Revenge
2 É.... real?
Notas iniciais
Será que ele é real?
A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi lavar meu braço e fazer um curativo – bem desajeitado, devo dizer. Assim que acabei o curativo me sentei no quarto e fiquei observando aquele caderno estranho.
Fala sério, Kaori! Você não está levando essa palhaçada a sério, está? Não faz sentido algum.
Ignorando os meus pensamentos e minha consciência – que dizia pra eu atirar aquela coisa da ponte mais próxima – peguei o caderno. Folheá-lo um pouco não vai me fazer mal, vai? É só um caderno.
Então o abri. A primeira folha era uma folha negra, diferente de tudo o que eu já tinha visto. Era estranho. Era bonito. Eu gostei. Então passei a folha e me deparei com outra folha negra – que achei estranho, afinal, quando o caderno estava fechado, de lado as folhas aparentavam ser brancas. Será que aquele caderno todo era assim? Mas essa folha era diferente da primeira. Tinha algumas letras brancas em... inglês. Pelo menos uma coisa boa. Eu falava inglês fluentemente. Pelo menos!
Naquelas letras se encontravam palavras como se fossem regras. A primeira delas era: "O humano que tiver o nome escrito nesse caderno morrerá. Esse caderno não surtirá efeito se não tiver em mente o rosto da pessoa enquanto se escreve, assim outra pessoa com o mesmo nome não será atingida." Meu deus. Quanta palhaçada. E o pior: eu tava começando a levar aquilo à sério.
Humph, por que não testar? Se der certo eu vou matar uma pessoa. Se não der certo... não deu. Simples assim.
Passei algumas páginas negras, ainda com letras e em seguida notei algumas páginas brancas. Muitas, pra falar a verdade. Então pensei numa garota insuportável da faculdade e escrevi o nome dela no caderno. Emiko Chikada.
Pronto. Amanhã vemos o resultado do caderno. Naquele momento eu desejava com todas as forças que ele funcionasse.
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Faculdade, 07:00 AM
Fones no ouvido. Música: A Little Piece Of Haven — Avenged Sevenfold. Minha preguiça naquele momento era quase infinita. Principalmente pelo frio que estava fazendo. Me aconcheguei naquela jaqueta quentinha – por que diabos eu tinha esquecido ela em casa ontem?
Não pude evitar um bocejo insistente, que me deixou ainda com mais sono.
–Meu deus, como ela é preguiçosa! – ouvi a voz da garota de cabelos castanhos que se aproximava de mim.
–Oi Hideko.
–E ai, Karry.
–Eu já disse pra não me chamar assim.
–Desculpa. Ah e desculpa também por não ter ido no enterro dos seus pai ontem. Eu implorei pros meus pais deixarem, mas eles disseram "castigo é castigo" – a garota revirou os olhos.
–Ainda tá de castigo por terem pegado um cigarro no seu quarto? Que palhaçada. Não se preocupe com isso, Hideko. Nem eu teria ido se pudesse.
A garota riu.
–Você não tem jeito mesmo, hein Kaori?
Eu sorri. Hideko era minha melhor amiga de infância. Uma das poucas, pra falar a verdade. Ela era irritante, palhaça, engraçada e não só acobertava minhas besteiras como fazia elas junto comigo. O perfil perfeito de uma melhor amiga.
Fomos andando em direção aos corredores de armários. O dia, assim como o anterior, estava branco. Mas dessa vez realmente branco: estava nevando. A neve chegou mais cedo esse ano.
–Hideko, você não tá sentindo a falta de ninguém?
–Da Misumi? Claro que sim. Ela teve que faltar por problemas familiares.
–Problemas... familiares? – Misumi era irmã da Emiko. Problemas familiares? Isso era uma coincidência. Só podia ser coincidência.
–É. Fiquei sabendo que a irmão insuportável dela, a Emiko, teve uma parada cardíaca e morreu na hora.
Gelei naquele momento. Podia sentir um frio em toda minha espinha e parei de andar no momento. Fiquei paralisada pra falar a verdade.
–Q-quando... quando aconteceu?
–Ontem atarde.
O quê?! Como assim? Eu tinha matado Emiko? Eu tinha... matado a Emiko? Não. Isso era coincidência. Não podia ser real. Aquele caderno... aquele caderno... era real?
–Hideko... por favor me diz que isso é mentira.
–Ué, ficou fragilizada com a morte da patricinha, Kaori? Achei que ia ficar feliz em saber da notícia. Você não ficou assim nem no dia da morte da sua mãe. O que tem de errado com você?
É claro. Eu não matei a minha mãe.
–N-não. Eu não tô fragilizada. É claro que não, Hideko. Até parece que você não me conhece. Eu hein? Fragilizada...
–Ah bom. Pensei que estivesse com peso na consciência do dia em que cortou ela toda com o estilete.
–Eu só fico com peso por mim, que quase fui expulsa da faculdade.
A garota riu abertamente. Até que do nosso lado passa um garoto de cabelos castanhos.
–O-oi Light... – gagueja a menina e eu a encaro com uma cara de tipo "fala sério, Hideko!" enquanto o garoto a ignora completamente. Mas isso não faz ela deixar de suspirar quando ele vai embora.
–Er... tá bom. Que diabos acabou de acontecer aqui.
–Owwn, ele não é lindo? – ela parecia estar em algum tipo de transe.
Reviro os olhos. Oh, droga. Vai começar. De novo.
Continuo andando e deixo Hideko pra trás, suspirando de amores pelo nerdzinho da escola. Essa Hideko tem um gosto tão bizarro quando o assunto é homens. O problema é que não é só ela. 99,9% das garotas da faculdade suspiram de amor por esse mané, que eu sinceramente não acho graça nenhuma. Será que sou eu quem não sou normal? Humph, que pergunta, Kaori. É claro que você não é normal.
Mas vamos parar de nos preocupar com o nerdzinho da escola e com a amiga apaixonada, não é? Afinal tenho preocupações mais importantes no momento: o caderno.
Será que era ele que tinha matado a Emiko? Isso não é possível, é? Será que foi só uma coincidência? Não. Não podia ser coincidência. De qualquer forma é melhor ligar pra minha amiga pra perguntar sobre isso. De um jeito meigo, claro. Oh droga, isso é tão difícil pra mim.
–Moshi moshi.
–Oi Misumi. Como vai?
–Oi Kao-chan. – é. Misumi me chamava de Kao-chan.
–Eu devo estar te acordando, não é? Me desculpe...
–Não se preocupe com isso Kao-chan. Na verdade eu nem dormi.
–Sério? O que houve?
Ouvi um suspiro do outro lado da linha, antes da garota responder:
–Então você não soube?
–Soube do quê?
–Achei que já ia ser o assunto do colégio à essa altura.
–Misumi, por favor me diga logo! Você está me assustando.
Misumi suspirou novamente.
–Minha irmã, Emiko. Ela... ela sofreu um ataque cardíaco e... – ela tinha dificuldades pra tocar naquilo.
–E o quê? E o quê? – eu começava a ficar nervosa. E o quê? Ela morreu? O caderno era real?
–Ela morreu.
Gelei naquele momento. Senti meu corpo arrepiando.
Mas não é isso o que você queria? Ouvi uma voz ecoando na minha cabeça. É. Queria. Eu queria a Emiko morta sim. Mas desde que eu não tivesse nada a ver com isso.
–Alô? Kaori? – A voz de Misumi me chamou do outro lado da linha.
–Misumi, eu tenho que ir. A aula vai começar e já estou atrasada. Nos falamos depois, ok?
–Claro, Kao-chan. Me ligue assim que puder, por favor. Preciso muito de você e Hide-chan.
–Eu ligo sim. Jaa ne.
–Jaa ne.
Então era real. O caderno era real. Bom, não dava pra ter certeza, a menos que eu matasse outra pessoa. Mas dessa vez eu ia tentar não matar ninguém da faculdade. Mas assim, como eu ia descobrir se a pessoa morreu? Bom, preciso pensar um pouco mais nisso. Mas agora estou atrasada.
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