Ressurgente
37 Capítulo 36
Notas iniciais
Liv
O entusiasmo, mesmo em tempos totalmente conturbados é bem característico de Jasper, e, mesmo tendo pouquíssimo contato com ele sei que é uma ótima pessoa, e com certeza vai fazer o programa de hoje o melhor, dará tudo de si para o público fique de uma vez por todas ao nosso lado, estamos contando com ele e sabemos que ele não vai nos decepcionar.
Amar convida toda a equipe para entrar e, depois que nós arrumamos todos os papeis, eles começam a arrumar tudo instantaneamente. Durante a arrumação, Jasper fala com todos nós.
— Como já devem saber, esse programa será transmitido ao vivo. Em qualquer lugar que as pessoas estejam, se elas estiverem perto de uma televisão ou na internet, nós vamos conseguir invadir a programação e vamos passar o programa — ele explica. — Isso não significa que não podem haver erros, porém vocês não podem falar besteiras. Como por exemplo, Tris, querida, você não pode comentar sobre a falta de memória uma vez que boa parte do público não tem conhecimento sobre isso.
— Entendido — Tris fala.
— Bom, eu preciso que todos vocês falem. Tobias e Tris, quero que sejam os últimos, quero que a audiência chore, quero drama, mas também quero ver determinação, vocês vão ganhar essa guerra e sabem disso. Vamos começar com um casal também Derek e Liv.
Olho para Derek e ele devolve o olhar, não tivemos tempo de nos resolver depois da discussão, e detesto ficar nesse clima com ele.
— Quero que sejam o casal forte e apaixonado que sempre foram — ele continua —, falem como a divisão de genes afastou vocês. Agora você, minha querida Christina, fale sobre deixar a sua família, fale sobre os traumas que a Audácia lhe causou. Sarah, quero que fale da sua irmã e dos sem facção. Trevor, George e Amar podem falar juntos sobre as batalhas armadas que sei que conhecem bem. Shauna, quero ouvir sobre Zeke, de resto você pode dizer o que quiser. Cara e Peter, quero que explorem essa coisa do romance que cresce em tempos turbulentos. Acho que é o suficiente. Não reprimam as lágrimas, elas passam credibilidade ao discurso de vocês. Eu escrevi a ordem e o direcionamento que quero que as falas de vocês tomem, mas não se prendam a isso, se quiserem amassar esse papel, não ficarei chateado. O mais importante é que falem com o seu coração.
Ele entrega as folhas para nós, todas escritas à mão, possivelmente na viagem dele até aqui. Esse cara sabe o que está fazendo.
— Agora deixe a minha equipe prepará-los para as câmeras.
Cada um vai para seu canto com um dos cabelereiros e maquiadores da equipe para pensar no que vão falar, menos Amar, George e Trevor, que falarão juntos, assim como os casais.
— Vamos continuar brigados? — Derek diz enquanto uma cabelereira mexe em seu cabelo. — Não vai ser bom para as pessoas nos verem assim.
— Não posso fingir que nada aconteceu, Derek — falo enquanto um maquiador começa a colocar produtos em meu rosto.
— Não finja. Eu fiz o que achei certo.
— Eles estavam nos ajudando! Somos tão criminosos quanto eles.
— Eles iam fugir.
— E era o que pretendíamos fazer depois que isso acabasse — lembro a ele.
— Não, nós pretendíamos nos mudar daqui. Não como fugitivos.
— Nós matamos pessoas!
— Pelo que acreditávamos.
— Acha que Mary e Rafi não acreditavam em Nita?
— Não vou discutir mais com você, espero que um dia entenda o que fiz.
Não nos falamos muito depois de então, além do momento em que combinamos um pouco do que vamos falar.
Aproximadamente uma hora e meia depois de várias preparações, Jasper nos chama.
— Prontos?
Eles organizaram um mini estúdio de gravação na espaçosa sala de Amar, e todos parecem apreensivos para começar.
— Não temos muita escolha, não é? — Sarah diz. — Vamos acabar logo com isso.
Acredito que todos estavam pensando o mesmo que ela, então nos posicionamos perto das câmeras e acompanhamos Jasper iniciar o programa depois que uma das câmeras diz “Ação”.
— Olá, mundo! — acho que tem alguma coisa sombria na voz dele nesse momento, mas pode ser coisa da minha cabeça. — Pare tudo que estiver fazendo, vocês não vão querer perder o que vamos apresentar aqui! Histórias tocantes e reais de pessoas que sofreram diretamente com a divisão de genes. Alguns rostos vocês já conhecem, outros são totalmente inéditos! E algumas revelações sobre nosso senhor presidente, isso mesmo, sobre ele e o Governo, espero que eles também assistam, porque é do extremo interesse deles. Sejam bem vindos à um programa relâmpago de Ressurgente!
Ele sai da frente da câmera e começam a transmitir a abertura. Enquanto isso, eu e Derek nos posicionamos nas cadeiras que são colocadas onde Jasper estava. Não dá tempo de ficarmos nervosos, Jasper faz um sinal de que podemos começar.
— No começo, éramos todos humanos — falo. — Até que as pessoas começaram a nos classificar. Pela cor da nossa pele, pelas coisas em que acreditamos, pelo dinheiro que temos. Pelos nossos genes.
— Há muito tempo — Derek começa —, um médico que teve a ideia de criar as cidades experimento para curar a população disse que “pessoas Geneticamente Danificadas não podem mais ser toleradas em nosso país”. Eu sou uma dessas pessoas, e não entendo por que não posso ser tolerado nesse país.
— A pergunta que esse médico deveria ter feito era “A que preço?”. Então eu poderia responder essa pergunta. O preço de mais de um milhão de vidas.
— Espero que se choquem com esse número. Foi o resultado de anos e anos de tentativas de curar a nossa população. Mais de um milhão de vidas: homens, mulheres, crianças.
— É triste saber que minha família faz parte desse número — falo mais forte do que pensei que conseguiria —, eles tinham fome, eles ficaram doentes, mas eu era classificada pelo meu gene, eles também, por isso morreram.
— Eu sou igual a todos os meus irmãos, porém meus pais me abandonaram porque algum exame disse que sou GD. E alguém disse a eles que isso é errado.
— Mas ele é um homem como qualquer outro, o homem por quem me apaixonei, mas há pessoas querendo impedir que vivamos juntos porque nos acham inferiores devido aos nossos genes diferentes.
— Se alguma vez pensamos em nos afastar, é porque tivemos medo da opressão — Derek então me abraça. — Para que possamos nos amar livremente, Tobias Eaton para presidente.
Posso ver a expressão confusa no rosto de Tobias, ele não sabia que nossas falas terminavam assim. Mas agora não há nada que ele possa fazer. E essa é a melhor campanha eleitoral que ele podia ganhar. Christina já se posiciona onde nós estávamos.
— As cidades experimentos eram uma forma, aparentemente eficaz, de separar as pessoas que tinham genes puros das outras — ela começa. — Mas alguém disse a eles que os Geneticamente Danificados não têm sentimentos? Eu tinha. Sim, no passado, porque agora eu não sou muito de sentir as coisas. Acho que todos conhecem o sistema de facções no qual vivíamos em Chicago. Eu tive que escolher uma facção, e tive de deixar minha família. E, além da saudade, tive que conviver com diversas perdas. Tenho o mesmo pesadelo todas as noites de uma garota que morreu na minha iniciação na Audácia. Eu não quero viver nesse pesadelo permanentemente, Tobias Eaton para presidente.
As falas são relativamente curtas, mas sei que elas estão afetando as pessoas. As pessoas vão se identificar com algum de nós, em algum momento, e essa é a intenção.
É a vez de Cara e Peter.
— Como cientista — Cara começa —, eu entendo o desejo do Governo de curar a população. Sim, entendo. Sei que perdas são inevitáveis, e que às vezes é necessário que vidas sejam tomadas para um bem maior. Existe um limite para isso, no entanto, existe um momento em que o cientista para de agir com humanidade, e acha que as vidas que está lidando não importam mais que a ciência. Mas elas importam. E esse limite foi ultrapassado há muito tempo pelo Governo desse país.
— “Eu só gostaria de um quarto limpo e uma última oportunidade de ver minha família” — Peter lê. — Esse é o depoimento de uma adolescente que serviu de cobaia para o teste do Soro da Memória, usado na facção Franqueza. Foi o que ela disse assim que aplicaram o Soro nela e perguntaram “o que você quer?”. Os registros, que vamos disponibilizar para a justiça, mostram as condições deploráveis a que essas pessoas eram submetidas.
— Mas mostram também — Cara acrescenta — que essa menina conseguiu fugir dos experimentos uma semana depois desse depoimento, com a ajuda de guardas que não concordavam com a situação.
— Queremos pedir esperança a vocês, e apoio. Sejam iguais a esse guarda para todas as pessoas que sofrem por distinção de genes nesse momento, ou para si mesmos.
— Eu perdi meu irmão em toda essa situação, e ganhei Peter — ela sorri, e ao mesmo tempo lágrimas escorrem dos seus olhos —, e essa é a prova de que tempos como esse podem trazer coisas boas.
— Foquem nessas coisas boas e tenham esperança. Não se entreguem a essa aparente morte iminente, Tobias Eaton para presidente.
Sarah então toma o lugar deles.
— Vocês não me conhecem — ela diz —, e nem poderia conhecer. Eu era o que chamávamos em Chicago de Sem-Facção. Eu e minha família não nos encaixávamos em nenhuma das facções, e, adivinhem, também diziam que eu estava errada. O fato é que sempre vão encontrar alguma falha, algo para apontar, algo para julgar. Eu perdi a minha irmã para Nita, ou Lauren, se preferirem. Ela matou minha irmã por pura crueldade, e isso faz dela uma criminosa, mas nada disso teria acontecido se deixassem nossos genes em paz. Eu me recuso a dizer uma frase idiota que rime, mas, se vocês querem alguma mudança, Tobias Eaton é a pessoa mais indicada para isso.
Sorrio para ela. É uma garota atrevida, mas ela sabe como dizer as coisas sabiamente.
Amar, Trevor e George são os próximos.
— Eu sempre me orgulhei de fazer parte de um grupo que protege as pessoas, como a força policial — George começa.
— Mas é triste saber que pessoas que desempenham as mesmas tarefas que nós são subornadas pelo Governo — Trevor completa.
— Segundo nossos arquivos, aproximadamente 100.000 GDs foram mortos por militares e policiais a mando do Governo — Amar diz. — Nós perdemos um grande número de soldados para proteger os mesmos.
— Muitos desses soldados foram pessoas ao lado de quem treinei e lutei — Trevor conta. — Gostaria que pensassem se uma diferença genética vale todo esse banho de sangue.
— Não quero sentir como se falhasse com as pessoas novamente, Tobias Eaton para presidente — George finaliza.
Shauna espera que eles saiam e logo depois vai para frente das câmeras.
— Não deveríamos dar um comercial? — ouço Tobias sussurrar para Jasper.
— A audiência está muito alta, e não podemos nos dar ao luxo de enfraquecer a conexão, estamos no ar clandestinamente. Agora, silêncio!
Volto a olhar para Shauna, que dispensou a cadeira e fala de pé.
— Olá — ela fala, meio sem jeito. É a primeira de nós a cumprimentar as pessoas. Ela fica um tempo sem falar nada, e Jasper fica desesperadamente fazendo sinais para que ela fale. — Bom... Essa daqui — ela aponta para a perna mecânica —, é a minha lembrança das facções. Todo esse processo de cura dos genes, não importa se tenha participado de uma cidade experimento ou de qualquer outra tentativa de cura, ou simplesmente de nenhuma, deixou marcas em nós. A maior marca que ficou em mim, porém, não foi essa perna, mas sim uma pessoa. Seu nome é Zeke, e talvez ele esteja morto agora, mas, se está, ele morreu pelo que acreditava, e ele acreditava em Tobias. Não se esqueçam dessas marcas, mas não deixe que elas tenham sido adquiridas em vão. Tobias Eaton para presidente.
Ela sai da frente das câmeras e deixa as lágrimas rolarem em um abraço com Cara. Eu me sinto muito mal por ela. Quando Derek vê para onde estou olhando, me abraça, e nós dois esquecemos da briga mais cedo.
— Isso tudo vai valer a pena — ele diz, e torço muito para que esteja certo.
O programa está chegando ao fim, e todos já estão emocionalmente abalados quando Tobias e Beatrice começam a falar.
— Esse programa não era para ser uma propaganda política — Tobias diz —, mas, aparentemente, todos eles confiam em mim para o cargo que os rebeldes querem que eu ocupe. E ainda estou disposto a ocupá-lo. Sendo assim, sei que muitos motivos já foram dados, mas vamos apresentar mais um para que tenham certeza de que o presidente atual não é o homem que querem no poder.
Então Tris explica todo o plano de separar crianças de suas mães, e segregar as pessoas GDs.
— Isso significa — ela continua —, que se eu tivesse um filho com Tobias e ele fosse designado GP ele seria tirado de mim para não ter contato com outros GDs. Eu não tenho palavras que descrevam o quanto isso é nojento e desumano.
— Pare onde estiver e olhe para uma pessoa próxima a você, ou, se estiver sozinho, vá até o espelho. Olhe para essa pessoa e tente, pelo menos tente, ignorar sua aparência, sua cor, o lugar de onde ela veio, ou se os genes dela são puros ou danificados. Coloque a mão sobre o seu coração e pense que o dela está batendo como o seu. Somos diferentes em incontáveis maneiras, mas nossos corações batem como um só.
— Todos nós acreditamos quando alguém disse que os genes fazem diferença — Tris continua o discurso —, então acreditem agora quando digo que não fazem! Eu amo Tobias, com todo o meu coração, e não muda absolutamente nada que ele seja um GD. Nós não temos que viver como se isso importasse.
— As facções destruíram parte da minha vida, tirou a vida dos meus amigos e eu quase perdi o amor da minha vida. Vocês, adultos, que tem o poder de voto, eu não quero que os filhos de vocês cresçam no mundo em que eu cresci.
— Saiam de suas casas, exijam seus direitos! Não deixem, por favor, que essas barbaridades voltem a acontecer, e não deixem que o Governo leve a frente os novos planos. Não há um Governo sem aprovação da população, vocês têm esse poder.
— Não deixem os genes nos governar.
Essa é a última frase de Tobias antes que o mundo inteiro assista o nosso estúdio improvisado ser invadido por pessoas armadas.
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