Notas iniciais
Com a pontualidade britânica, chega mais um capítulo.

A aula tinha terminado e como de costume esperávamos a reunião do pessoal. Mas estranhamente todos sumiram, menos ele.

Na época não tinha reparado que a intenção era de nos deixar sozinhos. Pensava que era a chuva que os tinha afugentados.

— Então, vamos almoçar? Estou morrendo de fome. Topa um yakissoba? – ele me pergunta.

— Hum... Aquele que comemos uma vez no restaurante lá na Rua Galvão Bueno?

— Esse mesmo! Nossa, ele é tão cremoso e tem tanto camarão...

— Boa pedida! – digo com um sorriso.

— Então vamos, Cathe, antes que a chuva nos pegue de novo!

Caminhamos da escola até o restaurante. No caminho passamos por tantas lojas e algumas me chamam realmente a atenção. Quando entro em uma delas, o olho e fico com dó. Ele aparenta estar faminto.

— Desculpe, é que não tomei café da manhã. Sai correndo...

— E você está com cara de cansado, né? Balada? – indago divertida.

— Poxa, antes fosse... Fechamento.

— Eu sei que é isso...

— Você também fica tão agitada e demora a pegar no sono?

— Sim, e geralmente assisto a algum filme antigo na TV para ver se sono chega.

— Oras, sou mais prático...

— O que você faz?

— Leio um bom livro chato!

Caímos na risada e já estamos na porta do restaurante. O almoço corre que é uma delícia. Como sempre o yakissoba está com um sabor digno de repetir. E em poucos minutos a tigela fica vazia.

— Sabe o que seria perfeito agora? – me desafia.

Respondo rápido e sem pensar muito:

— Um doce!

— Isso! Perfeito, garota! Além de bonita, você lê mentes.

E é impossível não soltar uma gargalhada.

Saímos do restaurante e ameaça a chover. No meio do caminho, ela nos pega desprevenidos. Como estamos sem guarda-chuva, ele tira a sua jaqueta e a estenda como uma tenda sobre nossas cabeças para nos proteger da chuva. É divertido correr pela rua e as gotas caindo no rosto.

Assim que chegamos, na padaria na Rua dos Estudantes, ele abre a porta para eu entrar primeiro.

— Obrigada! – agradeço fazendo uma reverência.

— De nada, disponha – me responde.

Demoramos para escolher qual tipo de doce que cada um ia saborear. Também a variedade é tanta. "Nossa, como amo esse lugar", penso. Depois de ter colocarmos os doces, com auxílio do pegador, nas bandejas, nos dirigimos ao caixa.

— Deixa que eu pago. Faço questão!

— Mas você já pagou o almoço. – retruco. E aí o provoco – Isso parece um encontro.

— É quase isso! – e dá uma piscada de olho.

Subimos para o andar superior e a conversa continua animada. Fico curiosa com aquela bebida estranha que se chamava pobá. Ele saboreia com tanto gosto.

— Parece esquisita! Talvez quem a inventou realmente curtia filme de ficção científica.

Eduardo se diverte e diz:

— Experimenta um pouquinho.

Inclino a cabeça para descobrir qual o sabor daquela bebida misteriosa. Quando me levanto sou surpreendida com um beijo.

Perco a noção do tempo, o senso de direção e do lugar que estou. Só o que quero beijá-lo e beijá-lo cada vez mais. O cheiro doce que circula na padaria, a respiração dele, tudo me deixa meio tonta, meio perdida, mas feliz.

Assim, iniciamos nosso namoro. Engraçado, nós sempre acreditamos que é aquele homem por quem "cismamos" é o cara da nossa vida, mas mal sabia que o “cara” está bem ao meu lado. Eduardo é doce, divertido, companheiro e no fundo, um romântico. E se eu tivesse me tocado antes, com certeza, já teria dado a chance mais cedo.

Nós entendemos em todos os sentidos e muitas vezes um descobre o que o outro está pensando. Lógico, que tivemos que fazer alguns ajustes; relacionamento bom nunca nasce pronto.

Os amigos, parentes, colegas perceberam que nossos modos mudaram e surgiu um brilho nos olhos de cada um que não tinha aparecido antes. E por quantas vezes, me pego rindo à toa, lembrando algo de engraçado que ele falou ou de uma situação divertida que passamos juntos.

*****

Estou em pleno fechamento ajudando a Marta a bater as últimas emendas de um texto complicadíssimo sobre negócios. A reportagem está bem escrita, apesar do assunto superchato. Porém, há alguns erros e preciso prestar atenção a isso.

Um determinado trecho deixa-me confusa, e penso logo no Eduardo. Ligo pelo celular para tirar a dúvida. Ele me explica de forma bem clara que entendo em poucos segundos. E de uma forma um tanto excêntrica, pega como exemplo a minha própria vida financeira.

— Prometo que ainda coloco você nos eixos!

— Vai ser meio difícil, mas nada como ter um namorado jornalista com especialização em economia.

— Viu? A vida traz sempre algo que precisamos — completa.

— Hum... Então ela poderia trazer aquele par de sapatos maravilhoso que vi semana passada...

— Deixa de ser picareta! Conheço você. Tá me cantando para comprá-lo, né?

— É... não seria nada mal...

— Aposto e ganho que ele já está aí! Adquirido no cartão de crédito! Em um pacote dourado daquela loja cara que vimos a semana passada. Aonde já se viu? Você largou a minha mão e foi correndo para a vitrine, mesmo com a loja estando fechada. Parecia uma criança em uma loja de doces.

Fico assustada. Como ele pôde descobrir que o tinha comprado com o cartão de crédito? Ele é paranormal?

— Cathe, estou certo que você está com pacote aí?

Apenas olho de soslaio o pacote dourado encostado na mesa...

Meio estupefata, revelo:

— Caramba, você não deixa escapar nada!

Ele cai na risada e diz:

— Você é uma perdulária, mas te amo mesmo assim.

Desligamos, miro de novo para o pacote e começo a rir.

— Você está contente hoje... Aliás, você tem andando muito contente.

Essa voz... Essa voz tão conhecida, e que me trouxe tanta insegurança. Viro-me lentamente e lá está ele, parado ao pé da porta da sala.

— E te digo mais, você tem ficado cada vez mais bonita. – revela quase num sussurro.

— Obrigada, Giovanni! Tudo bem com você? — pergunto ríspida.

— Sim, um pouco cansado – confessa com o olhar perdido em um quadro atrás de mim. De forma bem imprevisível, me encara e vai direto ao assunto:

— Você está namorando? Percebi que você mudou o seu status.

Não sei o que falar. Primeiro, penso em responder: "O que você tem a ver com isso? Quando te quis, você correu atrás daquela... daquela vaca! Agora que estou bem, com que direito você tem em tirar a minha paz?".

Mas tudo que respondo é:

— Sim. Sim, estou. E como você tem andando com a Berenice? – e devolvo a pergunta de forma maliciosa.

— Estamos bem. Ela é muito boa.

Fique pensando: "Eu imagino em que...".

— Bem, não quero mais atrapalhar você. Aliás, parte do seu serviço fará que nós possamos sair mais cedo, não?

Óbvio que é uma provocação, sem contar a raiva contida na sua voz, não disfarça esteja com ciúmes. Talvez seja cisma minha.

O encaro com deboche e respondo:

— É verdade! Vou continuar ...

— Bem, até logo.

— Mande lembranças à Berenice – falo provocativa.

— Mandarei.

E assim que fecha a porta, reparo que meu corpo inteiro treme e de raiva. Afinal, o conteúdo da conversa deixa-me tão irritada que me levanto para buscar um chá. Volto, respiro fundo e retorno ao meu trabalho.

Na mesma semana, Giovanni viaja para Dinamarca, a fim de visitar a sua irmã. Mas não sei se levou Berenice junto. Provavelmente, sim.

Mas, no fundo, no fundo... o que me importa?

Notas finais
E eis que Giovanni dá aquela balançada nas certezas de Catarina. E logo agora que Eduardo toma à frente. Será que Catarina fica firme na sua decisão? O próximo capítulo de Reviravolta chega no sábado, dia 10. Então até lá! E não se esqueça... continua a campanha: “Faça uma autora feliz, deixe seu review!”. Beijos e até mais^^