"Daniel"

I

Jackie observou as pessoas caminharem apressadas pelo aeroporto JFK, ela sorriu minimamente e arrastou a mala em direção aos táxis estacionados. Era bom estar de volta à cidade, nem que fosse por apenas algumas horas.

Steven não iria pegá-la no aeroporto, pois, segundo ele, ela era uma garotinha crescida que já sabia muito bem se locomover pela cidade e ele não iria gastar gasolina com e ela. Jackie havia bufado, mas aceitado a situação, porque sabia que logo mais eles teriam que seguir caminho para Point Place e seria um longo caminho. Jackie não podia negar o quanto estava animada para poder voltar. Fazia dois dias que ela havia saído de Point Place e seguido para San Francisco a fim de organizar toda a sua vida na cidade, havia dito adeus a Baby, seu colega de trabalho, e se demitido, ela ainda não havia conseguido o emprego em Point Place, mas sabia que logo conseguiria.

Steven tinha ido para New York no início da manhã de segunda depois que eles foram visitar Caroline e Maya, a pequenina parecia super feliz com a visita até que Eric contou atrás novidade sobre seu novo bebê. Maya e Jackie não ficaram muito feliz com a notícia, a bebê começou a chorar e ela apenas cruzou os braços irritada, seu bebê deveria ser o único a ser comemorado, agora ela teria que dividir o ano com Donna.

Kitty havia dito que ela era uma boba, Donna daria à luz dois meses antes, então o bebê Burkhart-Hyde teria um mês somente para ele ou ela. Isso havia a animado apenas um pouquinho, mas então Steven a presentou com um lindo colar de ouro branco e assim o humor de Jackie melhor substancialmente.

Jackie amava quando Steven a mimava, mesmo ele negando veementemente que seria capaz disso. Mas todos os presentes, passeios e seus gestos românticos espontâneos eram a prova de que ele a amava, ele não precisava dizer, ela já sabia.

Mr. Tambourine man tocava na antiga vitrola quando ela abriu a porta do apartamento, haviam caixas e mais caixas entulhadas na entrada, Steven havia passado os últimos dias arrumando e embrulhando seus pertences. Jackie localizou seus sapatos em uma caixa em que estava escrito “sapatos para aumentar o ego e a altura de Jackie”. Ela revirou os olhos ignorando a piada dele, deixou a mala na entrada e a bolsa em cima de uma das caixas antes de seguir lentamente até a sala.

—Mommy Jackie vai chegar quando? — Danny indagou, Jackie vislumbrou seu enteado sentando no sofá cercado de papéis de doce. Ela revirou os olhos novamente, eram quase onze da manhã e eles ainda tinham que almoçar antes de pegar a estrada, Danny provavelmente não comeria nada e acabaria passando mal de tanto doce.

—Acho que logo, agora me ajude aqui. — Steven pediu fechando mais uma caixa com os discos que ele havia tirado de sua estante. Danny pulou do sofá e ajudou Steven a desenrolar a fita adesiva antes de grudá-la na caixa. — Quando chegarmos a Point Place, que tal me ajudar a pintar o quarto do bebê?

—Posso pintar de amarelo? — Danny indagou animado voltando para se sentar no sofá. — Pode ter estrelinhas azuis?

—Eu não sei. Mas é uma ótima ideia, pois eu tenho certeza que Jackie será capaz de pintar o quarto todo de rosa.

—Mas rosa não é cor de menina? Isso quer dizer que eu vou ter uma irmãzinha?

Steven sorriu para Danny. Ainda era muito cedo para saber o sexo do bebê, mas Jackie sentia no fundo do seu coração que eles iriam ter uma garotinha, assim ela podia mimá-la tanto quanto Steven a mimava. Mas isso também significava que eles teriam um casal de filhos, ou seja, ela levaria Danny aos jogos e faria inveja às outras mães com sua beleza natural, enquanto forçaria Steven a ir às peças de sua filha para causar mais invejas nas outras mães. Oh! Ela ia ser eleita a mãe mais bonita da escola, talvez ganhasse um buquê de rosas e uma faixa, talvez…

—Eu já consigo ver as engrenagens em sua mente se chocando uma contra a outra, no que você está pensando, boneca? — a voz de Steven a despertou de seus devaneios. Jackie piscou notando que os dois pares de olhos azuis a encaravam intensamente.

—Mommy! — Danny pulou do sofá e correu até ela. Jackie o pegou em seu colo deixando ele enrolar suas pernas na cintura dela. Sorrindo ela beijou as bochechas dele.

—Oi meu pequeno rocketman, como você está? Eu estava morrendo de saudades de você. — Jackie afirmou apertando Danny contra ela. Seu pequeno coração batendo na mesma intensidade que o dela. O cabelo dele tinha cheiro de limão e seus cachos faziam cócegas no nariz dela. — Você estava com saudades de mim?

—Muita, mommy Jackie. — ele afirmou balançando a cabeça e abrindo os braços em demonstração. — Papai diz que vamos para casa da nana Kitty e papa Red.

—É, nós vamos. Você vai conhecer a mamãe de Steven e seu titio panaca, Eric.

—Jackie. — Steven a repreendeu fazendo com que ela revira-se os olhos.

—Ok. Não tão panaca, apenas nerd.

—Hey amigão, porque você não vai até o quarto e pega os últimos brinquedos. — Steven sugeriu puxando Danny do colo de Jackie e o deixando no chão. Jackie observou o garotinho de cachos escuros correr para uma das portas entreaberta. — Teremos sorte se quando Danny conhecer Eric, ele não o chamar de nerd panaca.

—Oh não, vou treiná-lo para quando conhecer Eric dizer “Saudações, criança.” — ela disse com um sorriso maroto no rosto. Steven também riu e então se inclinou e a beijou.

Para ela, cada beijo que eles trocavam parecia como um primeiro beijo. Ela sempre tinha aquele mesmo nervosismo e sensação de frio na barriga. Ela ainda sentia seu corpo se arrepiar e sua boca secar antes dele finalmente encostar seus lábios nos dela. Jackie ainda se sentia nas nuvens quando ele a tocava.

—Oi. — ele sussurrou encostando a testa contra a dela.

—Oi. — ela disse sabendo que aquela era a maneira dele dizer eu te amo sem falar exatamente aquelas palavras. — Mal posso esperar para voltar para casa.

—Nem eu. — Steven afirmou beijando-a novamente. — Mal posso esperar para estrearmos nossa cama.

—Acho que já fizemos isso.

—Tem algum mal fazermos de novo.

—Seu porco. — Jackie murmurou batendo no ombro dele, mas Steven apenas riu.

—Mommy? — Jackie virou a cabeça olhando para Danny que vinha correndo em sua direção.

—Sim, meu anjo? — ela indagou se afastando de seu marido, mas deixando a mão dele em sua cintura.

—Eu já sei o que eu quero de natal. — Danny disse com aquele sorriso sabichão, algo que ele compartilhava com Steven.

—Ah é, e o que seria?

—Eu não posso contar. Só para o Papai Noel.

—Ohu, mas você não pode contar para mim? Eu era criança favorita do Papai Noel, se você me contar, eu posso contar para ele pessoalmente. — Jackie deu um sorriso doce para Danny, mas ele apenas balançou a cabeça.

—Não, mommy. É segredo. — Danny alegou em voz baixa enquanto colocava o dedo indicador na frente da boca. Steven riu e então pegou o pequeno em seu colo.

—Ok. Se é assim que você quer, é assim wue será. — Steven afirmou fazendo Danny sorrir e beijar a bochecha dele. Jackie se aproveitou do momento e beijou a bochecha livre. Steven grunhiu em desgosto, mas ela sabia que era apenas parte de sua fantasia de bad boy insensível.

Jackie então se afastou e notou a câmera polaroid em cima da bancada da cozinha, ela rapidamente cruzou a sala e pegou a câmera.

—Precisamos eternizar esse momento. — ela falou entregando a câmera para Steven. Ele grunhiu novamente, mas desta vez era realmente um grunhido de desgosto. Jackie sabia o quanto ele odiava tirar fotos. — Por favor, Stevie. — ela implorou fazendo beicinho, ele então suspirou e passou Danny para o colo dela, Jackie sorriu abertamente enquanto Steven erguia a câmera. — Digam “x”.

—Digam “eu não sei porque eu me casei com você”. — ele brincou e ela beliscou o braço dele. — Aí Jacks!

Jackie sorriu e Danny riu, então um flash a pegou desprevenida.

—Steven! Eu não estava pronta! — ela protestou, mas ele apenas riu enquanto balançava a fotografia.

—Mas não poderia ter saído mais bonita. — Steven afirmou estendendo a foto para ela. Ali estava os três, Steven com um sorriso misterioso e no rosto aqueles malditos óculos escuros, já ela sorriu abertamente enquanto Danny apertava seu pescoço e soltava uma bela risada. Eles pareciam perfeitos.

II

O som das risadas ecoavam pela casa quando Kitty passou pela porta vai e vem segurando uma travessa cheia de biscoitos recém-assados, Daniel correu atrás de Tucker que corria atrás de Luke que corria atrás de Elliott que por fim perseguia Lizzy que segurava o último pote de sorvete.

A casa dos Forman sempre tinha sido agitada, mas naquele dia havia um clima diferente no ar, os adultos na sala conversavam a animadamente, até Red havia se rendido ao momento.

Hyde estava sentando no sofá com Donna ao lado, sua barriga já era bem avantajada, o pequeno Hank havia crescido muito nos últimos meses fazendo com que sua mamãe se sentisse desconfortável, Eric tentava ao máximo amenizar a situação de sua esposa, mas parecia que quanto mais ele tentava, mas Donna o mandava pastar. Ao lado de Donna estava Caroline segurando a pequena Maya de apenas dois meses, a pequenina dormia calmamente no colo da mãe ignorando o barulho da sala e as conversas animadas, por algum motivo Maya havia nascido zen, Kelso dizia que havia sido como no conto da Bela adormecida, Hyde, sendo o padrinho dela, havia dado de presente para a pequena um pouco de seu zen. Ninguém realmente levava isso à sério, mas também não podiam negar que era uma boa lógica.

No banco do piano estava sentada Brooke e Lauren, as mulheres não falavam muito, apenas riam das bobagens que os “garotos” falavam. Na verdade, Brooke estava mais nervosa pelo fato de Betsy ter saído com Fred para o porão do que com a conversa em si, ela sabia que Lauren compartilhava o mesmo pensamento, pois com o filho passando aquele final de semana com ela, Lauren não queria que ele se metesse em problemas com ninguém ou seria capaz dos pais adotivos de Fred não deixassem que ele volta-se mais. Nenhuma das duas conseguia tirar os olhos da porta da cozinha.

Já Red estava sentado em sua velha poltrona com Kitty empoleirada no braço acolchoado, ele sorriu minimamente observando aquelas crianças crescidas. Embora tivessem se passado muitos anos, Kitty ainda conseguia se lembrar perfeitamente das crianças discutindo em seu porão, da chegada de Steven, do namoro de Donna e Eric, dos primeiros dias de Fez, do súbito romance de Jackie e Steven, da descoberta do bebê de Michael, da expulsão de Lauren da faculdade. Eram memórias, não totalmente boas, mas que ficaram gravadas em sua mente.

A porta da cozinha foi aberta novamente, mas ao invés da agitação e gritaria, as crianças entraram em silêncio e cabisbaixas indo em direção aos seus respectivos pais.

—Hey amigão, o que houve? — Hyde indagou colocando Danny sentado ao seu lado.

—Lizzy deixou o sorvete cair no chão. — Danny disse com a voz embargada e fazendo beicinho, a combinação perfeita da influência de Jackie. — Tucker tentou lamber, mas o gato passou por cima.

—Tucker! — Caroline olhou perplexa para o filho. Mas o garotinho apenas deu de ombros.

—Eu não podia deixar que o sorvete estragasse. — Tucker se defendeu usando sua inocência como justificativa, mas Caroline apenas balançou a cabeça em desaprovação. — Mas foi Elle mais rápido e lambeu todo.

—Mesmo que o gato tenha passado por cima? — Donna arregalou os olhos e colocou a mão sobre a boca sentindo-se enjoada.

—Sim. — Luke afirmou sorrindo.

—Por que diabos você faria isso? — Brooke indagou olhando perplexa para o filho. Mas Elliott apenas deu de ombros.

—Lizzy me desafiou e eu não podia deixar ela ganhar.

—Por que você desafiou o seu irmão a lamber o sorvete do chão? — Brooke perguntou a Lizzy fazendo o olhar de todos voltarem para a garotinha.

—Porque eu sabia que ele era idiota o suficiente para fazer isso. — Lizzy disse como se fosse óbvio. Brooke respirou fundo tentando controlar seus nervos, os risos na sala apenas a irritava ainda mais.

—Você é má. — Danny afirmou olhando sério para Lizzy, mas está apenas deu de ombros sem se importar.

—E assim nasce uma nova Jackie Burkhart. — Donna murmurou para Hyde que riu e afirmou com a cabeça, o legado de sua esposa estaria a salvo graças da Lizzy.

—Onde está Betsy? — Jackie indagou enquanto descia a escada.

—Aqui! — a Kelso falou enquanto entrava na sala pela sala de Red sendo seguida por Fred. Jackie sorriu batendo palmas com uma animação que fazia com que todos se lembrassem da época de líder de torcida da garota. — O que está acontecendo de tão emocionante, tia Jackie?

—Eric está finalmente cumprindo a palavra dele e pagando a aposta. — Jackie disse empurrando os dois adolescentes para a sala. — Steven, está com a câmera? Este vai o nosso novo filme de natal.

—É ridículo admitir que eu estou com medo do que ela está aprontando? — Brooke indagou para Lauren.

—Eu estaria com mais medo se ela não estivesse aprontando. — a loira disse.

Jackie pulou feliz até a mesinha de centro e colocou a fita no aparelho de som portátil. Era muito surpreende como ao invés de ficar irritada ou enjoada como Donna, a gravidez fizera Jackie se sentir ainda mais animada e entusiasmada. Ela parecia brilhar tanto quanto o sol, para Hyde ela parecia o próprio sol, intensa e delirante. Jackie apertou o play e a melodia agitada tocou. Ninguém conseguiu evitar o riso quando Kelso, Fez e Eric desceram a escada usando trajes típicos do grupo Village People. YMCA tocava no som enquanto os três homens adultos dançavam ao ritmo da música. Kitty ria quase histericamente jogando sua cabeça para trás.

—Como diabos você conseguiu fazer com que eles aceitassem isso? — Donna indagou a Jackie, impressionada.

—Donna, acho que a verdadeira pergunta é como diabos o Forman sabe esses passos? — Hyde questionou fazendo o sorriso de Donna murchar por alguns segundos.

—Oh céus. — ela murmurou baixinho.

—It's fun to stay at the Y-M-C-A! — Kelso gritou fazendo cada letra com os braços. Betsy e Fred o acompanharam entrado em sua própria dança. Os mais novos tentavam seguir o exemplos do trio, mas algumas vezes falhavam miseravelmente, isso apenas aumentou a risada de Kitty que se transformou em uma gargalhada espalhafatosa. Jackie, que embora estivesse um tanto emburrada por seus amigos não estarem se sentindo desconfortáveis com aquela brincadeira, também não conseguia conter o riso devido a enorme palhaçada que os três patetas estavam aprontando, Hyde também compartilhava daquela mesma sensação, enquanto Donna, Brooke e Caroline ficavam divididas entre a incredulidade divertida e a perplexidade preocupante ao ver que de fato seus maridos conheciam a letra e os passos muito bem.

Red apenas observou seu filho, que era sempre o motivo de suas melhores gargalhadas, dançar animadamente ao lado dos seus amigos, ele também observou suas outras crianças sentadas na sala trocando sorrisos e risadas. Ele estava ficando velho e com velhice vinha a melancolia, a saudosa saudade do passado. Red não podia negar que era em momentos como aquele, em que sua família estava reunida, que ele percebia que ter deixado os idiotas viverem em seu porão havia sido a decisão certa.

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