Notas iniciais
E chegamos ao último capítulo :') Espero que gostem!

Dona Honey queria reformar a escola, deixá-la alegre ao invés de sombria, mas ia demorar muito, e ela não queria que os alunos perdessem tantas aulas por causa da reforma, então esta seria feita aos poucos. Começou na semana seguinte à saída de Trunchbull, semana que não teve aula para que todos tivessem um tempinho para se recuperar dos últimos acontecimentos e se preparar para as novas mudanças.

Foi uma semana divertida para Violet, parecia as últimas férias: ela estava bem com a mãe, brincou com a Lily... Só que foi um pouco melhor, pois, quando foi pra terapia, não precisou ficar afastando memórias ruins para longe, contou tudinho ao Dr. River. Ela não estava mais com raiva dele, pois sua mãe contou que ele tinha sido parcialmente responsável por ela acreditar no que Violet contou sobre a escola.

A primeira coisa que a menina falou depois de dar um abraço no doutor foi que tinha finalmente tirado o gesso do braço (o que ele percebeu assim que ela entrou, mas tudo bem). É que tinha muita coisa pra contar e aquilo era o mais recente. Mas enfim, Violet contou com todos os detalhes tudo o que aconteceu desde a chegada de Charlie até a revolução na escola.

Ela foi bastante expressiva o tempo todo, parecia que estava apresentando um espetáculo, mas isso porque, à medida que falava dos acontecimentos, sentia como se os revivesse. Sendo assim, ficou muito feliz nas partes felizes, com medo quando falou do que a deixava com medo, chegou a chorar novamente quando contou que voltou a conseguir chorar... e depois ficou feliz de novo e até ensinou a coreografia de "Revoltados" ao doutor.

Ele ficou muito impressionado com tudo o que ouviu, mais ainda do que quando soube das notícias da Crunchem Hall pelos jornais. Estava muito feliz por ver que Violet havia conseguido superar os seus traumas. Aliás, por conta do que presenciou durante a sessão e pela conversa que teve depois com a mãe da menina, ele chegou à conclusão de que o tratamento de Violet estava completo, ela finalmente estava bem.

A Srta. Beauregarde se sentiu tão bem ao ouvir isso! Ela, por outro lado, ainda teria que continuar fazendo terapia por um boooom tempo... mas era ótimo que sua filha estivesse curada. A única desvantagem para Violet em parar de fazer terapia seria nunca mais ver o Dr. River; porém, para a felicidade da menina, isso não ia acontecer.

Acontece que o doutor recebeu uma proposta da Dona Honey para trabalhar como psicólogo da escola, pois ela estava muito preocupada com a saúde mental dos alunos por conta dos traumas que os abusos da Trunchbull certamente haviam causado em cada um.

Violet comemorou muito quando soube que isso ia acontecer. Tudo bem, não era a mesma coisa de ter o Dr. River como pai, mas... depois de tudo o que aconteceu naquele ano, a menina já estava aceitando melhor que as coisas nem sempre são do jeito que ela quer e que isso não é necessariamente algo ruim. Estava feliz que seus amigos da escola também fossem conhecer o Dr. River, ia avisar a todos o quanto ele era legal e que podiam confiar nele porque era o melhor psicólogo do mundo.

Por fim, aconteceu uma última coisa antes de Violet voltar pra escola que foi bem diferente da época das férias: ela recebeu uma carta de Charlie. Era a resposta à carta que ela tinha enviado a ele contando sobre a revolução. Ela tinha enviado para a fábrica, então ele só pôde ler depois que voltou dos Estados Unidos, e respondeu imediatamente.

Como ela imaginou, ele adorou saber o que aconteceu na escola e ficou muito feliz por tudo ter dado certo. Só que o menino deu uma notícia não muito boa. Violet havia perguntado sobre o resto da viagem dele, então ele teve que dizer que não foi muito legal, pois Mike Teavee guardava muito rancor por tudo o que aconteceu na fábrica e não quis ser seu amigo de jeito nenhum. Mas Charlie não estava preocupado com isso, tentou entender os motivos do outro garoto e, como viu que ele não parecia ter mudado muito, nem considerou convidá-lo pra fábrica.

Pois é, não dá pra fazer amizade com todo mundo mesmo. Não importa o quanto a pessoa seja legal e bem intencionada, se a outra não quiser, não tem como. Violet ficou pensando sobre isso. Ela se lembrava de Mike Teavee e, se ele não tinha mudado, devia ser chato mesmo... Mas ela ainda achava que Veruca era pior do que ele.

***

A reinauguração da escola estava prevista só para a primavera, mas Violet já pôde notar algumas mudanças positivas com o início da reforma quando voltou depois do recesso. E essas mudanças não eram apenas físicas, eram também na atmosfera da escola, já que todos os alunos e funcionários estavam mais alegres.

Antes da aula começar, a nova diretora fez uma reunião com toda a escola falando sobre como seriam as coisas dali em diante. Ela não queria mais que os alunos fossem pressionados, então não haveria mais avaliações com notas, e os alunos iam aprender de formas mais dinâmicas e divertidas. Também não haveria mais aqueles títulos de delegados para os alunos mais velhos ficarem vigiando os mais novos. Na verdade, não haveria nem divisão de turmas de acordo com a idade e, sim, áreas de interesse e núcleos de estudo. Além disso, os alunos não ficariam o tempo todo estudando nas mesmas salas e com as mesmas pessoas.

Todos estavam animados com as mudanças, mal viam a hora de começar a estudar. Parecia que ia ser muito divertido! Os alunos e professores começaram a se dividir em grupos, mas antes de saber onde, com quem iria ficar e o que iria estudar, Violet foi ao banheiro.

Enquanto lavava as mãos, ouviu um choro vindo de uma das cabines. Numa outra época, ela não ligaria e sairia do banheiro ou, pior, ficaria rindo da coitada que estivesse chorando. Mas agora, que sabia que era importante chorar, ficou se perguntando por que essa menina estaria chorando. E ficou até preocupada, porque estava tudo tão bem na escola, todos finalmente estavam felizes, como podia alguém estar triste???

Então Violet se aproximou da cabine e, sem saber bem o que dizer, falou:

— Oi? Você tá chorando?

— Não! — Respondeu a menina de dentro, entre soluços.

A voz dela estava meio alterada pelo choro, mas Violet reconheceu. Após um segundo de choque por perceber quem era, disse:

— Para de mentir, Cornelia!

— Vai embora, Violet, eu não quero falar com ninguém, principalmente você!

Violet não queria ir embora. Estava preocupada com Cornelia, não queria que ela ficasse triste. Mas, devido ao histórico delas, entendia por que a menina não queria falar com ela, ainda mais num momento difícil. Só que ela ia ter que falar, porque Violet não era de desistir fácil.

— Eu não vou embora até você me contar o que tá acontecendo! Eu prometo que não vou te zoar e nem contar pra ninguém que te vi chorando.

— Até parece...

— Eu tô falando sério, Cornelia! Se eu quisesse te zoar, já teria feito isso. E não tem ninguém aqui além de nós duas.

Por mais estranho que fosse para Cornelia e por menos que confiasse em Violet, parecia mesmo que a garota estava falando a verdade. Confusa, a mais velha perguntou:

— Por que você se importa?

— Porque sim... É que... todo mundo tá feliz... por que você não?

Cornelia demorou um pouco, mas respondeu:

— Você não ia entender...

— Será? Eu sou mais inteligente do que você pensa.

Até sendo legal Violet conseguia ser irritante! Mas isso não irritou Cornelia como geralmente faria, na verdade, a garota achou até um pouco engraçado. Aliás, toda aquela situação era bem engraçada se elas parassem pra pensar. Parecia coisa de outro mundo as duas estarem tendo uma conversa que durasse mais de um minuto e que não fosse com uma provocando a outra. Porém, Cornelia ainda estava muito triste pra rir. E também não sabia como dizer o que a deixava triste.

Como ela não respondia, Violet tentou adivinhar:

— É porque você não vai mais ser delegada?

— Não! Quer dizer... também... é que... — A menina deu um suspiro e tentou explicar: — Eu sei que a Trunchbull era horrível, mas... eu não sei se esse novo sistema da escola vai ser bom pra mim. Eu sei que você não tá nem aí pra regras e, pelo jeito, os outros alunos também não, mas... os meus pais são muito exigentes e só me matricularam nessa escola porque querem que eu vá pra uma faculdade boa, mas agora que vai ser tudo diversão, sem regras, sem provas, sem notas... eu não sei nem se vou conseguir entrar no ensino médio depois que sair daqui!

Ao ouvir isso, Violet teve uma sensação muito estranha, um déjà vu da época em que foi proibida de participar das competições. Era muito estranho uma criança achar que não pode se divertir e ter que se preocupar tanto com o futuro, mas isso era exatamente o que ela pensava antes.

— Eu entendo — disse.

— Não, é claro que não entende! Você nunca ligou pra escola, pra você é tudo bagunça...

— É verdade, na escola eu era assim, mas fora daqui eu era muito diferente! A minha mãe também é exigente e ela me inscrevia em muitas competições e queria que eu ganhasse todas. E é claro que eu também não podia tirar notas baixas na escola, era exaustivo!

É claro que Cornelia sabia das competições de Violet, a escola inteira sabia, porque a menina sempre fazia questão de contar pra todo mundo sobre suas vitórias. Às vezes até trazia as medalhas pra fazer inveja nos outros alunos. Mas Cornelia nunca tinha parado pra pensar em como a vida da garota podia ser difícil... Na verdade, também nunca tinha pensado em como sua própria vida era difícil, só fazia o que tinha que fazer para ser a melhor na escola e deixar seus pais orgulhosos.

— Mas eu achava que as coisas deviam ser assim — Violet continuou — e que era isso que eu queria. Até que a minha mãe mudou de ideia e decidiu me proibir de participar de competições depois daquela da Fantástica Fábrica de Chocolate. Ela queria que eu começasse a ter tempo livre e brincasse como uma criança normal e eu achei aquilo um absurdo, fiquei com muita raiva!

Cornelia ficou tão impressionada com a história de Violet, que até parou de chorar.

— E o que aconteceu depois? — Perguntou.

A mais nova, então, contou que conseguiu ficar feliz e brincar durante as férias, e que foi muito melhor do que se preocupar o tempo todo com as competições. O único problema ficou sendo a escola, que era horrível e sua mãe não queria tirá-la de lá de jeito nenhum, mas agora que estava tudo bem na escola, Violet não tinha mais nada com que se preocupar.

— Mas... — disse Cornelia — e o seu futuro? Você não vai mais ser atleta?

— Eu não sei... Acho que sim. A minha mãe disse que depois de 1 ano eu podia voltar, eu só preciso escolher um esporte.

— Tá, mas você sabe que vai ter que voltar a treinar muito e competir se quiser mesmo isso, né? Não dá pra ficar só brincando toda hora... e, pra mim, com a escola é a mesma coisa. Eu preciso estudar se quiser ser médica algum dia. E, pra falar a verdade, você e todos os outros alunos também precisam estudar de verdade, não só ficar se divertindo.

Violet ainda não tinha parado pra pensar nessas coisas... Era tão irritante o quanto Cornelia era mandona, mesmo triste! E ela sempre falava como se soubesse mais que todo mundo. Mas, como Violet realmente entendia por que ela estava agindo assim, resolveu ignorar a chatice da menina e respondeu:

— Eu sei que vou ter que treinar muito! Só que agora a minha mãe quer que eu também tenha tempo pra brincar e descansar, porque essas coisas também são importantes pras crianças. E quanto à escola... pra falar a verdade, eu também não sei direito como vai ser o aprendizado, só pensei na diversão... Mas eu tenho certeza que a Dona Honey sabe o que tá fazendo e vai ser uma ótima diretora. Ei, eu tive uma ideia! A gente pode ir lá na sala dela agora mesmo tirar essas dúvidas, aí você não vai mais precisar se preocupar. O que você acha?

— Pode ser...

Violet sorriu e esperou Cornelia sair da cabine. Ela estava com a cabeça baixa e disse que achava melhor lavar o rosto antes, então foi em direção à pia, enquanto a mais nova foi pegar toalhas de papel pra ela. Quando Cornelia terminou de passar água no rosto, ficou impressionada ao ver que Violet estava ao seu lado estendendo as toalhas e, o mais estranho de tudo, ela não estava rindo de sua cara, só sendo gentil.

— Obrigada... — Cornelia pegou as toalhinhas, limpou o rosto e, então, olhou intrigada pra Violet e disse: — Por que você tá sendo legal comigo? É esquisito...

— Eu sei, é esquisito pra mim também... mas eu acho que... você não é tão diferente de mim quanto eu pensava... e também... eu decidi que quero ser sua amiga. — Então ela tirou um chiclete do bolso e ofereceu a Cornelia Prinzmetal. — Você quer?

Violet não tinha voltado a mascar chiclete o tempo todo, já sabia que isso era um hábito horrível. Mas sua mãe estava deixando ela mascar de vez em quando, como uma pessoa normal, e, agora que queria fazer amigos, a menina teve a ideia de oferecer chiclete à pessoa com quem queria começar a amizade, parecia uma coisa legal a se fazer. Ela lembrou de quando dividiu a barra de chocolate com Charlie quando quis tentar ser amiga dele, mas, como Violet gostava mais de chiclete do que de chocolate, além de ser menor e mais fácil de levar pros lugares, ela achou melhor usar chiclete pra isso.

Enfim, Cornelia aceitou o chiclete e a amizade, e Violet foi logo dando um abraço nela.

— O que você tá fazendo?! — Disse a asiática, afastando a loira.

— Você não gosta de abraços?

— Não! Eu aceitei ser sua amiga, mas tudo tem limite.

— Tá, eu vou me lembrar disso.

Cornelia riu, achando Violet muito estranha, mas feliz por ela querer ser sua amiga. Então as duas foram para a sala da Dona Honey.

Diferente de antes, a sala da diretora não era um lugar restrito e assustador, mas sim aberto e acolhedor. A nova diretora recebeu as alunas sorridente e perguntou o que elas queriam. Violet disse que elas tinham algumas dúvidas em relação à nova escola.

Os professores estavam agora com os alunos justamente explicando melhor como tudo funcionaria, mas, vendo que a reação de Cornelia parecia muito diferente da dos outros alunos com as mudanças, Dona Honey achou que faria bem conversar diretamente com as meninas que a procuraram, então pediu que elas se sentassem e perguntou quais eram as dúvidas.

Cornelia não era de ter dificuldade em falar, mas, naquele momento, estava nervosa e não conseguia falar direito, então Violet tentou repetir o que ouviu dela no banheiro. Depois, a própria Cornelia conseguiu dar mais detalhes sobre suas dúvidas.

A Dona Honey entendeu tudo perfeitamente e foi muito compreensiva. Então ela começou explicando que, apesar de toda a diversão, a escola continuaria tendo regras, elas só não seriam rígidas como as antigas e os alunos nunca mais receberiam punições violentas.

(Na verdade, uma das regras seria não mascar chiclete na escola, mas a diretora achou melhor não dizer isso no momento, pois Cornelia já parecia nervosa demais e, como a menina não sabia dessa regra, é claro que não seria punida por estar fazendo isso.)

Depois, a diretora explicou que só porque não haveria mais testes padronizados e notas, não queria dizer que os alunos iam deixar de ser avaliados. A diferença seria que, ao invés de analisar os resultados das provas, os professores iam acompanhar o aprendizado dos alunos, ver se eles realmente estavam aprendendo, não exigir que decorassem conteúdos pras provas e facilmente esquecessem tudo depois.

— Ah, isso sempre acontecia comigo! — Disse Violet. — No dia seguinte ao da prova eu já esquecia tudo que tinha estudado...

— Mas como exatamente os professores vão saber se a gente tá aprendendo ou não? — Perguntou Cornelia.

— Acompanhando cada aluno de perto — respondeu Dona Honey. — E não vão ser só os professores, a gente espera que vocês mesmos possam saber que aprenderam.

— Como? — Aquilo tudo era muito confuso para uma garota tão acostumada a se preparar para testes padronizados.

— Assim, Cornelia: o nosso currículo vai ser de objetivos e competências, então vocês vão fazer planos de estudo, começando pelas suas áreas de interesse e sendo orientados por um professor, e, junto com ele e com os seus colegas de grupo, vão tentar ultrapassar esses objetivos.

Cornelia continuava confusa (e Violet também), mas a Dona Honey respondeu mais perguntas e deu mais detalhes. Basicamente, os alunos partiriam de suas áreas de interesse para aprender conteúdos de todas as matérias por meio de projetos interdisciplinares e com diferentes grupos de colegas e professores, ao invés da divisão tradicional entre turmas por idades.

Com projetos mais práticos, eles aprenderiam de verdade ao invés de só decorarem conteúdos. Além disso, se tivessem que fazer uma prova para uma outra escola (quando fossem para o ensino médio, por exemplo), era bem provável que se saíssem bem, pois os conteúdos fariam sentido para eles depois que aprendessem de forma significativa.

Dona Honey não queria mesmo classificar os alunos com notas, mas não podia ignorar o quanto esse critério é valorizado em outros lugares, então, caso os pais fizessem questão de saber as notas dos filhos, ela poderia fazer um boletim no final do ano, apenas por formalidade. Mas o importante mesmo era saber que os alunos ultrapassaram seus objetivos.

As meninas estavam compreendendo melhor e continuavam bem curiosas e interessadas em saber detalhes sobre o novo funcionamento da escola, então Dona Honey resolveu entregar a elas uma cópia de seu Projeto Político Pedagógico. Cornelia ficou impressionada e emocionada por receber pessoalmente da diretora, em mãos, um documento tão importante.

— Eu posso mesmo ler?!

— Claro! E pode tirar dúvidas e sugerir melhorias a qualquer momento se quiser. Você também, Violet.

— Obrigada! — Exclamou Cornelia, e Violet sorriu.

É que a nova escola não seria feita pelos adultos para as crianças, ela seria feita com as crianças. Então a Dona Honey queria que elas participassem ativamente de tudo o que aconteceria lá.

As duas meninas começaram a ler os tópicos do documento e Violet logo notou que estava faltando uma coisa:

— Não vai ter Educação Física?

Ih... esse era um ponto sensível. Educação Física, como todos sabiam, era a especialidade da Trunchbull e, assim como os alunos, a nova diretora também tinha sofrido muito nas mãos daquela mulher. Apesar disso, sabia que a inteligência física das crianças também devia ser desenvolvida, então tinha pensado em outras maneiras para elas se exercitarem, como um parque de diversões.

Isso era ótimo, mas quando Dona Honey tinha falado sobre as áreas de interesse, Violet ficou pensando que seu maior interesse era o esporte. E, a princípio, não ia ter na escola... Mas ela queria fazer esportes de verdade, eles ensinam muito mais coisas do que brincadeiras no parquinho... Violet ficou meio sem jeito de dizer isso, mas disse. E Cornelia concordou com ela, porque também gostava de esportes e sabia da importância deles.

Para a sorte de Violet, a diretora estava falando sério quando disse que aceitaria sugestões dos alunos, então falou que ia fazer mais pesquisas sobre Educação Física na escola e entrevistar professores.

— E já que vocês duas estão interessadas... o que acham de falar com os outros alunos pra montarem um time de algum esporte coletivo se tudo der certo?

As duas adoraram a ideia! E a diretora finalizou dizendo que podiam ficar com o documento para lê-lo por inteiro e mostrar aos pais, caso eles também tivessem dúvidas. Elas agradeceram e saíram da sala. Como só tinha uma cópia, Violet disse que Cornelia podia ler primeiro, já que estava mais desesperada. Ela começou a rir e disse:

— Valeu! Mas quer saber? Eu não tô mais tão desesperada assim... Você ajudou muito, sério!

— De nada! Eu acho que a gente forma uma boa dupla.

— Pois é... Quem diria, né?!

As duas riram e depois Cornelia disse, um pouco sem jeito:

— Pode... abraçar agora se quiser.

Então Violet deu um sorriso enorme e abraçou a garota, que, desta vez, retribuiu.

***

Violet e Charlie continuaram mantendo contato, como disseram que iam fazer, e a menina ficou sabendo, nas férias de inverno, que Veruca, por incrível que pareça, estava mais legal e ele conseguiu fazer amizade com ela. Mas, assim como os pais de Augustus e de Violet, os dela não a deixaram morar na fábrica; mas ela também não fazia questão, pois tinha feito amigas em sua escola e não queria ficar longe delas.

Violet não soube o que pensar sobre isso, mas ficou feliz depois que perguntou a Charlie com qual desses amigos distantes ele falava mais e ele disse que era com ela (Violet). Mas o garoto também tinha uma outra novidade, que ela achou muito positiva. Depois de suas viagens, ele percebeu que queria estar com mais crianças e não só com adultos na Fantástica Fábrica de Chocolate, então pediu autorização pro Sr. Wonka pra voltar pra escola ao invés de ter aulas particulares.

Como sempre tinha morado perto da fábrica, a escola era a mesma em que ele ia antes (e onde sofria bullying), mas, depois de tudo o que aconteceu na escola de Violet, ele estava disposto a voltar lá e tentar fazer algo para que nem ele nem outros alunos voltassem a ser maltratados. E, é claro, queria fazer novos amigos também, que fossem da sua idade e que ele pudesse ver com frequência.

Em Atlanta, a reforma da Crunchem Hall continuou e muitos pais, alunos e professores quiseram ajudar. Alguns fazendo doações, outros colocando as mãos à obra, mesmo. Como todos estavam animados com a escola e queriam que tivesse a cara deles, também tinham muita vontade de cuidar do lugar e deixá-lo o mais aconchegante possível.

A reinauguração foi na primavera, como previsto, e a escola deixou de se chamar Crunchem Hall e passou a ser chamada de Escola Bom Amigo. Essa reinauguração foi a maior festa! Com um parque de diversões cheio de brinquedos, muitos doces, balões de ar quente, girafas... Agora as crianças daquela escola finalmente podiam ser crianças!

Os uniformes também estavam diferentes, eram brancos com quadriculados azuis, ao invés de cinzas e sem graça como antes. E Violet continuou usando sua boina vermelha, que já tinha virado sua marca registrada, pois Dona Honey não tinha nenhuma regra contra ela. Mas a menina achou que a boina precisava de uma mudança, algo que tivesse mais a ver com essa nova fase, então costurou florzinhas nela. Ela queria que fossem violetas, mas era difícil de fazer, então fez florzinhas básicas com cinco pétalas para representá-las.

Falando em nova fase, a essa altura o prazo que a Srta. Beauregarde havia dado para que a filha ficasse fora das competições já havia acabado há mais de um mês, e Violet, depois de muito pensar, decidiu que queria, sim, voltar a competir e finalmente conseguiu escolher um esporte: futebol.

A ideia surgiu na escola. Desde que Dona Honey fez aquela sugestão sobre fazer um time de esporte coletivo, Violet e Cornelia (que depois de um tempo acabaram se tornando melhores amigas) conversaram muito sobre qual seria o melhor esporte para se praticar na escola, e, depois que a diretora contratou uma professora de Educação Física muito legal que as ajudou a decidir, elas conseguiram formar um time com outros alunos. Depois que estivessem prontos, eles começariam a participar de competições contra outras escolas e Violet estava doida para voltar a ser uma campeã! Mas agora sempre com os seus amigos.

Não era só na escola que as coisas estavam bem, em casa, Scarlett e Violet não brigavam mais (pelo menos não o tempo todo). No geral, a filha respeitava as regras e a mãe também respeitava a filha, a ouvia e levava as vontades dela em consideração. Quando Violet queria fazer alguma coisa que sua mãe não aprovava, as possibilidades eram duas: ou ela explicava à mãe por que queria aquilo e a mulher acabava aceitando, ou a mãe explicava o porquê da desaprovação e a própria Violet entendia e parava de insistir. E quando a Srta. Beauregarde queria que a filha fizesse algo que esta não queria, era basicamente a mesma coisa: ou a mãe explicava até convencer a garota, ou a filha conseguia convencer a mãe do porquê de não querer fazer e ela compreendida. Independentemente, tudo era resolvido com base em diálogo, respeito e confiança mútua.

Outra grande mudança era que agora Violet estava bem mais aberta em relação a seus sentimentos. Ela não tinha mais dúvidas de que era amada e isso tornava bem mais fácil pra ela demonstrar afeto para com a mãe e as outras pessoas. Por incrível que pareça, era fácil agora ver como Violet podia ser uma menina doce, sensível e animada. Mas é claro que ela também se irritava de vez em quando, continuava sendo intensa; só que agora também chorava quando precisava. Basicamente, era uma criança normal e saudável, com emoções que qualquer outra criança tem.

Houve muitas mudanças na vida de Violet depois da visita à Fantástica Fábrica de Chocolate, mas, para fechar essa saga com chave de ouro, ainda tinha uma única coisa que Violet queria mas que sua mãe não deixava de jeito nenhum: visitar a fábrica. A menina passou meses pedindo e desistindo de pedir, pedindo e desistindo de pedir, pedindo e desistindo de pedir; até que finalmente resolveu pedir uma última vez e desistir de vez se sua mãe não deixasse de novo.

Violet entendia por que não podia ir à fábrica, o que aconteceu lá foi realmente muito perigoso; mas ela prometeu que tomaria cuidado para não fazer nenhuma besteira. Além disso, estava com muita saudade de Charlie e sabia que seu amigo também não deixaria que nada de ruim acontecesse com ela. Assim, depois de muitos "nãos", a mãe da menina finalmente disse "sim" e as duas decidiram o destino de sua próxima viagem de férias.

Notas finais
As coisas que eu coloquei sobre o novo funcionamento da escola foram baseadas na metodologia da Escola da Ponte, que é de Portugal e foi adotada por algumas escolas do Brasil também. Eu não sei se alguém chegou a ler essa história, mas, independentemente, eu preciso registrar o quanto foi bom pra mim ter escrito ela. Quando eu assisti Matilda O Musical, no comecinho de 2023, eu só achei que seria legal fazer um crossover porque a Hortensia era muito parecida com a Violet. Porém, à medida que eu imaginava e escrevia a história, ela foi se tornando muito significativa pra mim, e, inconscientemente, eu usava ela como catarse, porque eu estava passando por um momento muito difícil e achava que as coisas nunca iam melhorar pra mim. Então, com essa história, que tem uma personagem que sempre se sentiu pressionada e sufocada ao longo da vida e que não sabia direito como se relacionar com outras pessoas, eu vi que eu não queria desistir dela, queria que ela tivesse um "final feliz" apesar de todas as dificuldades. E eu acho que isso acabou me dando esperança pra vida real também, porque, se eu não queria desistir da personagem, eu também não devia desistir da minha vida, né? Então agora eu estou bem melhor do que na época em que comecei com a fanfic (inclusive fazendo terapia também), e eu sei que ainda tem muita coisa ruim pra acontecer pela frente, afinal, a vida não é feita só de momentos bons, mas o importante é a gente não desistir e tentar vencer as nossas dificuldades.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!