Reviso Meus Planos
1 Capítulo 0- Prologo
Notas iniciais
Ela estava quieta, imóvel e assustada dentro de um armário que cheirava a cadáver. O rosto vermelho e a respiração ofegante. Ela estava desesperada. E com razão. Estava sendo perseguida como um animal selvagem e nem sabia ao certo porque, ela só sabia que tinha que sair de lá o mais rápido possível.
–Que São Judas Tadeu me proteja- ela beija a medalhinha que estava guardada em seu bolso e sai do armário.
A jovem olha em volta para ver se a pessoa que a perseguia ainda estava por perto, mas não viu nada. Ela não sabia, mas estava sendo observada por olhos atentos e sedentos por medo e desespero.
–É agora que eu te pego menina- um homem com seus quase 36 anos vigiava a jovem por trás de uma arvore.
Luciana, uma menina pobre com os seus 16 anos feitos recentemente. Bonita, simpática, educada. Todos gostavam muito dela, menos o pai Josué. Um homem amargo, doentio e sem coração que tratava a mulher e as 3 filhas como se fossem seus objetos, brinquedinhos que ele poderia maltratar e fazer o quisesse. A família vivia na cidadezinha de Cachoeira Grande, que fica entre os estados do Ceará e Piauí. Uma terra de ninguém, com chão de terra batida e uma seca que já perdura por anos. Era uma família humilde, tinham um armazém que ficava na entrada da cidade que mal dava para pagar as contas, mas era assim que eles sobreviviam.
~*-*~
Mais uma tarde entediante como qualquer outra. Mais uma aula de francês no cursinho, mais uma ida pra casa, depois um chope com os amigos e uma chata e nada empolgante noite de sono. Era essa a vida do jovem Rodrigo, 18 anos, solteiro e mulherengo de carteirinha. Morava com a mãe, o pai e dois irmãos, João e Lívia. O pai, Miguel, era um engenheiro de sucesso, a mãe, Ana, uma grande publicitaria. O irmão mais velho sempre disse que Rodrigo tinha alma aventureira e nem precisava ir muito longe pra encontrar algo interessante para fazer. Era só saber procurar. Às vezes a aventura vinha até ele.
–Bem alunos, até quarta-feira e com todos os trabalhos de casa prontos- disse Ugo, o professor do cursinho. Um homem acima do peso, solteiro, quase careca, que usava suéteres feitos pela mãe e tinha uma dicção de francês tão perfeito que lhe doíam os ouvidos.
Digo, como era chamado pelos amigos e irmãos, saiu do estabelecimento e andou pelas mesmas ruas, passou pelas mesmas casas e cumprimentou as mesmas pessoas que todos os dias, mas aquele dia tinha algo de especial. Um cheiro diferente no ar. Cheiro de aventura, mas estava muito longe ainda por isso ele não se importou tanto, mas sua vida mudaria e ele sabia disso.
~*-*~
Luciana se embrenhou na mata para tentar fugir do pai, mas foi em vão. Ela subira em uma arvore, mas ele a havia seguido durante todo o percurso.
–Desce dessa arvore agora menina- o homem gritava do chão- Acho melhor você descer se não eu subo ai e te arrasto até em casa pelos cabelos.
–Papai, me deixa em paz pelo amor de Deus- ela disse chorando. Estava desesperada porque sabia que se descesse levaria a pior surra do mundo, mas se ficasse em cima da arvora o pai subiria e poderia ser bem pior.
Ela não desceu e Josué cumpriu com a ameaça que havia feito e subiu na arvore e agarrou a jovem pelo braço. Um barulho de estalo foi ouvido assim que a menina caiu no chão. Não tinha sido um galho, mas sim o braço esquerdo dela que tinha se quebrado um pouco abaixo pulso. Ela poderia correr, mas estava se contorcendo de dor. O homem desceu da arvore e parou em frente à Luciana, que urrava de dor no chão.
–Você nunca vai fugir de mim sua pentelha imunda- ele disse.
Josué agarrou os cabelos da filha e começou a puxa-los com ela ainda caída no chão. Luciana somente teve tempo de se levantar e andar com o pai lhe puxando os cabelos. Sua casa ficava a quase 20 minutos do local onde estavam. Quando finalmente chegaram, Josué entrou e jogou a menina em cima da cama com violência. A mãe dela, Maria, ainda tentou ajudar a filha, mas o homem estava tão transtornado que deu um soco na cara da mulher que caiu para trás. Uma, duas, três, trinta e sete. A jovem foi açoitada trinta e sete vezes nas costas, pernas e braços com uma varra de marmelo. Não gritou nem gemeu. Ela ficou quieta durante toda a agressão e quanto mais quieta ela ficava com mais força e rapidez o homem batia, mas chegou uma hora que ele se cansou e parou. Só na trigésima sétima vez ele parou. A mãe e as duas irmãs mais novas viram tudo sem poder fazer nada. A mais nova, Flora, não entendia o que estava acontecendo, ela era só um bebê com pouco mais de seis meses já Isis, que era a filha do meio, com seus dez anos já tinha passado por isso algumas vezes e a irmã mais velha também ficava olhando sem ter o que fazer. Essa era a rotina da família. O pai era tão doentio que pedia para que as filhas contassem quantas vezes à irmã apanhava justamente para ele saber quanto era o seu limite antes de se cansar, ele inclusive tinha um caderno onde anotava esses números.
–Vou pro bar beber- ele disse indo na direção da porta do quarto- Espero que você tenha aprendido que ninguém nunca foge de Josué dos Santos. Você só sai daqui morta desgraçada.
Ele saiu deixando a mulher e as três filhas sozinhas. As roupas da jovem estavam rasgadas e cheias de sangue, o braço estava realmente quebrado e a Luciana se tremendo, estática em cima da cama.
–Por que você ainda enfrenta ele minha filha- a mãe disse se aproximando- Parece até que gosta de apanhar.
–Ninguém gosta de apanhar mamãe- diz Isis com a irmã mais nova no colo- Ela tentou sair daqui, fugir dessa vida. Queria eu ter essa coragem que ela teve.
–Ele nunca bateu tanto nela. Essa menina vai acabar morrendo- a mãe disse fria, mas estava morrendo por dentro em ver a filha daquela maneira- Isis, vai na cozinha e mistura água, sal e vinagre pra eu dar um banho nela.
–Nã... Não mamãe- a jovem implorou quase sem forças.
–Você quer morrer de infecção?- Luciana negou coma cabeça- Então aguenta um pouco.
Com a ajuda da filha do meio, Maria levou Luciana até o banheiro e tirou com cuidado a roupa da filha. Ela se sentou em uma cadeira dentro do Box e colocou a filha de bruços sobre suas pernas e começou a jogar sobre o corpo fraco da jovem a mistura. Ela gritava como se estivesse sendo estripada viva, um grito que podia ser ouvido do lado de fora da casa e apesar de os vizinhos estarem acostumados com os gritos aqueles eram tão altos e desesperados que as janelas das casas ao redor ficaram cheias de curiosos. Luciana chamava pela mãe desesperadamente, pedia para que ela parasse com aquilo. O sal e o vinagre ardiam os ossos e desinfetavam a carne. Se a mãe não o fizesse ela realmente morreria de infecção. E ela gritou e gritou por quase dez minutos sem parar então Maria não conseguiu chegar até o fim do balde. Aquela era a gota d’água. Suas filhas nunca mais passariam por isso. Nunca mais teriam que apanhar. Ela decidiu que fugiria com as filhas e nunca mais voltaria para aquele lugar, para aquele homem e para aquela vida. Os dias de sofrimento acabariam ali.
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