Ressurgente
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Liv
Hoje faz exatamente cinco anos desde que Beatrice está conosco. Foi incrível ver como aquela garota totalmente vulnerável aceitava todas as histórias que contávamos.
Na verdade não foi nada incrível, foi até cruel. Reescrevemos sua história, apagando seu passado. Seus amigos e inimigos trocaram de lado. Nita contou que era como uma mãe para Beatrice, enquanto a sua verdadeira tinha sido supostamente morta pelo Governo. Já eu, fui como sua irmã, fomos criadas juntas e eu sempre a protegia. Ridículo. Considerando tudo o que tenho feito desde sua chegada, a última coisa que estou fazendo é protegê-la.
E assim, simplesmente, sua história foi contada, como em um livro de ficção onde Nita era a autora:
— Seu nome é Beatrice. Beatrice Prior. Você viveu desde que nasceu em um lugar dividido por facções. “Os que culpavam a agressividade formaram a amizade, os que culpavam a ignorância se tornaram a Erudição, os que culpavam a mentira fundaram a Franqueza, os que culpavam o egoísmo geraram a Abnegação, e os que culpavam a covardia se juntaram à Audácia.“— citou Nita. — Você nasceu na Abnegação, mas nunca foi altruísta ou simples o suficiente, invejava a liberdade dos membros da Audácia.
Em meio a pausas para as incessantes perguntas de Beatrice, Nita demorou muito, mas explicou que todos os jovens de 16 anos tinham que escolher uma facção para passar o resto da vida, e faziam um teste para saber para qual delas tinham aptidão, para auxiliar sua escolha. Porém, o teste de Beatrice deu Divergente, e contou o que era e o perigo que isso representava na época.
Nita também inventou que, depois da garota ter escolhido a Audácia, ela não se adaptou lá. Que ela fez apenas um amigo, que acabou se tornando seu grande amor. Seu nome era Al, mas ele foi morto pela mesma pessoa que matou Eric, seu instrutor favorito da iniciação.
— E quem foi que os matou? — a garota indagou. — Qual é o nome dele?
— Tobia Eaton — Nita respondera. — Mas, de onde você veio, costumavam o chamar de Quatro.
Nita também acrescentou que Beatrice descobriu o que havia atrás da Cerca, sobre sua cidade ser apenas um experimento, sobre as pessoas com genes defeituosos, e as pessoas sadias, Divergentes, como ela, e sobre tantas coisas que não tinham um pingo de verdade. Ela contou que Beatrice viu o que acontecia com os GD’s na fronteira, e que a garota tinha se prontificado para lutar contra o Governo pela causa daquelas pessoas.
Por fim, Nita contou a Beatrice que ela tinha sido incumbida da tarefa de soltar o soro da memória sobre o Centro, mas que no processo ela acabou sendo atingida também pelo soro. E ali estava ela, conosco, suas salvadoras.
A garota não contestou nenhum dos muitos furos que essa história tinha, na verdade, ela sequer assimilara tudo. Ela faria isso gradualmente, nos cinco anos que se seguiram, aprendendo todos os detalhes de sua vida arranjada. Porém, provando que sua personalidade não tinha mudado, sua primeira dúvida foi se nós tínhamos conseguido acabar com o Governo.
— Não — Nita disse. — Espero que ainda esteja disposta a nos ajudar com isso.
— Se eles tiraram mesmo tudo isso de mim, estou — Beatrice disse, decidida. — Mas preciso saber, o homem que matou... qual era o nome dele? Meu namorado?
— Al — eu respondi.
— Al. Esse homem que matou Al é aliado do Governo? Eu posso matá-lo?
— Sim — eu disse —, deve.
— E como saberei quem é ele? Como saberei quem é do Governo?
Um sorrisinho vitorioso se formou nos lábios de Nita, a garota não pareceu perceber.
— É simples, você é conhecida pelos nossos inimigos por um apelido, saberá quem são quando te chamarem assim — ela explicou.
— E que apelido é esse?
— Tris. E está autorizada a matar qualquer um que chamá-la por esse nome.
* * *
Estou sentada na sala de reuniões, em um edifício aparentemente abandonado da cidade de Chicago. É aqui que moramos agora, estamos à espera de Nita, que disse que nossos planos serão finalmente postos em ação, e mal podemos esperar. A promessa de justiça — e vingança — já vem durando cinco anos.
Nita era bombardeada com perguntas do tipo "quando vamos agir?", "desistimos de nos vingar?", "quando começaremos a guerra contra o Governo?" Mas Nita sempre respondia que vingança era um prato que se come frio, e que teríamos de esperar até que a cidade tivesse uma força sólida dentro do Governo, aparentemente essa hora chegou.
Estou ao lado de Abby Parker, ela conheceu Nita no experimento de Indianapolis, mas ao contrário de Nita, Abby foi considerada GP, porém sua família e seu namorado não. Eles foram para a cidade, mas seu pai foi preso após “desacatar” um GP em seu trabalho. Sua família e seu namorado, então, foram para a Fronteira, e este último acabou sendo morto lá depois de uma briga de rua.
Abby é a pessoa que menos tolera a presença de Beatrice, ela ficou sabendo que a garota esteve na Fronteira no dia que isso aconteceu. Na cabeça de Abby, ela e seu namorado, Quatro, poderiam ter evitado a morte de Max, seu amor.
À nossa frente estão Derek e Trevor. Não sei nada sobre o passado de Trevor, muito menos por que ele era um dos escolhidos de Nita para a parte inicial do nosso plano. Já Derek era mais próximo de mim do que qualquer outro. Conhecemo-nos um pouco depois de Nita me tirar da Fronteira, depois que minha mãe e meus irmãos morreram. Ele fez dos meus dias melhores, começamos a namorar e devo muito do que sou hoje a ele.
Derek nasceu GD em uma família de GP’s, se é que isso é possível. Então ele foi rejeitado pelos pais e foi para Fronteira, ele fez algo que impressionou Nita, que até hoje não sei o que foi, e ela o selecionou, como a mim, para ser integrante principal da vingança contra o Governo.
Nita distribuiria tarefas hoje. Segundo ela, cada um de nós teria um papel fundamental, e se não o realizássemos, tudo seria perdido.
— O que acham que teremos que fazer? — pergunto para quebrar o silêncio.
— Achei que tivesse te ensinado a controlar a curiosidade, Liv — a voz de Nita vem de trás de mim.
A porta está aberta e Nita entra em sua cadeira de rodas, seguida por Mary e Rafi, líderes da Fronteira.
— Bom dia — Rafi cumprimenta, mas não consegue nada mais que um aceno de cabeça como resposta.
Todos trocam olhares apreensivos, mas Nita logo limpa a garganta para falar.
— “Custe o que custar” — ela começa — Isso foi o que prometeram quando disse que seriam os selecionados. Ainda estão dispostos a isso?
— Sim — Abby, Trevor, Derek e eu respondemos em uníssono.
— Bom, para começar,Trevor e Derek, vocês terão que se juntar à força policial. Preferencialmente, procurem afinidade com um homem chamado Amar, ele está no mais alto escalão.
— Quando a guerra contra o Governo se instalar, precisamos de pessoas lá dentro — Rafi diz —, precisarão derrubar as forças armadas de dentro para fora.
— Façam o líder deles confiar em vocês — Mary acrescenta. — Quando queremos derrubar algo, começamos por cima.
— Não vamos decepcioná-los — Derek diz.
— É melhor que não mesmo, querido, estamos apostando nossas melhores cartas em um grupo que acabou de sair da adolescência.
— Isso já aconteceu antes — uma voz que pertence a Beatrice vem da porta, a garota provavelmente tinha sido convidada para a reunião. — Apostaram em mim, e ganharam.
Vejo que Abby revira os olhos.
— Sim, querida — Nita diz —, e espero que ganhemos de novo.
— No que depender de mim...
— Bom, prossiga com as tarefas de cada um — Abby a interrompe.
— Sim, as tarefas. Devido ao seu conhecimento sobre armamento e defesa, coordenará nossos ataques, Abby. Dividirá essa tarefa com Beatrice.
— Por que ela? — Abby indaga. — O que essa garota pode saber?
— Ela foi treinada na Audácia, e, mesmo depois de perder a memória, parece que seu corpo não se esqueceu das técnicas de luta que aprendeu. Ela está preparada para atacar, você para defender, juntas farão as melhores estratégias que precisamos para ganhar a guerra nas questões físicas. Alguma objeção?
— Todas — Abby responde. — Mas eu disse que concordava com o “custe o que custar”, estou pronta para isso.
— Ótimo. Agora você, Liv, ficará com a tarefa de ser vice-prefeita.
— Vice-prefeita? — pergunto, atônita.
— Acabei de receber um telefonema, Johanna Reyes está morta.
— Morta? Tem certeza? Quem te ligou e contou, afinal? — Trevor pergunta.
— Confio plenamente na pessoa que me deu essa informação, então se ele diz que a prefeita está morta, sei que ela está. E se ele obtém esse tipo de informação em sigilo, vamos manter tudo em sigilo, inclusive sua identidade — Nita explicou, calando Trevor.
— Tudo bem, vamos voltar à parte em que você explica como serei vice-prefeita?
— Com Johanna morta, Tobias Eaton assumirá, e vai precisar de alguém para tomar o lugar de vice que ele ocupava, essa pessoa será você.
— A propósito — Rafi disse —, amanhã pela manhã representantes do Governo vão estar no escritório de Johanna para oficializar Tobias como prefeito, vários aliados do Governo vão estar lá. Abby e Beatrice, preciso que organizem uma pequena cena. Vamos atacar a prefeitura.
— Um ataque em que proporção? — Beatrice pergunta.
— Se está perguntando sobre mortes — Mary diz —, poderá matar quantos representantes do Governo e amigos de Tobias Eaton que quiser, mas não poderá matá-lo.
— E você, Liv, vai “salvá-lo” — Nita diz, fazendo aspas com os dedos, ignorando a expressão desapontada de Beatrice por saber que não vai matar Tobias. — Armaremos uma situação que você estaria se arriscando muito para salvar a vida dele. Ele precisa ter um motivo para ficar muito grato a você.
— Tudo isso para eu conseguir a vaga de vice-prefeita? Quero dizer, não acho que ele vai me colocar nesse cargo por salvar a sua vida...
— Não, você vai se tornar vice-prefeita por causa das recomendações de uma pessoa, já cuidei disso.
— Então por que fazer esse teatro e salvar a vida dele? — pergunto.
— Porque não quero que você seja apenas uma assistente. Quero que faça Tobias Eaton se apaixonar por você.
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