Revolução Cibernética
1 Revolução Cibernética
Notas iniciais
Acordei com o habitual ruído do jornal atirado contra a parede. Levanto-me, abro a porta e o apanho. Ao olhar a minha volta, vejo que a placa da rua teve seu nome mudado de Rua dos Colibris para Rua YN–15. Entro em pânico. O que aconteceu?
Tento me convencer de que não deveria ter tal reação, porém não consigo coordenar meus pensamentos. É como se um balde de água fria houvesse caído em cima de mim. Resolvo me dirigir ao escritório e observo atentamente todas as ruas, praças, hospitais, colégios, avenidas; mas tudo me parece exatamente igual e, ao mesmo tempo, totalmente diferente da noite passada.
Pesquisa: essa era a palavra que eu estava buscando. E foi o que fiz: uma grande coleta de informações e notícias. No entanto, nada informava o porquê da mudança do nome e eu estava prestes a descobrir que nem tudo estava nos jornais. Conspirações? Extraterrestres? Vampiros? Robôs? Mutantes?
Li tudo o que havia conseguido e YN-15 não fazia sentido algum. Durante o dia, andei por toda a cidade e todos pareciam me conhecer, o que é algo estranho quando se vive em uma cidade grande.
Agora, pensando bem, como a cidade poderia ser parecida e diferente ao mesmo tempo? Por que ruas e avenidas tinham nomes diferentes ligados à informática? E por que eu sabia usar um computador com tanta facilidade?
Fui mais fundo e achei a notícia a seguir: “Revolução Cibernética: adquira já seu robô ou seu carro de última geração. Agora eles pensam, falam, dançam e cantam. Você quer um com sentimentos, que possa trabalhar e com forma humana? Venha e encontre os mais variados tipos\".
Senti como se não soubesse minha própria origem, afinal de contas, agora tudo fazia sentido. Eu podia ser um robô ou uma humana normal. Será que haviam criado corações e órgãos que nos fizessem imaginar sermos humanos?
O que sou? Uma máquina? Algo frio, com embreagens e fios? Ou sou uma humana, com sentimentos, reflexões e nenhum vazio? Sinto amor ou penso sentir? Sinto medo ou em meu disco rígido esse sentimento está inserido? Tantas perguntas, nenhuma resposta. Quem saberia a verdade: os robôs, que me viam e me conheciam; ou as pessoas, com quem eu convivia?
YN-15. Isso era a marca dos robôs, a linha de montagem, sua impressão digital, seu código de barra. Só havia uma solução: procurar a marca. Fico despida e me observo ao espelho. Nada. Não consigo achar absolutamente nada. Nenhuma abertura para conserto de fios ou qualquer outra coisa. Visto-me, mas algo ainda me incomoda, então pego um alfinete e furo meu dedo. Por ele escorre um fino fio de sangue.
Nesse instante acordo com o habitual ruído do jornal contra a parede da minha casa. Enfim, nada passou de um sonho futurista, de uma utopia, de um desejo de um mundo diferente no qual todos fôssemos iguais. Olho a minha volta. Levanto–me e apanho o jornal. Na capa, a manchete: “Revolução Cibernética”. Será que aquilo fora na verdade uma premonição de algo que estava prestes a acontecer? Ops... Parece que tudo ia começar outra vez.
No entanto saio e encontro o nome da rua intacto. A capa do jornal era somente uma teoria revolucionária sobre todos os filmes de ficção cientifica que já haviam sido feitos. Estávamos caminhando para esse novo mundo e, simultaneamente, tentando preservar o nosso próprio.
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