dentro daquela cela. Mesmo cercado pelas paredes, ele ainda podia ver a respiração no ar. Fechou um dos olhos pela sensação desagradável, sentindo o sangue escorrer pela mão e lambuzando a pele marcada, respirando profundamente enquanto observava Christophe com certa irritação. Ele pouco tinha visto o homem enquanto andava livre pelo castelo, a não ser por encontros eventuais de longe, mas era fácil perceber como o contato social com pessoas limpas e livres era mais difícil para Christophe do que o contato com a escória.
O francês puxou uma banqueta alta que estava esquecida no canto da cela, arrastando-a no chão para posicioná-la próxima às barras, e se sentou com as pernas bem abertas, apoiando os cotovelos nas coxas, fumando sem pressa com os olhos estudando Kenny, assim como o loiro fazia com ele. Christophe fungou, coçando o nariz com o polegar da mesma mão que segurava o cigarro, e foi o primeiro a quebrar o contato visual, mas foi Kenny quem quebrou o silêncio:
–Primeiro você tira o cão de cima de mim. Agora, me traz um adorável presente para os meus ferimentos. Assim vou começar a acreditar que você tem uma quedinha por mim.
–Os punhos de Stanley Marsh são bons demais para a sua cara, loira. Assim como a ponta da espada dele. Não confunda as coisas.
–Entendo. – Kenny respondeu, assentindo com a cabeça, com uma expressão condescendente. – Está me mantendo inteirinho para que você mesmo me destroce no final? Tem ciúme da sua caça?
O francês não o encarava mais. Parecia entretido olhando para a parede de pedra, brincando com a língua por dentro da bochecha, segurando o cigarro longe da boca, enquanto as cinzas queimadas ameaçavam cair sobre a coxa dele. Não reagiu ao que lhe foi dito. Em seus olhos, Kenny viu, dançava alguma lembrança de tempos muito distantes, talvez até mesmo lugares igualmente distantes, a mil léguas daquela torre. Christophe não olhava como a maioria dos elfos, ou mesmo como a maioria dos humanos. Kenny reconhecia, na expressão do outro homem, algo tão familiar: era a forma que seu irmão olhava para as coisas. Uma sombra, uma expressão de quem já viu o lado mais feio de tudo que existe.
Lembrar de seu irmão fez com que o loiro estremecesse.
–Diga-me algo se puder, Toupeira. – O prisioneiro falou em um tom de clemência, muito diferente da zombaria que havia adotado até então. Porém, ele ergueu o queixo, olhando fixamente para o outro homem que parecia ignorá-lo. – Como está meu irmão?
As cinzas do cigarro do francês enfim caíram sobre sua coxa, enquanto ele levava o cigarro aos lábios para uma longa tragada, não reagindo à sujeira. Estava acostumado com ela, afinal.
–Vivo.
–Sofrendo?
–Não mais do que você, acredito.
Kenny soltou uma risada baixa, fechando os olhos, sacudindo a cabeça sem responder. Christophe ergueu uma sobrancelha pela risada, fumando lentamente, estreitando o olhar quando o prisioneiro sacudiu os cabelos da frente do rosto e apertou os dedos no pedaço de carne que segurava, afastando-o da bochecha, que agora estava melada de sangue.
–Quanto tempo faz? – O prisioneiro perguntou.
Christophe o encarou durante longos segundos, como se não quisesse entrar em um joguinho com ele, estudando a expressão do homem em desconfiança antes de constatar que não tinha escolha.
–O quê?
–Um homem quebrado tem muito tempo para pensar. Sabe? Não é tão ruim quanto a maioria acredita. – Kenny disse. – E tudo o que fiz nas últimas horas foi tentar entender... Não fazia sentido algum primeiro. Você é um homem difícil de entender, Lorde Toupeira.
–Eu não sou Lorde de merda nenhuma.
–Não. E no entanto, não existe homem mais fiel ao rei nesse reino inteiro. Era essa a parte complicada de entender, porque diabos Stanley foi quem me encheu de porrada e você o tirou de cima de mim. Você é raivoso, inconseqüente, movido por ideais muito simples. E é violento, isso já está bem declarado. Então... Por que o nosso guerreiro herói soberano desceu ao nível mais baixo de necessidade de vingança, e veio destruir a face do perigo que os elfos enfrentam? Por que ele, e não você? Vocês dois amam o rei incondicionalmente, é claro, mas um de vocês teve mais sanidade, conseguiu digerir a situação primeiro. E foi aí que eu compreendi... – ele fez uma pausa, arregalando os olhos em deslumbramento com a própria constatação, feita horas antes, com um sorriso brincando em seus lábios, sem aparecer propriamente. – Que você teve muito tempo para digerir. Você já sabia, não é mesmo? Eu nunca te enganei.
O francês tentou conter um sorrisinho fraco que insinuava aparecer em seu rosto, mas sua expressão não chegou a mudar.
–Não pode ter sido desde o início. – Kenny continuou. – Senão você teria dito a eles. Teria me entregado em uma bandeja de prata, então você não tinha certeza, mas você sabia. Se puder fazer a gentileza de me responder: há quanto tempo?
–Você é um fantástico mentiroso, McCormick. Imagino que tenha aprendido com os homens do teatro de Kupa Keep, os mestres da dissimulação, não é isso que dizem? Pois eu não nasci com o talento de Stanley para o campo de batalha, mas eu sei farejar mentirosos. E se não o farejei no começo, era porque você acreditava em suas próprias mentiras. – Os dentes de Christophe agora apareciam entre os lábios, dentes sujos de carne, como se ele tivesse acabado de mastigar um pedaço de vitela tão crua quanto a que Kenny segurava. E isso complementava o ar de loucura que, momentaneamente, aparecia no rosto do francês. A fumaça do cigarro subia lentamente e dançava em frente ao seu rosto, e ele a respirava como se estivesse acostumado. Como se aquele fosse seu ar mais puro.
–O que me entregou? – Kenny perguntou curiosamente, deitando a cabeça um pouco para o lado.
–Sua culpa. – Ele disse firmemente antes de dar mais uma tragada. O cigarro agora não era muito mais do que uma pequena bituca que logo queimaria os dedos de Christophe. A língua por dentro da boca do homem procurava pedaços de carne nos dentes. – Eu acredito em seus sentimentos pelo rei, visto que foram eles que arruinaram a sua charadinha. Eu pude ver a maneira com que você o olhava... Como um homem que deve algo. A culpa gritava em você.
O homem ao chão tossiu escandalosamente, o que logo deu lugar a uma risada fraca, enquanto ele sacudia a cabeça perdidamente. O sorriso era amargo em seu rosto.
–Entendo... Eu fiz exatamente o que você previu. Que eu me entregaria pela culpa.
Quando o cigarro ficou pequeno demais e o fogo tocou as digitais de Christophe, ele não reagiu imediatamente. Seu olhar continuou fixo no outro homem, a boca era uma linha reta e as sobrancelhas estavam levemente franzidas. Enfim, o francês desceu do banco e jogou a bituca no chão, esmagando-a sob a bota de couro até apagá-la, depois foi caminhando em direção ao prisioneiro, que estava ferido demais para se mexer.
–Deve ser difícil... – O loiro murmurou. – Para um homem apaixonado, observando tão atentamente como nós éramos juntos, eu e o rei. – Kenny mantinha o queixo erguido para encarar o homem que se aproximava de pé. – Mas eu o amo, Christophe. Não há nada... Nada que eu não faria. Eu mataria por ele.
O francês inclinou o tronco para aproximar o rosto do de Kenny, aquele rosto quase deformado pelo inchaço e pelos hematomas, encarando os olhos azuis horrendamente feridos.
–E eu morreria por ele. – Cuspiu contra a face do loiro, agarrando-o pela camisa para puxá-lo um pouco para cima. – Um milhão de vezes, McCormick, eu morreria e voltaria de cada inferno inventado pelo homem, um milhão de vezes, enquanto ele precisasse de mim. Você não faz ideia, sua criança idiota. Não há demônio que eu não destruiria por ele.
Kenny mal podia respirar pelo aperto da gola, e a sensação era de que suas costelas estavam perfurando os pulmões, que os músculos de seus braços estavam sendo arrancados da carne. Ele manteve o pedaço cru de carne preso entre os dedos, sentindo o sangue do animal pingando dos dedos, enquanto estremecia de dor e grunhia baixo, mas os astutos olhos continuavam brilhando por baixo de todo o inchaço, de todo o roxo.
–E o que você ganhou em troca? – O prisioneiro perguntou, e o sorriso petulante jamais deixou os seus lábios.
Primeiro, as sobrancelhas grossas de Christophe se arquearam para a pergunta, como se ele tivesse atingido algum nervo. E a expressão dele trouxe um sorriso aos lábios de Kenny, que passou a língua pelo inferior e observou o homem com a boca entreaberta, estudando-o de canto, até que o francês retribuísse uma risada fraca e o soltasse. O corpo mole de Kenny caiu novamente ao chão, e o impacto fez com que batesse a cabeça contra a parede, raspando o couro cabeludo na pedra conforme ele se movimentava. Christophe o olhou de cima, respondendo apenas com a expressão do seu rosto aquilo que era óbvio: ele era um homem livre, que podia caminhar com as próprias pernas, que resistia a todos os tipos de danos físicos.
O francês começou a esfregar os próprios punhos, sentindo os dedos gelados. Deu um passo para trás, mas seus olhos escuros continuaram fixos no loiro, que se remexeu um pouco em desconforto, respirando pesadamente.
–Você faz muitas perguntas. – Observou, como se não desse qualquer importância ao que dizia, caçando nos bolsos em busca de mais um cigarro. Alcançou-o, quase o levou aos lábios, mas acabou apontando o cigarro na direção de Kenny, sem fazer menção de acendê-lo. – Deixe-me responder, primeiramente, uma pergunta que você me fez meses atrás.
–Ah, isso será interessante.
Ignorando o comentário do prisioneiro, enquanto dava mais alguns passos para trás, brincando com o cigarro apagado entre os dedos, Christophe começou:
–Você um dia me perguntou como vim parar aqui. Talvez isso te ajude a entender porque você está apodrecendo no topo de uma torre e eu não.
–Mas essa é muito fácil. Você é um bom rapaz. Um diamante bruto, um grosseirão com um coração de ouro, aquela baboseira toda. – Kenny parou para dar uma risada sem fôlego, mas acabou tossindo. Respirar era difícil. Ele sentia como se houvesse um peso terrível sobre suas costelas. – Kyle achou isso tão admirável. Claro, você não tem o meu charme, e está longe de ser tão bonito, mas as pessoas parecem valorizar mais o caráter por aqui.
Christophe enfim voltou a se sentar no banco, um pouco distante do loiro imundo que falava com malícia, erguendo o pescoço do chão. Os olhos do francês eram opacos e desinteressados. Ele se sentou de lado para o prisioneiro, apoiando os pés na banqueta, alisando o cigarro com o polegar. Ofereceu um pequeno sorriso enquanto ouvia, sem olhá-lo.
–E você sabe de tudo, não é? – Perguntou com uma voz entretida com a ignorância de Kenny. O loiro estreitou os olhos em curiosidade, mas não respondeu. Christophe suspirou pesadamente antes de prosseguir. – Cinco anos atrás, eu deixei Kupa Keep com uma missão. Já lhe contei uma vez, não é? Que eu era um mercenário da coroa. Eu não acredito que você, criança estúpida, tenha tido a chance de conversar com o Rei do Chapéu pessoalmente. O homem ao qual eu servia na época. Você sabe por que o chamavam assim?
–Conheço as lendas, sei do que contam. Que ele usava uma marionete para dar suas ordens macabras, um brinquedo que usava um chapéu.
–O cara era um doente. – Christophe prosseguiu, sacudindo a cabeça pela lembrança vivida. – Eu fiquei lá de pé em frente ao trono, no salão principal do castelo, ouvindo um homem completamente louco me dando ordens com uma boneca babaca de ventriloquismo, e com a voz da boneca ele gritava como eu teria que assassinar o rei elfo para ele. E com a voz de rei, ele respondia ao boneco: “não, lorde chapéu, assassinar um rei é um crime muito severo”. Só de estar no mesmo cômodo que aquele homem, você pensaria que estava ficando insano também. Bem, eu não tinha qualquer relação de fidelidade com a corte, ele precisava de um homem sujo para fazer um serviço sujo. Tinha muito ouro envolvido. Quantidades absurdas, não sei se você pode imaginar o quanto. O suficiente para comprar uma frota inteira de navios e voltar para a França. Então eu não me importei que a ordem viesse de uma bonequinha maldita, eu aceitei o trabalho.
–A ordem era... – Kenny arriscou falar, virando o rosto de lado, rangendo os dentes por um momento. – Ele te mandou para matar o Kyle?
Christophe negou com a cabeça.
–O pai dele. – Prosseguiu. – Mas... Algo saiu errado. Eu fui pego no quarto do rei com uma faca na mão. O cenário não era bom para mim, você pode imaginar. E o único motivo de eu não ter sido enforcado ou decapitado foi um momento... Não durou mais do que dois ou três segundos, um momento em que os guardas me arrastaram para fora do quarto do rei e o príncipe abriu a porta do seu quarto. Nós trocamos um olhar. Eu jamais me esquecerei, ele parecia ter acabado de levantar da cama, tinha os pés descalços, aquele cabelo vermelho terrivelmente arrepiado. E ele dizia ao seu pai: “Vocês não podem matá-lo. Ele é só um garoto, não é muito mais velho do que eu, ele é filho de alguém”. Ele gritava. Tão doce. Kyle nunca compreendeu a natureza do assassinato, nem mesmo agora que está acostumado com ele. – Sacudiu a cabeça, ameaçando formar um sorriso nos lábios. – Gerald Broflovski poupou minha vida, mas naturalmente, eu fui jogado em uma cela exatamente como essa. Durante três anos.
Kenny não ousou dizer nada quando os olhos do francês finalmente se voltaram a ele, como se tivesse sido arrancado de sua própria memória. O cigarro finalmente foi à boca, mas continuava apagado, como se Christophe tivesse se esquecido completamente da vontade de fumar. Houve o silêncio. O loiro apenas engoliu seco.
–Kyle nunca me esqueceu, no entanto. Você deve se lembrar de quando eu peguei o pequeno príncipe lhe trazendo comida, por dentro, eu precisei rir. Porque Kyle fazia exatamente o mesmo comigo. Está nos Broflovski, essa necessidade natural de cuidar dos vira-latas abatidos. De qualquer forma, quando seu rei de merda tomou o castelo e matou Gerald com as próprias mãos, uma das primeiras coisas que Kyle fez como rei foi me libertar. Ele entendia. Ele me conhecia.
–Isso não parece muito justo. Você tenta matar o pai dele e ele te defende, mas o que eu fiz é imperdoável?
Christophe fez uma careta como se as palavras doessem nos ouvidos dele, então estralou o pescoço de um lado ao outro, depois virou de frente para o prisioneiro, com o corpo relaxado sentado no banco. O cigarro agora estava apontando para cima, entre os lábios rachados do francês, e as duas mãos dele estavam sobre as coxas.
–E sabe por quê?
–Estou morrendo para descobrir. – Kenny disse em um tom sarcástico que não cabia muito bem com sua voz extremamente exausta e sem fôlego.
–Você deixou que ele se apaixonasse por você. Mentindo.
A cabeça de Kenny deitou para o lado.
–Entendo. E você não, você fez com que ele se apaixonasse sendo essa pessoa adorável e meiga que você é de verdade.
Os olhos negros de Christophe desviaram.
–Ele nunca se apaixonou por mim. – Ele disse em uma voz resignada, como se aquilo não doesse por dentro. Parecia só estar afirmando um fato simples como a cor do céu. Mas fechou os olhos por um momento, apenas um momento, que disse muito mais do que Christophe gostaria que dissesse. Limpando a garganta e alcançando um fósforo dentro do bolso, enfim acendendo o cigarro nos lábios enquanto se levantava, ele prosseguiu. – É por isso que você está aí, apodrecendo, e eu não. É um preço a se pagar por ter o que você deseja.
–Bem, pelo menos eu posso dizer que tive.
–Ah, eu também.
Houve uma pausa. Kenny desviou o olhar por um instante, piscando devagar, exausto. Céus, como seu corpo doía. Ele já havia soltado o pedaço de carne crua, e seu rosto inteiro estava manchado de sangue, assim como um pouco do cabelo loiro.
–Em algum momento... – O loiro murmurou, perdendo as forças. – Ele vai entender.
Christophe coçou o maxilar de forma barulhenta, pensativo.
–Eu não teria tanta certeza. Veja, Kyle não pensa como os homens. Ele pensa como uma mulher. O coração é mais bondoso, a mente é mais astuta. – Ele quase soltou uma risadinha. – O coração é mais sensível, a mente é mais vingativa.
Kenny não olhou para o homem durante algum tempo, enquanto Christophe fumava de pé sem pressa alguma de sair dali, guardando a caixa de fósforos novamente em seu bolso. Kenny contemplava o nada, agora despido de sorrisos maliciosos ou frases irônicas. Não havia qualquer resquício de piada em seu semblante. Foi uma das raras ocasiões em sua vida em que Kenny McCormick estava completamente sério.
–Ele vai me matar? – Perguntou com a voz trêmula, erguendo o olhar a Christophe.
A pergunta levou o homem a arquear as sobrancelhas e se aproximar, arrastando os pés, em um passo preguiçoso. Soltava a fumaça pela boca e observava o loiro ferido com um certo sorriso que só transparecia em seus olhos, porque sua boca continuava uma linha reta.
–Você reza, McCormick?
–Não muito. – O prisioneiro respondeu com um sorriso desconfiado.
–Comece. – Ele disse em um tom afiado, aproximando-se o suficiente para inclinar o tronco e aproximar seu rosto do de Kenny, agarrando nos cabelos imundos dele. – Reze para todos os deuses, implore para que ele te mate. Porque a morte parecerá tão misericordiosa comparada ao que eu farei com você assim que eu tiver a chance.
Christophe assoprou a fumaça do cigarro contra o rosto de Kenny, que fechou os olhos e franziu o nariz, tossindo. Havia sangue seco em seus lábios, em seus cabelos, em suas mãos. Os olhos azuis inchados logo se abriram para encará-lo com a coragem de um leão, como se ouvisse uma ameaça vazia, embora ele tivesse certeza absoluta de que não era. O francês o soltou sem cuidado, ergueu o tronco e deu as costas para deixar a cela, dizendo em uma voz mais calma enquanto se retirava:
–Se você quer a verdade, ele nunca realmente foi seu. Ele é de Stanley. Sempre foi, sempre será.
* * *
O corcel de Craig Tucker era um dos mais fortes do reino, cujo coice já havia matado um pobre velho desavisado uma vez. Era um cavalo de pelo castanho, com uma enorme mancha branca no rosto e nas pernas dianteiras, cuja crina era dourada como os cabelos da princesa. Ele cavalgava pela estrada de terra em meio aos campos verdes, tão largos que você os perderia de vista no horizonte, e o sol brilhava intensamente sobre sua cabeça, como sempre, banhando as terras de Kupa Keep com seus raios. Os cascos do corcel projetavam um som cada vez mais alto, os guardas dos portões puderam ouvir antes mesmo de avistá-lo. Reconheceram o cavalo, e o homem que o montava, que estava coberto de sujeira, com cortes no rosto ocasionados pelos galhos dos quais ele não conseguiu desviar enquanto cavalgava na floresta. Craig usava o manto preto que voava pelo vento forte contra o qual eles corriam. Os portões de Kupa Keep se abriram. Uma corneta ecoou pelos ares. Pássaros negros levantaram vôo.
O rei, que já fora anunciado assim que as figuras de dois cavalos surgiram no horizonte, abria as portas vermelhas imensas da entrada do castelo, parando um instante para observar a aproximação do cavaleiro, sorrindo com o canto dos lábios. O sorriso quase que imediatamente desapareceu quando Cartman se deu conta de que apenas um dos cavalos tinha um homem montado. O outro, o cavalo branco com manchas pretas, o cavalo de Kevin McCormick, corria sozinho.
–Que merda é essa? – O rei gritou.
Craig puxou as rédeas do cavalo com força. O outro animal estava amarrado ao dele por uma corda, e também diminuiu o passo conforme eles se aproximavam da escadaria que dava para as portas do castelo. Cartman desceu os degraus correndo, seu manto longo arrastando no chão, as mãos cerradas em punhos raivosos, uma expressão medonha dominando seu rosto. Craig não enxergava muito bem. Quase caiu do cavalo ao freiá-lo, segurando-se por pouco nas rédeas, com a cabeça tombada para frente, o corpo mole e fraco pela falta de alimento. Cartman estalou os dedos para que os homens de armadura ajudassem Craig a descer, segurando-o pelos braços, enquanto o cavalo batia com os cascos no chão em impaciência.
–Onde está o cetro?! – Foi a primeira pergunta do rei para o homem que retirava o capuz do manto e o encarava com o rosto ferido. Os olhos de Craig estavam opacos. Cartman franziu a testa. – Mataram Kevin?
Os sons de salto alto descendo a escada, logo atrás do rei, foram terrivelmente familiares. A princesa erguia a barra do vestido e encarava os dois homens com o queixo levantado, observando-os com curiosidade, seguindo o rei. Mas Cartman ignorou sua presença, esticando uma mão para agarrar o braço forte de Craig, puxando-o mais perto.
–Responda-me!
Craig mal podia respirar. O sangue dos cortes em seu rosto já estava seco, com exceção de um arranhão enorme na testa que ia até a sobrancelha, este ainda sangrava como se fosse recente, e um filete vermelho descia pela bochecha do homem que encarava seu rei com um olhar atordoado. Ele respondeu sacudindo a cabeça negativamente. A princesa surgiu por trás do rei, empurrando-o com certa força para o lado, visivelmente irritada. O rei rangeu os dentes, lançou um olhar aos guardas, mas não reagiu enquanto Marjorine tomava o rosto ferido de Craig em suas mãos macias, encarando-o como se pudesse ver todas as respostas do mundo em seus olhos. Seus longos cabelos loiros estavam soltos e voavam um pouco com a brisa que soprava.
–Onde estão meus irmãos? – Ela perguntou em uma voz baixa, quase sem abrir a boca, em um murmúrio aterrorizado.
O rei tomava todas as medidas necessárias para que a princesa se mantivesse longe de seus assuntos, especialmente porque essas coisas não cabiam às mulheres – não que se trata-se realmente de uma mulher, o que tornava tudo ainda mais distorcido -, mas de alguma forma, quando envolvia sua família ou seus interesses, Marjorine sempre acabava descobrindo por outros meios. Alguém em seu castelo, talvez mais de um, espionava para ela. Cartman sabia disso. Ela pouco questionava seu rei, pois era mais inteligente do que isso. Sabia até onde os escândalos a levariam.
Os lábios do ladrão estremeceram enquanto ele oferecia à princesa um olhar desolado, desejando por tudo que era mais sagrado para ele que não precisasse reportar nada à princesa. O coração continuava acelerado em seu peito, assim como na noite em que presenciou seu amigo, seu melhor amigo, o homem mais próximo de um irmão que já tivera em sua vida, sendo derrubado por um servo dos elfos, um humano traidor. Os gritos de Kevin não saíam de sua cabeça, continuavam ecoando em seus ouvidos como fantasmas.
–Eles... – Sussurrou, sacudindo a cabeça e fechando os olhos, querendo se livrar dos gritos em seu crânio. Virou seu rosto em direção ao rei, que o observava com uma expressão rígida. – Eu vi tudo, Majestade.
–Conte-me, idiota. – Cartman disse, e o insulto foi resultado de um nervosismo evidente que ele queria ocultar.
–Kenny ficou louco. Ele ficou completamente louco. Kevin foi conversar com ele sozinho, achou que estivesse seguro. Eu... Eu quis descer com ele, mas ele achou que Kenny se sentiria menos encurralado se ele fosse sozinho. Eu fiquei em uma árvore, assistindo. – Craig parou para lamber os lábios, e a princesa afastou as mãos do rosto dele, levando-as para cobrir a própria boca enquanto o ouvia. O ladrão balançou a cabeça. – Eles... Brigaram. Eu estava longe, não pude ouvir muita coisa, mas...
Ele hesitou. Cartman e Marjorine trocaram um breve olhar, antes do rei levar uma mão firme ao ombro de Craig, dando-lhe um apertão como forma de encorajamento.
–Continue.
–O homem o feriu. Com uma faca, eu vi. Prendeu a mão de Kevin em uma porta, a faca atravessou a carne dele, houve muito sangue...
–Ele está ferido? – A princesa perguntou em agonia, descendo as mãos ao peito.
–Eu não sei. Sim, pelo que vi, mas... Mas Kenny chamou os guardas para que levassem Kevin como prisioneiro. Os elfos o escutam, o respeitam. É insano, Cartman. Ele... Ele não é mais quem nós conhecíamos.
Durante alguns instantes, ninguém disse nada. O som emitido por aves que sobrevoavam acima de suas cabeças ecoou pelos ares, e Craig ergueu o queixo para observar a silhueta dos pássaros no céu azul. Depois, seus olhos acinzentados voltaram-se ao rei, que agora lhes dava as costas para subir a escadaria de volta ao castelo, em passos decididos, como se tivesse alguma tarefa importante a cumprir. Craig piscou lentamente, sentindo tontura. A princesa sinalizou com a cabeça para que o levassem para dentro e o alimentassem, já dando passos para trás, deixando que o belo vestido arrastasse no chão sujo enquanto corria atrás do seu rei.
–Era isso que você queria? – Ela disse assim que eles adentraram o castelo, longe dos guardas. Sabia muito bem sobre os sentimentos de Cartman quanto a ser contestado na frente de seus homens. Era inadmissível. – Agora, os inimigos têm meus dois irmãos. Eu deixei muito claros os meus sentimentos quanto ao envio de Kenny nessa missão, e descontente com isso, você entrega Kevin também?!
O rei parou de andar e virou-se tão rapidamente que a princesa colidiu contra o seu corpo imenso, forte como uma muralha. Os dedos grossos do rei subiram ao maxilar da princesa, apertando-o com certa força, com a mão encaixada no pescoço fino e elegante dela. O aperto não era o suficiente para marcar a pele, mas era desconfortável o bastante pra que ela soltasse um gemido baixo.
–Você não ouviu? Quem entregou Kevin foi o rato imundo do seu outro irmãozinho. Kevin falhou. Craig falhou. Kenny falhou e me traiu, achando que pode mijar em mim como se fosse uma maldita fada também. – Ele sussurrou próximo ao rosto dela, entre dentes, cuspindo ao falar. Os olhos azuis de Marjorine se arregalaram pela pressão dos dedos do rei. – Eu nunca deveria ter confiado em incompetentes para fazer algo tão simples quanto retomar de volta o que me é de direito.
Cartman a soltou casualmente, e a resposta da princesa foi uma tomada brusca de fôlego, enquanto seu peito se estufava. O rei a olhou com certo desprezo.
–Não se preocupe com seus irmãos, sua tola ignorante. Eu mesmo irei buscá-los.
–Você... — Ela sussurrou em um tom aterrorizado. – O que fará com Kenny? Vai matá-lo?
–Não é assim que eu lido com traidores. E trarei de volta mais do que aqueles imprestáveis dos McCormicks.
–Majestade. Pretende invadir o reino dos elfos com seus homens? É... É imprudente, o senhor sabe. Não sabemos onde o cetro está.
–Não é o cetro que eu trarei. – O rei disse com um sorriso terrivelmente satisfeito.
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