Reviravoltas
22 Balão de Gás Hélio - 01
Notas iniciais
Acordei animada! Até porque hoje é sexta-feira! Hoje o dia tem tudo para ser lotadamente cheio e ótimo, Andrew e Clary tem cineminha, vou terminar o trabalho e mais tarde festa do Greg e da Meg! Eu preciso mesmo espairecer e tanta coisa pra fazer é bom. Mas sinto que estou esquecendo alguma coisa...
A única parte chata de ser sexta é que a aula começa 7:15, não sei se são todos os colégios aqui, mas, no meu, a aula na sexta feira começa mais cedo e, consequentemente, acaba mais cedo. Pelo menos tínhamos mais tempo para aproveitar a tarde.
— Sono! — Mitchel reclamou.
— Que mané sono! Bora logo. E não esquece que hoje vamos fazer o trabalho, hein?
— Sim, senhora. Ligando o motor, — ele disse fazendo barulho com o carro, "Vrum!" — partindo!
Como sempre, rapidamente chegamos ao colégio. O tempo, que antes estava fechado, abria vagarosamente, as pessoas estavam mais sonolentas e tudo parecia mais devagar. E eu? Eu estou elétrica, ligada no 220volts! Qualé, hoje é sexta-feira! O fim de semana tá aí!
— E aí, galera? Como vão meus miguxos mais fofinhos?
— O que aconteceu, Bruna? Bebeu vodka no lugar do café? — Emma perguntou com um sorriso sacana nos lábios.
— O que aconteceu, pergunto eu! Hoje é sexta-feira! Animação, meu povo!
— Shiiiiiu, maneira aí, serelepezinha! — Willian pediu sonolento.
— Que povo desanimado, pff!
A aula passou rápido, Willian dormiu a aula de biologia inteira enquanto eu fazia cafuné em seus cabelos negros e sedosos (uma coisa que eu amo é passar a mão em cabelos curtos!), Lucas não gostava muito, dizia deixar o cabelo sujo, mas dormir na aula, isso sim era a cara dele, e eu amava vê-lo dormir, quietinho, sem parecer o Capetinha que era quando acordava. A segunda aula foi espanhol, e graças a Deus a Vaca Lacey faltou hoje, eu e o Mitchel ficamos conversando sobre modos dele conquistar a Thami e eu ainda sentia que estava esquecendo alguma coisa, alguma coisa provavelmente importante. Entre duas aulas de física com o Andrew, na qual nós prestamos atenção na aula enquanto eu dizia algumas dicas de como ele poderia agir com a Clary, tivemos o "intervalo", que, por sinal, foi minúsculo, já que só lanchamos pela sexta, não almoçamos.
— Isso foi um intervalo? Porque parece que eu saí da sala pra beber água e já tô voltando! — Emma disse revoltada.
— Pelo menos a gente vai sair mais cedo!
— Por que você sempre tem que ver o lado bom das coisas, Clary? Me deixa revoltada na minha!
Por fim, depois de encontrar com o Thomas na aula de Literatura, eu e Clary nos juntamos na última aula do dia, história.
— Caramba, Bruna! Tinha até esquecido, e o cinema, vai rolar?
— Claro que vai!
— Mas ninguém falou nada... — ela disse pensativa.
— Acho que você que tá muito distraída, — menti enrolando uma mecha do cabelo com o dedo. — a gente até comentou no intervalo.
— Pior que foi tão pequeno que nem percebi. Então tudo certo, né?
— Claro!
A aula continuou sem mais interrupções e, enfim, acabou.
Eu e o Müller fomos em seu carro para minha casa, já que estava combinado dele almoçar lá. Obviamente também era uma desculpa pra ele não se encontrar com a Clary e ela abrir o bico sobre o cinema.
— Até que enfim a gente chegou! Pra que correr tanto em, Müller?
— Pra você ficar com medinho e me agarrar, Collins.
— Vai sonhando. – respondi entrando em casa com o Will em meu encalço.
[...]
— Willian! Sai logo desse banho!
— Que droga, Bruna, pra que você foi oferecer o banheiro a ele? Tá gastando nossa água, nosso tempo e ainda vai sujar nossa toalha!
Depois que a gente almoçou, eu perguntei, por pura educação, se o Will queria tomar banho e infelizmente ele respondeu que sim. Eu e o Mitchel tomamos banho, cada um em sua suíte, já acabamos e desde àquela hora o Will não sai do banheiro!
— Willian Müller! – gritei com minha paciência por um fio. – Saia AGORA desse banheiro!
— Certeza? Tô só de cueca, amor!
— Para de gracinha, seu idiota! Eu não vou pedir de novo! A gente tem que terminar a merda desse trabalho! – Mitchel se irritou de verdade.
— Calma, galera, acabei! – e enfim aquele idiota saiu do banho.
— Graças a Deus! Eu já tava quase arrombando a porta. – meu irmãozinho doce como uma pedra respondeu carrancudo.
Willian saiu com os cabelos ainda molhados, uma bermuda jeans e uma blusa regata solta. Alguém ligou o aquecedor? Tô achando meio quente aqui, não? Ei, Bruna! Para com isso! Voltando ao foco inicial, enfim começamos o trabalho, ou melhor, tentamos.
— Meu Deus! É impossível fazer o trabalho com dois garotos com idade mental de dez anos!
— Calma, Bruna! Deixa de ser chata! Faz a lista de coisas que a gente tem que comprar.
— Mitchel, Mitchel... Você acha mesmo que eu vou deixar vocês dois saírem juntos pra comprar o material?
— Qual o problema, Bruna? Eu sou muito responsável, tá? – Willian entrou na conversa.
— Aham, tá bom, sei! O garoto que demora duas horas no banho e o garoto mais que tem o apelido de “lerdão” saírem sozinhos pra compra cartolina, EVA, papel manteiga e etc... Aposto que vocês nem devem saber o que são essas coisas.
— Ei! – responderam juntos. – A gente sabe sim!
Os dois se olharam com vontade de rir e depois lembraram que deveria se odiar e retomaram a postura séria.
— Eu vou e você vem comigo, Bruna.
— Mas nem a pau, nem que a vaca tussa, nem por cima do meu cadáver! – o lerdão, agora também conhecido como Ciumento, ou, como é popularmente chamado, Mitchel, resolveu dar showzinho.
— Mitchel, sem palhaçadas por favor.
—Uuuuui! Segura essa, “ irmãozinho”.
— Sem provocações, ò senhor maduro Müller. — é, eu tinha que defender meu irmãozinho um pouco.
— Pei! Segura essa, “amiguinho”.
— Melhor amigo que irmão, babaca.
— Babaca é você, seu estúpido.
— Estúpida é essa sua marra! – Willian disse levantando da cadeira e Mitchel o imitou.
—CALEM A MERA DA BOCA DE VOCÊS, SEUS INÚTEIS INFANTIS!
Os dois se sentaram e eu dei as instruções.
— Cansei de ser babá de vocês. Vamos todos e eu não quero nem UMA palavra.
— Vamos no meu carro. – Mitchel sussurrou, mas ele só pensa que eu não ouvi.
— VAMOS ANDANDO!
Sim, fomos andando. E em silêncio total. Eu estava entre os dois garotos, muito bem apessoados, devo acrescentar. Eu acho incrível o modo como eu podia achá-los, os três, incluindo Lucas, maravilhosamente lindos e, ao mesmo tempo, tão diferentes e tão parecidos. Lucas era tão agitado quanto os outros dois, tão preguiçoso também. Mas, com certeza, Lucas era o mais agitado entre eles, o que mais "se acha", o que mais me me tirava de casa e o que me arrancava mais sorrisos. Will, o mais doce e irritante, o que mais me anima e está sempre lá quando eu preciso, o que me arranca mais suspiros (e tem os melhores cabelos do mundo). E, por fim, mas não menos importante, Mitchel, o mais bobão, o mais criança, o mais fofo, o mais lerdo e o que, com certeza, mais tenta me proteger. Uma nostalgia em forma de comparação me tomou por completo, em meio aos meus pensamentos não percebi quando chegamos.
— Ei! — Mitchel balançou as mãos na minha frente, pra me tirar do transe.
— Chegamos! — falei com falso entusiasmo pondo meu cabelos para trás.
Em meia hora tínhamos tudo o que precisávamos e saímos da loja conversando animadamente, ou, pelo menos, o máximo que eu conseguia. A animação da manhã estava se esvaindo.
— Enfim, vamos começar essa bagaça! — Mitchel disse batendo as mãos na mesa.
— Sem quebrar a mesa por favor, Mitchel. — pedi desfazendo o coque baixo e arrumando meu cabelo em um rabo de cavalo.
Não posso dizer que foi rápido, porque não, não foi, nem fácil, foi muito trabalhoso.
— Ai que orgulho! — Sorri olhando o resultado final.
— Achei que ficou meio gay, não?
— Acho que vou ter que concordar com você, intruso. — foi assim que o Mitchel passou a chamar o Müller após uma tarde de trabalho.
— Pode parando, gente! Ficou lindo e terça nós vamos ganhar nota máxima!
— Espero que sim... — murmurou Mitchel sem muito entusiasmo.
— Acho que você já pode ir, Müller. – disse me levantando e arrumando a mesa toda bagunçada.
— Concordo intruso, já deu seu tempo aqui.
— Ei! É assim, é? Eu bolo todo o trabalho e é assim que vocês me retribuem?
— Para de drama, Müller! Já tô sem paciência.
Enquanto Will levantava da cadeira e pegava sua mochila no sofá, de cara amarrada, um tintilar de chave foi ouvido, infelizmente.
— Olá, crianças. Oh! Não sabia que tinham visita. – Helena disse com um sorriso que chegava aos olhos.
— Boa tarde, senhora Collins, mas já estou de saída, até mais, gente. – Will disse gentil depositando um beijinho na mão de Helena.
— Não, querido, fique mais. Faça um lanche com a gente!
— Ah, não, mãe! Ele já quase acabou com a nossa água e a senhora ainda oferece comida? Assim vamos falir!
— Mitch! Isso é jeito de falar?
Como mãe é mãe, Willian ficou para comer. E como aquele garoto come! “Mitch” – descobri que o Lerdão, Ciumento, Mitchel, é o rei dos apelidos! – tinha razão. Um pressentimento de que eu esquecia algo continuava a matutar em minha cabeça, várias vezes me peguei pensando no que era, mas nada me fazia lembrar.
— Boa noite, família! – Mike chegou sorrindo ao som de sua mochila de rodinhas. – Esse garoto de novo? — seu sorriso sumiu e seu olhar ficou mais sério.
— Eu gostaria muito de saber onde estão os modos de meus filhos! Onde já se viu falar assim com uma visita Mike?
— Mil perdoes, mamãe. – disse com os olhos baixos. – Porém eu não sou a favor da amizade de minha irmã com este cidadão.
— Mike! – reclamei me levantando do sofá onde antes conversávamos animadamente, Helena amou o traste do Müller. – Você ainda nem o conhece.
— Aposto que ele não sabe jogar vídeo game e deve me conhecer por ser o melhor da região, por isso se sentiu ameaçado, com razão, diga se de passagem. – Will disse levantando as sobrancelhas e pondo uma perna em cima da outra, um gesto claro de estar à vontade.
— Isso é um desafio, Willian Müller?
Sim, foi um desafio. Mike venceu a primeira e a terceira partida e Will venceu a segunda e a última.
— Empate! – Anunciei em voz alta.
— até que enfim um adversário a altura! – o Müller disse com um sorriso lindo nos lábios, ops! Eu disse lindo? Quis dizer provocador.
— Digo o mesmo. – Mike respondeu sorrindo.
E não é que o safado conquistou meu pequenino?
— Até que você é aceitável, Willian Müller.
— Já pode me chamar de Will, Mike.
— Ok, ok, já que você insisti, Will.
E, enfim, o Müller foi embora, até porque já estava mais do que na hora de eu me arrumar pra festa.
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