Return - Knight Of The Round
2 I Know... You miss him too.
Passei minha folga em um cemitério observando o dia cair. Voltei para casa e tentei esquecer tudo aquilo. Rolei na cama centenas de vezes, até cair no sono por fim.
No dia seguinte, me encontrei em mais um dia cansativo de trabalho. O horário do almoço havia passado rápido e eu estava checando os pedidos no livro preto. Passei o olho pela data de hoje, havia um número mínimo de pedidos para serem entregues ou feitos até amanhã, afinal, minha manhã fora dedicada a isso.
“ Nome do cliente: Kevin Woo.
Quantidadearranjo: Dois arranjos com suporte, copo de leite. Dourado e Branco. – 19872.
Observações: -
Preço: PAGO”
– Preço, pago. – Repeti as palavras para mim revirando os olhos, vesti o avental branco, dando algumas voltas em minha cintura com a fita e um nó apertado na parte de trás. – Sem gorjetas.
– Não reclame! Você tem o seu salário, te pago muito bem. – Gritou meu chefe, Jaejin, enquanto olhava debruçada no balcão branco onde era efetuado os pagamentos. Ele lia um jornal de hoje, provavelmente dos concertos que iriam acontecer nesse final de semana.
– Você poderia me ajudar, não? — Indaguei, logo após subir as escadas. Joguei quatro suportes brancos no chão.
– Ah, você é o funcionário aqui! – Ele me repreendeu – Além do mais, odeio flores!
– Então, por que abriu esse negócio? — Perguntei descendo as escadas e passei a colocar as todas as coisas em cima do balcão. Tesoura, papeis na cor douras e o catálogo de arranjos.
– Tem outro motivo? Todo mundo ama flores! – Ele fez uma pausa, sentou em uma pequena cadeira e tampou sua cara com o jornal que lia. — Mas para tudo há uma exceção, JunHyung!
Entendi que aquele era a deixa para que eu calasse minha boca e trabalhasse como um bom proletariado, o fiz. Jaejin, é um ótimo chefe, já havia separado todas as plantas nas quais eu usaria para fazer os arranjos durante o dia.
No fundo da loja nós tínhamos uma espécie de estufa, com uma claraboia, na qual mantínhamos uma parte das flores, que eram usadas durante o dia, mas na verdade, nunca entendi deito o sistema, nós não recebíamos carregamentos, porém flores nunca faltavam para nós. Segundo Jaejin, era sua mãe-bicho-do-mato, que amava flores e animais e fazia questão de receber todo o carregamento da loja na parte da madrugada, o que era um tanto plausível já que nunca a conheci pessoalmente, mesmo assim Jaejin sempre diz que nunca iria me contratar se não fosse por sua mãe. Meu ego sempre se eleva ao máximo quando penso na circunstancia.
Olhei para fora em uma tentativa falha de ter alguma inspiração para criar algo novo, ao invés de fazer a mesmice o que estava ali catalogado propunha. Respirei fundo ao ver a chuva, estava leve, mas me atrapalharia na hora de ir para casa. Havia uma pequena aglomeração na porta da loja, elas tentavam escapar da chuva. Escutei o barulho do sino da porta tocar, levei meus olhos para ela e lá estava, eu o conhecia, não muito bem mas seu rosto familiar o tornava inesquecível.
O garoto olhou para os dois lados e foi em direção à pequena geladeira – Idéia de Jaejin, apenas para atrair mais cliente, claro – colocou uma pequena garrafa d’agua entre as mãos e logo depois veio em minha direção com um sorriso encantador. Ele reverenciou. Fiz o mesmo.
– Olá, JunHyung, quanto tempo faz, seis meses? — Ele sorriu, os mesmos formatos da arcada dentária de HongKi.
– Sim, seis meses, desde que seu irmão faleceu, Chulyeong. – Disse sério e firme, não me sentia bem em revê-lo por algum motivo.
– YA! É melhor você pagar por isso! – Gritou Jaejin do balcão do fundo, em um tom autoritário, fitando o corpo de Mir por cima do jornal. – Da ultima vez vocês e seus amigos me deram prejuízo.
Vi o rosto de Mir criar um leve tom rosado.
– De-Desculpe. – Ele pigarreou. – Prometo pagar dessa vez.
Ele voltou com o jornal na cara resmungando algumas palavras entre os dentes e Mir, por sua vez, apoiou a garrafa d’água em meu balcão, olhou em meus olhos e por algum motivo vi uma suplicação, algo que talvez não consiga explicar agora, mas ele parecia nervoso, apreensivo, talvez até ansioso.
– Eu te vi ontem no cemitério. – seus lábios se esticaram para um sorriso sem dentes. – Não tive coragem de ir falar com você, mas...
– Para você vir até aqui, parece que tinha algo de importante para falar comigo. – Quebrei nosso contato visual e passei a cortar as pontas os cabos das flores na diagonal.
– Meu irmão... – Ele respirou fundo, parecia ter ensaiado aquela cena. – Deixou algo com você, não deixou?
– Seu irmão deixou muitas coisas comigo. – Sorri falso sem mostrar os dentes, algo dizia para que eu não fosse tão gentil.
– Coisas como cha-chaves? — Ele mordeu o lábio inferior esperando uma resposta positiva, imagino.
Fingi pensar um pouco.
– Sim, um molho de chaves. – Fui sucinto. Implantei uma pequena massa na base branca onde colocaria as flores. Deixei minha mente livre por um tempo.
“Aigo, quando esse idiota vai embora, hein? Não gosto da presença dele aqui, não mesmo! Não é algo saudável. Oh, Oh, novas músicas!” – A voz de Jaejin apareceu baixo, porém eu escutei, eu sorri discreto.
– Apenas Molhos de chave? — Perguntou Inclinando seu corpo para frente para chamar minha atenção, ele levantou suas sobrancelhas.
– Como disse, ele me deixou muitas coisas, não consigo recordar de tudo no momento. — Fiz uma pausa longa e olhei para seus olhos, apesar de apreensivos e ansiosos, não via maldade, talvez só estivesse aflito por sentir saudades de seu irmão. Respirei fundo, relaxando meu corpo. – Quando você quiser ver as coisas que HongKi deixou, pode passar em minha casa. Não me importo.
– Mesmo? — Apareceu um sorriso sincero e entusiasmado em seu rosto. – Quando posso ir?
– Quando quiser. Normalmente saio daqui após o anoitecer. – Indaguei passando minhas mãos para alisar o papel dourado e reluzente sob o balcão.
– Posso ir hoje? – Ele sorriu confiante, colocou sua mão em seu bolso e logo deixou algumas moedas no canto do balcão.
– Até mais tarde. – O reverenciei de forma rápida.
Ele sorriu colocando a garrafa em sua mão, correndo em direção à porta, então sumiu em meio à aglomeração. A chuva havia apertado e a noite estava dando as caras.
– Comia o irmão mais velho, agora quer o irmão mais novo? — Jaejin deixou o jornal de lado e andou em minha direção, colocando um avental idêntico ao meu, ajeitando sua franja caída no olho. – Não gosto dele, só avisando.
– Não quero nada com Chulyeong. – Fiz uma pausa observando o outro colocar a massa no outro arranjo. Rangi meus dentes em pensar em uma hipótese de chegar três centímetros mais perto de Mir. Um arrepio repugnante invadiu minha espinha. – Ele não se parece nada com irmão, nem um pouco.
Nós trabalhamos em silêncio, concentrados em todos os outros pedidos, uma hora ou outra entrava alguém, mas voltávamos nossa atenção aos pedidos, trocávamos comentários sobre os residentes da rua. Trabalhar naquele local era algo agradável na maioria das vezes. Acabei não vendo a hora passar.
O Pequeno Jaejin havia me liberado mais cedo da jornada de trabalho, por culpa de Mir, cheguei a ver o sorriso malicioso formando no canto da boca ao se despedir.
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