Notas iniciais
DESAFIO DE MAIO TEMA: “VOVÔS CORUJAS” Ser pai/mãe era uma luta diária, ser avó/avô era uma luta ainda maior * ITENS OBRIGATÓRIOS: 01 - o desenho feito pela #Rasqueria tem que aparecer como cena na história. 02 - Chupeta.

Vez ou outra quando desembarcava do metrô no horário do rush, Shino fechava os olhos por alguns segundos e fazia um exercício respiratório para relaxar seu corpo e mais ainda sua mente. O Alpha não se importava com os pedestres apressados que no mesmo horário deixavam o transporte lotado, muitos já estavam habituados a sua figura sinistra uma vez ou duas na semana parada na saída 1 da plataforma 3 do coletivo. Ele realizava aquele ritual, como nomeou a meditação, há quase um ano. Geralmente em dias que se sentia exausto devido às cobranças e pressão no seu ambiente de trabalho. Quando não havia mais resquícios do estresse acumulado o Aburame iniciava a caminhada de cerca de quinze minutos que o levaria até sua casa. O amadurecimento que vinha adquirindo com o passar dos anos o fazia compreender que jamais deveria levar para casa quaisquer sentimentos externos que pudesse interferir na paz e harmonia de seu precioso lar.

Aos vinte e quatro anos o professor ainda estava se adaptando a vida adulta e também às lutas e revezes que eventualmente chegavam com ela Quem o conhecia sabia que não era homem dado a reclamações, principalmente em se tratando de seu ofício O docente amava lecionar e se sentia cada vez mais realizado no exercício do magistério, mas há alguns meses, o Alpha, após passar por um rigoroso processo seletivo, conseguiu sua primeira grande oportunidade na carreira em uma das melhores escolas do país do fogo.

Atualmente Shino estava trabalhando sob a mentoria de Orochimaru, e esse era seu maior desafio. O outro professor era um profissional competentíssimo, mas dono de personalidade dificílima a qual precisava se adaptar. Ao final de suas aulas, ele e o beta realizavam diversas atividades juntos, desde gerenciamento de classes a aconselhamentos e análise dos perfis dos alunos. Uma proximidade que às vezes lhe sugava as forças, porém absolutamente necessária, porquê além de lhe proporcionar um aprendizado ímpar, a recomendação do senpai era a garantia de ter todos os direitos e benefícios de um funcionário registrado, além de ser efetivado na criteriosa instituição de ensino…

— Boa tarde, Shino-sensei!

A bem humorada e conhecida saudação chegou a seus ouvidos quando pisou na calçada de sua casa. Shino estava tão submerso em suas reflexões que só notou onde estava ao ouvir a voz do simpático vizinho.

— Boa tarde, Sarutobi-san. — Devolveu o cumprimento.

Sarutobi Hiruzen era um dos moradores mais antigos e queridos da vizinhança. No auge de seus oitenta e quatro anos, o professor aposentado possuía uma energia invejável para a idade, como demonstrava no momento enquanto cuidava do próprio jardim, um dos mais bonitos da vizinhança por sinal. Chegar àquela idade com tamanha vitalidade e disposição era o maior anseio de um homem que estava longe de completar seus trinta, como era seu o caso.

— Dia difícil, Sensei? — O beta inquiriu ao desligar a mangueira de água com a qual molhava as plantas — O menino Aburame parece cansado.

Embora não fosse homem de sorrisos largos, foi inevitável não sorrir ao ouvir seu vizinho usar sensei e menino na mesma frase. O velho Sarutobi chamava-o de sensei desde garoto, para ser mais exato, desde o dia que o homem lhe perguntou sobre seus planos para a vida adulta e respondeu sem hesitar que seria um professor tão bom quanto o Hiruzen, que foi uma de suas primeiras referências na área educacional.

— Um pouco.

— Esse é o preço que pagamos por crescer, não é mesmo sensei?

Shino achou graça da colocação do Sarutobi. A palavra crescer, usada com extremo carinho naquela frase, lhe pareceu tão ambígua. O idoso poderia estar usando-a tanto no sentido de crescer profissionalmente quanto se tornar adulto. O homem parecia ter lido seus pensamentos até ali.

— Sim, é.

—Mas agora vem a melhor parte. Aquela que dá sentido a tudo. — O homem sorriu. A experiência, dádiva da idade avançada, falando mais alto e deixando claro para Shino o que o idoso queria dizer com aquela máxima. — Tenha um bom descanso, sensei! — O idoso aconselhou, e após prestar continência como faziam os militares, reabriu a mangueira e seguiu regando o jardim.

Shino tinha que concordar com o outro, realmente agora vinha a melhor parte de seu dia, aquela que dava sentido a tudo. Pegar metrô lotado em horários de pico, aturar um mentor arrogante em prol da carreira, fazer o seu melhor para evoluir como profissional e mais ainda como ser humano…

Com um breve aceno Shino agradeceu, e depois de se despedir do outro adentrou o próprio jardim. Deduziu que seu pai ainda não havia chegado do trabalho. Na residência de Shibi, localizada na frente do terreno, não havia indícios da presença do genitor. Continuou seguindo para os fundos do quintal. Seu esposo já devia ter chegado da faculdade e também do estágio que fazia como assistente social no centro comunitário de Konoha. Sora e Himeko também já deviam ter chegado da pré-escola considerando o horário, no entanto…

— Kiba?! — A mente do Alpha ficou em branco ao literalmente tropeçar no esposo. O Ômega estava agachado num canto da varanda de sua casa, sob o peitoril da janela da sala. — O que está fazendo aqui fo… — Shino conseguiu concluir a pergunta, pois ao notá-lo Kiba o puxou pela bainha do sobretudo e o obrigou a se agachar também.

— Shhhh. — Seu esposo colocou o indicador sobre os lábios.

Shino ficou desconcertado e continuou assim até perceber que algo mais urgente acontecia no interior de sua sala entre seu pai e sua sogra.

— Onde estão as chupetas? Se não entregá-las agora não serei piedoso contigo, bruxa velha!

O Aburame arregalou os olhos por trás das lentes escuras. Seu pai havia mesmo elevado a voz para sua sogra? Pior, havia a chamado de bruxa velha?

Sua mente ainda processava a informação quando Tsume deu um passo em direção a Shibi.

— Quem você chamou de bruxa velha, Alpha maldito? — A beta retrucou a altura. Tendo em mente o ódio presente no olhar da Inuzuka e levando em conta seu histórico audaz, ela não levaria aquele desaforo para casa.

Shino não pensou muito. Temendo o enfrentamento entre dois poderosos shifters, preparou-se para ir até o casal, mas foi severamente puxado pelo pulso e impedido de se levantar. O Ômega meneou a cabeça num pedido mudo para que ele não fizesse nada. Sem compreender a interrupção, principalmente por Kiba estar presenciando aquela discussão a mais tempo, o Alpha indagou aos sussurros:

— Kiba, o que deu em você? — Naquele momento ele se deu conta de algo importantíssimo. Onde estão nossos filhos?

Seu companheiro sorriu carinhosamente, deixando-o ainda mais confuso. Devagar o Ômega soltou seu pulso e voltou a atenção para a fervorosa discussão no centro da sala. Ainda incrédulo, Shino imitou o esposo e passou a analisar a cena que se desenrolava adiante…

Dentro da residência, alheios às presenças invasoras de seus pais na varanda, Sora e Himeko estavam bem aquecidos em meio às almofadas e cobertores do Kotatsu. Akamaru estava com eles, cochilando no espaço vago em meio aos dois. Sobre o Kotatsu havia pratinhos com guloseimas, pipoca salgada, canecas contendo chocolates quentes, além das chupetas e mamadeiras dos pequenos. Os gêmeos pareciam tranquilos demais para quem estava testemunhando de camarote os avós quase dando início a quinta guerra ninja. Uma sutil mudança no comportamento de Shibi fez toda a calmaria das crianças em meio aquele caos fazer sentido. O Alpha, após olhar de soslaio para os netos, cessou momentaneamente os xingamentos que lançava sobre Tsume para lhe questionar:

“Como estou indo?” Shibi apenas moveu os lábios.

O patriarca não queria que seus netos ouvissem, afinal estragaria a diversão dos pequenos. Shibi e Tsume estavam há quase uma hora encenando para os netos o conhecido conto infantil chamado: As mamadeiras são das bruxas e as chupetas do Papai Noel. O intuito, além de distrair as crianças até a chegada dos pais, era ajudar os meninos a se desapegar tanto da chupeta quanto da mamadeira que, mesmo sendo esporadicamente, ainda usavam. No entanto, no quesito encenação, Tsume dava de 10 a 0 nele, por isso ele estava tão inseguro.

A beta revirou os olhos, todavia, ela o conhecia bem. Os dois eram amigos de longa data. Se conheceram no colegial, mas só estreitaram laços mesmo depois de ficarem adultos, época que o Alpha se casou e comprou uma casa no quarteirão onde ela morava com a filha mais velha e o segundo marido, na ocasião nem sonhavam que no futuro seriam parentes por afinidade, vê-lo tão desenvolto, a ajudando a distrair os netos até a chegada de Kiba e Shino, era gratificante.

“Bruxa velha? É sério Shibi?! Tá querendo me irritar?” Tsume somente mexeu os lábios também e riu logo em seguida quando o amigo visivelmente envergonhado ajeitou os óculos sobre a ponte do nariz.

— Desculpe-me. — Sem jeito o Alpha pediu baixinho.

A sua frente, Tsume gesticulou dispensando a formalidade:

— Ok, aliás, velho aqui é você. — Debochou, mas apenas o homem ouviu. A mulher gostava de implicar com Shibi. Era uma das poucas pessoas de seu convívio que tinha essa coragem. O Aburame sempre foi um homem muito reservado e ficou ainda mais recluso após a morte da esposa, que faleceu horas depois de dar à luz ao único filho do casal.

— Bem... eu sou o Papai Noel? — Shibi tentou uma piada, mas naquele tom baixo, não convenceu.

— Só siga o fluxo, Aburame, por favor.

A intimidade e amizade entre os vizinhos foi construída e alicerçada em meio as lutas e dificuldades que enfrentaram. Os dois Shifters não costumavam falar muito do passado, mas Shibi sempre seria grato a Tsume e vice-versa. Os dois jamais aprofundaram o assunto, no entanto, ambos se questionavam se não foi a proximidade entre suas famílias a responsável por Kiba e Shino construir o vínculo que os hoje os ligava.

O Aburame jamais esqueceria o dia em que retornou da maternidade somente com as coisas de sua saudosa esposa e o filho recém-nascido em seus braços. O viúvo pensou que encontraria apenas solidão na casa em que vivia com a falecida companheira, entretanto a Inuzuka e a filha mais velha da mulher não deixaram isso acontecer, pois, às duas betas estavam lá por ele e por seu filho.

Com a beta o sentimento de gratidão era igual.

A matriarca jamais esqueceria o apoio incondicional que recebeu de Shibi quando mandou às favas o pai alcoólatra e negligente do filho caçula. Na ocasião, ela se tornou o alvo predileto da maledicência e do julgamento dos vizinhos e muitos ditos amigos, que preferiam ver uma mulher sob jugo de um tirano, que vê-la tendo uma vida digna, livre e independente.

— Vovó, vovô! A gente quer saber o final da história. — Irritado, Sora interrompeu o bate-papo em off dos mais velhos. — Por que 'cês 'tão cochichando?

— É. — Himeko igualmente reclamou — Por que 'tão falando baixinho?

Os vovôs corujas se entreolharam e começaram a rir. Suas risadas ecoaram pelo interior da sala, e eram tão leves e contagiantes que no segundo seguinte Sora e Himeko estavam rindo também, até Akamaru mesmo acordou e entrou no clima, somando seus latidos a algazarra generalizada que havia se estabelecido no interior da casa.

Agora ficaria difícil para os mais velhos retornarem seus respectivos personagens. A história da bruxa bondosa que na Páscoa recolhia mamadeiras e trocava por deliciosos chocolates e do Papai Noel que no Natal pegava chupetas e no lugar devolvia lindos presentes, teria que ser contada outro dia. Inuzuka Tsume e Aburame Shibi haviam perdido totalmente o fio da meada no meio da crise de risos…

De volta a varanda, Shino e Kiba estavam emocionados. Sora e Himeko ainda não tinham maturidade suficiente para entender o quanto eram sortudos, no futuro quem sabe ficaria claro para os dois, como estava claro para o casal que passou minutos escondidos sob o peitoril da janela.

Tsume e Shibi eram Shifters incríveis. Tudo que tiveram que enfrentar para criar e educar os filhos sozinhos, talvez tenha lhes conferido, severidade e estoicidade com o passar dos anos. Roubando deles a leveza que deveria haver na paternidade, leveza esta que naquele instante Alpha e beta emanavam naturalmente ao brincar com os netos.

— Marido. — Kiba chamou baixinho. Sua voz estava embargada e os olhos demasiadamente marejados. — Que tal se fossemos comer uma pizza, creio que nossos pais não irão se importar de ficar mais uma hora com as crianças?

O Ômega sugeriu e Shino prontamente aceitou o convite, ambos conscientes do quanto invadiram a intimidade de seus pais. Shibi e Tsume não estariam tão nus se soubessem que o casal estava a lhes observar. Aquele privilégio devia ser reservado apenas àquelas duas criaturinhas abençoadas que estavam se acabando de tanto rir junto com os melhores avôs do mundo...

UMA SEMANA DEPOIS.

Foi tomado pela ansiedade que Kiba parou diante da pré-escola dos filhos, Shino já o aguardava no portão. O carro de aplicativo que o levaria até o local havia enguiçado há alguma quadra dali obrigando-o a percorrer o restante do percurso a pé, por isso ele estava ofegante.

— A escola também ligou pra você, Shino?

— Ligou.

Diante da resposta do marido Kiba ficou ainda mais ansioso:

— Ó! Será que a situação é mais grave do que pensei. Será que foi um acidente com os meninos? Eles são tão indefesos. Será que nossos filhos… Ah não! Será que Sora e Himeko estão feridos?

Kiba colocou as mãos na cabeça após tantos “serás” que se passaram por ela. Ao contrário de Shino, que já havia apelado para o vínculo com os filhotes e constatado que eles estavam bem, o Ômega estava no escuro. Para acalma-lo o Alpha segurou com firmeza seus ombros o obrigando a respirar mais devagar.

— Kiba, vamos entrar primeiro. Lá dentro ficamos sabendo o que aconteceu.

O casal entrou na instituição e foi direto para a sala de Umino Iruka, o psicólogo que prestava serviço na unidade. Através da divisória de vidro, Shino e Kiba viram que Sora e Himeko estavam com o Ômega. O shifter ao vê-los sinalizou para que entrassem e se sentassem nas cadeiras à disposição no recinto. Como não havia notado a presença dos pais, o gêmeo mais velho continuou explicando ao sensei o que o psicólogo havia lhe perguntado antes de seus pais chegarem.

— Sim, tinha que ser um montão de chupetas assim ó! — O pequeno Ômega abriu os braços gesticulando com as mãos a quantidade de peças que precisaria juntar.

— E mamadeiras também. — A gêmea mais nova concluiu a fala do irmão.

Iruka fechou o punho e o levou aos lábios, e para disfarçar o riso iminente pigarreou. Ao olhar de soslaio para Shino e Kiba pegou as mochilas das duas crianças que estavam sobre sua mesa, em seguida as abriu, por conseguinte foi colocando uma a uma todas as chupetas e mamadeiras que o casal de gêmeos haviam angariador com alguns amiguinhos de sua classe, e das classes vizinhas.

Iruka respirou fundo para não cair na gargalhada.

A explicação sobre a atitude dos gêmeos de pegar as chupetas e mamadeiras dos coleguinhas não ter sido muito legal, o psicólogo deixaria a cargo dos pais, e principalmente dos avôs das duas crianças, por ora ele apenas aceitaria a triste missão de achar os donos de cada uma daquelas peças para explicar carinhosamente aos pequenos que os chocolates e presentes que todos eles esperavam ansiosos só seriam entregues dali há alguns meses, provavelmente na Páscoa e no Natal.



Notas finais
Lembrando a todos que a história não esta sendo betada. Espero que tenham gostado do capítulo.