Notas iniciais
Há aproximadamente um ano e três meses, eu estava postando o prólogo de Ressurgente, e agora estou aqui, postando o epílogo. Há mais tempo ainda a ideia dessa história surgiu, e só me trouxe coisas boas. Pode parecer pouco, só uma história postada em um site, mas escrever sobre Tobias, Tris e os demais, além de ler os seus comentários (aqui no Nyah! e fora também) sobre a história me enchem de alegria. Agradeço sinceramente a todas as pessoas que tornaram essa história possível. Especialmente vou agradecer à Dama do Poente, que me perguntava sempre quando eu ia postar e me incentivou, ensinou como o Nyah! funciona e, basicamente, sem ela essa história nunca estaria aqui, obrigada! Obrigada também a todo mundo que recomendou a história, ver o que vocês acharam e ver que a história fez tanta diferença para vocês a ponto de quererem que outras pessoas leiam é incrível. Obrigada por cada comentário, cada um deles, desde um "Amei o capítulo" até os textos que recebi, eles fizeram e continuam fazendo uma grande diferença na minha vida e no meu amor por escrever. E agradeço também cada um que favoritou e/ou está acompanhando a história, e, ainda, agradeço por cada visualização que a história teve. Cada uma dessas coisinhas, somadas aos elogios que recebi de tanta gente fora daqui (obrigada amigos e amor!), fizeram dessa a primeira e, com certeza, uma das minhas mais marcantes histórias. Foi um prazer escrever essa história e estar aqui esse tempo com vocês, vou sentir saudades! Espero que gostem!

Derek

Sinto as ondas quebrarem contra minhas pernas, a água incrivelmente gelada em contraste com a alta temperatura da cidade. O vento bate e alivia todo o calor, tão diferente da neve e do frio de Chicago, mas já faz um tempo que me acostumei com esse clima.

Volto para a areia e lá está ela, mesmo em meio à uma multidão de pessoas que vieram ver a atração da noite, Liv parece estonteante como sempre, se destacando.

— A água está uma delícia — falo para ela —, vá pelo menos molhar os pés.

— Estamos bem aqui — ela responde e coloca uma das mãos sobre a barriga, e não consigo resistir ao impulso de fazer o mesmo.

Liv está grávida há cinco meses, mas ainda não sabemos o sexo do bebê. Bom, pelo menos é nisso que ela quer que eu acredite. Alguma coisa me diz ela já sabe e não quer me dizer. Se for menina, seu nome será Hope, significa esperança, e é isso que ela significa para nós, se for menino, eu escolhi Max, e, apesar de Liv insistir que é um nome que se dá para cachorros, vamos usar mesmo assim, ela não tem nenhum outro em mente.

— Às vezes penso se ela, ou ele, fica muito quente aí dentro — falo.

— Fique tranquilo, a temperatura aqui é ideal — ela responde. — De qualquer forma, mesmo se fosse quente, Hope ou Max — ela faz uma careta ao falar o último nome —, tanto faz, o bebê, nasceria acostumado com o clima, afinal, é do Rio de Janeiro que estamos falando, aqui as crianças praticamente nascem nadando nas praias.

Ela sorri e fico observando seu sorriso por um bom tempo. Há pouco mais de um ano, naquele Natal horrível e ao mesmo tempo libertador, quando Nita morreu, resolvemos nos mudar para um país na América do Sul, o Brasil. A guerra de genes nunca chegou aqui e, aparentemente, depois que os Estados Unidos ficaram fracos com as guerras, eles se tornaram algo próximo a uma potência mundial, com um Governo totalmente refeito e livre de corrupção. Encaramos o desafio de um novo país, uma nova língua, novas pessoas, exatamente para tornar nossa vida assim: nova. Recomeçamos do zero, e estamos felizes aqui.

Ainda mantemos contato com Tobias e Beatrice e todos os outros, aparentemente quase morrer ao lado de alguém faz com que haja uma criação de laços fortes, mesmo que tenhamos feito tantas coisas ruins.

Aliás, tudo o que fizemos foi perdoado, e, mesmo que Trevor, Liv e eu tenhamos trabalhado com Nita, isso foi esquecido por causa da ajuda que prestamos à Chicago. Ninguém reclamou, talvez o fariam se permanecêssemos lá, mas não quisemos isso, Chicago significa passado agora.

Trevor também não permaneceu na cidade, ele nunca gostou de lá, e Ash, mesmo tão nova, já tinha diversas lembranças ruins do lugar. De acordo com a última conversa que tive com Trevor, pelo telefone, eles estavam fazendo um tour pela Europa. Para minha surpresa, Christina foi com eles. Apesar de eu saber que ela voltará para os seus amigos e sua família, ela também não aguentava mais ficar em Chicago, cercada por toda a morte que teve de presenciar e tudo que ela própria sofreu. Depois que Christina salvou a vida de Ash, no prédio, eles se aproximaram muito, e sinto uma inexplicável felicidade em ver que estão se dando bem. Depois de Nita, Trevor merece uma pessoa como Christina.

Mesmo farto de lutar, não sou capaz de mudar quem eu sou, sou um estranho à calmaria. Ainda tenho pesadelos sobre Julie Stanford, a garota que matei, e às vezes Liv precisa me acordar no meio da noite para me acalmar, e só consigo voltar a dormir com uma garrafa de Bourbon ou com as orações de Liv, um hábito que ela adquiriu há pouco tempo, e tem funcionado. Ela está lidando com a situação melhor que eu, e atribuo isso ao bebê, ela não pode perder a cabeça por causa disso, mesmo assim, ainda tem momentos que fica com raiva a ponto de quebrar as coisas, mas está melhorando.

Consegui um emprego de professor de tiro esportivo, o que não é nem perto da ação que estava acostumado, mas suficiente para eu manter minha sanidade mental. Liv está trabalhando em uma empresa como secretária, porém, no tempo vago, está fazendo faculdade de veterinária, seguindo um sonho muito antigo de sua infância, que seu gene não deixou que ela realizasse. Estamos vivendo uma vida normal e feliz, o que é mais do que podíamos esperar, quase como uma típica família local.

E, como é típico por aqui, estamos na praia de um lugar chamado Copacabana para assistir à queima de fogos que anuncia a chegada de um novo ano. O ano em que minha família aumentará, e não posso estar mais feliz, estou ao lado da garota que sempre amei, me sentindo completo como nunca pensei que poderia me sentir.

— Vai começar — Liv anuncia.

Então, em várias telas gigantescas que espalharam pela praia, começa a contagem regressiva, e todas as pessoas falam em voz alta, animadas.

— Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um!

— Eu te amo — falo para ela quando os fogos começam, em um espetáculo lindo no céu. Vejo muita gente se abraçando e fazendo promessas para o novo ano. Não prometo nada, apenas agradeço, porque sei que estou exatamente onde deveria estar.

Ela apenas sorri — o sorriso mais lindo de todo o mundo —, e coloca suas mãos sobre a minha, que foi parar em sua barriga. Liv então olha no fundo dos meus olhos, ainda sorrindo, e sussurra, com uma expressão vencedora e maravilhada no rosto:

— É Hope.

***

Tris

“Querida irmã,

Desculpe. Poderia dizer isso em diferentes idiomas, de diferentes formas e em belos textos, mas o significado é o mesmo, e sempre se resume a isso: desculpe.

Não fui o melhor dos irmãos, te traí diversas vezes, inclusive quando éramos crianças. Lembra-se de quando você manchou de outra cor aquelas roupas que a mamãe deixou para secar? Ela não viu você fazendo, eu disse a ela, e aquela foi a primeira de todas as traições.

Não consigo me perdoar por Jeanine, por quase ter te matado, e muito menos me perdoei quando pensei que tinha realmente morrido por mim.

Você me amou de um jeito que nunca fui capaz de te amar, e que ainda não sou, temo, e peço desculpas novamente por isso. Mas para uma coisa fui capaz de tomar coragem. Desde que descobri que estava viva, escrevi essa carta e espero o momento de morrer por você, porque não posso viver com essa culpa, e acho que esse é o único jeito de conseguir seu perdão.

Nunca fui digno do sobrenome Prior, me desculpe por isso também.

Eu amo você, mesmo que de maneira muito inferior ao que você merece.

Minhas sinceras desculpas,

Caleb.”

Li essa carta pela primeira vez um dia depois da morte de Nita, e venho relendo-a diversas vezes desde então. Caleb deixou comigo no dia em que morreu, mas eu não quis lê-la até então. Não consigo me sentir triste, mas também não tenho raiva dele. Apenas não posso chorar por ele pelo resto da minha vida, nada muda o fato de que meu irmão, do meu sangue, me traiu.

— Tudo bem? — Tobias me surpreende, na porta do quarto em que estamos dormindo na casa de sua mãe. Ele já leu a carta uma vez, e sempre faz a mesma pergunta quando me vê lendo.

— Estou — falo, e amasso a carta, levando-a para o lixo.

— Por quê? — ele pergunta.

— Não posso reler essa carta para sempre — respondo. — E Chicago vai ficar para trás, como suas angústias.

De fato, vai. Estou terminando de arrumar as malas. Amanhã começa um novo ano, e uma nova vida. Vamos nos mudar para a Casa Branca, porque Tobias foi eleito presidente dos Estados Unidos.

Nessa mesma data, ano passado, estávamos fazendo uma última e especial edição de Ressurgente.

Depois de todos os protestos, o presidente acabou por renunciar seu cargo, do qual ele teria sido retirado de qualquer forma, mas renunciar pareceu, para ele, uma forma mais orgulhosa de aceitar isso.

Nessa edição, reforçamos a campanha política de Tobias e fizemos homenagens a todos que morreram no ataque ao programa. E, para minha surpresa, se tornou o programa mais especial do mundo.

— Eu perdi muito tempo, achei que morreu mais de uma vez, e ficar sem você me fez ter certeza que não quero passar por isso de novo. Eu quero você, por toda a minha vida — ele dissera. — Quer casar comigo?

E eu sorri, e disse sim na frente do país inteiro.

Tivemos uma cerimônia pequena, só para a família e os amigos, mas que foi memorável para mim, e passamos a viver no quarto do apartamento de Evelyn, que, para nossa surpresa, também se casou um tempo depois. Ela e o Doutor Kart, que vinha cuidando de sua visão desde o acidente que Nita forjou, acabou se tornando mais que seu médico, e, apesar de sua visão ter apresentado melhoras quase que insignificantes, eles estão felizes juntos.

— A mesa já está posta, está quase na hora. Cara e Peter acabaram de chegar, é melhor irmos logo...

Interrompendo Tobias, Cara bate na porta, com um garotinho no colo.

— Soube que estavam ansiosos para conhecer o Will — ela diz.

Sorrio para ela, um pouco triste, porque sei o motivo de esse ser o nome do filho de Cara: eu. Não posso dizer que não penso na morte de Will toda vez que fecho os olhos.

Cara já estava grávida na noite em que Nita morreu, porém ela não sabia. Ela passou a gravidez inteira em Milwaukee, com Peter, e essa é a primeira vez que ela vem para Chicago.

— Ah, meu Deus, ele é tão lindo — falo. Logo acrescento: — Eu sinto muito.

— Não há nada mais para sentir, você e Will foram vítimas.

Sem que eu tenha chance de responder, Peter aparece.

— Evelyn disse que, se não for logo para a sala, você vai passar a última noite em Chicago na rua — ele informa.

Todos rimos e Cara vai com Peter, eu, porém, detenho Tobias por um momento antes de segui-los.

— É nossa última noite em Chicago, e tenho estado aqui boa parte da minha vida — digo —, e grande parte dela foi conturbada e cheia de dor. Mas, quero que saiba que, se em algum momento fui feliz aqui, e consegui esquecer de todas as coisas ruins, foi por sua causa.

Ele parece não saber o que falar, e fica me olhando por algum tempo antes de me puxar pela cintura e me beijar. Quando nos afastamos, ele leva minhas mãos até as costas e encosto em algo que, incialmente, não sei o que é.

— Quero isso longe de mim quando eu sair daqui. — Então entendo e tiro a arma de sua cintura. — Posso parecer covarde, mas não quero apontar isso para a cabeça de mais ninguém.

De repente, me lembro de algo que aconteceu há muito tempo, parece que foi em outra vida. Eu tinha apanhado de Peter na iniciação da Audácia, e Al disse que não queria bater em mais ninguém poderia significar que era um covarde. Repito o que disse naquele dia para ele.

— Não querer machucar as pessoas não faz de você um covarde.

Ele me dá um beijo na testa e sai, me deixando sozinha com arma. Eu poderia deixar ela em um canto, estou indo embora, ninguém usaria ela, mas, por algum motivo, não consigo. Caminho até a cama, onde a mala que vou levar para a viagem ainda está aberta, e coloco a arma lá dentro, bem no fundo.

Ninguém precisa saber, falo para mim mesma antes de fechar a mala e sair do quarto, sempre vou ter um pouco de Audácia comigo.

Quando chego até a sala, vejo que todos realmente se empenharam para que essa noite seja memorável.

A mesa está linda e repleta de comida, e todos já estão de pé em volta dela. Evelyn está ao lado do Doutor Kart, de óculos escuros, Zeke e Shauna de mãos dadas, Peter segurando Will, com Cara ao seu lado. E Tobias, sorrindo, com um lugar vago para mim também.

Todos parecem muito felizes, e vê-los me enche de alegria. Sinto saudades de Christina, mas sei que ela está muito bem com Trevor e Ash. A primeira coisa que ela me disse depois que Matthew foi preso é que ela precisava sair da cidade, e Trevor ouviu, e agora eles estão bem longe de toda a mácula de Chicago.

— É um novo começo para cada um de nós — Evelyn anuncia. — Espero que, depois de tantos anos lutando, vocês comecem a finalmente viver suas vidas.

Ninguém fala nada, apenas pegamos as taças de champanhe que estão na mesa à nossa frente e fazemos uma contagem regressiva silenciosa.

Quando a meia-noite chega, brindamos, felizes, por estarmos juntos e vivos. Sobretudo vivos.

Então ouvimos o barulho do trem, que passa relativamente perto do apartamento de Evelyn. Como que automaticamente, eu e Tobias nos olhamos, e depois para Zeke, que olha para Peter.

— Ainda se lembra de como pular para dentro de um trem? — Zeke pergunta a ele.

— Acho que não se esquece esse tipo de coisa — fico feliz que Peter tenha escolhido não tentar recuperar a memória, mesmo que conseguíssemos salvar algo do prédio da força policial. Mas ele tem razão, não dá para esquecer disso.

Tobias olha para mim com expectativa.

— Uma última vez? — ele pergunta.

— Claro — falo, e dou a mão a ele.

Peter beija Cara e o bebê, e Zeke faz o mesmo com Shauna, e pergunta se tudo bem ele fazer isso.

— Faça por nós dois — ela responde.

Saímos do apartamento e corremos para o trem. Já se passaram alguns vagões quando chegamos, mas ainda há vários.

Zeke vai primeiro. Corre por um curto espaço e pula majestosamente lá dentro, como se continuasse fazendo isso todos os dias. Então Peter, que, um pouco desastrado, também consegue pular.

Ainda de mãos dadas com Tobias, corremos e pulamos. Lá dentro de um vagão vazio, nos penduramos na porta e sinto o vento frio contra o meu rosto. Tobias para na minha frente e então olho profundamente em seus olhos, conseguindo ver meu reflexo neles.

Então me lembro que, anos atrás, uma garota vivia num mundo onde só podia ver seu reflexo uma vez a cada três meses, e milhares de memórias enchem minha cabeça depois dessa, e parece que o mundo para.

Sinto-me estranhamente pronta para deixar tudo isso para trás.

Seguro novamente na mão de Tobias, forte.

— O que foi? — ele pergunta.

Não sou mais a careta, nem a primeira a pular, depois de hoje, serei eu. Pela primeira vez em toda minha vida, sinto que pertenço. Não a algum lugar ou a outra pessoa, mas a mim mesma.

— Estou livre — respondo.

Notas finais
Queria pedir que TODOS que leram a história, mesmo que nunca comentaram, deixem um review dizendo o que acharam, o que a história representou para vocês ou qualquer outra coisa que quiserem, por favor! Feliz Ano Novo! Um 2016 cheio de história incríveis e muita paz e amor. Obrigada novamente, até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!