Revolutionary Girl
1 único
As aulas terminaram um pouco depois de cair uma chuva que trouxe de volta o céu azul e o tempo quente do verão. Saindo dos portões da escola, Cassandra seguia segurando firme a alça de sua pasta e pensando no que havia acontecido durante a aula de educação física. Não acreditava, mas havia agredido a menina mais assustadora da turma só porque ela havia monopolizado a bola na queimada.
Parou os passos e olhou para cima, as nuvens se dispersavam cada vez mais sobre sua cabeça e a imagem era agradável aos seus olhos, mas o azul não conseguia acalmar seu espírito. Cassandra pensava o que a levou a agredir alguém mais forte do que ela e por que se importou de não receber a bola no jogo para poder participar, ela detestava queimada e acreditava que quanto menos contato tivesse com a bola, melhor seria.
“Que merda, o que raios me deu hoje?”
Agradecia mentalmente pelas férias aproximarem e torcia para que não apanhasse nos dias posteriores.
— Você está melhor?
Uma voz feminina e conhecida fez a pergunta, Cassandra olhou para o lado e encontrou outra colega de classe. Seu nome era Fernanda, possuía a pele morena e o cabelo cacheado era descolorido. Tinha o corpo magro e era bonita, mas também era insuportável. Ou pelo menos até aquele dia.
Fernanda foi a única garota que não a chamou de doida por ter agredido a valentona da sala, pelo contrário, ela apartou a briga e disse que não era sua culpa. Fernanda falou claramente que o time de Cassandra estava sendo intimidado pela suposta líder e por isso ela “reagiu”.
Isso era verdade, Cassandra nunca arrumou confusão. Era uma medrosa, mas naquele dia não aguentou as ordens e nem de ser chamada de inútil por aquela garota, que chegou a pirar.
No entanto, o que raios deu em Fernanda para defendê-la? Ela era outra que não prestava, tão problemática que conseguiu calar a valentona.
— S-Sim, estou melhor...
Fernanda sorriu para Cassandra, um sorriso gentil que não estava acostumada de vê-la dando. — Posso te acompanhar até o ponto? — Ela ajeitou a alça da pasta que escorregava do ombro e continuou sorrindo.
Cassandra piscou os olhos. — Sim... eu acho que sim.
Sentiu-se um pouco nervosa, porque Fernanda era intimidadora tanto quanto a valentona, mas seu sorriso não era nada mau. Sem dizer que foi bem legal ela ter a defendido.
— Você foi muito legal na aula. — Disse Fernanda de repente, fazendo Cassandra parar os passos novamente.
— É...?
— Sim! Foi muito corajosa! Eu nunca pensei que uma pamonha feito você iria peitar a Karen algum dia!
Aquela conversa estava ficando confusa. Fernanda a chamava de corajosa — por incrível que pareça, sim, corajosa — e pamonha na mesma sentença? Mas seu sorriso natural fez Cassandra concluir que era um elogio e não uma brincadeira de mau gosto.
— Acha mesmo? — Voltou a andar e Fernanda também.
— Claro! Não é todo dia que encontro alguém tão forte!
— Forte?!
— Sim, você não é bobona como os demais.
Cassandra nunca pensou que ouviria tais palavras e ainda saindo de Fernanda. Ela se sentou no banco do ponto de ônibus um pouco exausta com os acontecimentos inesperados daquele dia e que deveria ser só mais um dia qualquer do ano letivo. O que raios aconteceu com ela?
— Fernanda... eu não sou o que está pensando... e eu acho que legal foi você por ter me defendido.
— Não, não, não! Não diga isso, porque vai voltar a ser uma bobona.
— Ham?!
— O que sentiu na hora?
Será que Fernanda se referia ao “calor”?
— Raiva.
— Sim, mas como ela veio?
— Ham... formigando, eu acho e...
— E?!
— Eu estava tremendo muito de... medo.
Fernanda cerrou os punhos como se o flamengo tivesse feito um gol aos 45 do segundo tempo e pegou no rosto de Cassandra para lhe dar um beijo.
— Isso!! — Exclamou muito satisfeita. — Guarde esse sentimento dentro de si!
— Ham?
— Quando se sentir bobona, se lembre que peitou a garota mais perigosa da sala de aula!! — Ela se levantou do banco, ajeitando sua saia colegial logo em seguida. — Minha casa é aqui perto, até mais!
— Até...
Fernanda deu as costas, deixando Cassandra no banco e com uma mão no rosto, onde recebera o beijo e que estava ainda molhado. Um formigamento dominou o seu corpo novamente, só que era um pouco diferente, esse fez com que se levantasse para gritar com toda a sua vontade:
— Fernanda, você é incrível!!!
A garota se virou um pouco surpresa com o grito, deu um aceno com o braço e sorriu de volta. — Até amanhã!
— A-até!!
Cassandra caiu no assento com sua bateria esgotada, mas também com um sorriso bobo no rosto. Olhou para as palmas das mãos e se sentiu ótima.
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