Ressurgente - O início
1 Capítulo 1
Notas iniciais
POV BEATRICE
Beatrice achou que aquele era e sempre seria o melhor dia da sua vida, pelo menos que ela lembrasse. A primeira vez que ela viu Seattle, achou a cidade simplesmente incrível. Depois de passar tanto tempo presa naquele maldito hospício, ela nunca imaginou que realmente conseguiria fugir. E também nunca imaginou quanta vida existia do lado de fora.
Ela e Jacob haviam saído de Denver no Colorado, e decidido quase imediatamente ir para o estado de Washington. O motivo? Eles não sabiam. Se Beatrice acreditasse nessas coisas, ela talvez chamasse de destino. Mas era tolice acreditar nesse tipo de bobagem.
X-X
Já fazia cerca de uma semana desde que Beatrice e Jacob haviam chegado a Seattle. Eles haviam escolhido ao acaso um pequeno motel barato para ficarem. O local era simples e humilde, mas ela não ligava para esses detalhes. Ela estava tão feliz de estar ali, na verdade, ela desconfiava que ficaria feliz em qualquer lugar que não fosse o hospital St Paul.
O dinheiro que eles tinham era pouco, apenas alguns dólares que eles haviam roubado antes de fugir. Até agora o dinheiro havia dado para mantê-los, mas a cada dia eles viam que a situação piorava. Era hora de procurar um emprego. A questão era que nenhum dos dois sabia fazer nada, e para piorar nem documentos tinham. Só a viagem de ônibus até ali já havia sido complicada por esse motivo. Mas eles tinham que tentar algo.
Logo pela manhã, ela havia se despedido de Jacob para tentar achar algo. Ele não havia gostado disso, ele comentou que preferia que os dois fossem juntos. Juntos? Beatrice quase riu disso. Ela não tinha nenhuma intenção de ficar grudada nele, mas Jacob parecia depender dela para tudo. Era um pouco patético, mas ela tentava ignorar. Afinal, tudo o que ela tinha nesse momento era ele. E também sentia um pouco de pena, ela sabia a verdade sobre o que havia acontecido com ele. Ela não tinha nenhuma intenção de contar a ele que ele havia morrido e apenas graças ao Doutor Henrich Zank era que ele estava ali, vivo. Ou meio vivo, depende de como você visse as coisas, já que a vida no hospital era na verdade uma meia vida. E mesmo agora não estando mais lá, Jacob ainda parecia apático e meio infeliz.
Durante a semana, Ela havia lido em um jornal que havia uma pequena agência de empregos perto de onde eles agora moravam. Ela resolveu ir tentar a sorte, mas se aquilo não funcionasse, não teria problema, havia outros anúncios no jornal onde ela poderia tentar.
E no final do dia, ela poderia dizer que havia tentado todos os locais possíveis que estavam no jornal, mas isso foi insuficiente. Sempre que alguém fazia perguntas sobre suas experiências anteriores ou pedia seus documentos, ela já sabia que não conseguiria. Então, ela percebeu: antes de tudo ela precisava de documentos falsos, não só ela, mas Jacob também. O problema era que ela não conhecia ninguém naquele lugar e nem fazia ideia de por onde começar a procurar. Na verdade, ela nem ao menos sabia se era possível arranjar documentos falsos.
Ela passou em frente a um bar, e pensou que agora era um bom momento para se embebedar. Agora que ela estava tão sem esperanças. Ela já havia bebido antes, o Doutor já havia dado a ela algumas doses de vinho para experimentar e a sensação era enervante. Mexeu no bolso da calça gasta (outro item que ela havia roubado antes de fugir, Na verdade tudo o que eles tinham no momento era roubado) e contou o pouco dinheiro que tinha. Não era muito, mas talvez bastasse para pagar alguma bebida.
Entrou no bar, e a primeira coisa que percebeu era como o local era escuro. A segunda, foi que todas as pessoas (que não passavam de meia dúzia) pararam para olhá-la. Sentiu-se um estranho no ninho, mas ignorou os olhares e seguiu para o balcão. Uma garota morena e tatuada estava atrás do balcão, e olhava curiosamente para ela.
- Vai querer o que? – a morena perguntou. Apesar da pergunta parecer ríspida, a garota sorria tentando ser simpática. Ela mexeu no bolso e colocou as poucas notas em cima do balcão.
- Bem, o que dá para beber com isso? – A morena sorriu.
- Dá para algumas cervejas. Ou você prefere algo mais forte?
Beatrice escolheu as cervejas, apesar de nunca ter bebido isso. O gosto era doce e amargo ao mesmo tempo. Doce e amargo como a vida, ela pensou. Decidiu que havia gostado. A morena ainda olhava para ela de forma curiosa.
- Você não é daqui, não é? – Era uma pergunta, mas soava mais como uma afirmação. Ela respondeu brevemente que havia chegado há alguns dias e perguntou como ela sabia disso. A outra riu. – Bem, digamos que esse bar é meio particular. Só um tipo de pessoa entra aqui, e acho que você não é esse tipo de pessoa. Imaginei que fosse uma turista meio perdida.
- E que tipo de pessoa geralmente frequenta este bar? – A outra deu um sorriso, mas não respondeu nada. Beatrice olhou em volta, observando as outras pessoas presentes. Tirando a garota, só havia homens, e nenhum deles parecia alguém que ela gostaria de encontrar sozinha em um beco escuro. Isso aqui é uma espécie de bar ilegal, pensou, esses caras parecem bandidos. Sorriu, aquele era um bom lugar para tentar arrumar documentos falsos.
- Ei- ela chamou novamente atraindo a atenção da morena. – Como você mesma percebeu eu não sou daqui. Eu tive alguns problemas antes de vir para cá, e podem ser que estejam me procurando. – ela disse cuidadosamente. Ela precisava conquistar a confiança da garota, mas sem contar detalhes da sua vida. – Seria realmente muito útil encontrar pessoas que pudessem me ajudar. Como conseguir alguns documentos para mim. Não é que eu queira fazer nada ilegal, eu só preciso de um emprego, mas não posso usar meus documentos antigos. Não quero chamar atenção. – mentiu. – Você não saberia onde eu poderia começar a procurar alguém que possa me ajudar? Eu preciso mesmo disso.
- Você precisa de um emprego? – A morena perguntou analisando-a. Tentava decidir se dizia algo ou não. – E documentos? Acho que posso te ajudar com os dois. – Ela se apoiou sobre o balcão e sussurrou. – Olha, eu gostei de você. Mas se você for da polícia ou algo assim, isso pode trazer problemas sérios para mim. Então, você não é da policia ou algo assim? – Beatrice negou. – Eu estou me arriscando aqui, sabe? Espero que você não esteja mentindo, ou senão, nós duas nos arrependeremos muito disso, ok? Lembra que eu te disse que este local só é frequentado por um tipo de pessoa?
E esse foi o primeiro momento que Beatrice ouviu falar da Revolução. A garota explicou que eles sempre estavam atrás de pessoas para a causa. Não era exatamente um emprego, mas ela ganharia dinheiro com isso, dependendo do que ela fizesse poderia até ganhar bastante dinheiro.
A garota, que agora ela sabia se chamar Marcie, a apresentou para um dos caras do bar. Mentiu para ele, garantindo que já a conhecia. O cara se chamava Daniel, e ela percebeu que era muito bonito. Ele foi simpático, mas cauteloso. Fez algumas perguntas, e quando finalmente pareceu satisfeito, avisou que ela precisaria voltar no outro dia para que ela pudesse começar.
x-x
Já fazia três meses, desde que Beatrice havia entrado para a Revolução. Agora ela sabia que eles eram um grupo organizado contra o Governo. Daniel sempre dizia a ela como o governo era corrupto e cruel, mas para ela tanto fazia desde que tivesse como se sustentar. Ela não recebia um salário, todo o dinheiro que ela conseguia vinha de pequenos furtos e recompensas por trabalhos bem feitos. Na verdade, ela não via como a Revolução era melhor que o governo, já que eles se mantinham de roubos, tráficos e até clubes de stripper. Eles também recebiam algumas doações generosas de simpatizantes da causa, Daniel explicou que muitas pessoas, algumas muito poderosas, tinham interesse em ver o governo ruir. Jacob ria e dizia que eles pareciam mais uma grande e bem elaborada máfia.
Depois de um mês, ela perguntou a Daniel se um amigo poderia também se tornar membro. Ela havia esperado um tempo para que pudesse conquistar a confiança dele. Daniel perguntou se ela se responsabilizaria por ele, e quando ela confirmou, ele concordou em “empregar” Jacob. Este último havia passado todo esse primeiro mês enfurnado dentro do quarto do motel barato que eles ainda dividiam. Agora, com o dinheiro e documentos os dois conseguiram alugar um pequeno apartamento. Era em um prédio que parecia estar prestes a cair a qualquer momento, mas desde que não precisasse mais dividir um quarto com Jacob, ela estava satisfeita. Ele a olhava de uma forma um pouco constrangedora e muitas vezes indecente, do mesmo jeito que o doutor às vezes olhava para ela. E aquilo a estarrecia. Ela não queria lembrar-se dele.
Mas, algumas vezes não conseguia evitar a lembrança. A maneira como ele a tocava, aquelas mãos nojentas que abriram cérebros e que trazia vidas de volta, passeando pelo seu corpo. Ela chorava e implorava para ele não fazer aquilo, mas isso nunca o havia impedido. Ele não ligava, e apenas continuava. Apertando seu corpo contra o dela, levantando a camisola fina que ela usava, abrindo sua própria calça, abrindo as pernas dela para que ele pudesse entrar nela, o quanto doía, o quanto era degradante. Em umas das muitas vezes que isso aconteceu, após se satisfazer, ele levantou-se e ficou a observando nua. Ele sorriu e disse que poderia melhorá-la. Você não é feia minha querida, ele havia dito, mas é tão magra e comum. Seu rosto não é tão simétrico como eu gostaria. Mas não se preocupe eu consertarei isso. E foi o que ele fez, dois dias após. Depois da recuperação, ela teve um choque quando se olhou no espelho. Ela estava realmente bonita, mas mesmo assim ela chorou, ao ver que até dessa forma ele a abusava. E para piorar, depois disso ele frequentou cada vez mais o quarto dela a noite. Ora, minha cara, quero ver o que eu criei.
x-x
Beatrice e Jacob não trabalhavam juntos. Enquanto ela sempre participava dos pequenos delitos com o grupo de Daniel, que agora ela sabia ser um dos líderes, Jacob ficava com o grupo do irmão de Daniel, Damon. Ela nunca tinha visto esse, mas Jacob estava sempre reclamando sobre ele, que ele era cruel e irritante. Na verdade, pelo que Jacob contava ele parecia ser apenas um verdadeiro líder que forçava os membros ao seu limite. Mas não era a função dele fazer isso? Ela já havia ouvido que era Damon que realmente mandava, e que Daniel era apenas o irmão trapalhão. Era não o considerava trapalhão, ela o achava um pouco idealista demais e tolo. Quando não estava cumprindo alguma missão para a Revolução, Daniel geralmente estava em um dos clubes de stripper ou fazendo alguma maluquice. Ele havia lhe dito uma vez que gostava de adrenalina, e sempre que possível praticava algum esporte radical. Ela não achava aquilo maluquice, na verdade, ela tinha até vontade de pedir a Daniel para levá-la algum dia.
Ela estava se arrumando, Marcie havia lhe dito que haveria uma pequena festinha no bar apenas para membros. Ela sempre que podia passava no bar para conversar um pouco com ela. Não eram amigas, mas Beatrice não podia se esquecer do quanto à outra a havia ajudado. Chamou Jacob, mas ele para variar, disse que preferia ficar no apartamento. Sempre patético e irritante, pensou, nunca faz questão de socializar. Parece que ainda está preso no maldito hospital.
Quando ela chegou ao bar, este já estava lotado. No grande maioria homens, mas havia algumas outras mulheres. Ela sentou em um dos bancos que havia em frente ao balcão e conversou com Marcie. Após alguns minutos, Marcie voltou trazendo para ela um drink que ela tinha certeza que não havia pedido.
- Cortesia do cara ali. – Ela disse apontando para um sujeito grande e musculoso sentado em um dos outros bancos.- Uma marguerita.
- Humm parece interessante. — Ela disse experimentando o drink. Era doce e forte. – Devo mandar algum outro de volta? Qual drink eu deveria mandar para ele? Um que agradecesse a atenção, mas que também dissesse que apesar disso eu não vou transar com ele? – Marcie riu.
- Acho melhor você não mandar nada de volta. Mas não garanto que ele vai entender que você está dando um fora nele.
Beatrice também riu, e levantou-se para ver melhor as outras pessoas que havia na festa. Seu olhar caiu em um moreno que no mesmo momento a olhou. Ele era lindo, e parecia tão confiante. Todas as outras pessoas pareciam prestar atenção em seus gestos e no que ele falava. Ele continuou a encarando e ela sentiu o corpo queimar. Ela não se lembrava de se sentir assim antes, os olhos dele pareciam fogo em sua pele.
Ela ficou constrangida, se sentia tão exposta pelo olhar dele. Saiu do estupor que se encontrava, e seguiu para o banheiro. Este ficava após um pequeno corredor. Ela deveria ter sentido antes que ele a seguiu, mas na verdade, só percebeu quando ele a puxou pelo braço, fazendo-a se voltar para ele. Ele não disse nada, apenas continuou a olhando. Todo seu corpo havia ficado eletrizado pelo toque dele.
E então sem dizer nem um palavra ele a beijou. E foi simplesmente maravilhoso, e ardente. Ele a imprensou na parede, alisando o corpo dela. Ela agarrou os cabelos dele com tanta força, sem se importar se o estava machucando. Na verdade, ele parecia gostar de dor.
Ela estava tão envolvida que havia esquecido que eles estavam no corredor, um lugar público, onde qualquer pessoa podia ver. Mas ele aparentemente havia percebido isso, já que a soltou e a puxou em direção ao banheiro do bar. Já dentro, ele voltou a beijá-la enquanto fechava a porta.
x-x
No dia seguinte, Beatrice ainda estava num estado de torpor pelo que havia feito. Eles nem ao menos tinham conversado, ela nem ao menos sabia o nome dele. Mas o desejo havia sido tão intenso, que a mente dela simplesmente se desligou.
Durante os três meses que estava em Seattle, ela se perguntava se conseguiria se envolver sexualmente com alguém depois do que havia passado no hospital. Nunca imaginou que conseguiria tão naturalmente quanto havia sido. Ela ria sozinha ao lembrar-se da noite anterior, havia sido uma loucura, mas não podia negar que havia sido uma loucura muito boa.
Deixou esses pensamentos de lado, Daniel a havia convocado para uma invasão, e pelo o que ele havia dito era algo grande. Ela deveria encontrá-lo dentro de uma hora. Ela estava ansiosa, nesse tempo na Revolução, ela só havia feito serviços pequenos, chamá-la para algo grande, era uma prova que Daniel a achava digna de confiança. Jacob não participaria, mas contou que Damon e alguns outros que trabalhavam com ele sim. Damon, ela finalmente ia conhecer o irmão de Daniel.
Quando finalmente chegou ao local combinado, a primeira coisa que seus olhos registraram foram que o cara da noite anterior estava entre eles. Sério isso? Ela teria que agir naturalmente, mas estava um pouco nervosa pela presença dele. Bem, pelo menos agora vou saber qual o nome dele.
Ela se aproximou de Daniel, que sorriu brevemente ao vê-la. Eles conversaram um pouco e ele chamou os outros para apresentar a ela. Fora ela, só havia outra garota. Daniel foi falando os nomes dos outros, mas ela só conseguia prestar atenção nele. Quando finalmente foi a vez dele, ela já estava morrendo de expectativa. Por isso, quando Daniel disse que aquele era o irmão dele, Damon, seu cérebro inicialmente não registrou. Só alguns segundos que percebeu o que Daniel havia falado, quase não acreditando que aquilo fosse mesmo verdade.
O trabalho não havia sido muito difícil, tirando o momento em que um oficial do governo havia ameaçado a vida de Damon. Ela conversou com o guarda durante alguns minutos, o convencendo a soltá-lo, e curiosamente o homem havia decidido se matar na frente deles. Ela reparou que Damon havia se impressionado com ela, e gostou disso.
Depois que terminaram, seguiram para o mesmo bar da noite anterior. Todos conversavam e bebiam. Ela reparou que Damon a olhava da mesma forma intensa como havia olhado antes, e retribuiu o olhar.
Quando ela levantou-se para ir embora, ele a seguiu discretamente. Já do lado de fora, eles se beijaram novamente, e em vez de ir para o apartamento que dividia com Jacob, ela foi para a casa de Damon.
Naquele dia, ela dormiu na casa dele, que depois descobriu ser a sede da Revolução. E depois dessa noite, ela se mudou para lá.
x-x
Já havia passado seis meses desde que Beatrice se mudara para a sede da Revolução. No principio, ela não tinha a intenção de simplesmente se mudar para lá, ela foi apenas ficando um dia, depois outro e mais outro. Daniel ficou surpreso quando a viu lá na primeira vez, depois se acostumou com sua presença. Um dia, ele chegou até a chamá-la para praticar buildering. Ela não fazia ideia do que se tratava, mas aceitou. Durante todo o dia eles haviam escalado em prédios e pontes abandonados. Aquilo era fantástico, quando chegava ao topo de um prédio, ela sentia que nada mais importava no mundo fora aquele momento. A paixão por adrenalina criou uma interessante amizade entre ela e Beatrice. Entretanto, enquanto Daniel era sempre legal com ela, com o Damon a situação era muito diferente. A rotina entre irmãos era marcada por desavenças e brigas.
Jacob havia ficado furioso quando soube que ela não voltaria para o apartamento que dividia com ele, na verdade, ele havia ficado furioso com quase toda a situação. Ela confessava que havia ficado mais que satisfeita em não ter Jacob por perto o tempo todo, mas sentiu-se mal por largá-lo sozinho daquela forma. Então, passado dois meses, ela convenceu Damon que seria bom ter Jacob por perto. Havia outros membros que também moravam na mansão, que também funcionava como a sede do grupo, e Jacob se uniu a eles.
Ela começou a fazer do pequeno conselho que tomava as decisões, contudo todo mundo sabia que quem realmente mandava era Damon. Por isso, participar do conselho era irritante. Um monte de horas perdidas discutindo, quando no fim, Damon apenas faria o que ele queria. Ela começou a usar as reuniões do conselho para questioná-lo e contradizê-lo, era uma atitude arriscada, mas ela estava cada vez mais confiante com sua posição de poder recém-conquistada. Após as reuniões, Damon sempre estava enfurecido com ela. Eles brigavam, e muitas vezes as brigas podiam se tornar violentas. Eles funcionavam numa dinâmica brigas-sexo, mas aparentemente aquilo funcionava para eles. Ela até mesmo achava que no fundo, ele gostava que ela o desafiasse.
X-X
– Você está bem? – Beatrice perguntou a garota nova. Ela já a tinha visto algumas vezes, mas ainda não sabia o nome dela.
– Sim, sabe não precisava fazer isso. Me defender, quero dizer.
– Não estava fazendo isso por você, Jake é um estúpido. Sempre trata mal e tentar humilhar todas as garotas. Nunca faz o que eu mando. Eu estava cheia dele. Fiz por mim. – Beatrice respondeu, e estava sendo sincera. Apesar de ter achado que Jake estava sendo ridículo, implicando com a sexualidade da garota nova, ela havia o humilhado na frente de todos simplesmente porque não o suportava. A garota pareceu se surpreender com a resposta dela.
– E a propósito ainda não fomos apresentadas. Sou Beatrice.
– Meg.
Beatrice pensou que talvez fosse bom ter Meg por perto. Em primeiro lugar, porque quase não havia outras garotas que moravam na sede da Revolução. Em segundo lugar, por Meg havia ficado agradecida pelo que ela tinha feito. Havia poucas garotas na sede da Revolução, e nenhuma delas parecia gostar muito de Beatrice. Mas talvez Meg pudesse gostar, seria interessante ter uma amiga, e principalmente, uma aliada.
x-x
Beatrice não conseguia parar de olhar para o exame em suas mãos. Há alguns dias, ela não vinha se sentindo bem, com uma dor de cabeça lancinante. Ela não gostava de reclamar, e apenas confessou a Daniel que não estava bem. Ele havia sugerido que ela procurasse um médico. Ela procurou o médico indicado por ele, e este passou alguns exames para ela. Era um desses exames que ela segurava agora. Era uma ressonância do cérebro dela. Ela já havia visto várias ressonâncias antes quando ainda estava no hospital, após as operações, o Doutor sempre fazia uma série de exames no paciente e muitas vezes havia compartilhado com ela o resultado. Por isso, quando ela viu um ponto, que mais parecia uma pequena mancha, ela soube exatamente o que era.
Ela já deveria ter imaginado isso? Talvez sim. Oficialmente, o Doutor havia tido para ela que ela era uma paciente normal, e que a falta de memória era ocasionada por sua doença. Segundo ele, ela sofria de esquizofrenia e amnésia retrógrada. Ele também dizia que ela uma indigente, que vivia à beira da sociedade, e que seus distúrbios violentos eram o que tinha causado sua internação ali. Contudo, algumas vezes ele insinuava que ela também havia passado pelo procedimento de ressuscitação, mas ela sempre acreditou que ele fazia isso para castigá-la e mexer com sua cabeça. Talvez, no fundo, ela sempre soube, mas havia preferido não acreditar. Mas agora, ela não podia mais ignorar. Ele nunca teria colocado aquele dispositivo em um paciente normal, era um procedimento delicado e perigoso demais para isso, poderiam surgir perguntas. Entretanto, um paciente que já havia sido dado como morto era diferente, quem questionaria se ele sumisse? Para todo mundo ele já estava morto mesmo.
Ela sentia-se arrasada com aquela descoberta. Isso muda tudo – pensou – Eu morri, e estou aqui, tal como Jacob. Eu sou a droga de um monstro. Ah Jacob. Ela nunca havia contado nada a ele. Agora, sua consciência pesava. Como ela pôde esconder isso dele? Ou talvez ela só estivesse sendo egoísta, talvez ela só quisesse não ser a única a sofrer por ser um monstro. De uma coisa ela tinha certeza: já era hora de revelar isso a Jacob. A questão era: como ela faria isso? Ela não podia contar tudo a ele, não toda a verdade. Se ela contasse que havia participado de tudo aquilo, ele a odiaria.
Naquele momento ainda era manhã, e ela decidiu esperar até que entardecesse para conversar com ele. Quando a noite chegou, ela foi procurá-lo em seu quarto. Ela não gostava de ficar sozinha com ele, mas aquela era uma conversar em que eles precisariam de privacidade.
Quando ele a viu na porta esperando por ele, ficou surpreso, ela nunca ia até lá. Ele a convidou para entrar. Beatrice contou a sua mentira da maneira que havia ensaiado: disse que uma vez, por acaso, quando estava fazendo uma de suas terapias com o doutor, Ele saiu da sala por alguns minutos para resolver um problema urgente com outro paciente. Na pressa, ele simplesmente a deixou ali, sem ninguém para vigiá-la. Curiosa, ela havia mexido nos papéis que havia em cima da mesa e nas gavetas. Em uma das gavetas, ela havia encontrado os cadernos que ele sempre carregava, anotando sobre os pacientes. Disse a Jacob, o que continha em cada caderno: a forma e o dia de sua morte, o procedimento da ressuscitação detalhado etapa por etapa, os avanços do paciente pós-cirurgia.
- Você está mentido!- ele praticamente gritou quando ela terminou de falar. – Que besteira é essa, Beatrice? Isso é impossível!
- Não estou mentindo. Isso deveria ser impossível, mas aparentemente não é.
- Se você não está mentindo, e então era o doutor que estava.
- Jacob, porque ele teria escrito isso se não fosse verdade? Ninguém deveria ter acesso aos cadernos, ele sempre carregava junto a si, o que ele ganharia com isso?
- Eu não sei, porra. – Ele estava furioso e atordoado, e por um momento, ela ficou feliz de não ser a única a se sentir assim. – Se isso é mesmo verdade, por que você não me contou isso antes? – Ela sabia que ele perguntaria isso.
- Porque eu estava com medo, Jacob. Aquelas informações... Não é verdade que mais ninguém tinha acesso a elas. O governo também tem. O doutor anotou em cada caderno a hora e a data em que havia passado as informações para o Governo de cada procedimento realizado. Ele tinha que passar as informações porque ele é financiado por eles. Jacob, você consegue imaginar o que aconteceria se o governo soubesse que dois pacientes que fugiram têm conhecimento sobre o tipo de coisa que eles estão financiando? Eles nos caçariam até o inferno se fosse preciso, e então nos eliminariam.
- Mas você já sabia! Qual a diferença de eu também saber? Você achou que eu sairia contando isso por ai? E o mais importante: porque você está me contando isso agora?
- Jacob, me desculpe por não ter te contado antes. Eu estava tão assustada. — Ela começou a chorar, afinal, ela estava mesmo assustada, mas não pelo motivo que ele imaginava. – Eu só... eu não aguentava mais esconder isso de você. Nem sei como fui capaz de esconder isso por tanto tempo. Jacob, você acha que nós temos alma? Quer dizer, quando o corpo morre, a alma não morre também?
- Que maluquice de alma é essa? – Ele esbravejou e ela chorou ainda mais desesperadamente. – Beatrice, é claro que nós temos alma. Senão como estaríamos aqui?
- Eu não sei. Tem coisas que eu já fiz... Coisas tão cruéis... Não sei se uma pessoa normal teria feito.
x-x
No outro dia, após a conversa, Jacob se manteve afastado dela. Quando ela chegava a um lugar, ele saía. Ele deveria estar com raiva, ou talvez, apenas não queria vê-la, para não lembrar tudo o que ela havia dito na noite anterior.
Nesse dia, ela estava de folga, por isso, resolveu dar uma caminhada pela cidade para espairecer. Caminhou pelas várias ruas de Seattle sem destino. Ela não sabia há quanto tempo caminhou perdida em si mesma, quando de repente o viu.
O Doutor sentando displicente na mesa de uma pequena cafeteria. Ele tinha em uma das um jornal e estava concentrado. Não, não, não. O que ele estava fazendo em Seattle? Será que ele havia descoberto que ela estava lá? Como?
Ficou paralisada durante alguns minutos o observando, ela não podia acreditar que isso estava acontecendo. Percebeu que estava sendo tola, ficando ali. Se ele a visse... Não. Saiu apressadamente, voltando pela mesma direção pela qual havia chegado. Ele não podia encontrá-la, ela não aguentaria passar por tudo aquilo de novo. Ela tinha que fugir, antes que ele a achasse.
Chegou à sede, já ao entardecer. Damon ainda não havia chegado, ele devia estar com os amigos bebendo em algum lugar. Ela tinha que ser rápida. Pegou algumas coisas que podia precisar: sua arma, uma faca, um pouco de dinheiro que Damon sempre deixava guardado. Não podia levar muita coisa, era para ser uma fuga rápida, não levaria nada que pudesse atrasá-la.
Terminou de arrumar as poucas coisas que havia considerado como essenciais, e desceu até a garagem. Damon provavelmente ficaria furioso quando percebesse que ela havia pegado um de seus carros sem sua autorização. Ela os usava o tempo todo, e as motos também, mas sempre avisava.
Enquanto saía da sede da Revolução, por um momento, ela olhou para trás e pensou em desistir. Ela amava esse lugar, ela fora feliz ali. Será que ela ainda voltaria até a Revolução? Sentiu seu coração de apertar já de saudade e dor, e ela sentiu as lágrimas se formando em seus olhos. Ele fizera amigos, havia construído uma vida ali.Pensou em Jacob, Meg, Daniel e tantos outros. E Damon...Ah Damon. Ás vezes, seu rival; outras, seu amor. Será que ela conseguiria voltar para Damon?
-
Fale com o autor