Ressurreição - O julgamento final 2
14 Capítulo 14 - Mais uma vez caçando
Notas iniciais
Pov – Daryl
Carl acaba separado de mim, Amy e eu precisamos sair muito da rota que pretendia, o som de explosões e tiros atiçou os zumbis, eles estão cada dia mais caquéticos, maltrapilhos e assustadores, peles despencando, membros faltando, mas continuam demoníacos, não posso imaginar minha esquilinha enfrentando todos eles, ou Carl fazendo isso sozinho.
─Ele não vai voltar para casa não é? Carl vai ficar por aí sozinho! – Amy diz caminhando ao meu lado, a respiração pesada por conta do cansaço físico.
─Sem ter certeza eu duvido que volte, por isso não podemos parar, estamos agora muito mais longe do que estávamos antes, talvez ele tenha tido mais sorte e não tenha se desviado tanto do caminho.
Seguimos lado a lado como sempre foi, eu e minha mulher, penso em Max, meu menino sozinho a nossa espera, nos perigos que Rick pode estar enfrentando agora, se a fábrica, nossa casa, está segura.
Volto para dentro de mim, me perguntando o que foi que eu fiz de errado para minha cara de esquilo se enfiar numa missão suicida como aquela, sem nem ao menos me procurar para pedir ajuda.
Paro de caminhar e faço Amy parar ao meu lado, ela me olha tensa, presto atenção no ambiente, me abaixo afastando algumas folhas, a matilha de lobos esteve por aqui, eles andaram nos dando trabalho nos últimos meses, roubando nossa caça, e nos colocando em alerta, sair sozinho não é mais seguro desde que se estabeleceram em nossa região.
─Zumbis? – Amy me pergunta.
─Lobos! – Aviso, depois faço sinal para Amy e mudamos mais uma vez nosso caminho, mesmo armados somos presas fáceis para uma matilha.
─Minha menininha! – Amy diz num desabafo de angustia.
─Ela saberia reconhecer pegadas de lobos, ensinei Angel, nós dois ensinamos tudo a ela.
Amy me olha, sorri de modo triste, depois entrelaça nossas mãos, me dá força, ninguém mais do que ela sabe como me sinto agora, morrendo por dentro, minha cara de esquilo está perdida, Carl está sozinho e Max não está conosco, nunca aconteceu.
Quando a noite cai a escuridão domina também minha alma, fico mudo, me sinto carregando um mundo de dor nas costas, é pesado demais para mim, sinto medo de não encontra-la, medo de encontrar e ser tarde, tanto medo que o ar chega a me faltar.
─Carl pode estar com ela agora, e os outros, eles podem mesmo já estar em casa, nos esperando, não faz isso, não perde mais uma vez as esperanças.
─Me pergunto porque ela fez isso, não confiou em mim, teve medo, é isso? Achou que eu...
─Não Daryl! – Amy me faz parar, me encara firme, os olhos tão cheios de força que me dominam por completo, me prendem – Angel ama você, mais do que qualquer outra pessoa, ela sabe quem você é e confia no seu amor, está a sua espera onde quer que esteja, não acha que a deixou, que faria de novo, Angel fez o que fez porque é jovem e por isso inconsequente, como todos os jovens, como eu ou você fomos um dia, com ou sem fim do mundo as coisas não mudam quando se tem dezoito anos acha que pode vencer tudo.
─Ela é forte não é? E o Carl também, Rick... Como posso voltar sem ele?
─Nesse caso vamos encontra-los e pronto, não é tempo de desespero, da outra vez... quando a prisão caiu, tem ideia de que podíamos nunca ter nos encontrado, mas encontramos, se aquilo foi um milagre vai acontecer de novo.
─Você é admirável Amy, nunca teria ido tão longe sem você! – Ela sorri, me abraça, me passa toda sua energia, depois seguimos caminhando, quando finalmente chegamos a estrada a noite perdia sua força e a luz do dia começava a surgir.
Onde minha cara de esquilo passou aquela noite? Como se virou?
─Vamos seguir pela estrada até encontrarmos as marcas dos cavalos, assim entramos na cidade no mesmo ponto que eles entraram e então podemos ter uma ideia do que aconteceu.
─E se pegaram a estrada e seguiram para casa? – Amy me pergunta enquanto caminhávamos.
─Acho que Angel não faria isso, eles estavam sendo perseguidos, ela teria medo de levar os bandidos em nossa direção, ela pegaria a cidade, e depois de um tempo seguiria para lá por outro caminho.
─E o Carl?
─Fez o mesmo que estamos fazendo, ou vai fazer.
Ela afirma seguindo ao meu lado, uns minutos depois quando já era manhã acho o rastro dos cavalos, ainda eram quatro, fico aliviado.
─Aqui Amy, vem, eles entraram para a cidade como achei que fariam, vamos com calma, não sabemos como está.
Entramos por uma rua larga, alguns prédios, lojas, um zumbi caminhando para nós, outro muito mais a frente, vamos seguindo em frente, chega de desvios, acerto uma flecha no zumbi, recolho e armo a besta mais uma vez para pegar o próximo, espero que chegue perto e o acerto a três metros.
Um zumbi preso a rodas de um carro velho se move, ergue as mãos, geme, mas vamos seguindo em frente, apenas ignorando aquela coisa imunda.
Amo minha esquilinha, meus filhos e Amy são meu motivo de viver, não suporto não saber, não suporto não controlar, achei que nunca mais precisaria caçar minha filha, mas aqui estou eu mais uma vez, tentando convencer Deus a me dar mais uma chance.
─OH Deus! – Amy diz se apoiando em meu braço, parece perder as forças, acompanho seu olhar, no quarteirão seguinte um zumbi se debruçava sobre um cavalo, o show de horror a nossa frente é Dantesco e me paralisa um instante, mas arrumo forças, sigo caminhando com Amy ao meu lado, se for Ringo Star meu mundo vai se fechar num inferno sem fim.
Quando estamos perto Amy se solta de mim, pega sua faca e caminha em direção ao zumbi, acerta sua cabeça descontando toda sua frustação, ele pende e então tomamos folego para entender a cena.
─Não é o Ringo Star! – Aviso quase aliviado, ao lado do cavalo uma mochila, dentro dela armas e então um olhar mais atento eu o vejo, Redan, está ali, quase totalmente devorado, Amy se afasta um pouco, tremula e pálida, me dá as costas e vomita, meu coração se contrai, ela não me deixou, não, minha cara de esquilo é mais esperta que aquilo, sempre foi, sabe fugir de zumbis, se esconder deles, ela não caiu.
Ergo a mochila, eles não têm muitas armas com eles, se é que tem alguma, mas ao menos uma faca e uma pistola no coldre ela tem.
─Vamos! – Toco as costas de Amy, ela me abraça chorando, a fortaleza se quebrando e me obrigando a me erguer, vou achar minha filha e leva-la para casa.
─Daryl... – Ela soluça, fraqueja e a faço ficar de pé, obrigo Amy a olhar para mim.
─É o Redan ali, não Angel, pare com isso, vou levar minha filha para casa!
Ela afirma, respira fundo e volto a olhar a cena, quero entender o que afinal aconteceu, a carcaça do cavalo e os restos de Redan estão no centro da rua, ele estava na frente, foi atacado antes, caminho mais para traz buscando entender o que eles fizeram, tem alguns zumbis caídos, abatidos a tiros e facas, foi um momento tenso e assustador, espero que Amy não consiga enxergar o que eu vejo agora.
─Um rastro claro de sangue! – Aponto e ela volta a chorar, mas agora estou no modo caçador, cem por cento concentrado e não tem nada que me desvie, sigo o caminho até uma escada de incêndio – Subiram! – Aviso pisando no primeiro degrau, ela me olha em seu desespero, só tem um jeito de saber, vou na frente e Amy me segue, lá em cima mais um corpo, Connor, meu coração dói, aquilo matou um pouco a alegria da minha esquilinha.
Amy tem outra crise de choro, o garoto teve duas mordidas, e tem um tiro na testa, foi ela, minha filha crescendo sozinha.
─Ela esperou as coisas se acalmarem e então partiu!
─Sozinha? Com Vickie? – Amy me pergunta – E os cavalos?
─Não sei, pode ter apenas deixado que fossem embora, pode ter caído, um mundo de coisas, ela decidiu pela floresta, sabe que eu a acharia mais fácil lá.
─Vamos amor! – Amy vai na frente, desce apressada, chuta a cabeça de um zumbi que nos esperava no fim da escada, acerta sua faca e nos colocamos a caminhar.
─Será que ela pensaria num carro?
─Dez anos depois se conseguisse um funcionando seria como mágica.
─Tem razão! – Viro a direita, Amy me olha – O que está fazendo?
─Zumbis meu amor, eles atiraram, gritaram, as coisas ficaram complicadas e quando as coisas complicam você nunca segue em frente, sempre tem que virar, mudar de caminho, as coisas nunca são como queremos, aposto como tiveram que mudar de ideia.
Amy não diz nada, eu deixo meus instintos me guiarem, tem dois zumbis caminhando em nossa direção, armo mais uma vez a besta, Amy apressa o passo, eu a detenho.
─Chega de fúria! – Ela apenas aceita e acerto minha flecha, pego de volta e o outro simplesmente desiste de nós, muda de direção, algo está mais perto e interessante para ele, noto isso e me preparo e quando ele cai com uma de minhas flechas lá está ela, minha linda e solitária cara de esquilo com um pequeno machado erguido na mão.
Chorando silenciosa ela corre para nós, Amy a aperta nos abraçamos os três juntos, sinto seu cheiro de criança, a minha criança crescida, ela soluça assustada.
─Pai...
─Eu sei esquilinha, fica calma! ─ É meu mundo se reconstruindo.
─Carl, ele... ele me encontrou, estávamos indo embora, os caras... dois, ele levou um tiro! – Ela soluça, me faz perder um pouco o rumo – Na perna, tem muito sangue, tinha... fechei, fiz um torniquete, o posto médico... – Ela aponta um posto a nossa frente – O Posto pai, me ajuda, me ajuda!
─Onde deixou ele?
─Numa casa, um quarteirão, preciso de algo para ele, mãe! – Ela nos suplica, olha de um para outro em completo desespero – Ele não pode morrer!
─Vamos buscar o que precisa e depois atender o Carl, mas agora precisa ficar forte! – Ela me abraça mais uma vez.
─Eu vou, prometo!
─Os tiros, foi há muito tempo?
─Tem uns zumbis, mas dei a volta, acho que já dispersaram mais uma vez.
─Ótimo!
O posto está com os vidros e portas arrebentados, anos de tentativa de saque, não encontramos muito, mas também não é difícil achar bandagens, uns vidros de remédios pelo chão, iodo, recolhemos e deixamos o lugar.
Os zumbis começam a aparecer e apenas nos apressamos em fugir, Angel nos guia até o lugar que deixou Carl, olho para janela por que passou, uma esquilinha muito cheia de ideias.
─Vou na frente! – Aviso com medo do que posso encontrar do outro lado.
─Ele está vivo pai, não diz essas coisas, Carl é meu amor.
─Só fica com sua mãe protegendo tudo, qualquer coisa, pulem para dentro.
Pego a mochila com as armas e agora os remédios e bandagens e salto.
─Daryl? – Carl está pálido, encostado na parede, me aproximo apressado, puxo minha faca – Foi um tiro, não uma mordida, cadê a Angel?
─Calma, ela está lá fora, temos que ser rápidos, não vou cortar sua perna, só a calça e fechar bem isso para irmos para casa.
─Certo, encontrei ela, amo a Angel, Daryl, eu não ligo de morrer por ela, mas se puder viver acho que seria boa ideia, nós ainda não...
─Cala a boca Carl antes que mude de ideia e corte sua perna! – Ele ri, meio grogue, prendo o máximo que posso o ferimento, sangrar não vai, entrego uns comprimidos para ele – Toma isso.
─O que é?
─Não tenho ideia, mas já deve ter perdido a validade há anos, não vai te matar!
Ele engole e o ajudo a se erguer, encontro uma garrafa de agua na mochila, ele dá uns goles e seguimos para a janela.
─Acho que vou morar aqui, é muito alto!
─Vai garoto, elas estão do lado de fora, temos que ir!
Ele demora uns bons minutos tentando passar até que perco a paciência e o empurro para o outro lado, quando subo Angel e Amy estavam debaixo dele e os três se erguiam, paspalho! Eu penso saltando.
Amy pega a pistola, com Carl naquele estado tendo que se apoiar em mim e em Angel vamos levar uma semana para chegar em casa.
─Bebe água amor para repor o que perdeu de sangue! – Angel diz enquanto saímos da cidade e pegávamos a estrada em direção a fábrica.
─Você disse que chamar de amor era brega! – Ele resmunga.
─Puxa, acha isso filha? – Amy questiona.
─Não mãe, não acho mais.
Uma hora depois Carl parecia em melhor estado, seguimos em frente, de vez em quando parando para ele descansar um pouco, respirar, Angel agora completamente silenciosa.
Escuto o ronco de um motor, Eu e Amy ficamos à frente de Carl e Angel que o apoia, as armas erguidas e então reconheço um dos nossos carros que para diante de nós e Rick desce para meu alivio.
─Graças a Deus! – Ele abraça o filho, depois Angel – O que foi isso?
─Tiro pai, dois deles seguiram Angel.
─Vamos! – Rick toca meu ombro, estamos sempre às voltas com esses dois, aquilo não acaba nunca.
Sento na frente com Rick, Amy, Carl e Angel vão atrás, ele se encosta no ombro dela, está pálido, mas melhor do que quando o encontramos.
─Como foi? – Pergunto a Rick.
─Pegamos eles, não deixamos nenhum para trás, mas a comunidade acabou, só restou Elliot, nada mais, ninguém mais.
─Acha que estamos seguros agora?
─Eram um bom número, não acho que restou alguém a espera deles, alguém para nos caçar, acabou mesmo.
─E os nossos Rick? – tenho medo da resposta, mas ele sorri.
─Dessa vez não perdemos ninguém, quer dizer... – vejo seus olhos seguirem para o retrovisor, olho para trás e Angel chorava mais uma vez – Está tudo bem Angel, estão todos desesperados a sua espera, não chore! – Rick diz a ela e só posso agradecer com os olhos todo aquele carinho, ele acelera mais – Michonne está no portão com a espada, se não correr aquela mulher maluca sai para caçar esses dois.
─Eu não pretendia começar nada, só... eles me pediram ajuda para deixar a fábrica e chegar até lá, eu juntei umas armas e uns cavalos – Ela soluça e sei que é pela perda de Ringo Star – Ia deixá-los lá e voltar com o... com o Connor, ele queria impressionar o Redan, mas quando chegamos estavam saindo com reféns, pareciam querer ir em direção a fábrica, começamos tudo e não entendi bem até ser tarde.
─Acabou Angel, com ou sem a gente eles teriam matado todos eles, e se não tivéssemos ido ao encontro deles teriam chegado a fábrica e tudo estaria pior.
Rick diz e então Carl se ajeita mais, estamos perto.
Quando o portão se abre tem um bom número de pessoas a nossa espera, mas só me interessa meu filho, Max corre para nós chorando, pego meu filho no colo, ele soluça, me aperta enquanto Amy o beijava e acariciava seus cabelos.
─Pronto filho, estamos bem, chegamos todos! – Vejo Taylor ajudar Rick com Carl e Beth abraçar Angel aos prantos.
─Meu anjinho! – Beth soluçava, afasto um pouco meu filho, para ver se Beth está bem, grávida de seis meses e todo aquele susto – Quando o Marley e o Ringo Star chegaram aqui sozinhos Deus Angel, achei... – Ela a aperta mais.
─Ringo Star? Ele está aqui? – Angel olha para ela perplexa.
─Sim, querida, Rick não disse? Aquilo nos apavorou tanto que ele pegou o carro e saiu.
Elas se abraçam de novo chorando, puxo Amy para meus braços, ela se encosta em mim, sorri por entre as lágrimas.
Tyler e Maggie abraçam Angel, depois entramos todos para ver Carl, Angel fica segurando a mão dele enquanto o médico sutura o ferimento.
Max no meu colo, os braços me prendendo pelo pescoço, soluça de vez em quando, então Rosita se aproxima, parece meio triste.
─Max! – Ele olha para ela que segura sua mão – Está mais calmo que o papai e a mamãe voltaram?
─Sim, e a Angel também, ela tem a maior cara de esquilo! – Ele me faz sorrir.
─Tem mesmo, agora acha que pode vir comigo um pouquinho ver o Elliot, ele está tristinho e você e a Judy podiam brincar um pouco com ele.
─Posso pai?
─Claro filho! – Eu o beijo e o coloco no chão – O garotinho está muito triste?
─Muito, está com o Eugene, a Judy foi correndo até lá.
─Se precisar de algo... – Ela afirma segurando a mão de Max, ele me olha, depois olha para a mãe.
─Vem junto mãe? – Ela me beija de leve.
─Vou! – Olha antes para Angel que segurava a mão de Carl e secava lágrimas sem fim, ela beija a testa da filha e parte com Rosita e Max.
─Não foi nada demais, Carl não vai morrer, perder a perna, nada, no máximo uma cicatriz, mais uma, depois de tudo não conheço ninguém que não carregue marcas.
Taylor se levanta, Carl está sonolento, se deita imediatamente, estico os comprimidos para o doutor.
─Dei três desses para ele! – Aviso, ele ri.
─Deu três pílulas de farinha, isso serve no máximo para uma dor de estômago, perderam a validade há anos, mas é ainda um bom placebo! – Ele diz baixo – Angel deixa seu namorado dormir, ele está bem.
─Pai vou ficar com ele até o Carl dormir.
Afirmo, saímos todos e decido me sentar um pouco no telhado, a cabeça cheia de pensamentos confusos, o dia chegando mais uma vez ao fim.
Eles estão em casa, meus filhos, minha mulher, meus amigos, todos bem, suspiro aliviado, Connor me vem à mente, era um bom rapaz, sinto pena, penso no que minha esquilinha passou e um cansaço me domina, será que nunca vai acabar?
─Pai! – Angel se senta ao meu lado, se encosta em mim – Ele dormiu, vim ficar um pouco com você, depois vou ver o Ringo Star.
─Prioridades! – Brinco, ela me beija o rosto – Está bem?
─Não, perdi o Connor – Os olhos dela marejam – Pai eu me despedi dele, Connor não estava com medo, e eu fico pensando que se fosse o contrário...
Sinto um arrepio só de pensar, abraço minha filha.
─Vai ter que superar esquilinha.
─Ele disse que o salvei, que era seu pedacinho de sonho, eu amava o Connor! – Ela chora, acho que pela primeira vez pode chorar de verdade, sentir a perda.
─Ninguém vence o apocalipse filha, perdemos todos, não se pode passar ileso, é preciso agradecer os que ficaram, e guardar a dor dos que partiram.
─Não é a primeira vez que alguém que amo morre, perdemos muitos, mas é a primeira vez que essa morte me atinge, me dá clareza, acho que antes eu não entendia, ou fingia.
─Mas se ele partiu bem, então...
─Queria que ele tivesse se revoltado, lutado mesmo sabendo que iria perder, não aguento quando alguém desiste, tenho tanta sede pela vida, quero tanto vencer tudo isso! – Ela aponta o mundo a nossa volta – Se estivesse no lugar dele a morte teria que me levar na marra, depois de muita luta.
─Bom Saber! – Beijo seus cabelos – É só o que quero.
─Entendi muitas coisas, me arrependi de ter feito, não calculei o quando estava em risco, perdão pai, foi uma grande lição.
─Está tudo bem, estou feliz por estar aqui, por todos nós, sua mãe, seu irmão e você comigo, mais eu não preciso.
─Sei disso! – Ela tenta secar as lágrimas – Quero superar tudo e quando o Carl se recuperar a gente vai se entender de uma vez, estou pronta.
─Ótimo, chega de detalhe! – Ela ri, me beija de novo.
─Amo tanto você pai, nem sei como agradecer, você é a coisa mais importante da minha vida.
─Sabe que nunca te ponho de castigo cara de esquilo, não precisa me bajular! – Brinco e ela faz cara de esquilo, mas então volta a chorar encostada em mim, triste e aliviada, tudo ao mesmo tempo como todos nós. – Eu tive medo filha, muito medo.
─Também tive pai, mas sabia que nunca desistiria de mim.
─Nunca, mas não era desse medo que estava falando, quando chegou para mim, ainda pequenininha, me deixando maluco, precisando de coisas que eu ainda não sabia que tinha, quis mesmo dar você para Lori e Carol, disse que era por você, mas era por mim, porque estava com medo de todas as mudanças que causava, sinto muito, aquilo foi errado, sei que deve pensar que eu talvez possa fazer de novo, mas...
─Pai! – Ela me olha, começa a secar as lágrimas, se arruma para me olhar – Sério isso? A gente está falando mesmo disso?
─Devíamos ter falado há muito tempo.
─Nunca penso em quando me entregou, nunca, aquilo não tem a menor importância para mim, mas me lembro sempre de quando me pegou de volta, parecia um zumbi, todo esfarrapado e mesmo assim era o cara mais forte do mundo para mim, e era engraçado, a gente brigava como se fossemos da mesma idade, peguei minhas coisas correndo e fui ser sua e adoro me lembrar de quando entrei no quarto da fazenda, arrastando minhas coisas que eram pesadas demais, mas eu não sabia porque era sempre você quem carregava – Ela se encosta de novo em mim – Me olhou tão cansado, tão meu pai.
─Mas tinha medo que eu te deixasse.
─Claro que tinha, tenho ainda, é meu pai, amo você, tenho medo que me deixe, tenho medo que minha mãe me deixe, o Max também tem, os filhos têm medo de perder os pais, não sabe disso porque os seus não eram nada bons com você, a gente já falou deles tantas vezes, mas eu e o Max que temos você e a minha mãe, bom a gente tem medo.
─Sempre penso que aquilo marcou você.
─Não. O que me marcou foi o seu amor, pai eu sei tudo que mudou para ficar comigo, eu só posso ficar feliz de ter você, não pensa mais nisso, se achar que sofre por isso vou ficar... Pai ando tão culpada, não faz isso.
─Certo, fui um grande bobo todo esse tempo.
─Um cara de esquilo? – Ela brinca e rimos – Vickie não era má pessoa, fui mimada e tola com ela, mas felizmente deu tempo de nos entendermos sobre isso, entendi que as coisas não são do meu jeito, são do jeito que precisam ser.
─Deixa para crescer amanhã esquilinha, hoje quero só minha filha aqui comigo.
─Combinado! – Ela se encosta em mim, suspira e ficamos em silencio assistindo a noite chegar. ─ Eu que te achei.
─Achou nada, eu que achei você, estava me procurando? – Pergunto sério.
─Não! – Ela ri.
─Então, como pode achar uma coisa que não estava procurando, eu que achei você!
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