Revelada
1 Capítulo 1 Conhecendo
Notas iniciais
Melhor maneira de nos livrar-mos
de uma tentação e cerder-mos a ela.
( Oscar Wilde)
Prólogo
Escute, algo está por vir, quero que se fortaleça
Eu o encarei.
A última vez que me disse isso perdi minha avó
Não é nada desse porte
Assegurou ele.
Meus pais
Todos estão bem, a prioridade é você
Quanto tempo?
Duas semanas
Sorri amarga.
Estão cada vez mais rápidos
Procurei por ele, que já estava ao lado da porta.
E persuasivos - disse ele e a porta bateu.
Era o fim das férias, o trabalho estava a caminho.
Braganta : cidade medieval da região serrana, com cerca de 178.718 habitantes.
Essa é a descrição que você encontraria em qualquer lugar falando sobre minha
cidade natal, para mim,
Braganta parecia uma cidade que havia parado em pleno século XVI, a maioria das casas ainda tinham a mesma estrutura medieval as mesmas cores quentes, que normalmente eram vermelho e o marrom, as longas ruas quando não eram de terra, eram de paralepípedo, e os originais do século XVI, como toda cidade pequena, quase todos ou todos, se conheciam.
Mais ao norte estava o Valen Tozi e era para onde eu dirigia agora, lá ficavam as longas planícies de capins compridos que se moldavam ao vento,o dia estava terminando e o sol era uma bola incandescente descendo para o horizonte, a estrada de terra vermelha levantava uma grossa camada de poeira fazendo o clima ficar ainda mais seco e frio, o que não era privilégio apenas no Brasil, a maioria dos países sofria com o mesmo problema, a umidade vinha caindo desde 2014, e com o tempo só fazia cair ainda mais.
O Brasil era um dos poucos países que ainda tinha um clima mais agradável, diferente de Londres onde eu morava a duas semanas atrás, a falta de umidade fazia com que parecesse que você estava constantemente inalando fumaça — o que não deixava de ser verdade, mantive meus olhos na estrada que não parecia ter mais fim, quando finalmente avistei uma pequena colina demarcada com longas cercas vivas, que mesmo de longe podia ver que estavam floridas devido os diferentes pontos cores.
Acelerei com meu carro até a entrada que era simples, um portão que estava amarrado com uma corrente que caía precariamente para fora de dois buracos quebrados na madeira, assim que afastei as duas porteiras avistei um homem vindo em minha direção, pela estrada da propriedade, deveria ser um dos zeladores que minha mãe havia mencionado, encostei em meu carro esperando o homem chegar até a portão.
Meus olhos percorreram a paisagem quase que automaticamente, a brisa era calma e tinha cheiro de grama molhada, era um lugar lindo, mesmo que fosse tão estranho para mim, nunca tinha visitado minha avó quando ela ainda era viva, e estar aqui para reclamar sua herança era um tanto interesseiro de minha parte.
O zelador me olhou um tanto carrancudo, perguntando quem eu era com um forte sotaque do interior, quando lhe respondi e os grandes olhos cor mel se arregalaram do tamanho de bolas de ping-pong, seu humor pareceu influenciar assustadoramente em sua aparência, que ele tentou melhorar quando passou as mãos no poucos tufos de cabelos que ficavam ao lado da cabeça, sorriu mostrando todos os dentes para mim, que mesmo sem graça retribui.
_Não pensamos que viria com tanta rapidez Srta. Belasco.- disse ele._Me chamo Lucas.
O pequeno comentário fez eu me sentir pior do que já estava,Lucas estendeu a mão para mim e eu a apertei.
_Sara.
_Anete deve está começando a janta! Chegou na hora certa.
_Obrigada, seria ótimo comer algo.- Falei me virando para carro._ O senhor quer uma carona?.
Os grandes olhos cor de mel se arregalaram outra vez.
_Não Srta.- disse ele timidamente._Tenho algumas coisas a fazer antes de voltar para casa.
Sorri para ele, e entrei em meu carro, a pequena estrada de terra me fez perceber que era uma boa caminhada, da porteira até a casa principal, e essa sim me fez perder alguns longos minutos olhando para ela, era imensa — pelo menos por fora era, o leve tom bege constratava contra as grandes e largas janelas de madeira, a varanda que se estendia a frente também era toda trabalhada em madeira escura, que com os poucos raios de luz que batiam nela refletisse.
O segundo andar tinha a mesma beleza do primeiro, haviam quatro janelas espaçosamente separadas e abaixo delas tinham uma sacada, também de madeira reluzente com longas portas de madeira e vidro, que do lado de dentro podia se ver longas cortinas brancas, sempre soube que minha avó tinha uma imensa paixão pela casa que havia feito com tanto carinho.
Tinha poucas lembranças dela, a ultima visita que ela tinha me feito foi quando eu completava quinze anos, na ocasião, quase tudo saíra errado, meu bolo havia estragado, meu namorado chegou depois que a festa já tinha acabado, lembro que estava chateada arrumando os presentes, quando ela me entregou minha pulseira que até hoje carrego comigo, me dizendo que não seria um bolo ou um atraso – mesmo que fosse de cinco horas, que iria estragar meu dia.
Ainda sorrindo, ouvi um rosnado nada confortante vindo de trás de mim, me virei, encontrando um cachorro, bem, acho que deveria ser, apesar dele ser bem mais comprido e seu olhar ser muito mais majestoso, os grandes dentes brancos estavam enfileirados e arreganhados para mim, ele não estava nada feliz de me ver ali, tentei me lembrar se havia me encontrado com cachorros raivosos , não fiquei nada contente quando me dei conta que nunca tinha topado com um, normalmente o que os especialistas mandavam fazer? Perguntei-me e automaticamente respondi que mantivéssemos a calma e não fizéssemos movimentos bruscos!
Decidi seguir os especialistas.
Andei devagar em direção ao capô de meu Opala 87, mesmo que parecesse um tanto idiota de se fazer já que o canino estressado a minha frente, tinha altura o suficiente para pular e me abocanhar de lá de cima mesmo.
_Calma menino!.- coloquei as mãos para cima, em sinal de paz, subindo lentamente no capô.
Ele se curvou e latiu raivoso para mim, ok, aquilo não estava dando muito certo.
_Calma!Amigo!Calminho ai menino. — olhei em volta procurando por alguém, mais antes de encontrar, um grito interrompeu o lugar.
_PERSEU!SAIA JÁ DAÍ SEU ENCRENQUEIRO. — Brandou uma senhora vindo em minha direção.
A mulher era mediana, tinha longos cabelos castanhos claros, que se desfaziam em um coque frouxo na sua nuca, não era nem magra nem gorda, com o rosto oval e um belo par de olhos castanhos.
O cachorro correu até ela e lhe saltou nas pernas, tentando a todo custo lamber o rosto da mulher, não parecia nem um pouco com o guardião raivoso de alguns minutos atrás, a senhora sorriu quando ele apoiou as patas em sua barriga e ela lhe coçou as orelhas, ele era realmente alto, os pelos mesclados de branco e marrom eram curtos, e as patas deixaram grandes marcas de sujeira no vestido florido que a moça usava, os olhos claros dela se desviaram para mim ainda sorrindo, e se arregalaram da mesma forma como os de Lucas.
_Desculpe por isso, ele é um bom menino.- sorriu ela para mim.
Eu ensaie um sorriso para ela e sai da posição vergonhosa em que eu me encontrava, assim que a vi segurar a coleira que o cão usava,mais ainda sim mantendo meus olhos em Perseu, era um nome a altura diante do porte que ele passava, o cão me encarou e me surpreendi quando me dei conta que seus olhos eram azuis, mais azuis claríssimo, contando que antes os meus estavam mais focados em seus dentes.
_Qual é a raça dele?.- perguntei, vendo Perseu se colocar nas patas traseiras.
_Ele não é um cão, ele é um lobo.- respondeu a mulher.
Meu queixo caiu, fiquei olhando para o animal, ele parecia tão dócil quanto um cão domestico, apesar de alguns instantes atrás não estar tão afetuoso assim, agora entendia o porque do porte grande e olhar majestoso.
_Ele é lindo, principalmente os olhos!.
Ela sorriu levantando o focinho do lobo para olhá-lo e ele simplesmente deixou a língua pender no canto esquerdo da boca.
_Por isso Sra.Belasco deu esse nome a ele, por causa dos olhos azuis.
Eu sorri, minha mãe sempre havia me dito da paixão pela Grécia antiga de minha avó, por muito pouco ela não se chamou Atena,por sorte meu avô convencera minha avó à colocar Selene,que em grego seria a personificação da Lua, o que faz minha mãe agradecer a ele até os dias de hoje.
_Desculpe!Sou Sara, vim para resolver o assunto com o advogado. — me apresentei.
_Sei quem é a Srta.- sorriu ela._ Me chamo Anete,sou a governanta e cozinheira, sinto muito por sua avó, Sra.Belasco era uma mulher maravilhosa.
Fiz o mesmo gesto que vinha fazendo a metade do dia, sorri.
_Obrigada.- falei, sem saber como acrescenta algo.
Anete percebeu minha timidez, dispensou Perseu com algumas palmas e lobo saiu correndo em direção norte pelo campo, a segui pela lateral da casa onde dava acesso direto a cozinha, o cômodo era amplo e muito bem limpo, um conjunto de armários se estendia por duas das quatro paredes longas, brancos e brilhantes, na terceira parede estava o fogão e a geladeira e debaixo da que tinha uma larga e espaçosa janela, por onde as cortinas balançavam com brisa leve que entrava, estava a pia de mármore branco.
Era tudo muito clássico e chique, sei que minha avó passara mais da metade de sua vida trabalhando para construir sua casa, mais parecia um tanto inútil depois de tanto esforço e trabalho ela ter que deixar tudo isso para trás, mesmo que não fosse de livre e espontânea vontade.
Anette se sentou em uma pequena mesa que ficava bem ao meio da cozinha, me perguntou como havia sido a viagem e me ocupei em dar todas as informações que ela precisasse e comer alguns pedaços de bolo que ela me oferecia, mesmo estando aqui para uma finalidade, eu estava implorando para que o momento demorasse o quanto fosse preciso para acontecer, ainda lembrava de quando minha mãe tinha me dito que precisava que eu viesse até aqui, estava em meu pequeno alugado em Oxford, mesmo sendo em Londres, tinha um preço que meu salário como bibliotecária poderia pagar, eu acabava de chegar da Biblioteca quando o telefone o começou a tocar, quando o atendi minha mãe me deu a noticia, pode parecer insensível, mais não senti tanto com a morte de minha avó talvez pelo fato de não ter tanto contato com ela, mesmo assim demorou um pouco até que meus sentimentos se estabilizassem.
Prometi a minha mãe que resolveria tudo.
Meu pequeno ‘apertamento’- como eu havia apelidado, tinha apenas um quarto, o que me deixava incapacitada de dividi-lo com alguém, desde que havia ganhado a bolsa para estudar em Londres meu sonho de finalmente ter minha própria vida tinha se realizado, diferente de quando eu ainda morava com minha mãe no Brasil, minha descendência era Italiana pela duas partes da família, meus pais se conheceram aqui mesmo, em Braganta, minha mãe havia vindo a trabalho pela Marinha Brasileira — ela é agora Piscoterapeuta, porém na época da viagem, ela era apenas uma estagiária e meu pai seu tutor, então, dois anos depois deles se casarem eu nasci, mesmo com a todas as brigas – e algumas eu me lembro vagamente, o casamento de meus pais ainda durou mais cinco anos, para surpresa de meus pais, eu não encarei a separação com tristeza, talvez pelo fato de ser criança e inocente demais, eu fiquei feliz, por ter duas casas, dois quartos, tudo em dobro.
_Acho que o advogado virá na próxima segunda.- disse-me Anette.
Seu tom de voz mostrou que ela não estava nada feliz com aquilo.
_Acha que posso confiar nele?.
_ Graças a Deus! Sabia que era esperta. — sorriu a governanta._ Aquele maldito! Está querendo a todo custo abdicar as propriedade que Lena deixou! Querendo alegar que você não tem direitos por não ter tido contado com ela á mais de seis anos.
Olhei assustada, ela falou com tanta convicção que mais me parecia uma advogada ao invés de uma governanta.
_Conhece algum advogado?.- perguntei a ela que sorriu.
_Já fui uma querida, trabalhei no ramo de advocacia por trinta anos.
_E porque acabou como governanta?.-perguntei, e logo em seguida me chutei mentalmente.
Anette sorriu cansada, fiquei aliviada que ela não pareceu ofendida.
_Por que infelizmente não tive a mesma astúcia para encontrar um marido decente, como tinha para solucionar os casos que chegavam até mim.- explicou ela divertida._Venha comigo, vou lhe mostrar o resto da casa.
Levantamos juntas, seguindo pelo corredor da cozinha que à esquerda tinha uma escada, mais Anette seguiu em frente, me mostrou a sala onde me surpreendi em ver um ambiente muito moderno, diferente de toda arquitetura externa da casa, no mesmo cômodo havia duas portas de correr que davam para biblioteca e o escritório da minha avó, meus olhos seguiram direto para as paredes que eram cobertas de livros, Anette me explicou a paixão de minha avó pela leitura, mesmo que eu já conhecesse um pouco dela, ao lado da pequena e moderna mesa Perseu estava preguiçosamente esparramado, Anette riu quando o viu.
O segundo andar era tão moderno quanto o primeiro, os quartos eram simples e aconchegantes, quase todos com moveis eram tabaco com branco o que faziam deles um perfeito equilíbrio entre claro e escuro.
Era tudo de muito bom gosto, o tipo de moveis que eu escolheria para minha casa, tudo nela pareceu estranhamente combinar com meu gosto, como tivesse sido eu mesmo a decora-la.
Anette olhou para mim e sorriu.
_Lena sempre me disse que você era uma ótima pianista.- disse ela, quando entramos em uma outra sala,onde havia mais livros, a segunda biblioteca e no canto esquerdo estava um lindo piano de calda, preto reluzente, como se nunca tivesse sido usado, corri para ele ainda de queixo caído, admirando as teclas de marfim.
Sobre a lareira estavam vários portas retratos, e um deles reconheci imediatamente, eram nós duas no dia de meu aniversário de quinze anos, sorri pegando o porta retrato para olhá-lo com mais atenção, nós duas sorriamos na foto, me dei conta de como minha avó era bonita, os belos olhos claros dela, contratavam com os cabelos sempre bem pintados, de um leve tom de castanho, lembrava de ter sido meu pai quem tirara a foto, devolvi a foto ao lugar percebendo que Anette me olhava terna.
_ A quanto tempo á conhecia?.- perguntei na falta do que dizer.
_Há dezesseis anos, fui até a biblioteca dela procurando por livros judiciais, foi assim que a conheci, só não sei como nossa amizade começo. — o tom de voz de Anette me incomodou._Éramos ótimas amigas, acho que dois anos depois, expediram um processo contra ela, os advogados do proprietário do terreno onda ela havia feito a biblioteca alegavam que ela não havia pago tudo eles combinaram, mas, no fim conseguimos provar que o que eles queriam era tirar vantagem.
Olhei ao redor, não tinha o que dizer, o silêncio pesou e Anette sorriu quando Perseu passou pela porta foi até ela e lambeu sua mão.
_Sinto-me uma intrusa.- as palavras fugiram antes que eu pudesse conte-las._Não via Vó Lena desde meus quinze anos, meus contatos com ela eram tão precários que isso me parece totalmente errado.
_Acredite em mim Sara, o pouco contato que tinha com Helena era o suficiente para ela, Lena sempre gostou de viver sozinha, sentia-se bem assim, ela a amava demais, sempre contando histórias de quando você era pequena ou dando orgulhosa uma nova noticia sobre você, acredite criança, você tem todo o direito de ter tudo que sua avó lhe deixou.- Anette sorriu afagando meu braço.
Vi Perseu levantar a cabeçorra para me olhar, e em poucos instantes ele já estava lambendo minha mão, eu sorri com a aproximação, ele era de uma beleza incrível, e sim extremamente dócil- quando estava de bom humor, Anette caminhou até uma das gavetas da mesa e tirou de lá um envelope branco e me estendeu, a principio a olhei confusa mais logo que o abri eu entendi, era o testamento de minha avó, Anette saiu dizendo que precisava olhar o jantar no fogo e me deixou só.
A pequena resma de papel parecia pesar toneladas em minhas mãos, me sentei no tapete azulado que me parecia Árabe e corri os olhos pelas paginas iniciais onde estavam os dados judiciais, na terceira e ultima folha estava o pequeno testamento de vó Lena.
” Venho declarar aqui, que para devido fins, tudo escrito por mim a próprio punho nesse papel seja estritamente obedecido.
Para meus fieis e companheiros amigos que conseguiram afastar de mim a solidão, deixo minhas duas casas Independentes, a amarela para Anette que sempre a namorou, a verde para Luca que com suas próprias mãos me ajudou a construir tudo que tenho e tudo que deixo que seja concedido a eles também, uma porção de terra envolta de cada propriedade que lhes deixo para fazer o que bem entenderem;
Para minha amada neta, minha pequena Sara, deixo minha casa e propriedade de pequeno rancho, assim como minha Livraria “Pergaminhos e tintas’’ a “Biblioteca Parma’’ e tudo que dentro delas estiverem;
Este último certamente não é um objeto, contudo, é tão valioso quando tudo que deixo, meu raro e amoroso Perseu, ficará sobre os cuidados de quem lhe agradar. ’’
Olhei ao meu redor, mesmo não enxergando nada na verdade, estava apenas olhando,não enxergando, isso era tudo novo para mim, tudo muito para mim, não parecia o certo, Vó Lena havia se referido a mim como se estivéssemos morando no mesmo quintal desde pequena, eu ainda tinha meu trabalho que havia pedido uma dispensa temporária e havia sido uma benção que Sra.Gardis tivesse aceitado sem nenhum problema,mesmo assim ainda tinha meu pequeno apartamento, meu instinto de liberdade falou tão alto que quase pude ouvi-lo gritar, larguei os papéis ao meu lado, como se de repente eles fossem algo como um vírus contagioso, e de certa forma isso não totalmente errado, dinheiro era algo sujo em minha concepção,mesmo que necessário, vendo pelo lado que o ‘simpático’ advogado estava atrás da herança pelos benefícios que ela traria, se eu não os reivindicar todo o dinheiro de minha avó caíram nas mãos dele e pelo jeito que Anette havia me falado, a honestidade era algo que quando o via, saía correndo ou mudava de calçada na mesma hora.
Perseu saiu correndo da sala assim que me levantei do chão,precisava de um banho e desfazer as malas, quem sabe uma boa ducha de água quente colocaria tanto meus músculos quanto meus neurônios no lugar, subi as escadas e percebi que o décimo degrau rangia, velhas casas, velhas manias.
Meu quarto era o terceiro no final do corredor, ficava no lado oeste da casa, o que me deixou extremamente feliz, sempre amei ver o sol se por e esperar pelo crepúsculo, e quando se tem uma sacada tudo fica ainda mais lindo.
Abri as portas que davam acesso a sacada e sorri, como havia previsto a vista era linda, assim como toda Braganta, a lufada de ar seco e frio entrou balançando as cortinas, tratei de guardar as roupas que havia trazido, e peguei uma muda limpa para me trocar, depois que tirei tudo que precisava da nécessaire liguei o chuveiro, que para minha surpresa tinha uma banheira abaixo dele ao invés de um boxe acompanhada transparentes portas de correr em vidro, passei para dentro e não resisti, escorreguei pela porcelana tampando o ralo , a ducha caia a alguns centímetros do meu rosto, batendo em meu colo e fazendo uma relaxante massagem.
Fechei meus olhos fazendo uma nota mental de ligar para minha mãe assim que saísse do banho, um barulho vindo da porta me assustou, era um farfalhar estranho, puxei as portas de correr e me aproximei da porta e o barulho aconteceu outra vez, só quando cheguei mais perto o compreendi, o farfalhar era na verdade as unhas de Perseu arranhando a porta.
_Hei menino, isso não pode!.- brinquei quando ele se deitou ao lado da banheira ._ É invasão de privacidade.
Voltei para banho ouvindo um ganido baixo de Perseu, provavelmente pensando.
’ Para de encher e volta pro teu banho’
Tentei pesar todos os prós e os contras, se continuasse em Braganta, teria uma casa, uma livraria — o que realmente sempre fora meu sonho ter, e uma biblioteca, tudo bem que ela era de certa forma um patrimônio publico de Braga- como apelidavam a cidade, mais pelo pouco que Anette tinha me passado em nossa breve conversa, todos gostavam de contribuir com algo quando alugavam os livros, ao que parecia Vó Lena era bem popular aqui.
Outra vez me senti uma intrusa, como uma simples camponesa que roubasse o trono de uma importante rainha.
Perseu apoiou o focinho branco no vidro o embaçando e eu me levantei para desligar o chuveiro, arrastei a porta de vidro, ele era realmente raro, assim como Vó Lena havia dito, olhei para seus olhos azuis, ele tinha a língua rosa pendida do lado esquerdo da boca o focinho apoiado da beirada da banheira, fiquei imaginando como deve ter sido para ele, de acordo com novas pesquisas os animais não eram tão irracionais assim, eles poderiam sim , sentir falta se perdessem seu dono, o que para quem tinha animais a um bom tempo não era nenhuma novidade.
_Como ela era menino?.- perguntei, mais para mim do que para ele.
Perseu fungou e continuou a me encarar com as orbes azuis.
_Você quer que eu fique?.-perguntei me aproximando da beirada, recebendo uma generosa lambida no nariz._ Ok, vou encarar isso como um sim.- falei rindo.
Mais alguns segundos se passaram e só saí de dentro da banheira por que a água havia esfriado, me enrolei no roupão e me encarei no espelho, eu não estava pálida como pensei que estaria, muito menos com olheiras debaixo dos olhos, sorri lembrando do que minha avó costumava a dizer.
’’ Os olhos são os espelhos da alma Sara, encare-os que você descobrirá tudo que quiser sobre uma pessoa “
Encarei meus próprios olhos, muitos me perguntavam a cor deles, eu sempre respondia da mesma forma, não sei, e sinceramente não sabia, meus olhos mudavam de cor de acordo com meu humor, juro!
Mais a maioria das vezes estavam verdes acinzentados, ou cinza- esverdeados, como se diz na boa e velha matemática, a ordem dos fatores não altera o produto.
Em todo meu corpo, não sei se mudaria algo, de uma família em que quase todos os membros tinham cabelos lisos- daqueles de que quando se coloca um grampo ele escorre, os meus vieram lisos em seu comprimento com cachos pesados nas pontas acompanhados de um tom avermelhadamente ruivo,
assim como os de minha mãe,Sofie me dizia que meus cabelos eram o sonho de qualquer modelo por que eles sempre pareciam escovados com babyliss nas pontas, se pudesse mudar algo em meu corpo seriam meus quadris eu acho, não tenho quilinhos a mais, porém tenho o corpo violão de minha mãe, graças a descendência brasileira, uma calça jeans me caia muito bem.
Marchei para fora do banheiro colocando uma calça de moletom e algodão,
amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo frouxo na nuca, joguei um casaco também de moletom por cima da regata clara, peguei minha mala de mão e puxei minha pasta com meu idoso notebook, pluguei a internet na entrada USB e a esperei discar, Perseu havia se sentado em suas patas traseiras em frente a porta do banheiro, quem o olhasse de longe poderia jurar que era uma estatua.
_Perseu!Vem cá menino.- disse batendo na cama e ele correu ao meu encontro._ Vem, vem!.- falei animada e ele pulou no colchão e se deitou._Quer conhecer minha mãe?.- perguntei e ele ergueu a cabeça.
Movi a seta para minha pasta de fotos e encontrei algumas das fotos tiradas na Santa Catarina, onde morava, antes de me mudar para Londres, mamãe e eu estávamos encasacadas e espremidas uma na outra, de fundo estava a Serra gaúcha encoberta por um densa neblina, virei o notebook para o lobo que virou de leve a cabeça para o lado como se analisasse a imagem.
_Bonita não?.-perguntei e ele lambeu a tela do computador. _ Ok, outro sim.
Abri minha caixa de e-mails vendo seis mensagens novas, uma de Sofie, uma de Liam e quatro de minha mãe, fui abrindo uma a uma, começando pelas de minha mãe.
Como chegou? Chegou bem? Ligue-me.
Te amo mamãe.
Então encontrou o advogado?
O que achou dele?
Te amo mamãe.
Filha,
Acabo de ser pedida em casamento o que faço?.
Te amo mamãe.
Estanquei naquele e-mail, pedida em casamento?Santo Deus! Por quem? Não que minha mãe não merecesse isso nunca, mais que era uma grande novidade era.
Claro, me perdoe querida, não tivemos chance de conversar, eu o conheci faz já cinco meses, eu sei que deve estar brava! Desculpa por não contar antes, o que acha querida? Mamãe aceita ou não?
Minha boca escancarou, e eu fiquei realmente brava, cinco meses?Até meus casinhos de semanas eu contava para ela, decidi responder todos
no mesmo e-mail.
Mãe,
Sim, mamãe, cheguei bem, e não, ainda não falei com o advogado ele só voltara para Valen Tozi na segunda.
E sim estou brava com você!
Dona Selene! A senhora está me perguntando se deve aceitar um pedido de casamento, a sua filha, mãe por Deus! Está me achando com cara de santa casamenteira? Ok! Extravasei minha raiva.
Agora me diga você, o ama a ponto de querer acordar com eles todos os dias ao teu lado? Mãe, sei o quanto é independente, então cuidado, pese tudo antes de dar qualquer resposta.
Amo-te, muito, saudades,Sara.
Passei para os de Sofie e Liam.
Oi amiga.
Então como foi tudo por ai?
Encontrou o lugar onde Judas não perdeu as botas por que ele não chegou ai?
Volte logo, Londres volta a ser a mesma formal e chata de sempre sem seu encanto brasileiro por aqui.
Te adoro, Sof.
Não pude deixar de rir.
Sof.
Amiga, seu remédio!Lembra-se do que o medico disse de se abster dele?
Não pode! Volto assim que der.
Te adoro ² Saa.
Enviei e comecei a ler o e-mail de Liam, como sempre ele me pedia suvenires.
Tudo certo por ai Sasa?
Olhe, não se esqueça de meu presente, e volte logo, Sofie está me deixando maluco aqui.
Te adoro, Liam.
Tive de rir outra vez, meus melhores amigos, Liam Nades e Sofie Westh, estudavam comigo na faculdade de Oxford e Sofie trabalhava comigo na biblioteca em meio período, eles eram verdadeiros anjos na minha vida, dizem que todo anjo da guarda você não pode ver certo? Em minha opinião errado, aqueles dois eram verdadeiros anjos da guarda sem asas e com muitos problemas mentais, logo assim que cheguei a Londres me instalei no mesmo hotel caindo aos pedaços que Sofie, nos conhecemos por coincidência quando estávamos indo as duas reclamar do aquecedor quebrado ao gerente, descobri que ela também estava vindo do Brasil, mais diferente de mim, estava voltando para Londres, Sof era a típica garota inglesa, loura de belos olhos verdes azulados, pálida e de porte esguio, o que fazia a maioria dos meninos da faculdade achem que tem algum parentesco com o Sr.Fantástico do Quarteto Fantástico, pelo jeito que torciam o pescoço para olhar Sofie quando ela passava, só sendo de elástico para se torcer daquela maneira, tenho quase certeza que muitos deles tinham contas quilométricas no ortopedista, nós duas fazíamos História da Arte e foi o que nos aproximou ainda mais.
Liam apareceu para nós na faculdade, no começo Sofi se aproximou por que como ela disse, ‘Ele era um fofo’, mais com o tempo fomos vendo Liam com outros olhos, assim como qualquer garoto Inglês, Liam tem aquele sotaque forte inglês, o que fez com que depois que ele entrou para o Curso Inglês- Grego, dobrasse o numero de meninas no mesmo.
Tudo bem que os belos olhos mel- esverdeados e os um metro e oitenta nove, muito bem distribuídos no corpo de um nadador, arrebatados de cabelos espetados castanho claro ajudasse, mais para nós, ele era apenas Liam o nerd grego, e também era bom aprender insultos, entre outras palavras em grego, nada melhor do que aprimorar seu vocabulário.
Meu coração apertou, de repente, parecia que as palavras ‘Volte logo’ saltavam da tela de meu computador,infelizmente eu não estava certa em voltar, mesmo que quisesse muito, querendo ou não agora eu tinha uma vida, naquela pequena cidade, um ronco me assustou e voltei minha atenção a minha volta, era Perseu, eu ri, a barriga rosada estava para cima, e cabeça pendia para o lado de fora da cama, o puxei para o meio da cama, esperando acorda-lo mais ele nem se mexeu.
Lembrei das palavras de minha avó, Perseu ficaria com quem ele quisesse, e eu sempre amei lobos, desde minha adolescência quando minha mãe me deu de presente sua coleção Crepúsculo e tive um amor platônico por Jacob Black o lobisomem da saga — o que fez minha mãe rir, afinal ela também lembrava de seu amor platônico pelo mesmo, sempre gostei de personagens secundários, o mesmo aconteceu com Harry Potter, minha paixão era e ainda é por Rony Weasley.
Tenho um gosto um tanto diferente, que as vezes pode até parecer um tanto velho, contando que tenho dezenove anos e minhas bandas preferidas são todas as bandas que marcaram a geração de minha mãe, sem contar as clássicas, ainda mais antigas e todas que envolvessem piano e bandolim, esse primeiro sei tocar, porque felizmente minha mãe sempre fora louca para aprender mais nunca conseguiu, e quando eu pedi para aprender ela quase soltou fogos, providenciando o mais rápido possível aulas para mim, outra coisa que me chamou para Londres sua classe, como Sofie mesmo disse, Londres fora e até hoje é fina e clássica.
Pensar em Londres me fez lembrar- não que tivesse esquecido, os e-mails, tinha que voltar para Londres, para meu apartamento, para meu emprego, para minha vida.
Perseu se colocou em pé em um salto na cama, me fazendo dar um grito de susto, suas orelhas pontudas levantaram para a sacada e ele rosnou, eu engoli seco, não gostando nada da sensação que senti, era como se houvesse uma pessoa parada ali,uma lembrança desagradável penetrou em minha mente e tentei afasta-la chamando o lobo.
_Perseu, venha pra cá menino!.
O animal não moveu um músculo se quer, continuou a olhar para o nada e a rosnar, evitei olhar para sacada, por que assim como Perseu, eu tinha certeza que tinha algo ali.
Perseu manou a cabeça como se acompanhasse um movimento e rosnou mais forte, meu coração disparou, meus olhos quase imploravam para eu olhar, e quando pensei em ceder vi o lobo correr para sacada e logo e seguida um barulho surdo ocorrer no quintal do primeiro andar, no segundo seguinte ele saiu em disparada pela porta do quarto,esperneie saltando da cama e sai correndo atrás dele, o degrau rangeu assim que passei por ele, meus pés descalços quase derraparam no tapete que tinha em frente a porta principal que estava aberta, passei por ela como um foguete, ouvindo os chamados de Anette atrás de mim.
Perseu ainda corria, seguindo algo a sua frente, com muito mais vigor que eu.
_PERSEU!
Não sei o que estava fazendo mais apenas me limitei em obrigar minhas pernas se moverem o mais rápido que meus músculos conseguiam, algo apertava meu peito, tinha quase certeza que não era nada bom sentir aquilo, precisava ir atrás daquele protótipo de guarda costas enfezado que corria a minha frente, as pedras da estrada machucavam a planta de meus pés, mas, não prestei atenção nisso, sabia que tinha que trazer Perseu de volta, não ia deixa-lo sozinho, quando me dei conta do que acontecia, vi que já tinha saído da fazenda e estava na estrada de lama vermelha, Perseu estancou e fui junto com ele, sua língua pendia quase um palmo para fora da boca, eu abaixei arfando.
_Vamos menino!Vem Perseu!Vamos para casa!.- falei o puxando pela coleira, mais ele ainda encarava a escuridão agourenta da estrada a nossa frente.- Será que podemos ir, ou o supercão ainda tem algo a declarar?.- reclamei e logo em seguida olhei para os lados, se tivesse algum vizinho ele teria certeza que eu tinha sérios problemas.
Um sombra escura se moveu, Perseu soltou um silvo baixo, e aquilo me arrepiou dos pés a cabeça, meu coração parecia que a qualquer instante iria pular pela minha boca, talvez fosse por isso que a mantive bem fechada.
Me levantei e dei dois passos para trás, meu instinto de defesa berrou em meus ouvidos, e a sombra se tornou sólida, era um homem, ou pelo menos a forma de um, ele caminhava lentamente em minha direção, um ar gélido correu pela minha espinha e Perseu rosnou ao meu lado, mesmo que parecesse um tanto tremulo, comecei a andar de volta a porteira do rancho, e homem também pareceu aumentar o ritmo de seus passos, um forte cheiro de ferro e acido impregnou o ar,
Perseu ganiu alto e saiu em disparada me deixando no meio do caminho.
_Meu Herói , pensei amarga e sem pensar duas vezes corri, podia sentir os passos do homem atrás de mim, e seu cheiro só aumentava com a aproximação.
Uma risada baixa veio de algum lugar, e aquilo não me acalmou, olhei por cima de meu ombro e pude enxergar os olhos negros do homem atrás de mim, sua boca estava contraída em um sorriso macabro, então no segundo seguinte me choquei contra algo.
Duas mãos seguraram meus ombros e fiz o que qualquer mulher encurralada por dois homens em uma estrada macabra faria.
Gritei.
O homem que me segurava pelos ombros me jogou em algum lugar e quando aterrizei bati minha cabeça com força no chão, minha vista rodou, uma fisgada forte correu por todo meu crânio, quando olhei para onde estava segundos atrás um forte clarão lançou uma grossa lufada de ar com terra encima de mim, forcei meus olhos a continuarem abertos, mais segundos depois fui derrotada, a ultima lembrança que tenho e de dois braços me erguendo do chão.
Notas finais
Miil beijos
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