Ressurgente

4 A Prisão e Julgamento


Notas iniciais
Entre o caminho do prisioneiro entre o julgamento final, não saber a pena acometida é a maior dor.

—Aqui!- a voz atrás da parede exalta. -Tenho uma coisa para te contar!

Me levanto, forçando minha pouca energia a me por em pé. Olho ao redor da cela suja e velha, e através do redoma de vidro inquebrável que passei os últimos dias tentando quebrar. Era para mim uma jaula de zoológico. Que atração eu entregava aos observadores? Um animal perdido observando eles vigiarem as celas, carregando armas.

—Já disse que não estou interessado no que você tem a me dizer, velho.- sussurro para ele, do outro lado da parede, reclamando. -Não cansa de me tirar o sono? Ou pode me dizer onde estamos?

—Pra que saber onde está, Quatro? Vai fazer diferença?- ele sussurra de volta, e arrasta para perto da parede de pedra suja que nos separa. -Você não está no devido lugar, sim, sim. Isso mesmo. Muito longe de casa.

Entendo o que ele quer dizer. Fazia parte de uma cidade fechada do mundo exterior, um projeto para consertar o que há de errado com os genes dos humanos. Mas nem nesse mundo faço parte. Agora que estou muito longe de casa, estou muito longe da minha vida anterior.

Estou muito longe da minha memória.

Vejo os guardas andarem de um lado para o outro, carregando suas armas com lanterna, em vezes olhando para mim com desconfiança. Quem será que eu fui na vida anterior, para GDs me odiarem tanto.

—Alguém pode trazer Edward para cá? Tenho um assunto inacabado com ele!- grito para eles. Mas eles não respondem.

—Hora de comer!- exclama o velho da cela ao lado. Nunca pude ver a face dele, mas sei que deve faltar alguns cabelos, e deve manter um olhar louco. Ouço ele tatear o buraco retângular da parede de trás, onde vem a comida e bebida. Um cilindro cai, pego o objeto, abro e bebo a água com satisfação.

As únicas luzes que temos são as do lado de fora, as vermelhas conectadas no alto das paredes, que deveriam estar ligadas apenas em emergências, como em caso de incêndio. O resto das luzes são as lanternas dos vigias armados.

Percebo outra coisa cair do buraco. Pego o pote de comida, abro e retiro o frango de dentro. Ouço o velho cantarolar enquanto mastiga sua refeição. Importa mesmo onde estamos? O que eu realmente quero perguntar é onde estão meus amigos. De todas pessoas nas celas do lado esquerdo, não reconhecia nenhuma silhueta ou voz, quando mastigavam ou protestavam, só para ter algo para fazer.

Após terminar minha refeição, sento, colocando o pote de volta ao retângulo. Estava aqui a mais de três dias, e era a mesma ordem de eventos. Apenas duas refeições, cilindro de água, conversar com o velho, gritar para os guardas, esperar, dormir.

Dormir. É a parte difícil.

—Olá, Tobias.

Ela parava na minha frente. Não consigo me mover. Sensação estranha. Ela me encara, e me beija, sem precisar apoiar nas pontas dos pés para alcançar minha estatura. Ela beija, e eu só consigo mover os olhos, para encará-la também.

—Quem é você, Tris?- pergunto. Lentamente ela tira das costas o soro. Um liquido negro. De algum modo, sei que é o soro da morte. Liquido.

Ela enfia no meu peito. A dor me abate, e começo a perder os sentidos.

—Morra, Quatro.- ela sussurra. Sinto o liquido negro envolver meu sangue, escorre parte do sangue pela minha boca. Estranho como o sangue é mais escuro do que imaginamos.

—Tris...- consigo dizer. Ela se despedaça em milhares de pedaços escuros, que tomam forma e tornam corvos. Tantos. Me atacam, caio no chão, sem mover, como um corpo morto.

Acordo.

Sinto o suor escorrer o meu corpo. O que foi aquilo? Ergo minha cabeça, e vejo que os guardas pararam de circular. Observo eles descerem a saída da porta vermelha. Ou branca? Com aquela luz, não dava para saber. Caminham até minha cela, com uma nova silhueta com eles. Observo atentamente. Será...?

—Como vai a estadia, Quatro? Foi bem tratado?- Edward ri.

—Seu...- tento xingá-lo, mas ele me interrompe.

—Não me julgue agora, Quatro. Pode ficar bem pior... Melhor- ele retira algo do bolso.- Vai ficar.

Sinto o medo espalhar. O rejeito. Ele guia o objeto até a parede que me separa do velho. Entre ela, deve haver a fechadura da cela, onde ele utiliza a suposta chave.

O redoma de vidro abre. Parto para cima, lembrando de quando Edward testou minhas habilidades. Soco dois deles, mas os outros me forçam para trás, de volta a cela. Eles desferem golpes em mim, então defendo, agarro o braço de um e uso como escudo humano para defender do segundo. Jogo o primeiro no chão, e de costas, desvio do soco do outro e agarro o braço, forçando ele a passar por cima do meu ombro e cair no chão junto ao primeiro.

Então Edward me ataca com um taser, sinto a eletricidade fluir e me atacar. Caio de joelhos, e ele me prende.

—Boa tentativa, mas punhos não vão tirar você daqui.- ele diz.

Ele me leva até a porta vermelha. Olho para o velho. Sim, ele tinha parte do cabelo faltando, mas não conseguia ver seus olhos. Talvez não tivesse olhos. Naquela escuridão, não saberia dizer.

Os guardas se levantam e acompanham Edward para a porta. Um pano cobre minha visão, e não posso ver nada enquanto ando, sendo empurrado por Edward.

Eles me guiam por mais dois minutos. Ouço uma porta abrindo, e sou empurrado para dentro. Eles tiram o pano dos meus olhos, e observo a sala.

Totalmente escura, apenas um holofote iluminando a mim, e silhuetas quase irreconhecíveis me observando. Luzes acendem na parte de baixo de onde estão as silhuetas, iluminando elas mas não esclarecendo a sala. Percebo que a sala uma vez foi um tribunal, pelo formato das mesas.

As silhuetas usam ternos e máscaras iguais, totalmente brancas e sem expressão, voltadas a mim. O que está acontecendo aqui?

—Quem são vocês?- pergunto alto. A voz não ecoa por muito tempo, por isso não deve ser uma sala muito grande.

Uma das pessoas sai do assento e se aproxima de mim, mantendo uma distância de três metros. Olho para ela com fúria, me perguntando quem é e o que quer comigo.

Será que a conheço? Ou se o Tobias anterior conheceu? Não sei dizer, a máscara branca cobria toda informação.

A pessoa tira a máscara, e revela a face.

Nita.

—Tobias.- ela me chama. -Me diga tudo que sabe sobre Seis.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.