Bruce nem ao menos esperou a limusine ser estacionada adequadamente para sair dela e deixar a pasta de papéis importantes, Timothy ou qualquer outra coisa para trás. Quase colocou as portas da mansão abaixo para poder entrar – não queria perder tempo usando a maçaneta. Subiu as escadas apressado, esbanjando a boa forma que tinha conquistado com os poucos dias de descanso. Quase trombou com o mordomo pelo caminho até o quarto do filho mais novo.

— Alfred, eu preciso ver o meu filho! — se justificou antes mesmo de alguma explicação para aquele comportamento ser exigida.

— Certamente, Patrão Bruce, mas...

Aquela pequena conjunção de restrição de ideias foi um balde de água fria para o Wayne. O vigor o abandonou e deixou apenas a mesma feição de desolação que ele tinha nos últimos dias – sempre que recebia uma recusa para alguma possível melhora de Damian.

— ... “Mas”?

— Mas ele está tirando um cochilo... — O mordomo ergueu os ombros — Não ouse acordar aquela criança, não sabe com o que vai estar lidando! — disse com um tom humorado, conseguindo até mesmo a arrancar um suspiro de alivio de Bruce.

— Bruce!? — Tim o chamou do começo da escada, segurava o paletó do pai, maletas e ainda tentava equilibrar o notebook aberto na outra mão — Alfred!?

— Estou a caminho, Mestre Tim! — o mais velho respondeu igualmente bem-humorado enquanto deixava Wayne sozinho para decidir se entraria ou não no quarto do filho.

Ele entrou.

Tomou cuidado o suficiente para abrir a porta de forma delicada e silenciosa.

Conseguiu conter um murmúrio ou outro enquanto olhava aquele quarto cheio de papéis desenhados espalhados pelo chão; roupas reviradas saindo pelo armário – com Ace usando algumas como cama -; coisas derrubadas – provavelmente por Alfred, já que o pequeno gato lambia uma das patas em cima da prateleira -; TV ligada em um desenho qualquer sendo transmitido; Titus dormindo em cima da cama, com a barriga para cima, ocupando quase tanto espaço quanto os outros dois dorminhocos:

Selina estava com Damian praticamente no colo dela, com um dos braços envolta dele e o outro sendo segurado pelo menino. O pequeno Wayne parecia ter dormido no meio de uma obra prima: um desenho no antebraço da mãe como se fosse uma tatuagem.

— Bruce, o Alfred disse que...

O rapaz nem conseguiu terminar a frase antes de se calar ao ver toda aquela cena. Diferente de Bruce, que se contentava em apenas admirar, ele pegou o telefone celular no bolso e começou a tirar várias fotos.

— Tim — o pai o chamou em um tom tão sério que o fez guardar o celular no bolso novamente e fingir que não fez nada. E então continuou: — Quero que me mante todas as fotos depois.

— Sim senhor — Sorriu.

— Eu quero também... — Selina disse baixo, mantendo os olhos fechados, completando logo em seguida: — Sim, eu estou acordada.

— E como o nosso filhote está? — Bruce perguntou em um tom ameno, até mesmo carinhoso, enquanto se sentava na beirada da cama para ficar perto deles.

— Filhote? Pelo estado do quarto, acho que foi a versão “gremlin alimentado” que acordou... — Tim resmungou olhando em volta e se aproximando também.

— ... Damian está ótimo. É a mesma criança adorável de alguns dias atrás, o único problema é que... — Ela se calou assim que o pequeno se mexeu um pouco. Só ousou falar algo quando já tinha certeza absoluta que ele estava dormindo — ... É que ele não fica quieto.

— Está dizendo que foi o meu filho que fez tudo isso? — Bruce franziu o cenho, sem conseguir imaginar nem mesmo ele se levantando da cama sozinho pelos próximos dias.

— E em poucos minutos...

— ... Como? — Drake perguntou tentando entender.

— Na hora do banho ele queria escolher um pijama, depois queria desenhar, depois queria achar a bolinha do Titus, depois queria desenhar de novo — ela bocejou — Ah, tiveram as perguntas também, várias perguntas...

— Perguntas sobre o que?

— Várias coisas. Aliás, nos conhecemos em um jantar beneficente.

— ... Ele perguntou de mim? Daquele pássaro de brinquedo? — Tim encarou o chão, culpando-se por tudo o que aconteceu.

— Na verdade ele perguntou bastante sobre...

Antes que Selina conseguisse terminar, Dick entrou no quarto quase colocando a porta abaixo – e isso porque Bruce a deixou entreaberta. O rapaz estava tão afobado que chegou a escorregar em uma das folhas jogadas no chão.

— Como ele está!?

— Dick! — Bruce o tentou chamar de volta a si, mas foi completamente ignorado.

— Ele está bem!? Acordou mesmo!? — Perguntou enquanto subia na cama, expulsando Titus e tomando Damian dos braços de Selina. Ele verificou a temperatura, balançou o irmão mais novo pra lá e pra cá e ainda teve a coragem de o pegar no colo e dar alguns passos em direção da porta, justificando-se com: — Ele deveria estar sendo monitorado no laboratório!

— Não, ele está perfeitamente...! — a gata tentou explicar, mas Bruce a interrompeu:

— Dick, coloque o seu irmão onde estava e o deixe dormir!

— Mas B...!

— Agora!

— Ele só está tirando uma soneca, Dick... — Tim revirou os olhos para todo o drama do irmão mais velho — Pelo jeito, é melhor deixar o gremlin dormindo.

— Não sou gremlin nada! — Damian resmungou manhoso enquanto passava uma das mãos sobre os olhos, finalmente desperto. Ele apoiou o rosto no ombro do irmão e ficou esperando alguma explicação para ter acordado com Dick o segurando.

— ... Bem, rapazes, eu adoraria ficar aqui com vocês... — Selina se levantou da cama — ... mas o Alfred pode estar precisando de ajuda. Cuidem bem do meu filhote! — Selina sorriu, deu um beijinho na testa do filho e saiu logo depois, deixando os três cavaleiros para cuidar da criança levada – e aparentemente cansada.

Tim encarava o chão, as paredes, qualquer coisa que não fosse Damian;

Bruce se contentava em observar o filho de longe, não queria exigir ele perto agora – não quando a última lembrança deles juntos que pequeno tinha, provavelmente, era do pai brigando com ele;

Dick, o mais eufórico de todos, abraçava o irmão e apertava como se fosse uma pelúcia;

— Eu fiz vários desenhos hoje! — o pequeno D disse eufórico, nem de longe queria se afastar do irmão.

— É mesmo!? — Richard perguntou risonho, se jogando na cama com Damian mais uma vez. A essa altura, Titus já tinha se juntado a Ace e deitado sobre as roupas jogadas no chão.

— É! Eu desenhei o dia todo, desenhei até no braço da minha mãe! — Damian pareceu ficar pensativo logo depois, olhando para os irmãos e para o pai. Era como se quisesse entender os três estarem com ele ao mesmo tempo, até que finalmente perguntou: — ... Aconteceu alguma coisa ruim?

Os três negaram instantaneamente, mas foi apenas Bruce quem explorou um pouco mais aquela pergunta:

— Por que acha que aconteceu algo ruim, filho?

— Vieram todos ficar comigo ao mesmo tempo...

— Viemos porque você acordou, Dami — Dick sorriu.

— Ah... — o pequeno encarou o irmão um pouco mais sério, depois desviou o olhar. Se afastou dele e se aninhou entre os travesseiros onde estava dormindo antes.

— O que foi, pequeno D? — Grayson perguntou se aproximando o suficiente para mexer no cabelo dele, bagunçando carinhosamente – os fios já chegavam na altura do nariz, precisavam ser cortados.

— ... Desculpa por ter entrado no seu quarto? — A criança, sem coragem de encarar eles, se encolheu e escondeu o rosto antes de continuar: — Eu também entrei no seu, pai...

O pequeno continuava cabisbaixo, encarando aquela visita repentina como uma exigência de explicações pelo “mal comportamento”. Ele não fazia ideia de que uma semana já tinha se passado.

— Dami...

— Filho, você não precisa pedir desculpas... — Bruce comentou se aproximando mais dele. Fez questão de o puxar para um abraço apertado – antes que Dick o “roubasse” novamente.

Como resposta à demonstração de afeto inesperada, o pequeno se aconchegou no abraço e escondeu o rosto no pai. Ficou assim apenas alguns segundos, apenas o suficiente para se lembrar da outra pessoa que também estava lá:

— Ah, Timothy... — O pequeno encarou o irmão enquanto ainda estava protegido no abraço.

— Não precisa me pedir desculpas por nada, Damian.

— Mas se eu tivesse esperado...

— Não, Dami... — Tim o interrompeu — Se eu não tivesse deixado aquela coisa perto de você, teria ficado tudo bem. Sinto muito.

— Mas...

— Eu vou tentar tomar mais cuidado com você agora, gremlin — Tim deu um sorriso triste para o irmão e depois se afastou. Começou a recolher os desenhos jogados no chão e o que estava fora do lugar – não tinha coragem para ficar perto de Damian ainda, muito menos de olhá-lo nos olhos.

— Eu também sinto muito, guri... — Dick chamou a atenção dele para si — Se eu não tivesse saído e deixado você sozinho...

— Tudo bem! — Damian sorriu — Você teve um encontro com a sua namorada, não foi? Minha mãe me contou! — Soltou uma risadinha adorável — Eu conheço ela?

— Nem imagina o quanto — Suspirou.

— ... E por que ela não veio me ver?

— Porque você precisa descansar bastante antes de receber visitas — Bruce respondeu pelo filho mais velho — É por isso que nenhum amigo seu veio te ver ainda... — Ele abraçou o pequeno um pouco mais. Se pudesse, o colocaria longe de tudo e todos só para ter certeza de que nada de mal fosse acontecer.

— Pai...

— Não.

— Mas eu nem falei nada ainda...! — Damian o encarou surpreso.

— Não precisa me pedir desculpas.

— Mas pai...!

— Já disse que não, Damian — Bruce o interrompeu em um tom um pouco mais sério. Quando o pequeno finalmente se aquietou no abraço mais uma vez, ele continuou: — Eu é que fui um péssimo pai brigando com você por nada... eu só...

— Não sabe lidar com crianças? — Dick tentou completar.

— É autoritário? — Tim também ofereceu ajuda.

Grayson estalou um dos dedos, como se chegasse à resposta perfeita:

— É inconsequente!

— ... Eu acabo ficando nervoso por não saber agir com você, filho — Bruce preferiu ignorar os comentários anteriores — Antes era mais fácil porque eu te tratava como trato os seus irmãos. Mas era errado, você é novo demais para ser tratado como um adulto... — Apertou mais ainda o filho contra si. Se não fosse um pequeno resmungo de Damian, talvez ele continuasse apertando aquele garoto se esquecendo completamente da força que tinha... — Desculpe... Eu... não costumo abraçar muito e...

— Tudo bem, minha mãe já me amassou um monte de vezes hoje! — O pequeno sorriu, encarando o pai com os olhos verdes brilhando como nunca.

— E o que você fez hoje?

— Desenhos! — Respondeu na mesma hora — Terminei um bloco inteiro de folhas! Também brinquei com eles! — apontou para os cães exaustos, deitados no chão — Ah, também aprendi a dar cambalhotas igual a minha mãe, ela me ensinou!

— Cambalhotas...? — Bruce sorria, mas na verdade ele estava prestes a deixar o filho com os irmãos e ir exigir explicações sobre aquilo diretamente para a gatuna. Como ela ousou ensinar algo tão perigoso para uma criança!?

— É, quer ver!?

— Agora não filho... — O pai suspirou e desfez o abraço, empurrando Damian delicadamente para que ele se deitasse na cama mais uma vez — Deve estar cansado.

— Já descansei! — o pequeno sorriu e se sentou novamente — Dick, quer ir no jardim comigo?

— Er, Dami... — ele tentou desconversar — Como você usou um bloco inteiro de folhas?

— Desenhando...

— Eu sei, guri, mas são vinte folhas... Como fez vinte desenhos?

— Com carvão... — Mostrou os farelos espalhados pela cama.

— Na verdade são trinta folhas — Tim comentou enquanto colocava todos os desenhos sobre a mesa, prendendo as folhas uma contra as outras e as alinhando pelas bordas — Trinta com gramatura de 300, seja lá o que isso for.

— São folhas pra aquarela e... — O pequeno se calou quando viu o que o irmão estava fazendo — E... Eu pintar depois, mas...

— Mas o que, Dami? — Dick perguntou preocupado, estranhando a tristeza súbita do caçula.

— Agora não dá mais... — Já estava com os olhos marejados.

— Por que não, filho?

— O Tim estragou tudo colocando junto — Damian resmungou baixinho, triste.

— ... Eu só arrumei eles! — Drake tentou se defender, mas bastou separar as folhas novamente para ver os desenhos borrados e com algumas partes apagadas — Dami... eu juro que não sabia que...!

— Tudo bem! — o pequeno o interrompeu enquanto finalmente saia da cama — Não foi por querer... né? — Sorriu, claramente se esforçando para não chorar pelos desenhos perdidos.

— Filho, você pode desenhar mais depois. Agora é melhor descansar.

— É, Dami! Podemos ficar o dia inteiro desenhando e...! — Antes que Richard pudesse terminar a lista de coisas que estava disposto a fazer para manter o irmãozinho distraído, Damian o interrompeu dando uma desculpa qualquer antes de sair do quarto:

— Eu vou ir ver se o Sr. Pennyworth quer ajuda!

Por mais que ele estivesse tentando parecer bem, era óbvio o quão triste tinha ficado. Bruce suspirou e se levantou para ir atrás do filho – não queria ele descendo as escadas sozinho ainda.

Dick e Timothy mantiveram o silêncio. Um se sentia extremamente culpado e o outro estava chocado:

— Você viu, Timbo? Ele saiu correndo! Ele conseguiu correr sem nem segurar em nada!

Notas finais
Pobre de ti, Timothy J. Drake, consegue ser um péssimo irmão até quando tenta fazer a coisa certa! Ainda bem que o Damian agora pode correr e fugir, né? O carvão é um material ótimo para esboço de telas e coisas que levam tinta porque ele é bem fácil de apagar (tenta pegar um pedacinho do carvão de churrasco e fazer algo numa folha de papel, ele acaba sumindo se passar o dedo). Para que ele fique fixo no papel, é preciso usar algum produto fixador (tipo laque, goma laca...). Gramatura é o peso em gramas (g) da folha por metro quadrado (m²). Quanto maior a gramatura, mais grossinho é o papel. Dependendo do material, o mais indicado são folhas de gramatura mais alta, principalmente para o uso de técnicas molhadas (como a aquarela, que usa água para diluir os pigmentos de cor).