Reviravolta
4 Doçura
Notas iniciais
A aula tinha terminado e como de costume esperávamos a reunião do pessoal. Mas estranhamente todos sumiram, menos ele.
Na época não tinha reparado que a intenção era de nos deixar sozinhos. Pensava que era a chuva que os tinha afugentados.
— Então, vamos almoçar? Estou morrendo de fome. Topa um yakissoba? – ele me pergunta.
— Hum... Aquele que comemos uma vez no restaurante lá na Rua Galvão Bueno?
— Esse mesmo! Nossa, ele é tão cremoso e tem tanto camarão...
— Boa pedida! – digo com um sorriso.
— Então vamos, Cathe, antes que a chuva nos pegue de novo!
Caminhamos da escola até o restaurante. No caminho passamos por tantas lojas e algumas me chamam realmente a atenção. Quando entro em uma delas, o olho e fico com dó. Ele aparenta estar faminto.
— Desculpe, é que não tomei café da manhã. Sai correndo...
— E você está com cara de cansado, né? Balada? – indago divertida.
— Poxa, antes fosse... Fechamento.
— Eu sei que é isso...
— Você também fica tão agitada e demora a pegar no sono?
— Sim, e geralmente assisto a algum filme antigo na TV para ver se sono chega.
— Oras, sou mais prático...
— O que você faz?
— Leio um bom livro chato!
Caímos na risada e já estamos na porta do restaurante. O almoço corre que é uma delícia. Como sempre o yakissoba está com um sabor digno de repetir. E em poucos minutos a tigela fica vazia.
— Sabe o que seria perfeito agora? – me desafia.
Respondo rápido e sem pensar muito:
— Um doce!
— Isso! Perfeito, garota! Além de bonita, você lê mentes.
E é impossível não soltar uma gargalhada.
Saímos do restaurante e ameaça a chover. No meio do caminho, ela nos pega desprevenidos. Como estamos sem guarda-chuva, ele tira a sua jaqueta e a estenda como uma tenda sobre nossas cabeças para nos proteger da chuva. É divertido correr pela rua e as gotas caindo no rosto.
Assim que chegamos, na padaria na Rua dos Estudantes, ele abre a porta para eu entrar primeiro.
— Obrigada! – agradeço fazendo uma reverência.
— De nada, disponha – me responde.
Demoramos para escolher qual tipo de doce que cada um ia saborear. Também a variedade é tanta. "Nossa, como amo esse lugar", penso. Depois de ter colocarmos os doces, com auxílio do pegador, nas bandejas, nos dirigimos ao caixa.
— Deixa que eu pago. Faço questão!
— Mas você já pagou o almoço. – retruco. E aí o provoco – Isso parece um encontro.
— É quase isso! – e dá uma piscada de olho.
Subimos para o andar superior e a conversa continua animada. Fico curiosa com aquela bebida estranha que se chamava pobá. Ele saboreia com tanto gosto.
— Parece esquisita! Talvez quem a inventou realmente curtia filme de ficção científica.
Eduardo se diverte e diz:
— Experimenta um pouquinho.
Inclino a cabeça para descobrir qual o sabor daquela bebida misteriosa. Quando me levanto sou surpreendida com um beijo.
Perco a noção do tempo, o senso de direção e do lugar que estou. Só o que quero beijá-lo e beijá-lo cada vez mais. O cheiro doce que circula na padaria, a respiração dele, tudo me deixa meio tonta, meio perdida, mas feliz.
Assim, iniciamos nosso namoro. Engraçado, nós sempre acreditamos que é aquele homem por quem "cismamos" é o cara da nossa vida, mas mal sabia que o “cara” está bem ao meu lado. Eduardo é doce, divertido, companheiro e no fundo, um romântico. E se eu tivesse me tocado antes, com certeza, já teria dado a chance mais cedo.
Nós entendemos em todos os sentidos e muitas vezes um descobre o que o outro está pensando. Lógico, que tivemos que fazer alguns ajustes; relacionamento bom nunca nasce pronto.
Os amigos, parentes, colegas perceberam que nossos modos mudaram e surgiu um brilho nos olhos de cada um que não tinha aparecido antes. E por quantas vezes, me pego rindo à toa, lembrando algo de engraçado que ele falou ou de uma situação divertida que passamos juntos.
*****
Estou em pleno fechamento ajudando a Marta a bater as últimas emendas de um texto complicadíssimo sobre negócios. A reportagem está bem escrita, apesar do assunto superchato. Porém, há alguns erros e preciso prestar atenção a isso.
Um determinado trecho deixa-me confusa, e penso logo no Eduardo. Ligo pelo celular para tirar a dúvida. Ele me explica de forma bem clara que entendo em poucos segundos. E de uma forma um tanto excêntrica, pega como exemplo a minha própria vida financeira.
— Prometo que ainda coloco você nos eixos!
— Vai ser meio difícil, mas nada como ter um namorado jornalista com especialização em economia.
— Viu? A vida traz sempre algo que precisamos — completa.
— Hum... Então ela poderia trazer aquele par de sapatos maravilhoso que vi semana passada...
— Deixa de ser picareta! Conheço você. Tá me cantando para comprá-lo, né?
— É... não seria nada mal...
— Aposto e ganho que ele já está aí! Adquirido no cartão de crédito! Em um pacote dourado daquela loja cara que vimos a semana passada. Aonde já se viu? Você largou a minha mão e foi correndo para a vitrine, mesmo com a loja estando fechada. Parecia uma criança em uma loja de doces.
Fico assustada. Como ele pôde descobrir que o tinha comprado com o cartão de crédito? Ele é paranormal?
— Cathe, estou certo que você está com pacote aí?
Apenas olho de soslaio o pacote dourado encostado na mesa...
Meio estupefata, revelo:
— Caramba, você não deixa escapar nada!
Ele cai na risada e diz:
— Você é uma perdulária, mas te amo mesmo assim.
Desligamos, miro de novo para o pacote e começo a rir.
— Você está contente hoje... Aliás, você tem andando muito contente.
Essa voz... Essa voz tão conhecida, e que me trouxe tanta insegurança. Viro-me lentamente e lá está ele, parado ao pé da porta da sala.
— E te digo mais, você tem ficado cada vez mais bonita. – revela quase num sussurro.
— Obrigada, Giovanni! Tudo bem com você? — pergunto ríspida.
— Sim, um pouco cansado – confessa com o olhar perdido em um quadro atrás de mim. De forma bem imprevisível, me encara e vai direto ao assunto:
— Você está namorando? Percebi que você mudou o seu status.
Não sei o que falar. Primeiro, penso em responder: "O que você tem a ver com isso? Quando te quis, você correu atrás daquela... daquela vaca! Agora que estou bem, com que direito você tem em tirar a minha paz?".
Mas tudo que respondo é:
— Sim. Sim, estou. E como você tem andando com a Berenice? – e devolvo a pergunta de forma maliciosa.
— Estamos bem. Ela é muito boa.
Fique pensando: "Eu imagino em que...".
— Bem, não quero mais atrapalhar você. Aliás, parte do seu serviço fará que nós possamos sair mais cedo, não?
Óbvio que é uma provocação, sem contar a raiva contida na sua voz, não disfarça esteja com ciúmes. Talvez seja cisma minha.
O encaro com deboche e respondo:
— É verdade! Vou continuar ...
— Bem, até logo.
— Mande lembranças à Berenice – falo provocativa.
— Mandarei.
E assim que fecha a porta, reparo que meu corpo inteiro treme e de raiva. Afinal, o conteúdo da conversa deixa-me tão irritada que me levanto para buscar um chá. Volto, respiro fundo e retorno ao meu trabalho.
Na mesma semana, Giovanni viaja para Dinamarca, a fim de visitar a sua irmã. Mas não sei se levou Berenice junto. Provavelmente, sim.
Mas, no fundo, no fundo... o que me importa?
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