Reunião do Mundo Condenado
4 A Busca Pelo Alicerce
Notas iniciais
Mark prefere que desçamos pela escada em vez de pelo elevador.
— Precisamos nos aquecer — foi o que ele disse quando perguntei o porquê — Ficamos muitas horas descansando e, se formos assim e precisarmos correr, ficaremos cansados mais rapidamente — completou ofegante.
Estávamos no 12 andar quando ele lembrou que não havíamos pegado arma alguma, muito menos a chave do carro, e insistiu para que voltasse sozinho ao quarto para buscar essas coisas. Ele parecia tão culpado, tão genuinamente insatisfeito consigo mesmo que não consegui argumentar contra a decisão dele, então ele subiu sozinho.
Não deixo de me sentir culpada pelo seu transtorno.
Olho para o relógio de pulso que peguei no quarto ao lado do nosso (o mesmo de onde ele pegou a cama) e noto que já faz mais de oito minutos que ele subiu. Solto um suspiro nervoso e levanto o olhar para o lance de escadas que parece infindável. Sento em um degrau e aguardo.
Dois minutos se passam antes que ele chegue suado e esbaforido. Ele pára ao meu lado e senta no mesmo degrau de onde eu acabei de levantar. Fica alguns segundos recobrando o ar para então se virar para mim.
— Eu tinha quatro armas de fogo lá em cima — ele diz — Mas como não sei se você sabe atirar com elas, trouxe mais cinco facas — explica ele. Vejo-o abrir a bolsa preta que ele trouxe lá de cima e observo o lado de dentro. Quatro pistolas olham de volta para mim, assim como cinco facas grandes e pontudas. Encaro-o e engulo em seco.
— Sei que esperar o contrário é idiotice, mas você acha que terão muitos zumbis por lá? — pergunto nervosa. Escuto-o soltar o ar com força e vejo-o passar uma mão pelo cabelo.
— Depende de qual mercado nós visitarmos. — ele diz — Sei que os da estrada e os que ficam em locais com menos densidade populacional são os mais indicados, mas a gasolina está realmente no vermelho. — ele diz — Temo que teremos que ir ao do posto da prefeitura.
Assim que ele diz isso, sinto vontade de arrancar os cabelos.
Se tem algum lugar que é certo estar lotado de zumbis, esse é o supermercado do posto da prefeitura.
— Não temos nenhuma outra opção? — tento procurar alguma outra alternativa, mas o movimento da cabeça de Mark, de um lado para o outro, é o bastante para estraçalhar minhas esperanças.
— Podemos tentar procurar outros, mas tenho certeza que ficaremos sem combustível no meio do caminho, e isso é bem pior que enfrentar zumbis de um supermercado — ele fala com a voz desgostosa. Assinto com a cabeça e me levanto.
— Então é melhor nos apressarmos. Quanto mais tarde, pior. — ele olha pra mim com uma expressão de tristeza e acena, levantando-se também. Descemos os lances sobressalentes até o térreo de forma rápida e sincronizada, e chegamos completamente suados e exaustos na recepção do hotel. Mark se encosta na parede ao lado do elevador e solta uma gargalhada.
— No meio do caminho me veio a mente que essa foi a ideia mais idiota que já tive — sua risada é interrompida por um tosse seca. — Estou morrendo de sede, e sei que mereço isso. — reviro os olhos para o que ele diz e pego de dentro da bolsa dele uma garrafa de água mineral. Tomo dois goles e logo entrego o restante para ele. Ele me olha em reprovação por breves segundos, mas logo a sede vence e ele aceita.
Enquanto ele bebe, ando até o balcão e pego o telefone, levando-o ao ouvido. Não fico nem um pouco surpresa quando noto que a linha foi cortada.
Ando de volta para o lado de Mark e solto um suspiro.
— Não foi uma ideia idiota, e você sabe disso. E energia elétrica pode ser cortada a qualquer momento, e se ficássemos presos no elevador ia ser muito pior — digo e aponto para o telefone. — A linha telefônica já foi cortada. É só uma questão de tempo até a energia e a água irem também. — escuto um suspiro pesado e olho para ele. Seu rosto parece cansado, e reparo só agora que há olheiras rodeando seus olhos verdes.
Pergunto-me como deve estar minha própria aparência.
— Melhor sairmos logo. — diz Mark depois de mais alguns segundos em silêncio. — Quero voltar antes de estar completamente escuro.
Saímos pela porta de entrada do hotel e vamos andando rapidamente até o estacionamento. Vou a todo momento rezando para que consigamos voltar em segurança e com todos os itens que precisamos. Arrisco uma olhada para a rua e me surpreendo ao ver que ela está vazia, sem nenhum sinal de zumbis. Apresso os passos para ficar ao lado de Mark e pergunto confusa.
— Você não acha que a rua está tranquila demais? — ele chega ao carro e abre a porta para mim. Entro, sento e aguardo ele dar a volta para sentar no banco do motorista. Ele primeiro liga o carro antes de me responder.
— Eu estou achando isso desde o momento em que chegamos. — ele diz — Acho que eles devem estar se concentrando em algum lugar amplo e bem movimentado. Pode ter algum abrigo — fala enquanto vai saindo da garagem — E eles estão tentando invadir. Meu pai disse que isso poderia acontecer, sabe? Eles se juntarem em grupos para atacar. Tudo bem que eles não pensam, mas ainda agem por instinto, e o instinto leva a formação de grupos, se isso significar mais alimento. — ele aperta o botão que abre o portão e logo em seguida já estamos na rua. Aguardo ele fechar o portão e arrancar em direção ao supermercado para então falar.
— Entendi — digo — Mas e se eles estiverem perto do posto? Aquela área era muito movimentada. — comento. Vejo Mark engolir em seco antes de falar. Seus olhos não desgrudam da rua um segundo sequer.
— Se eles estiverem, não teremos outra alternativa a não ser lutar. — replica simplesmente. Decido que já é hora de ficar calada por alguns minutos.
Passamos pela 1° de maio, pela Magno de Araújo e sinto meu estômago revirar quando vejo alguns zumbis desgarrados andando pelas calçadas.
— Eles parecem estar indo na mesma direção que a gente — comento. Mark parece constatar isso no mesmo instante que eu, e solta um palavrão baixo antes de acelerar.
— Teremos que ser rápidos — diz — Teremos que pegar o máximo que pudermos dos itens mais necessários. Vou deixar o carro aberto enquanto você coloca tudo em um carrinho e traz para fora. Eu vou tentar encher o tanque. — assinto e respiro fundo.
Estamos chegando na Lauro Sodré e meu coração parece prestes a saltar do peito.
Quando chegamos lá, eu sinto como se ele realmente tivesse feito isso.
Parece que todo o bairro decidiu se reunir ali, naquele local.
Incontáveis corpos podres cobrem toda a rua, e a entrada para o super mercado parece vigiada por dezenas de seguranças obstinados a atacar qualquer um que queira entrar.
São tantos
Tantos
Se sairmos do carro, estaremos cometendo suicídio.
Acho que não lembro mais como se respira.
— Puta merda! — ouço Mark exclamar. Mesmo eu sendo contra palavrões, não deixo de concordar com ele.
— É... — murmuro estática — Puta merda.
Mark olha para mim de forma séria durante apenas alguns segundos antes de acelerar o carro e arrancar com tudo em direção à porta do supermercado. O carro esmaga dezenas de corpos antes de chegar ao local mas, ainda assim, outras dezenas de zumbis nos aguardam quando decido sair do carro. Pego todas as facas e uma pistola antes de sair, e respiro fundo, tentando me concentrar, quando os três primeiros zumbis chegam perto de mim. Com uma faca em cada mão, enterro as duas no centro da testa dos zumbis das laterais e, com um movimento tão rápido que até eu me surpreendo, puxo-as ao mesmo tempo e as enterro juntas na cabeça do terceiro. Com uma rasteira, derrubo três zumbis que se aproximam e vou acertando as cabeças de todos com as facas.
Arrisco um olhar para Mark e noto que ele está abrindo caminho com o carro em direção ao posto de gasolina, que fica a menos de vinte metros de onde estou.
Volto o olhar para os incontáveis zumbis e decido lutar.
Como estou perto da entrada, corro para dentro e pego um vassoura que está inserida em um grande recipiente com várias outras. Brandindo ela na mão esquerda, vou derrubando qualquer zumbi que tente chegar perto. Acerto alguns que conseguem me alcançar, mas logo começo a ficar cansada. Pego a minha quarta e penúltima faca e tento arremessar na cabeça do morto vivo, mas só consigo fazer com que a faca acerte fracamente o ombro dele.
Gemo de frustração e pego a pistola. Noto que está totalmente carregada, e que parece ser eficaz, mas logo lembro que não sei usar, muito menos atirar com uma dessas.
Com a arma em uma mão e a vassoura na outra, decido entrar no supermercado, fechar a imensa porta de vidro e ir logo pegando o que precisamos.
Escolho um carrinho grande e entro no primeiro corredor.
A sessão de massas e molhos está completamente vazia de qualquer alma vida — ou morta viva —, e aproveito para ir logo jogando tudo o que consigo dentro do carrinho. Pego massa para espaguete, macarronada, molhos de todos os tipos e o que mais aparece pela frente. Vou mudando os corredores e jogando com voracidade tudo o que encontro nas prateleiras dentro do carro. Pego arroz, frutas (as poucas que ainda não estragaram), itens de higiene (muitos mesmo), várias garrafinhas de água mineral, todas as carnes e frios que conseguo e assim por diante.
Quando dou por mim, o carrinho está tão pesado e cheio que eu mal consigo arrastá-lo pelo chão. Mordendo a parte interna da boca, começo a me esforçar para chegar na entrada do supermercado, ao mesmo tempo que sussurro todas as orações que conheço, pedindo "por favor, que Mark já esteja me esperando na entrada".
Estou capengando com o peso do carrinho quando escuto o som de uma lata caindo no corredor ao lado do meu.
Congelo enquanto sinto todo o sangue do meu rosto ser drenado e meu coração bater tão descompassadamente que parece um milagre eu ainda não ter tido uma taquicardia.
Aperto com força a pistola na minha mão e vou andando com cuidado para o fim do desse corredor, bem ciente de que terei que passar pelo do lado para chegar ao meu destino.
Fecho os olhos e respiro fundo.
Uma
Duas
Três
Quatro vezes.
Começo a correr com o carro a minha frente.
Muitos cientistas alegam que o medo leva-nos a imaginar sempre a pior situação possível para explicar a origem de algum som alarmante. Por exemplo, as vezes a janela da sua casa bate com tudo; se for de dia, você estiver acompanhado e não tiver lido ou assistido noticiários, você, com toda a certeza, vai atribuir a origem do som ao vento. Mas e se essa mesma janela batesse durante a madrugada, sendo que você está sozinho na casa e acabou de assistir no noticiário que tem um assaltante perigosíssimo a solta, o que você vai pensar? Seu cérebro, comandado pelo medo, vai se apegar sempre a pior explicação: de que tem alguém invadindo sua casa.
Algo parecido acontece comigo no momento em que visualizo o que tem no fim do corredor.
Assim que aponto a arma para o local, imagino que, sem sombra de dúvidas, dois e ou três zumbis estão no meu encalço.
Mas nunca, em hipótese alguma, posso imaginar, sequer cogitar, que estou realmente vendo aquilo que meus olhos insistem em encarar.
Há outra pessoa ali.
Um homem vivo.
A pistola escorrega da minha mão no exato momento em que sinto o som do ar rasgando bem próximo ao meu ouvido direito.
Estupefata, viro a cabeça lentamente para trás, somente para constatar que uma faca encontra-se perfeitamente inserida na prateleira de camisinhas. Engulo em seco e volto lentamente o olhar para o garoto.
Ele me encara com o peito arfante e parece estar indeciso entre sair correndo ou lutar comigo. Suas mãos estão em punhos e percebo com um toque de exasperação que há outra faca na sua mão esquerda.
Arrisco um passo em sua direção, tentando manter contato visual para que ele note que eu não sou uma ameaça, mas sou impedida por duas mãos fortes e firmes que agarram meus ombros com velocidade.
— Por favor, não grite — a voz de Mark chega aos meus ouvidos em um sussurro. Solto o ar com força e me seguro para não chorar. Viro o rosto para encará-lo, somente para ver que ele não faz o mesmo. Seu rosto está vidrado no garoto que ainda se encontra no fim do corredor. Posso sentir seu peito subindo e descendo de forma rápida nas minhas costas, e só posso concluir que a luta foi árdua lá fora. Volto a olhar para o garoto e fico extremamente surpresa ao notar a expressão em seu rosto.
— Vocês estão juntos? — ele quebra o silêncio. Sua voz é grave, mais grave que a do Mark, e rouca de um jeito que somente os rockeiros parecem ser capazes de ter. Seus olhos azuis perderam toda a surpresa de outrora, e agora intercalam entre mim e Mark de forma preguiçosa. Quando noto que meu companheiro não parece estar muito a fim de responder a pergunta, clareio a garganta com um pigarro e levanto a voz.
— Sim, estamos juntos. O que está fazendo aqui? — faço todo o esforço do mundo para que minha voz saia firme. O garoto misterioso ri de um jeito estranhamente belo e aponta para o meu carrinho.
— O mesmo que vocês. Estou estocando comida — é o que ele diz — Mas, ao contrário dos dois sortudos, eu não tenho um carro. — ele vira para a prateleira ao seu lado e pega um lata de sardinhas, inspecionando-a de modo quase clínico.
Essa é a prova que preciso para perceber que ele está tão assustado quando nós.
Respiro fundo e noto que Mark aperta um pouco mais forte os meus ombros. Sinto minha garganta secar pelo que estou prestes a propor, mas tento não pensar muito sobre isso para não perder a coragem.
Molho os lábios antes de pigarrear audivelmente.
– Você... – hesito e sinto uma gota de suor escorrer pela minha costa. Sinto Mark ficar alerta e fecho os olhos, pedindo perdão antecipadamente a ele. – Você gostaria de vir conosco? – faço a pergunta antes que perca a coragem. Sinto o meu cabelo agitar e concluo que esse é o indício da reação de Mark (provavelmente um suspiro audível, que sem sombra de dúvidas foi abafado pelo martelar intenso da pulsação em meus ouvidos). Tomo coragem para abrir os olhos e finalmente encaro o garoto.
Preferia não ter olhado.
Ele ostenta um sorriso de deboche explícito quando nota meu olhar no dele.
– Ir com vocês? – o modo com que ele repete a pergunta faz ela soar tão patética que me arrependo imediatamente de tê-la proferido. Ele solta uma risada. – E atrapalhar a lua de mel? – sua sobrancelha arqueia. Sinto os dedos de Mark afundarem na minha pele de forma dolorosa, mas evito soltar qualquer tipo de reclamação. Apenas encaro o garoto de forma obstinada.
– Isso foi um não? Porque estamos sem tempo, então se não quiser ir conosco, pelo menos não atrapalhe a nossa fuga – digo e aponto para a faca em sua mão. Ele olha para ela e volta a olhar para mim poucos segundos depois.
– Eu não preciso de ajuda. Consegui entrar aqui sem o auxílio de ninguém – diz – Posso muito bem sair sozinho – ele me olha de tal forma que parece desafiar-me a discordar.
Sei que deveria deixar pra lá, mas também sei que simplesmente não vou conseguir dormir de noite por conta da dúvida sobre a sobrevivência dele.
Sei que a pergunta e o "e se" vai me assombrar pra sempre caso eu não faça nada.
E sei que simplesmente não aguento ser a culpada por mais uma morte.
Por isso, nego com a cabeça diversas vezes, tentando a todo custo evitar que a minha voz saia tão rude quanto eu acho que sairá.
– Nós temos um carro – digo – E um abrigo. Temos muita comida e, por enquanto, energia elétrica e água. Não seja burro – minha respiração fica mais pesada – Seja sensato! Ir com a gente é a forma mais promissora que você tem de sobreviver. – não sei de onde as palavras vêm, só sei que elas saem sem controle. Sinto a minha visão embaçar e não consigo acreditar que estou chorando em um momento como esse. Limpo as lágrimas com voracidade e me viro para o carrinho. – Mas se você realmente não quer, não vou impedir – digo enquanto ando em direção à porta.
Nem me importo em esperar Mark, pois sei que ele vem atrás de mim; por isso, ando de forma rápida e firme, tentando a todo custo apaziguar minha raiva.
E ela realmente se apazigua, mas não de um jeito bom.
Assim que chego na porta, todo e qualquer sentimento que eu possa estar sentindo no momento se esvai de uma forma tão repentina que sinto minha visão escurecer e meus sentidos fraquejarem. Meus pêlos se eriçam, meu rosto se reprime de cor, e minhas pernas, ah, minhas pernas... Nem sabem mais como fazer seu trabalho.
Porque o que vejo do outro lado do vidro não é algo natural, muito menos algo possível.
Prováveis centenas de zumbis estão quase conseguindo quebrar a porta de vidro blindado.
Incontáveis daquelas criaturas conseguiram nos cercar e estão a poucos minutos de nos alcançar.
O medo me consome.
Só tenho a capacidade de escutar Mark esbravejar um "o que foi que deu em você?" antes do som de vidro estilhaçado invadir o local e fazer fragmentos voarem para todos os lados.
"Eles finalmente nos encontraram", é o que eu penso.
E não deixo de imaginar de que esse é, finalmente, o nosso fim.
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