O médico me passou o endereço e eu consegui chegar lá em meia hora. Quando cheguei, tive que me apresentar para a moça da recepção que, depois de fazer várias perguntas, interfonou para o tal médico do qual eu não me lembro o nome.

Ele autorizou a minha subida e eu me diriji em direção ao elevador. Já estava preocupado, afinal a Isabella nunca me disse que ia ao médico regularmente, na verdade ela até evitava esse tipo de assunto.

Bati na porta e esperei, quem abriu foi um senhor de jaléco branco com uma roupa social por baixo.


– O que ela tem? — perguntei logo que entrei no consultório

Ele fez uma expressão confusa por um momento. — Você não sabe? — perguntou franzindo as sobranselhas

– Não sei do que?! — perguntei já meio irritado por não saber de absolutamente nada.

– ... — ele hesitou por um segundo antes de falar — ... A Isabella está com Leucemia. — disse sem mais delongas.

– ... O que... Como assim?! — ele ficou me olhando sem dizer nada — O senhor está me dizendo que ela vai morrer? — insisti — É isso?!! — ele confirmou com a cabeça .


Ficamos em silêncio por alguns minutos


– Ela sabe disso...?

– Desde Abril.

Abril foi o mês em que eu me transferi pra escola e já estamos em Julho... Quatro meses...

– O senhor... Desculpe mas qual o seu nome mesmo?

– Márcio.

– Márcio. — repeti para me lembrar do nome depois — Então o senhor tá dizendo que ela sabe sobre essa doença desde Abril? — ele confirmou — E que ela passou todos esses quatro meses vindo regularmente se consultar com o senhor? — deduzi e ele confirmou novamente.


Todos esses meses... Ela estava sozinha. Ela sabia que tinha leucemia desde Abril, mas como...? Como ela conseguia sorrir todos os dias, sempre tão feliz, alegre. Como?!! E como que eu, EU, que passava praticamente o dia inteiro com ela, nunca percebi? Nunca nem desconfiei de que ela poderia estar doente...?


– Não tem como perceber a doença imediatamente. — ele disse interrompendo os meus pensamentos — Só quando ela está muito avançada ou por um exame. — ele disse como se pudesse ler a minha mente.

– E no caso dela... Como ela descobriu?

– Por um exame. Em Abril, ela chegou aqui passando mal com a ajuda de uma senhora que disse que ela tinha desmaiado em sua loja e então eu fiz alguns exames.— eu me lembro desse dia. Foi o dia em que ela chegou atrasada, em Abril, umas semanas depois que eu cheguei.


– Como ela está?

– Por agora ela está bem.

– Como ela veio parar aqui? O que aconteceu?

– Parece que ela desmaiou na escola e levaram ela para a enfermaria, quando recobrou a consciência ela pediu pra que à trouxessem para o meu consultório.


Fui fazendo várias perguntas e ele respondia calmamente a todas elas. Em uma das explicações dele, lá pelas sete horas da noite, a Isabella acordou.


– Seph?

– Oi, como você está? — falei com uma voz preocupada

–... Estou bem. — ela me olhou por um instante antes de falar novamente — Você já sabe né...?

– ... Aham. — não consegui dizer com todas as palavras... Talvez por medo de não conseguir confiança o suficiente, pra dizer que tudo vai ficar bem... Pra dizer que ela não precisa se preocupar.


O que não era verdade. É lógico que não era.


Conversamos um pouco com o médico e ele disse que ela tinha mais alguns meses, sete ou oito no máximo. Depois nos despedimos dele e fomos caminhando em direção a casa dela.


Não consegui mais aguentar e perguntei de uma vez querendo saber logo a resposta — Por que você não me contou isso antes?!

–... — ela não disse nada só ficou olhando para baixo

Suspirei, eu já deveriasaber que ela não responderia à essa pergunta. — Como você está se sentindo?


Ela olhou para mim pela primeira vez desde que saímos do consultório.


– É exatamente por isso que eu não contei. Pra ninguém. — ele fez um semblante confuso então eu expliquei — Porque vocês iam me olhar assim. Com pena. — ele ficou quieto.


Continuaram andando em silêncio. Ele só voltou a falar quando pararam em frente ao portão da casa dela.


– Você vai contar pra eles?

– Não sei ainda. — ela pensou por um instante — Vou esperar um pouco, quando eu for falar eu quero que você esteja junto. — ela me encarou com um olhar determinado.

– Não sei não. É um assunto delicado, não é melhor vocês conversarem sozinhos?

Ela balançou a cabeça — Não, eu quero que você esteja junto. Se você não estiver presente talvez eu não consiga falar. — ela olhou para o chão.


Suspirei, ela é bem convincente quando quer.


– Ok, eu vou estar presente quando você decidir então.

–Aeeee! — ela me abraçou — Você é o melhor, Seph!!

– Com toda essa empolgação nem parece que você passou mal! — ela fez biquinho — Calma, é brincadeira.

Ficamos rindo

– Eu sei seu bobo! — ela falou enquanto entrava na casa — Até amanhã Seph.

– Até...



Já se passou uma semana desde que eu fiquei sabendo que a Isa tem Leucemia... Ela vem agindo naturalmente, como sempre. Já eu, nem consigo parar de pensar em como ela consegue agir assim sabendo que vai morrer. Ela é realmente uma.. Uma Guerreira. Essa é a palavra certa para descrever uma pessoa tão corajosa e forte como ela. Uma pessoa tão guerreira.


– ... Não é mesmo Seph? — ela disse interrompendo os meus devaneios

– Am? Desculpa, eu não estava prestando atenção.. — ela me olhou preocupada. Não deveria ser o contrário? — O que vocês estão falando?

– A gente quer saber o que você vai fazer amanhã. — respondeu a amiga da Isabella Nicole, ela é loira e um pouco... Patricinha, mas é gente boa.

– Hmm... Amanhã... Acho que não vou fazer nada, a não ser ficar em casa. — todos riram

– Acha? — falou o meu amigo Guilherme. Eu tenho certeza de que ele gosta da Nicole mas... — Então vamos marcar pra amanhã!

Todos concordaram.

– Marcar o que ?!



– Seph!! Vem logo! — apressou a Isabella lá da porta

– Já estou indo!

Ela me puxou pra eu me apressar. — Por que você está com tanta pressa?!

– Eu quero aproveitar que saímos mais cedo e passar em um lugar antes!

– Aonde? — perguntei curioso.

– Você vai ver. — falou com um sorriso malicioso

– Meedoo — falei brincando.


Ficamos andando em silêncio por mais alguns minutos depois que saímos do colégio.


– Você não tem medo da morte?- perguntei quando viramos uma esquina, quebrando o silêncio.

Ela pensou por um instante. E então olhou pra mim — Não. Eu não tenho medo da morte e sim de uma vida não vivida... — Ela esboçou um sorriso — Você não tem que viver para sempre. Apenas viver. — falou dando de ombros.