Ressurgente
33 Capítulo 32
Notas iniciais
Liv
Então o drama começa.
O cara era um idiota, tomou o Soro da memória e virou um cara do bem. Deve ser ruim descobrir isso assim, claro, eu entendo.
Ok, talvez eu não entenda, mas o fato é de que existe uma multidão fora da cidade fazendo protestos, movidos pelo desejo de vingança de Nita, querendo ser liderada por Tobias, que teve que parar uma reunião onde estávamos discutindo o que fazer para ajudar Peter com sua crise existencial. Eles precisam aprender a estabelecer prioridades.
Enquanto Cara tenta acalmá-lo, Amar continua olhando feio para mim, mas não ligo, não preciso da aprovação dele, não preciso que ele acredite que estamos falando a verdade. Isso não importa nem para mim nem para Derek, vamos sumir de Chicago assim que tudo isso acabar. Assim que enterrarmos Nita.
— Tudo bem? — Derek se aproxima de mim depois de trocar umas palavras rápidas com George, que não decidiu ainda se nos odeia ou se nos entende.
— Na medida do possível — respondo. — O que George queria?
— Ele quis saber detalhes sobre o que as pessoas estão fazendo fora daqui, se está muito violento e tudo mais.
E eu sei que está. No pequeno período em que fiquei em Milwaukee, pude ver na TV os diversos tipos de protesto contra o Governo. Nos mais pacíficos, pessoas carregando cartazes dizendo “Tobias Eaton é nossa liberdade”, “Não tratem os GDs como se não fossem seres humanos”, “Igualdade entre GDs e GPs” e “Somos todos cidadãos dos Estados Unidos” enchem as ruas, sendo silenciosos, expondo seus pontos de vista de forma cautelosa. Já nos mais extremos, lojas, prédios, construções públicas e qualquer coisa pela frente dos rebeldes é destruído, queimado, quebrado. Esses não lutam por igualdade, mas por dominação dos GDs.
Fiquei sabendo também que muitos GPs foram assassinados por pessoas que descobriram serem GDs da noite para o dia. A distinção de genes está chegando até cidades que nem sequer falava desse assunto.
— O que acha que eles vão fazer? — indago.
— Acho provável que eles mandem Tobias assumir a frente do povo, lute ao lado deles e blá blá blá.
— Isso não vai adiantar muito, ele precisa pensar em Nita. Se acabar com ela, os problemas serão amenizados.
— Acha que não sei disso? No fundo, espero que Tobias também saiba. Ele já tem o povo ao seu lado, só precisa tirá-los do lado de Nita.
— Infelizmente não deve ser tão simples, ela só vai deixar o povo quando estiver morta, o que não vai acontecer tão cedo — lembro —, além do povo, ela tem o apoio do Governo.
— Pois é, não vai ser fácil — ele diz, meio vago.
— Mas...? — o incito a continuar.
— Mas eu tenho uma ideia.
Derek, então, descreve para mim o seu plano minuciosamente, até que Tobias nos chama novamente para nos reunirmos.
Peter parece abalado, mas calmo. Não sei o que aconteceu, ou o que falaram para ele, e sinceramente não ligo.
— Bom, preciso ouvir suas ideias agora — Tobias diz.
Amar levanta sua mão.
— Acredito que deveria se pronunciar a favor dos rebeldes.
— Já pensei nisso, mas preciso de algo mais. Eu estaria me expondo contra o Governo e Nita ainda estaria um passo à frente, porque ela tem o povo e o Governo. Mas obrigado mesmo assim — ele agradece.
— E sobre se pronunciar contra o que eles estão fazendo? — é George quem pergunta.
— Eu disse isso mais cedo, e vou repetir, Nita estaria ganhando os rebeldes, eles querem um líder que apoie sua iniciativa, não que os mande parar.
E então ideias das mais idiotas surgem, uma atrás da outra, até que Derek estende a mão e Tobias pede para que ele fale.
— Está disposto a vencer a qualquer custo?
— A essa altura, não tenho escolha. O que você sugere?
— Para vencer Nita, vai ter que jogar sujo como ela.
***
Várias horas depois, todos nós estamos em um voo para Washington DC.
Tobias vai, afinal, se pronunciar para o povo, fazer um discurso sobre igualdade de genes e, no fim, apoiar a causa.
Estamos muito apreensivos em relação à aceitação do povo e às reações do Governo e de Nita. Não podemos esquecer de que Nita está com Zeke, e provavelmente vai usar isso contra nós, então precisamos ser cuidadosos. No entanto, Tobias ficar parado em Chicago não nos ajuda em nada, então precisamos agir. Podendo apenas torcer para que o plano de Derek dê certo.
— Já sabe o que deve responder às perguntas, não é? — Derek, do meu lado, pergunta a Tobias.
— Sim, gravei a maioria.
— Ótimo — Derek encerra o assunto, e essa é a única conversa surge dentro do avião.
Derek fez a pergunta a Tobias porque ele conseguiu contatar um grupo de repórteres que prometeram manter sigilo sobre a nossa chegada à Washington, apesar de eu não confiar inteiramente nisso.
Como se confirmando minhas suspeitas, tem uma multidão quando chegamos ao aeroporto. Tobias revira os olhos.
— Vai ficar tudo bem — Beatrice o tranquiliza, ela não tem falado muito desde que recobrou a memória, deve estar abalada.
Encaramos as pessoas fazendo uma pequena parede em volta de Tobias, o que não evita as milhões de perguntas:
— O que o senhor acha de todos esses protestos?
— Acha que os GPs devem ser eliminados?
— O senhor é GD?
— O senhor vai apoiar os rebeldes?
— O que tem a dizer sobre o Governo?
Tobias respira fundo antes de responder, como combinamos.
— Apenas quero ver as pessoas felizes, livres de tabus e preconceitos, porque, afinal, não somos todos seres humanos?
As perguntas ficam mais insistentes depois da resposta, e Tris é obrigada a repetir até entrarmos em táxis:
— Não temos mais nada a declarar.
Derek e eu ficamos em um táxi com Sarah e os resto se divide nos outros táxis que estão a nossa espera, tudo como Derek planejou.
Washington é diferente de Milwaukee em várias maneiras, mas o contraste com Chicago é gritante, as ruas iluminadas, nenhuma parte destruída ou inabitada. A cidade aparenta ser bem mais rica, não é à toa que o presidente mora aqui.
Chegamos ao hotel onde alugamos apenas um quarto para todos, porque não pretendemos dormir aqui. A equipe de repórteres que Derek chamou já está esperando por nós, como combinado.
Acomodamos as pequenas malas e bolsas e Tobias se senta em uma das duas poltronas de veludo encostadas à parede, de frente para a repórter principal, uma mulher ruiva muito bonita, que usa um vestido listrado preto e branco, óculos grandes e batom roxo, com um ar intelectualmente sexy.
Sentamos em volta para acompanhar a entrevista.
— Boa tarde, senhor Eaton, é um prazer estar na sua companhia, o país inteiro anseia por ouvir uma resposta do senhor.
— Boa tarde, é igualmente um prazer — ele sorri, e logo após graceja: — para eu ter uma resposta, preciso que faça as perguntas.
— Há quanto o tempo o senhor sabe que o povo o nomeou como líder? — ela não gosta de brincadeiras, pelo visto, e faz primeiro uma pergunta bem complicada.
— Bom... — Tobias hesita por um momento. — Pouco tempo, confesso. Infelizmente, Chicago tem estado isolada há tanto tempo que não fiquei sabendo de tudo com exatidão, e precisei tomar decisões difíceis até poder estar aqui.
— Para que o senhor está aqui, exatamente?
— Para ajudar as pessoas, sem dúvidas, mas não posso falar mais que isso.
— Tudo bem — ela não fica satisfeita, e começa a fazer as mais diversas perguntas, que Tobias responde de imediato, até que ela pergunta algo mais relevante: — O senhor alegou ter ficado sabendo sobre os protestos há pouco tempo, mas, independente disso, por que não começou a lutar antes, por conta própria, já que sabia da opressão do Governo há mais tempo, vendo que venceu o experimento de Chicago?
Tobias vacila um pouco, mas se levanta e olha para Beatrice.
— Pode vir aqui, meu amor?
Beatrice pega em sua mão graciosamente e aparece diante das câmeras, dando um beijo em Tobias nos lábios.
— Ela é a resposta, tanto do povo como minha, não podia continuar sem ela, então fiquei esse tempo todo em Chicago recuperando Tris, para benefício de todos.
A repórter morde os lábios, com raiva.
— Vocês têm mais alguma coisa a falar?
Beatrice se adianta em frente ao microfone, e sorri.
— Não percam o discurso de Tobias Eaton, amanhã, num palanque que será montado nos arredores da Casa Branca.
Eles ficam abraçados até que a câmera é desligada. Tobias parece bem satisfeito com Beatrice e não a larga enquanto os repórteres arrumam suas coisas. Aproveito que todos estão distraídos e me aproximo de um dos câmera-man, que parece mais amigável, ele até sorriu quando Tobias e Beatrice se beijaram.
— Com licença — digo —, posso fazer uma pergunta?
— Claro — ele me dá atenção.
— Uma das pessoas que está na frente do povo nesses protestos se chama Nita, ou Juanita, não sei como ela se apresentou, ela tem dado as caras?
Ele me olha, confuso.
— Desculpe, mas nunca ouvi esse nome antes.
***
Passamos a noite na missão de descobrir qual o nome que Nita está usando na cidade, que é importante para nós. Por sorte, não existem muitos rebeldes influentes com as características dela, então descobrimos que ela está usando o nome de Lauren, mas as informações sobre seu paradeiro são inexistentes. Mas temos o suficiente.
A manhã chega rapidamente e ajudamos a preparar Tobias e Beatrice. Ele está vestindo um terno e ela uma calça, uma blusa e uma bota, toda de preto, ainda um membro da Audácia, claramente, mas ela está deslumbrante.
Chegamos até o local onde vai acontecer o discurso e já está lotado. Enquanto Tobias é levado com Beatrice, Christina, Amar e Peter para perto do palanque armado no centro da multidão, um grupo amigável de rebeldes passam a situação mais completa para Derek, Cara, George e eu.
— Nosso movimento conta com mais ou menos 70% da população do país, o que já é muita coisa, mas ainda tempos problemas entre nós: existe uma subdivisão entre os que apoiam a igualdade, os que apoiam a supremacia GD e ainda os que votam por um meio termo.
— Não podemos ganhar se estamos com pequenas guerras entre nós — Derek observa.
— Exatamente, meu rapaz — um homem mais velho do grupo fala —, é isso que estamos tentando fazer com que eles percebam — ele indica o povo.
Ficamos em silêncio por um minuto, observando as pessoas, todas querendo lutar, mas não exatamente com o mesmo objetivo. Volto com a conversa:
— Algum de vocês conhece uma mulher que está mobilizando o povo, Lauren?
— Aquela meretriz que só funciona da cintura para cima... — o velho assume uma expressão de raiva, o que atrai minha intenção.
— Pare com isso, Edd, não tem nada contra moça.
— Ah, não? Deixe eu te contar, minha filha — ele se dirige a mim —, o que aquela mulher...
— Shhhhh — o outro homem o repreende, voltando nossa atenção para o palanque —, vai começar.
Paro de falar, mas não vou esquecer seja lá o que for que o homem queira contar.
Tobias e Beatrice estão no palanque, lado a lado, de mãos dadas. Parecem o casal perfeito. Talvez sejam mesmo.
— Bom dia — Tobias cumprimenta, e Beatrice apenas acena com a cabeça. — Estou aqui, primeiramente para agradecer. É uma grande honra que me queiram como seu líder. Há muito tempo, eu vivia numa cidade onde as pessoas eram caracterizadas por seus genes, mesmo que não abertamente, mas descobri que aquele meu mundo era uma farsa. Porém, vencer as facções não foi o bastante, mas foi o começo. Por vocês e com vocês, pretendo ajudar da maneira que posso, a vencer esse Governo e conseguir justiça e igualdade para todos nós.
— Lutaremos ao lado de vocês, assim como lutei ao lado de Tobias e de meus amigos. E, como sua ajuda, venceremos essa guerra — Beatrice complementa. — Não tenham medo, juntos podemos qualquer coisa. As derrotas e até mesmo as vitórias que tivemos até agora não se compararão com o que está por vir.
— Por entender cada um de vocês, e saber que todos têm motivos para estarem aqui, eu e Tris prometemos que vamos apoiá-los. Estamos aceitando os lugares de líderes do seu movimento, e faremos o possível e até o impossível por cada um de vocês.
Tobias seguiu à risca o discurso que Derek escrevera com ajuda de Cara, e todos começam a aplaudir. Porém, param de repente, se abaixando depois de um estrondo.
Todos olham horrorizados antes de correr desesperadamente. Seu novo líder rebelde acaba de levar um tiro no peito.
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