Revolução Abissal
5 An Honored Whale
Notas iniciais
/leiam as notas finais
Kanade
Os Servos dos Cachalotes brandiam suas caudas, batendo-as como se fossem chicotes feitos por humanos. “Uma orca-real sem presas, orca não é” entoavam os Servos, acompanhados por centenas de milhares de clãs que vieram presenciar a queda da última prole viva da matriarca Khoji’ya, do clã Ya. De real nada tínhamos; Apenas um nome popular entre nossa espécie para definir a todos nós. As noventa-braços, os humanos caídos e os humanos-laranja chamavam-nos de Orcas-do-Marfim, bem como os cachalotes reais e as velhas orcas. Sim, principalmente aquelas orgulhosas velhas orcas.
Perguntava-me quando a cabeça de Kin’ya finalmente rolaria, e teríamos de nos banquetear diante de seu sangue vermelho brilhante. Um sangue nobre, o último da descendência de Khoji’ya. Quando o rito acabasse, as matriarcas líderes dos clãs de linhagem mais tradicional lutariam até a morte pela liderança de duzentos milhões de orcas-do-marfim.
Kin’ya urrava como uma fêmea no cio, com litros e mais litros de sangue fugindo de seu corpo, espalhando-se pela água, atiçando cada vez mais a fome e o desejo dos Servos. Toda vez que a tortura parecia ter acabado, apareciam cada vez mais baleias sedentas pelo espetáculo. Metade da sua pele já havia sido esfolada pelas próprias presas dos torturadores, e outra mordida, arrancada, estilhaçada pelos seus dentes monstruosos e famintos. Quando o encarava, nada se podia ver senão sangue vermelho, tão brilhante e ofuscante quanto o sol, envolto em uma bola de carne.
Mas nenhum deles era o verdadeiro carrasco.
“Confiar... É algo que os humanos faziam em excesso, e por isso acabaram todos explodidos.” Cantou Khuha’koya a mim, há meia volta de sol atrás, antes do início do ritual. Ela era uma das matriarcas de linhagem nobre que disputariam a liderança das orcas-do-marfim. Quando questionei-lhe sobre o que confiar significava, ela respondera: “Era o sentimento que Kin’ya tinha para com você. Quando aquele inútil ver sua mais competente e fiel soldada como a carrasco que se voluntariou a arrancar sua cabeça, morrerá da pior forma”.
“E se eu tomar outra decisão?”
“Sua decisão já foi tomada por um conselho formado pelas matriarcas dos clãs nobres, após a morte de Kin’ya.” Entoou, a uma distância pouco segura. Não tinha medo de uma reação desesperada de minha parte, ou uma tentativa de matá-la, mesmo conhecendo a minha fama. “Kin’ya pode ter visto talento em você, mas é apenas uma soldado comum. Mal tem um clã.”
Kanade. Um nome feio e fraco, costumavam cantarolar para mim. Nasci no meio da guerra, parida por uma mãe que morrera pouco depois. Nunca conheci o sabor de seu leite, e cresci pequena e fraca. Nunca conheci o clã de minha mãe, e se realmente algum já existiu, este me abandonou à própria sorte. Sobrevivi com as carcaças de noventa-braços flutuando na água, restos de uma guerra vencida que trouxera mais sangue do que glórias. E de que nada adiantou. As noventa-braços detém o Mar da Tempestade, o Mar Escarlate e o Mar de Gelo. Bastaria apenas o condenado Mar Ancestral, e as baleias seriam expulsas para sempre do mar.
Kanade. Um nome de humano, ladravam.
Com a morte dele, voltarei a ser uma inútil. Toda a glória que conquistei como sua assassina particular, foi-se tão rápido quanto aquela anomalia, penso. “Seu único papel agora é trazer-nos diversão com o desespero de Kin’ya”, Khuha’koya provavelmente quis dizer.
Sou paralisada por um uivo estridente, e vejo um dos atiçadores cortando a cauda de Kin’ya com a própria presa. Ele já não conseguia reagir, e a água salgada queimava a sua carne exposta. Khuha comentou sobre isso uma vez, a pena. Uma orca-do-marfim não sentia pena; era algo reservado às Velhas Orcas, humanos, humanos-laranja e noventa-braços. Talvez a única coisa digna de pena fosse uma orca-do-marfim com pena.
Um grande urro irrompe de longe do círculo de torturas, um apelo de uma fêmea. Reconheço a voz pesada e imponente de Karn’wa, líder do clã Wa. Em seguida lançou ao ar um longo apelo no Velho Dialeto, o utilizado pelas Velhas Orcas, convocando todos para o final do festim, que acontecia fora da água. Nadamos algumas poucas horas, até chegarmos a uma baía com duas extensões estreitas de terra em extremidade. Chamavam-na de Praia do Marfim. Kin’ya foi amordaçado e levado, pois mal aguentava nadar.
Já fazia trezentos anos desde que as orcas-do-marfim desenvolveram suas presas e patas, e se lançaram à terra para lá reinarem. Com uma população não maior do que trinta milhões, perderam na luta contra as noventa-braços, junto com o controle sobre o oceano pacífico, o que levou a essa fuga para a terra firme. Os cachalotes já habitavam lá e nos acolheram, com a condição de que fossemos unidos a elas. Unidos não, submissos. Quatro vezes nos rebelamos por autonomia, e quatro vezes falhamos. Alguns de nós começaram a adorar aos cachalotes pelas suas vitórias, e passaram a servi-los como assassinos contra a nossa espécie, matando qualquer um que incitasse uma revolta. Esses eram Os Servos dos Cachalotes.
Se tantos não houvessem morrido nas sucessivas tentativas, seríamos mais de um bilhão agora. Mas mesmo esse número seria pequeno para uma quinta tentativa. Entre as três classes de cachalotes, uma reinava sobre todos: O Cachalote Real. Eram necessárias cinco baleias comuns para matar uma lula, mas cinco destas precisava-se para poder matar um Cachalote Real. Tinham poderes psíquicos imbatíveis, e podiam ler a mente e as intenções de qualquer um. Mas, cantavam eles, só metade dos poderes estavam em suas mãos, enquanto a outra era detida pelas noventa-braços.
Nossa espécie foi forçada a entrar em uma guerra que não era nossa, por seres que não queríamos seguir. Mais e mais morreram, mas nossas caudas permaneceram baixas e nós, submissos.
Encarei os Servos, desejando que eu tivesse poder suficiente para matá-los sem ser questionada. Gravei as cicatrizes nas barbatanas de cada um, para vingar Kin’ya um dia.
Ouço uma agitação atrás de mim, e como um raio, um vulto vermelho e preto ganha forma à minha frente. Ele abana a cauda em um sinal de círculo, e rapidamente sai nadando, me deixando para trás. Eu o sigo, agora quase chegando à terra firme.
Milhões de orcas agora estavam saindo da bacia, e o número parecia para cada vez maior em relação às que estavam antes na água. A maioria teve de ficar no mar, com a cabeça levantada ao máximo, para não perderem o espetáculo. Algumas Velhas Orcas também apareceram, berrando em seu Velho Dialeto.
Rompi a pele da região do meu sexo, revelando as pernas adaptadas e atrofiadas que nossa espécie havia desenvolvido. Eram rosadas e com veias e artérias visíveis nas regiões mais transparentes, quase como se fossem um feto. A dor também se assemelhava a quando um feto saía de dentro de você, a cada vez que as pernas tinham de ser empurradas de dentro da pele, para que pudéssemos andar em solo. Meu tamanho era além do aceitável, e as minhas pernas mais atrofiadas do que deveriam ser me deixavam ainda mais baixa.
Eu e o vulto tínhamos sidos os primeiros a sair da água, mas agora já havia centenas de orcas-do-marfim uivando de dor. Poderíamos estar no mar. Poderíamos viver, morrer e apodrecer no mar. Porque estamos nos levantando por eles? Já as Velhas Orcas não podiam se erguer; não desenvolveram pernas para isso. Mas tinham de se curvar, e lutar contra as noventa-braços no alto-mar.
Os Servos iniciaram os berros, UUUUUUUUH, uuuuuuh, UUUUUUUUUH, uuuuuuuuh, UH, uh, UH, uh. Os clãs presentes entoaram cânticos com profundos e guturais uivos. Os Servos batiam suas caudas no solo, que mesmo feito de areia, pôde ser sentido um pequeno tremor. De tempos em tempos tsunamis chocavam-se entre nós, provocados pela agitação das Velhas Orcas e das orcas-do-marfim dentro do mar. Uma movimentação ganhou espaço atrás de mim, e ativei o canhão laser, por puro reflexo. Reconheço o vulto que me mandara segui-lo.
_Khig’yama. – Anuncio. Khig adorava gabar-se que era uma baleia honrada. Aprendera a ser assim com uma capitã noventa-braços que esquartejou, e para zombá-la, começou a imitar ela. Acabou por levar a nova filosofia muito a sério, e agora age como a lula que matou. Mas o que chamara minha atenção foi outras duas coisas: sua procura por justiça e sua sede por vingança. “Não devemos matar humanos, humanos-laranja e muito menos lulas. Somente o sangue dos Cachalotes pode pagar pelo nosso sangue derramado.”, louvava Khig para todos, sem mal importar-se com a possível presença de um Servo dos Cachalotes à sua escuta. Seu sangue o salvava. Seu clã, o Yama, era de descendência direta dos Ya. Sua matriarca estava morta, e suas irmãs ainda não haviam arranjado sua própria prole, o que o elevava como líder do clã. Ele é um bom candidato a sucessor do Kin, penso.
_Guarde suas armas para daqui a pouco. – Canta ele, em um balbucio baixo. Dessa vez, parecia que estava disposto a esconder dos Servos o que diria a seguir.
_O mesmo para você. – Respondo, com um tom moderado. Mesmo com nossa ligação, eu tentava manter o respeito, diferente de como outras orcas agiriam, inconsequentes e sem medo. – Kanade, a algoz. – exalto, ironizando eu mesma.
_Soa engraçado.
_Engraçado?
_Outra coisa que aprendi com as lulas. – Entoa Khig abanando a cauda horizontalmente, sinal de descontração. – Mas não tem de me advertir quanto a nada. Não pretendo lutar. Não sei lutar. Conseguiria derrotar-me apenas com suas pernas atrofiadas agora mesmo, caso desejasse.
_E jogar a chance que seu sangue oferece fora...
_Quando pode usá-la a seu favor? – Satiriza ele. – O clã Yama é extremamente orgulhoso, mas não passa disso. Não resta fêmeas na minha linhagem, o que me faz o líder do clã. – Kin’ya estava sendo retirado da água, o que significava que minha hora no ritual estava a chegar. Khig se apressou. – As orcas não seguiriam um líder macho. Não depois da liderança que Kin’ya exerceu. Ir à caça da anomalia com apenas cinco mil soldados, aquilo fora a gota d’água.
A anomalia, claro. Era estranho que o assunto ainda não havia sido tocado. Kin’ya tinha à disposição duzentos milhões de orcas, em uma missão de Urgência Máxima. Levou apenas cinco mil, eu entre elas, por puro orgulho. Sua honrada tolice levou-nos ao meio do continente, onde centenas morreram a cada volta de sol, todos por desidratação. Meu fantásticos planos tornavam-se falhos, em um cenário de seca que nos desfavorecia. A anomalia, uma pequena e insignificante anomalia humana, conseguiu matar quatro mil e duzentas baleias. Ele e seu grande aliado chamado sol. Em cálculos feitos por alto, não aguentaríamos mais de dois dias, antes de morrermos de cansaço. Meu último plano, nossa última esperança, fora pisada e cuspida por um bando de humanos montados em besouros voadores. Não só roubaram a anomalia; Levaram as duas presas de Kin, sua dignidade, sua vida. E tudo porque ele confiou em mim, penso, explodindo em fúria.
Khig percebe minha reação, e apazigua seu tom de canto. Ele também me teme, compreendo.
_As matriarcas comandam nossos clãs desde que a terra não existia; apenas os oceanos. Liderar um clã? Isso não cabe a mim. E muito menos toda a espécie. Desfrutaria da minha inteligência e do meu senso de justiça para revolucionar nossa espécie... Mas de que adiantaria, se a própria espécie não se ousasse o direito de me seguir? Uma fêmea com os mesmos ideais seria perfeito... E uma fêmea que ainda não tomou um macho para ajudá-la, chega a uma perfeição incantável. – Ele abanou sua cauda em um formato sinuoso, e a apontou à minha direção.
Suas intenções não podiam ter ficado mais claras a mim.
_Não. E não ouse me fazer repetir isso novamente. – Esbravejei uma resposta impensada, mas que sempre estaria na ponta da língua. – Se você se diz uma baleia honrada, vá até aquela arena e morra lutando pela liderança.
_Se em vida eu não estiver, como poderia continuar a ser honrado? – Cantou, desta vez com uma voz grossa, ao passo que também era séria e sombria. – Vim aqui com um plano, e não voltarei sem ele concretizado. Tanto planejei, tanto nadei, não me faça agora morrer na praia.
_Um plano. É isso o que represento? – Urrei, e todos que até agora não haviam nos notado passaram a prestar atenção em nossa conversa. Alguns berraram algo sobre querer logo a cabeça rolando, apontando para mim. Logo chegaria a minha hora.
Eu não represento nada, reconsidero em minha mente. Não após a morte de Kin’ya. Seria melhor seguir a proposta de Khig? Poderia eu vencer as nobres matriarcas?
_Você representa a futura matriarca da minha prole. – Entoou Khig’Yama, em um tom sugestivo.
_Aprenda a seduzir como um verdadeiro macho. Também aprendeu isso com as lulas? – Questiono-o.
_Com os humanos. – conclui ele, e vira as costas. – Terá tempo suficiente para pensar na minha honesta proposta. A carnificina pela liderança começará daqui a uma passagem de sol e uma passagem de lua. Lembra-se do que disse sobre usar a meu favor meu nobre sangue? Posso colocá-la na arena, sem que ninguém me questione. Até lá, divirta-se decepando cabeças. – Khig aproximou-se com cautela, e enroscou sua presa com a minha.
É um desafio, então. Eu não tinha orgulho para ser ferido caso recusasse. Não tinha nada. Apesar de meus pensamentos confusos no momento, eu consideraria.
Estava achando tudo aquilo engraçado; a morte de Kin’ya, a carnificina que a seguiria e jogo em que me meti. Levantei a cabeça, berrando e urrando, com estridentes grunhidos espaçados. Toda a sã consciência que tinha escapulira por entre as pequenas entranhas de minhas pernas atrofiadas, e agora derrubava tudo o que via pela frente. Vi algo vermelho, mas mal importava se era uma árvore ou um Servo; Eu não tinha utilidade nem clã. Eu simplesmente não existia. É tudo muito engraçado. Tudo isso é muito engraçado. Sim, as noventa-braços são uns gênios.
Meus olhos estavam revirados, todo o mundo ao meu redor se distorceu para um vermelho sem fim. Em cima e abaixo, tão perto quanto longe, o vermelho me sugava. Minha cabeça latejou, e meu corpo cedeu. Algo me içou, e me vi debatendo-me inutilmente. Atiraram-me como uma carcaça morta contra o chão arenoso, e vi um vulto escarlate brilhante à minha frente. Lamentei, clamando por ajuda. O urro que estourou de minhas gargantas foi imponente, forte, poderia ser ouvido até as terras inóspitas, onde ninguém era dono. A terra gelada da noite, onde os cruéis deuses redondos do marfim esperavam cada orca para a tormenta eterna.
A morte era um tabu entre as orcas-do-marfim. Uma eterna agonia, passávamos voltas e voltas de sol despistando-a e enganando-a. Mas no fim, ela sempre nos apunhalava, reivindicando nosso corpo, que alimentaria outros seres melhores do que nós. Evolução, chamavam.
Em uma vida onde nunca nada tive, desejei apenas essa misericórdia. A misericórdia da morte.
Enterrei meus marfins no corpo dilacerado de Kin’ya, dando-lhe a dádiva. Milhões de orcas-do-marfim e velhas orcas cantaram à minha volta. O sangue era a prova da vida, e não deveria ser rejeitado por uma orca. Mas nunca um sangue tivera um gosto tão ruim.
Berrei com toda a fúria que guardava dentro de mim mais uma vez, e meu marfim desceu uma, duas, três vezes, até a cabeça se separar do corpo.
Olhei subitamente para o lado, e vi a baleia honrada. Encarava-me com os olhos baixos. Piedade, a memória voltou à minha mente. Também algo que outrora Khig’yama aprendera com as lulas.
Notas finais
Algumas coisas que queria ressaltar: É uma civilização diferente, uma sociedade diferente e uma espécie diferente. Não dá para comparar elas com os humanos, foi o que tentei colocar na minha cabeça. Não medem as consequências de suas atitudes, são prepotentes, arrogantes e se deixam levar fácil.
Mas a Kanade, é, sim, um pouco diferente. E eu tô realmente louco pra escrever o que vai acontecer daqui pra frente com ela (não me chamem de metido, + é realmente épico hauauaha)
Ah, esse foi o terceiro(de cinco) POV revelado da fic. No próximo capítulo, vou apresentar o quarto pov :p
Se quiserem que eu continue, já sabem, REVIEWS! :P
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