Notas iniciais
Desculpem pela demora, de novo. Mas agora as férias chegaram e vou parar de atrasar os capítulos. Obrigada por esperarem, espero que gostem!

Liv

Ele me olha assustado, sem saber que é exatamente assim que me sinto.

Eu acabei de matar uma pessoa, esse homem havia se voluntariado para morrer por essa causa. Pela causa de Nita. Pela minha causa.

Mas Nita me ensinou a fazer isso: esconder uma turbulência de medo e insegurança atrás de um olhar e palavra fortes.

— Precisamos tirar você daqui — digo.

— Por que eu deveria ir a qualquer lugar com você? — ele pergunta.

— Porque acabei de matar um homem enviado para te assassinar — digo e tiro outra arma da cintura, tentando entregar a ele, que não aceita.

— Como tem essas armas? — ele indaga.

— Essa é realmente a pergunta mais importante agora?

— De qualquer forma, não precisamos usar isso — ele começa —, tem uma saída bem ali...

— E acha que não tem ninguém esperando por você lá?

— Eu não... Eu não quero — ele diz olhando para a arma.

— Olhe — pego em sua mão e coloco a arma —, você pode fazer isso. Se não for por você, faça pela cidade. Chicago precisa de você.

Em relutância, ele concorda:

— E qual é o plano?

— Eu vou sair e você vai trancar a porta. Espere quinze minutos e saia por ali — aponto para uma pequena porta que fica atrás de uma estante.

— E o que vai fazer nesse meio tempo?

— Eu saio pelas portas principais, eles só estão segurando políticos. Vou dar uma volta até a saída desse escritório para acabar com quem quer que esteja te esperando — explico.

— Por que não sai por aqui?

— Uma vez que abrirmos essa porta, não sabemos quantos tem lá fora, pode ser que eles entrem. Mesmo que eles saibam dessa saída, não é possível abrir por fora. Preciso derrubar eles antes que tenham chance de te atacar.

— Você pode morrer — ele diz.

— Vou fazer um esforço muito grande para não considerar esse comentário machista e ofensivo. Eu sei me defender. E, além de mais, vale o risco.

— Por quê?

— Como eu disse, a cidade precisa de você, e eu faço parte da cidade. Não posso vê-la desmoronar.

— Provavelmente não sou o único líder em potencial aqui.

— Provavelmente — digo. — Mas não gosto de viver com possibilidades.

Abro a porta e olho lá para fora. Antes de sair, me viro.

— Quinze minutos — ele olha para o relógio e eu saio.

Fecho a porta atrás de mim e guardo a arma.

Logo, em um canto da sala, dou de cara com Beatrice. Ela está apontando a arma para alguém. Um homem. Ele está com as mãos na cabeça.

— Não é possível — ele diz com os olhos vidrados nela. — Você está morta.

— Eu pareço morta? — ela diz, atirando em sua perna.

O homem cai no chão e grita de dor.

— Sou eu, Marcus Eaton. Por que está me machucando, Tris?

— Não me chame de Tris — ela diz.

Quando decido parar de olhar aquela tortura desnecessária, ouço um tiro. Deve ter sido na cabeça dessa vez, mas não olho para trás para confirmar.

Já estou caminhando em direção à saída quando uma pessoa — é Abby, a responsável pelo ataque junto com Beatrice — me segura.

— Liv, alguém pode dizer para ela parar de matar pessoas que nem são do Governo só por capricho? — ela diz.

— Se me parou só por causa do seu capricho, me deixe ir logo, sou a futura vice-prefeita — digo, olhando em volta —, e se alguém me vir conversando com uma das pessoas que está fazendo o ataque?

— Não é só isso. A força policial está aí fora, eles vão conseguir entrar — ela informa.

— Eu preciso que segurem por mais quinze minutos.

— E depois?

— Sabe a ordem de Nita: se alguém interferir antes que tudo esteja feito, queimem tudo.

***

Saio correndo sem despertar a atenção da polícia, o que não é difícil, já que eles estão cuidando de uma multidão.

Corro e dou a volta no prédio o mais rápido que posso, mas não sou uma corredora muito boa e a rua é comprida demais.

Quando finalmente chego, três homens estão lá. Eles se viram e o do meio fala:

— Não podemos bater em você — ele diz. — Sei o que Nita disse, mas você tem a idade da minha filha, é covardia.

— Bom, mas eu não sou a sua filha — digo. — Sua filha faria isso?

Chego mais perto, tiro a arma e dou uma coronhada em sua cabeça numa fração de segundo.

— Pronto, agora têm um motivo, se não fizerem isso, vão ter que se ver com Nita, e não vão querer isso — digo. — Faça com que seja realista, covardia é não querer me bater e atrapalhar todo o plano.

Eles se entreolham e começamos a lutar. Não estão dando tudo de si para me machucar, mas deve parecer bom para quem olha de fora. Quando o homem com a coronhada cai no chão depois de um soco meu, ouço uma porta se abrindo. Tobias.

— O que está fazendo aqui? — grito.

— Você disse quinze minutos — ele diz, mirando a arma para mim. Mas, quando penso que ele vai atirar em mim, ele atira no braço do homem que estava chegando por trás para me atacar.

Começamos a lutar quase que em sincronia contra os últimos dois caras que ainda estão de pé.

Quando termino de derrubar o homem baleado, ajudo Tobias com o outro e ele cai, por fim, desmaiado.

— Ual, você sabe lutar! — ele exclama.

— Pelo menos finja que não está tão surpreso.

Ele sorri, nervoso. Mas logo um cheiro de fumaça enche o espaço. Eles começaram a colocar fogo no prédio.

— O que é isso? — Tobias pergunta.

— Fogo — digo. — Tem algum lugar seguro para onde você possa ir?

Ele pensa um pouco e depois responde:

— O apartamento da minha mãe. É aqui perto.

Antes que eu possa responder ele segura em minha mão e quando percebo já estamos correndo. Sem olhar para o prédio que arde às nossas costas.

Depois do que parecem cinco ou dez minutos, já estamos em frente a um prédio de cinco andares de tijolinhos.

— É aqui? — pergunto, sem fôlego.

— É, vamos — ele diz.

O sigo, mas quando entramos na recepção do prédio, puxo seu braço, fazendo ele parar.

— Só um... — minha voz falha de cansaço. — Um minuto.

Sento-me no chão e ele escorrega ao meu lado.

— Obrigado — ele diz.

— Não me dê todo o crédito.

— É sério, você se arriscou muito por mim.

— Não foi por você — respondo automaticamente, só que me lembro de que deveria estar supostamente conquistando-o. — Quero dizer, fiz pela cidade.

— Mesmo assim. Obrigado.

Ficamos em silêncio por um tempo, até que Tobias retorna a falar:

— O que queria comigo hoje mais cedo? — ele indaga. — Antes de isso tudo acontecer, Alfred disse algo sobre você me importunar sobre um emprego... Ah, Alfred — ele se lembra.

— Sinto muito — digo. — Ele estava falando sobre o emprego para o qual me candidatei.

— Que emprego?

— De vice-prefeita — respondo.

Ele me olha com uma expressão indecifrável no rosto.

— Ficaria melhor na força policial.

— Você também.

Ele sorri fraco, e depois assente.

— Bom, então a vaga é sua — ele diz.

— Como assim? Não tivemos uma entrevista nem nada...

— Você salvou a minha vida — ele fala. — Mais que isso, você arriscou sua vida pelo que eu represento para a cidade. Você se arriscou pelo seu povo, não preciso de uma entrevista.

Fico sem ar por um momento, foi mais fácil que pensei. Nita tinha razão. De novo.

— Obrigada, então — estendo minha mão e ele aperta.

— Vamos subir — ele diz, se levantando.

Esperamos o elevador em um silêncio sepulcral. O prédio parece muito vazio. A maioria dos moradores devia ter ido à cerimônia, e alguns dos mesmos talvez tenham morrido lá.

Quando o elevador chega, entramos e Tobias aperta o botão que leva ao terceiro andar.

Descemos do elevador e vamos nos aproximando da porta que está marcada como “302” e um burburinho de vozes vem de lá.

— Não fui o único a pensar no apartamento dela — Tobias comenta e bate na porta.

— Quem é? — uma voz de homem vem de trás da porta.

— É o Tobias, Zeke, abra — e ele faz isso, deixando-nos passar.

Cinco pessoas estão lá: o cara que abriu a porta para nós — Zeke —, uma mulher que parece um pouco mais velha que todos nós — provavelmente a mãe de Tobias —, uma garota com um aparelho mecânico nas pernas, uma outra de cabelos curtos e um outro garoto que me lembra muito Beatrice. Todos estão com uma expressão estranha no rosto. Apreensivos. Não parecem me notar.

— Como fiquei preocupada — a mulher abraça Tobias —, tudo bem?

— Tudo sim, essa é Liv, o maior motivo pelo qual estou bem.

— Obrigada, Liv — a mulher pega em minhas mãos e sorri.

Antes que ele possa me dizer quem é quem, a garota de cabelos curtos começa:

— Tobias, George ligou agora pouco, um homem disse que presenciou um assassinato. E a pessoa que morreu era Marcus, seu pai.

Não sei por que, mas Tobias não demostra dor nem sofrimento. Talvez ele e seu pai não eram próximos. O máximo que ele demonstra é confusão.

Porém, eu o vi sendo assassinado, Beatrice o fez. Se eles descobrissem que foi ela...

A garota parece que lê meus pensamentos quando continua:

— O cara era da Abnegação, morava perto de Marcus. Sabe quem ele disse que o matou? Segundo sua descrição, era Tris. Devia estar louco. Ridículo, não é?

Tobias olha para ela por um momento, considerando, até que diz:

— Você me chamaria de louco se eu dissesse que também vi Tris?

Notas finais
Gostaram? Não gostaram? faltou alguma coisa? Comentem aí. Até o próximo capítulo!