Retalhos
15 Capítulo XV
Notas iniciais
RETALHOS
Escrita por Coffee
Onde posso encontrar um coração sem uma única cicatriz? Aqua Timez
CAPÍTULO XV
— Sasuke?
Ela disse incerta, ao abrir a porta, olhando-o com aqueles enormes olhos verdes que pareciam penetrar a sua alma.
— Precisamos conversar.
Foi tudo o que conseguiu dizer, ela olhou-o em duvida, pensou pelo o que pareceu um par de segundos, e depois – finalmente – deu espaço para ele entrasse.
— Estou cozinhando.
Ela disse ácida como se deixasse claro que ele estava atrapalhando.
Andou até a cozinha, sentando-se em uma das cadeiras azuis. Ela o olhou – pela milésima vez – com uma das sobrancelhas arqueadas.
Ele podia jurar que aquilo era um hábito que ela pegara com ele.
De pé, com os braços cruzados, encarando-o como se ele fosse um monstro – talvez realmente fosse – ela permaneceu, até que ele tomou coragem para dizer.
— Eu tenho medo de te machucar.
Os ombros dela caíram no exato momento que as mãos e os braços caíram ao lado do corpo, mas ela permaneceu calada.
— Sinto que caso me aproxime, te machucarei.
— Você já me machucou.
Ela lembrou. Embora soubesse que ela estava falando que ele a machucou sentimentalmente, a imagem dele tentando matá-la veio em sua mente instantaneamente e ele também ficou em silêncio alguns minutos.
— Me desculpe.
Foi o que saiu.
Ele viu os olhos dela se arregalarem, e ela passar o peso de uma perna para outra, incomoda.
— Por tudo. Desculpe-me. Por ter tentado te matar...
Ela não respondeu.
— Meu objetivo sempre foi ficar longe de vocês, Naruto, Kakashi, você... Para mantê-los a salvo, protegidos, mas acabei pecando no momento em que voltei. Eu me envolvi com você.
— Foi sexo.
Ela disse.
— Eu me envolvi – Repetiu – E eu fingi que não, fiquei com outras porque eu não mereço isso. Você não merece isso.
— Acho que eu sou grande o suficiente para saber o que eu mereço ou não.
— Sakura, você nunca mereceu nem merece carregar esse fardo que sou eu.
Ele percebeu que ela lutava contra a vontade de chorar.
Mesmo que não quisesse admitir, ele também.
— Quando vai perceber que eu não me importo? – Ela disse, as mãos voando incertas pelo ar, a voz quebrantada, as lágrimas finalmente caindo.
— Sak-
— Eu nunca me importei se você tem fantasmas demais ao seu redor. Aliás, eu sempre soube que tinha, e eu nunca me importei, porque eu o amo, sempre amei, do exato jeito que você é, bonito, vingativo e estúpido.
Uma das mãos delas foram de encontro ao rosto secando suas próprias lagrimas.
— Você não pode nos proteger de tudo, você precisa perder essa pose de eu-sou-foda-e-cuido-de-todos e admitir que você precisa de ajuda também! Você precisa de proteção também! Você precisa se permitir Sasuke, permitir sentir, permitir ser feliz, permitir amar.
Sakura-chan tem alguma disfunção.
Oh! Ela realmente tinha, e ele não podia deixar de se sentir mais grato.
Depois de alguns segundos, com ela secando as próprias lagrimas, e após correr desligar o quer que estivesse no fogão, ele chamou.
— Sakura?
Ela demorou algum tempo para tirar sua comida – já queimada – do fogão e deixar sobre a pia.
— Sim?
— Eu preciso de ajuda.
Ele ouviu uma tampa de panela caindo, mãos voando pelo ar, e depois um olhar sobre si, pela primeira vez ele não soube dizer o que havia nele.
— Você... Ajuda?
— Preciso de ajuda – Confirmou – Da sua ajuda – Completou.
As lágrimas dela vieram novamente.
Seus ombros, pela primeira vez desde o massacre, estavam leves.
Ele sorriu.
TRÊS MESES
Era seu aniversário.
Não era nada especial, talvez, mais tarde ela passasse na padaria do senhor Tomiro, pegasse um bolo de chocolate e convidasse seus amigos para irem ao Ichiraku, sabendo que Naruto – após comer cerca de doze ou treze tigelas de ramén – comeria também metade do seu bolo.
Ela levantou da cama, trocou-se e se preparou para mais um dia no hospital. Quando estava prestes a sair do seu apartamento, a campainha tocou.
Mesmo sem abrir a porta sabia muito bem quem estava do lado de fora.
— Bom dia.
Disse ao abrir a porta.
Ele não respondeu, apenas estendeu em sua frente uma katana grande, e muito bem polida, com o cabo talhado com flores e arabescos e duas flores penduradas por uma linha trançada manualmente.
— Parabéns.
Foi o que ele disse, ela olhou-o e depois pegou a arma de sua mão, andando com ela até o sofá e sentando-se com ela sobre o colo.
Ela como ninja – e também admiradora de boas armas – observou o corte fino, sabia que um arranhão daquilo poderia causar um belo estrago.
— É maravilhosa... Obrigada.
Foi o que ela conseguiu dizer, maravilhada girando a arma pelo cabo.
Depois de alguns minutos admirando foi que percebeu. Pequeno, talhado no próprio metal perto do cabo o símbolo do clã Uchiha.
Era uma arma do clã dele.
Uma arma do arsenal Uchiha.
Ela sorriu, não refletiu muito sobre o que aquilo poderia significar, pelo menos por enquanto.
— Preciso de aulas, eu não sei usar espadas.
Foi o que disse. Ele sorriu minimamente olhando para ela.
— Mas eu sei.
[...]
Quando chegou a sua sala no hospital, um pouco atrasada havia duas caixas em cima da mesa. Uma laranja, que deixava bem claro de quem era, e uma floral com tons pastel.
Ela abriu a laranja. Havia um lingerie vermelho-sangue, curto e provocante, e um cartão branco com letras garranchadas.
“Sakura-chan, sei que está deixando o teme na seca para ter certeza que ele não quer só sexo. Queria dizer que ele anda mais mal humorado que o normal, e me batendo mais que o normal, por isso deixo esse presente, quebre esse ganho pra mim, Sakura-chan! Feliz aniversário, toda felicidade do mundo, porque você merece ser muito feliz.
Do seu melhor amigo, mais bonito e inteligente de toda Konoha, que te ama, Naruto.”
Ela riu, mesmo querendo batê-lo e partiu para a outra caixa.
Na outra caixa havia um sapato, rosa claro, com pedras na frente, tão delicado que ela ficou algum tempo imaginando quem a mandaria algo assim.
Pegou o bilhete.
“Esse sapato vai deixar suas pernas mais longas do que já são (sempre tive inveja delas), um par de sapatos não é o suficiente para agradecer o que fez por mim, obrigada por ter beijado Suigetsu aquele dia e me feito entender – mesmo que eu não tenha compreendido na hora – que era do afeto dele que eu precisava.
Com carinho e gratidão, Karin.”
Ela sorriu, algumas lágrimas pingaram sobre a caixa, e ela ficou ali em pé, absorvendo aquilo tudo.
Eu sou quem agradeço.
Foi o que pensou.
Todos vocês.
[...]
O presente de Tsunade na verdade não era um presente para ela. Era um kit sakê, que ela sabia que naquela noite mesmo, quando fossem ao Ichiraku a Hogake roubaria.
Ela estava prestes a agradecer, quando ela a chamou.
— Sakura?
— Sim?
— Hinata e Naruto vieram hoje dar entrada a papelada para passar a criança para o nome de Hinata logo que nascer.
Ela sorriu.
— Vi Karin e Suigetsu saindo de um restaurante ontem à noite.
Onde ela queria chegar?
— O que Sasuke te deu de presente?
— Uma katana... Do clã.
— Estou orgulhosa.
— Como?
— Há meses atrás eu os uni com o propósito de uma missão para que pudessem interagir e lidar com seus sentimentos, coisa que vocês não sabiam fazer.
Ela trocou o peso das pernas, pensando em tudo que acontecera.
— Agora sabem. Estou muito feliz que tenham conseguido alcançar a felicidade. Ou que pelo menos estejam tão perto dela.
— Estou feliz também, shishou.
Quando seu virou para sair, a loira a chamou de novo.
— Sakura?
— Hum?
— Sabe por que eu aceitei ser sua mentora?
— Não.
Ela respondeu, sem nem ao menos pensar, aquilo sempre fora uma duvida que a corroia, mas que nunca tivera coragem de perguntar.
— Porque quando você entrou no meu escritório, desesperada e chorando, apesar de toda aquela... Desilusão, sabe o que eu vi nesses seus enormes olhos verdes?
Balançou a cabeça negativamente.
— Eu vi esperança. E eu sabia que aquela esperança iria ser o guia para a determinação, para o esforço, para a evolução.
Sorriu. Seu coração batia rápido.
— Você nunca desistiu Sakura, embora tenha pensado que sim, pode ter desistido por um momento, de uma coisa ou outra, mas nunca desistiu completamente, nem do seu amor, nem de seus amigos, nem de si própria.
— Eu... Obrigada shishou, é uma hon-
— Eu jamais poderia ter escolhido melhor discípula. Eu nunca me arrependi de ter dito sim para aquela criança chorosa que queria mudar seu destino.
A loira andou até, abraçando-a forte.
— Obrigada shishou. Obrigada.
Ali, nos braços de Tsunade, feliz por seus amigos, feliz por Sasuke estar – aos poucos – abandonando seus pesadelos e feliz pelas palavras de Tsunade ela se permitiu chorar.
Dessa vez, dentro de muito tempo, não era de tristeza nem amargura.
Era de felicidade.
Era de esperança.
Era de recomeço.
Era de amor.
Feito uma colcha feita com restos de tecidos, retalhos, eles haviam se remendado. Um a um. Linha por linha. E se costurado ao lado de quem amavam.

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