Retratos da magia

1 Capítulo 1 - O começo do conhecimento


Acordei com um sacudido leve e com uma voz doce e muito suave, era mamãe. Fui abrindo vagarosamente meus olhos, a luz que saia de minha janela era forte e estava aberta enquanto só se dava para ouvir o barulho de pássaros e do vento que batia no vidro. Me coloquei de pé e espreguicei, minhas costas fizeram um estalo. Da porta eu sentia o cheiro do café da manhã, manteiga, biscoitos de chocolate e com certeza o leite que tinha todo dia. Vi meu reflexo no espelho, meus cabelos longos e ruivos pareciam uma peruca de palhaço fazendo conjunto com todo o resto do meu rosto pálido. Roxa de bolinhas brancas, essa era a imensa camiseta que batia nos meus joelhos enquanto cobria parte do meu corpo, suas mangas batiam em meus cotovelos.

Abri a porta do armário e peguei um par de roupa. Estava lá embaixo, sentada na cadeira de madeira enquanto comia as delicias da mesa. Mamãe estava de costas enquanto cortava cebolas, passando excessivamente o braço nos olhos. O relógio marcava nove horas, hoje era Domingo o que significava ser um dia inteiramente chato e sem graça. Papai passou pela porta com uma chave de fenda, estava totalmente sujo de graxa e seus óculos estavam tão imundos que quase nem se dava para ver seus olhos.

– Michael! Não entre dentro de casa sujo, você sabe disso!

– Desculpe querida mas estou realmente precisando de uma ajudinha — olhou para mim com aqueles olhos azuis — O que acha Rachel?

– E tenho escolha? — me pus de pé, tinha acabado de acordar, não merecia.

Fomos caminhando até a garagem, o latão vermelho e mal cheiroso que tínhamos estava ali desde quando meu avô Charlie tinha dezesseis anos de idade e vovó Pannie aos quinze anos. Me agachei enquanto dava suporte ao meu pai, dando ferramentas e paninhos para limpar a sujeira.

O calor estava insuportável, cada vez mais quente. Dava-se para ver o vapor que subia das ruas, era um imenso inferno claro. Estava transpirando muito.

– Filha, acho que está pronto. Liga o carro por favor.

Entrei no carro e coloquei a chave, girei. O barulho do motor foi alto, só se dava para ouvir aquilo, a luz do carro tomou conta da garagem inteira mesmo com o portão aberto. Papai se levantou e entrou no carro, ficou no banco do motorista. Abri a janela. O latão tinha um odor velho, os pára-brisas estavam marrons e suas borrachas inteiramente desgastadas, os pneus sujos assim como toda a tinta vermelha, ele não tinha uma lanterna traseira e a placa do carro estava com a maioria dos números apagados. Começamos a sair da garagem, ficando na calçada. Sai do carro como o papai fez.

– Filha, pegue um balde e um pano. O resto deixe que eu pego.

– Certo!

Fui atrás do pedido de papai, a prateleira do quartinho estava imunda e cheia de coisas, tinha até roda de bicicleta, minhas bonecas sem olhos e algumas sem pernas e braços estavam ali também, roupinhas de quando eu era bebê. Um reflexo. Voltei minha cabeça, era um livro branco com algum pentagrama verde e preto com várias penas penduradas pelo marca-página, nunca tinha visto aquilo em lugar algum de minha casa, as páginas eram amareladas e tinham aparência envelhecida. Peguei e tirei a enorme massa de poeira que estava sobre a capa, era tanta que espirrei centenas de vezes. O quartinho estava escuro então procurei a lanterna que sempre ficava ali. Ela estava no meio de vários panos imundos e empoeirados. Acendi e me sentei no canto ao lado do resto da minha bicicleta, abri o livro e coloquei a luz clara para poder ler. As escritas foram se aparecendo em luzes acinzentadas, eram um tanto que pequenas mas a ortografia era perfeita como se tivessem sido criadas com o maior cuidado que alguém poderia ter. Fiquei espantada, nenhum livro fazia isto, era impossível. Bom, nem tão impossível assim. Passei um tempo observando os desenhos e as poucas letras que se formavam dentre a página que do amarelo iria se tornando preta e branca.

“ Aqueles que conseguem ver o que não podem, os que sentem o que não existe á uns, os que acreditam...”

Com o tempo que fiquei dentro do quarto, meu pai entrou no quarto, a porta se abriu com tanta força que escondi o livro por traz de minhas costas e joguei a lanterna longe. Olhei para ele constrangida.

– Cadê o balde e o pano?

– Desculpe, papai. Eu só estava...

– Apenas ache e saia desse quarto logo.

Deixei o livro no mesmo lugar, só que desta vez escondido para que ninguém além de mim pudesse achar. O balde e o pano em mãos, a mangueira estava lá fora junto com os produtos de limpeza; começamos a limpar o latão. A água escorria e limpava o imundo, cristalina se tornava marrom. O sol foi se intensificando e a manhã parecia se acabar cada vez mais rápido. Já era dez horas, mamãe estava começando a fazer o almoço e eu sabia pois o cheiro cortava os outros, o mais perfeito aroma que alguém poderia sentir. Eu e papai acabamos de limpar o carro velho que tanto me incomodava. A Sra.Lizzien caminhava com Lilo, seu cachorrinho. Ele rebolava na caçada a cada passo de suas patinhas. Lizzien era gorda, seus cabelos cacheados e loiros eram vistos á quilômetros, usava batons que extravagantes, os brincos eram iguais, ela era uma tremenda perua. Ninguém do bairro gostava dela, além de mesquinha teve a sorte de nascer rica, veio da família mais rica da cidade os Conant. Ouvi histórias de que eles eram os mais temidos de Rexburg e também que se ouviam latidos de cachorros todas as noites de sexta-feira, mas isto não passa de mitos, é claro.

Dentro de casa estava tudo ainda mais insuportável, não só o fervor mas o tédio que era o que mais matava. Me deitei na cama e coloquei uma música. Ao longo da canção ouvi um toque que sinceramente era " O TOQUE" não há como discordar de mim, flautas são demais.Voei até o celular e atendi.

– Alô?

– Rachel, oi! Hoje eu e as meninas iremos para o cinema, vai querer ir junto?

– Ah, oi Katheryn. Que horas irão?

– Ás oito horas, te encontramos lá na frente.

– Mas, que filme iremos assistir?

– Emergindo da luz divina. Tudo bem para você, não é?

– Sim, tudo bem. Estava querendo assirtir este também.

– Hum. Então até mais.

Desligou o telefone. Até que enfim eu iria sair hoje a noite, o que era raro. Katheryn era minha amiga de infância, nos conhecemos quando tínhamos quatro anos e desde então começamos a ser assim, como irmãs. Mas desde uns tempos para cá, ela começou a participar das aulas de Esgrima então por causa dos treinos diários e reuniões que o time de nosso colégio faz deixamos de nos ver como antes. Eu sinto a falta dela mas não posso obrigar ela a deixar de fazer o que gosta, não é mesmo? Quem seria eu para fazer isto?

~.~

Já era sete horas, estava vestida, com uma blusa cinza simples, calça jeans e um All Star que por incrível que pareça eu não sabia se era meu ou de Kate. Corri pelas escadas e na televisão passava Horrores & Pavores, um seriado bem famoso em Rexburg. Mamãe estava com meu pai, em volta dos braços dele em meio da escuridão da sala. Dei um beijo nas bochechas quentes por causa do cobertor que estavam enrrolados e sai pela porta da frente. A rua estava escura e o vento gelado, dias quentes, noites frias. Todas luzes dos postes ali perto estavam meias esquisitas, fracas e algumas até apagadas. Esperei algum certo tempo e vi dois pontos de luz bem longe, parecia ser um carro que foi se aproximando cada vez mais. Comecei a desconfiar, me senti insegura. Parou a minha frente, vidro e lataria inteiramente negros. Tive meu coração disparado por alguns segundos.

– Olá Rachel, entra ai.

Mas era apenas Katheryn, um alívio enorme. Entrei no carro e fomos. Percebi que "as meninas" era apenas um rapaz que provávelmente seria alguém que Kate queria como seu parceiro. As ruas do centro estavam mais alegres do que o normal, os motivos não existiam, apenas estavam. Paramos o carro no estacionamento do Sweetland, a maior loja de doces que alguém poderia imaginar, de todos os tipos, tamanhos e cores. Um dos locais mais visitados aos domingos e também o único lugar aonde faria do seu emprego algo bom, todos os dias os funcionários ganhavam cestas de chocolates e pequenas caixinhas de Creme louco. Um pequeno sininho na porta e todos nos olharam mas desviaram em segundos, afinal tinham ao seu redor coisas melhores para ver. O rapaz que estava com Katheryn, não sei exatamente quem ele era mas não seria uma boa pessoa, há boatos de que ele já foi um marginal que sempre fazia coisas indevidas as noites. O visual punk dele era repugnante, os pirciengs, o cabelo escorrido e enorme com aqueles cortes e raspagens nas laterais, as tatuagens nos braços que eram estranhas e se pareciam mais com símbolos, alto e um pouco magro. Entramos no corredor dos Douradinhos, são palitinhos dourados que a cada mordida tem um gosto, muito bom, vovô quem me deu pela primeira vez. Pegamos um saco cheio deles e mais com alguns outros doces que não vi eles colocarem. Fomos ao caixa e pagamos, entramos no carro e partimos para o cinema.

Entrada lotada, normalmente de domingo era menos movimentado. A fila estava gigantesca e quase virava a esquina, tínhamos que arriscar.

– Rachel, não está afim de tentar pegar algum lugar lá na frente?

– Isto se chama "cortar fila", sabia?

– Ótimo que está ciente, vá então!

O estranho ao lado dela, sorriu maliciosamente como se soubesse que algo de ruim aconteceria. Eu sentia que Katheryn estava apaixonada por ele, era como se alguma coisa me dissesse que aquilo não era amor e sim algum tipo de energia ruim que ao mesmo tempo se tornava boa, parecia exalar dele e dela. Olhei para ela com um ódio mortal, mas mesmo com isso no peito, ela continuava sendo minha amiga e sei o quanto ela queria assistir aquele filme. Sai dali e fui andando ao lado da enorme fila acumulada. Vi um espaço e me coloquei dentre ele o mais rápido possível, eu estava nervosa, minhas mãos soavam como nunca, me encolhia na roupa com medo de sobrar problemas para mim.

– Ei!

Meu coração bateu tão forte, que me pareceu deixar meu sangue junto ao meu corpo inteiramente frio, sem calor algum. Virei com pouca velocidade, já sabendo o que viria. Um garoto, parecia ter minha idade, seus cabelos eram loiros e para cima com um topete selvagem, seu rosto era angelical e seus olhos azuis, como os de um anjo apaixonado. Fiquei parada, sem reação alguma enquanto tudo parecia ter perdido seu som, apenas via sua boca mexendo disparadamente. Me deu alguns empurrões e as pessoas logo foram se afastando, ele gritava como se fosse alguém de autoridade para isto, todos ali presente e até mesmo os mais afastados ouviam sua voz grave. Me empurrou, fui direto para o chão como uma roupa velha que não servira para nada. Lágrimas saiam de meus olhos. Senti sua mão enorme agarrar meu braço me forçando a ficar em pé. Pensei e enfim tomei uma posição.

– Me larga! – com o braço direito, dei-lhe um tapa – Cretino! Você não é ninguém para fazer isto comigo.

– Calada, sua pobre!

Vi o fogo em seus olhos, mas agora os meus também estavam assim, não admito ser um boneco para que qualquer um me espanque ou rele suas mãos em mim. Deu um passo e segurou meus braços, eu me rebatia mas sua força era incrivelmente mais forte que a minha. Me chacoalhou como um brinquedo insignificante. Fiquei zonza, sem ter nenhum reflexo a mais. Percebi por um mero segundo que Katheryn estava ali, parada atrás dele junto com o seu namoradinho que por mais estranho que poderia aparentar, puxou o garoto com uma força inacreditável. Deixei de ser a bonequinha. Agora realmente começou a confusão, o namorado de minha melhor amiga estava espancando o cara que queria fazer o mesmo comigo. Os movimentos eram rápidos e ao meu ver seriam fortes, o rosto estava sangrando enquanto o escravo de Katheryn estava limpo e sem quaisquer arranhão possível. Uma sirene, luzes azuis e vermelhas que piscavam frenéticamente, cortavam a rua como um tiro. Os policiais saíram do carro e logo foram agarrando os dois, junto a mim e a “Senhora culpada”.

~.~

Na delegacia estávamos todos sentados na cadeira, tudo já estava estabilizado. James, o namorado de Katheryn pegou uma pena: limpar o parque Ashbrigs e mais uma conta ao seu bolso de quinhentos reais. Eu não peguei nada assim como a "Que-estava-de-fogo-para-cortar-a-fila".

– Eu sabia que ia acontecer algo ruim...

– Rachel, por favor, não comece.

– Não comece? Olha aonde você fez eu parar! Agora vão ligar para meus pais e estou frita! Vou ficar meses de castigo e tudo isto por causa de um filminho, sei que somos amigas mas eu realmente preferia ter ficado á frente de um caminhão -eu estava sendo muito seca com ela, então fui logo parando, afinal a culpa não foi só dela, foi minha também.

– Desculpa, está certo? Eu só queria assistir o filme e ficar um pouco sozinha com o James.

– Era bem mais fácil pedir ou melhor, não me convidar. Mas enfim, a culpa não foi apenas sua, eu fui na sua também. Agradeço por ter pedido para seu namorado me ajudar, me desculpe também.

Olhei profundamente nos olhos dela e comecei a ver uma luz branca que vinha lá de dentro. Encarei. Katheryn olhou para mim friamente, com cara de quem queria saber o que eu fazia. Fiquei sem graça, mas tinha certeza que era apenas o reflexo.

~.~

Estava em casa, deitada na cama. Meus ouvidos pareciam latejar de tanta dor depois de meu pai e minha mãe dar vários sermões do quanto eles me amam e como Katheryn estava se tornando uma drogada. Realmente Kate estava se tornando algo, mas não uma drogada e sim em alguma criatura que eu não reconhecia mais. Troquei de roupa, ficando com o pijama de pandas que eu tanto amo, são tão fofos.

Já era tarde e meus pais provávelmente já estariam dormindo como anjinhos (é um pouco irônico eu dizer isto, afinal, meu pai ronca). Desci as escadas que em certos degraus fariam rangidos leves e baixos. Minha sala á noite se tornava um pouco medonha, era uma tipíca casa francesa, tinha uma aparência rustica e que ao mesmo tempo ganhava um tom nobre e clássico. Mamãe era uma ótima decoradora, todos da família pediam a ajuda dela. Abri a porta para a garagem com um cuidado imenso. Os grilos do lado de fora faziam um barulho meigo e normal, faziam isto toda noite o que já teria se tornado tranquilo e um som de costume para todos nós de Rexburg,tanto é que a cidade já foi conhecida como "Recanto dos grilos", é um nome besta mas real. A porta do quartinho estava lá, intacta e é claro que estaria assim, é uma porta. Andei vagarosamente até lá e então abri. Os panos e todo o resto estava lá, no mesmo lugar que estavam desde a minha última visita. Remexi e remexi para encontrar o livro que escondi. Estava lá. Segurei firmamente e refiz o percurso, direto para a cama. Olhei no relógio em cima da escrivaninha, marcava meia-noite e meia. Pouco me importei, os mistérios do livro desconhecido era bem melhor do quanto no dia seguinte estarei cansada e com sono. Continuei de onde parei.

"Aqueles que conseguem ver o que não podem, os que sentem o que não existe á uns,os que acreditam em que uns nem imaginam sobre a existência. Os dons ganhos são para que possamos fazer o que nos pedem, não nos tornamos melhores apenas raros, apenas servidores, servidores dos que estão á cima de nós. Variedades e conhecimento pessoal, essas são as palavras-chaves para que saiba o que veio fazer."

Notas finais
Favoritem e comentem, estarei agradecendo á todos que derem suas opiniões sendo elas benéficas ou não. São os comentários que nos motivam. TENHAM UMA BOA LEITURA! ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.