Ressurgente
31 Capítulo 30
Notas iniciais
Liv
Tobias olha para trás bem lentamente e vê Derek apontando a arma para ele, e aproveito o momento de distração para tomar a que Tobias estava apontando para mim. Levanto-me e agora Tobias é quem está na mira das duas armas.
— Olhe — Derek diz —, podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil. Ou você concorda em ouvir o que temos para falar sem precisarmos usar arma, ou elas ficam apontadas para a sua cabeça enquanto nós falamos.
— De um jeito ou de outro vai ter que nos ouvir — digo.
Tobias olha para Derek e depois para mim, como se estivesse nos estudando.
— Sem armas, então — ele diz e depois aponta para as poltronas no canto da sala. — Vamos sentar.
— Você primeiro — Derek fala ainda de perto da porta, e só sai de lá depois que Tobias se senta, e eu também.
Tobias respira bem fundo antes de começar:
— Você disse que sabe como fazer Tris recuperar a memória. Como?
— Vamos por partes — Derek diz.
— Primeiro precisa saber que estamos do seu lado, e não no de Nita — digo.
— Acha que isso é fácil de acreditar? — ele ri com escárnio. — Você matou pessoas dizendo que era para me proteger, eu confiei em você, tem dei um cargo de alta confiança, eu dormi com você!
Vejo a expressão de Derek mudar e tento melhorar a situação.
— Não por vontade minha, eu garanto — confesso. — Eu apenas fiz o que Nita mandou.
— Como conseguiu receber ordens para destruir a vida de tantas pessoas?
— Eu vou te dizer como: porque destruíram a minha primeiro! — estou praticamente gritando. — Eu tinha oito anos quando meu pai morreu, e era a mais velha de três irmãos. Minha mãe começou a trabalhar, mas logo adoeceu. Ela tinha um problema no coração. Ela parou de trabalhar e nós fomos despejados de casa. Nós passávamos fome, e ninguém estendia a mão. Eu ia às farmácias e pedia remédios, eu ia aos mercados e pedia comida, eu cheguei a ir até uma prefeitura, e sabe qual foi a pergunta que me fizeram? Se eu era GD ou GP! Eles me enxotaram como um cachorro quando disse que era GD. Meus irmãos estavam enfraquecendo, e minha mãe, morrendo, e junto com ela qualquer moeda que tínhamos.
Sem perceber, eu já estou soluçando, e Derek está me abraçando. Ele já ouviu essa história, mas não contada desse jeito. Eu não vou parar agora.
— Uma vez que ela estava morta, eu não tinha mais ninguém, e eu tinha que alimentar meus irmãos — continuo. — Eu vendi meu corpo, prefeito, e fiz as coisas mais nojentas que pode imaginar, e mesmo assim os meus irmãos pegaram uma infecção alimentar por causa da merda de comida que eu dava a eles. Sabe o pior de tudo? Eu não fiquei doente, eu não morri! Um dia eles estavam muito mal, e eu lembro como se fosse hoje: “Aguentem só mais uma noite”, eu disse a eles, “eu vou conseguir”. Mas adivinhe, eu não consegui. Eles morreram, e eu fiquei sozinha.
“Eu subi em incontáveis prédios, mas nunca tive coragem de pular. Eu me arrependo disso agora. Nita me achou quando eu tinha doze anos. Dois anos depois que meus irmãos morreram, eu estava sozinha há dois anos. Ela não estava só me oferecendo vingança, ela me oferecia comida, abrigo, roupas quentes, liberdade daqueles homens nojentos. Fazer as pessoas responsáveis pelo meu sofrimento pagarem era só um brinde. Agora me diga, Tobias, quem não aceitaria?”
Depois de um longo momento de silêncio, Tobias consegue me encarar novamente.
— Eu... ahn... não sei o que dizer.
— Comece dizendo que vai nos ouvir — Derek fala suavemente.
— Sou todo ouvidos — Tobias concorda.
— Pois bem — Derek continua —, nós estávamos sendo usados por Nita, quer você acredite ou não. Matamos pessoas sim, mas quando percebemos quem ela realmente era, nos afastamos. Eu forjei minha morte e saí da cidade, fui ver o que estava de fato acontecendo, e o que Nita estava conseguindo.
— O Governo está do lado dela, não está? — Tobias indaga. — Eu estava considerando com uma amiga que ela pode estar fingindo se aliar ao Governo, mas depois se juntar ao povo para conseguir derrubar o Governo.
— Sim e não — Derek responde. — Ela conseguiu a ajuda superficial do Governo, porque ninguém pode descobrir que ela está ajudando-os. Mas ela não está indo tão bem com o povo. Por mais que tenham conhecimento de que ela está “lutando por eles” — ele faz aspas com os dedos —, o povo já tem um líder em mente. Alguém que de fato venceu os experimentos.
— Quem? — Tobias pergunta.
— Você — eu respondo.
— Eu? — ele parece muito surpreso. — Como eu nunca soube de nada?
— Os Estados Unidos está se levantando, prefeito, mas Chicago permanece muito isolada. De qualquer modo, pessoas estão lutando, elas estão apenas esperando sua liderança.
— É muito para processar — Tobias solta um suspiro.
— Concordo — Derek diz —, mas temo que não tenha tempo de processar tudo. Precisa assumir isso.
— É só isso que eles querem? Que eu diga sim e os lidere?
— Eles têm uma condição — observo.
— Qual?
— Beatrice tem que estar ao seu lado — respondo.
— Como líder rebelde?
— Como Primeira Dama — Derek fala.
— Calma aí, eles querem que eu lidere o país?!
— Querem que seja o presidente — esclareço.
— Não é possível — Tobias se levanta e anda de um lado para o outro do escritório. — Onde é que a memória de Tris entra?
— Bom, para governar ao seu lado ela precisa se lembrar de tudo.
— Como? — Tobias repete a pergunta.
— Desculpe — Derek fala —, mas só vou dizer quando me prometer que vai pelo menos tentar se tornar o presidente.
— Não sei se vou ser capaz disso — ele confessa.
— Ele disse tentar — lembro.
— Tudo bem, eu vou tentar.
— Vou confiar na sua palavra — Derek se levanta também. — Basicamente Beatrice vai ter que passar por uma paisagem do medo, que vai fazê-la reviver suas memórias, porque ela enfrentará seu passado, em vez do medo. A simulação precisa acontecer na base da força policial, onde inicialmente eram feitos os testes dos soros das facções.
Ao contrário do que pensei, Tobias parece conhecer a história, porque não demonstra surpresa com o que Derek diz.
— Mas isso tem um risco — Derek vai direto ao ponto —, ela pode morrer.
— Quão grande é esse risco? — Tobias pergunta com bastante cuidado.
— Não faço ideia, os testes foram parados, como deve saber, não podemos ter certeza.
— Não posso perdê-la novamente, mas vamos.
— Vamos? — pergunto, estranhando sua atitude.
— Tomei decisões demais por ela, não posso tomar essa também. E mais cedo ou mais tarde, isso precisa acabar, de um jeito ou de outro. Começou com Tris, e se assim for, acaba com ela.
***
Tobias liga para Tris e vamos nos encontrar na base da força policial. Amar, George e vários soldados olham feio para nós, pelo visto nossa traição já foi espalhada, mas não me importo realmente, se Beatrice sair viva desse prédio hoje, tudo terá valido a pena.
O último andar da base da força policial está meio macabro. Todos os equipamentos estão cobertos por panos brancos, mas quando os retiramos, tudo parece intocado. Lembrar-me do “incidente” do qual Derek me contou agora me dá arrepios.
Tobias está em um canto, conversando com Beatrice por quase meia hora, explicando o que vai acontecer e falando seja lá o que for.
— Acha que ela vai mesmo aceitar? — Derek me pergunta.
— Tenho praticamente certeza — falo sinceramente. — Eu não quero pensar como deve ser para ela não ter certeza de quem é. E pensando que se eu não tivesse ajudado Nita...
— Ela teria colocado outra pessoa no lugar — Derek diz, pegando minha mão. — E talvez essa outra pessoa não estaria agora tentando corrigir seu erro, e, definitivamente, ela não seria o amor da minha vida.
Sorrio e o abraço, ao mesmo tempo em que Tobias e Beatrice se aproximam.
— Vamos acabar logo com isso — ela diz.
— Tem certeza do que quer fazer? — Derek indaga.
— Não é a primeira vez que estou correndo risco de morrer — ela responde.
— Pode deitar, então — Derek aponta para uma cadeira parecida com as de um consultório dentário, onde ela se deita. — O princípio é de que a memória nunca deixou sua mente, ela apenas foi inibida pelo soro. O soro que vamos aplicar em você, que é um antídoto do Soro da Memória, junto com esse computador vai fazer você reviver as lembranças mais importantes, e vai transmitir na tela para nós — ele aponta para uma grande tela na nossa frente. — Boa sorte.
— Obrigada.
— Beatrice — chamo, antes que Tobias injete o soro nela —, caso aconteça alguma coisa, quero que saiba que sinto muito.
— Todos sentem — ela sorri para mim, pela primeira vez com sinceridade e doçura.
Tobias coloca os fios que estão ligados no computador no corpo de Beatrice, segura em sua mão e posiciona a seringa perto do seu pescoço. Ele a beija ao mesmo tempo em que injeta o soro, e a tela na nossa frente liga.
Uma sucessão de cenas então começam a passar.
Primeiro uma garotinha que deve ter quatro ou cinco anos correndo com um garoto bem parecido com ela atrás. A garotinha cai, e começa a chorar. Um casal, que devem ser seus pais, chega até a cena e fazem a garotinha parar de chorar, e o garoto a abraça. Essa deve ser a primeira lembrança clara de Beatrice. Olho para Tobias e ele está sorrindo para a imagem, e consigo sentir algo bom, quase puro, sobre esse momento.
A partir dessa memória, as que se seguem são mais rápidas. A primeira vez que ela viu os membros da Audácia saltarem dos trens, o primeiro dia na escola, quando a chamaram de Careta pela primeira vez. Ela perguntando para a mãe por que eles não podiam se ver sempre no espelho, as brigas com seu irmão, com seus pais, os momentos felizes também, e, finalmente, a Dia da Escolha, quando Beatrice derramou seu sangue no recipiente da Audácia.
E então as cenas voltam a reduzir a velocidade, acredito que a partir daí começou a fase mais importante da sua vida. A tela mostra Beatrice pulando no trem, e depois no telhado, de mãos dadas com Christina, e depois ela sendo a primeira a pular do prédio. Ela parece tão orgulhosa de si mesma.
Depois acontece um momento mágico. Tobias dá a mão a ela, e ela escolhe ser chamada de Tris. A cena fica em câmera lenta nesse momento, e logo depois muda. A primeira vez dentro da sede da Audácia, o processo de iniciação inteiro. O primeiro beijo com Tobias, a primeira vez que dormiram juntos.
Eu me sinto constrangida de ver essa parte tão íntima de suas lembranças, e sei que Derek também está, mas a cena passa. A simulação que Jeanine fez com os membros da Audácia da qual ouvi muitas vezes de Nita, as inúmeras fugas pela qual ela passou, até o momento que ela saiu da Cerca e conheceu o Centro.
Também passaram pela tela as pessoas que Beatrice perdeu: sua mãe, seu pai, Uriah, Marlene, Tori, Al, Will, e a lista se prolonga. Assim como a lista de pessoas que ela odeia: Jeanine, Marcus, o pai de Tobias, Nita, Abby, Trevor, Derek, eu.
Finalmente chega ao que acredito ser o fim da simulação. Ela está com seu irmão, dizendo que vai morrer em seu lugar. Beatrice entra no Laboratório de Armas. Tudo parece que vai acabar bem, porém, quando ela começa a morrer na simulação, seu corpo se descontrola na cadeira, e Tobias entra em desespero. Ela está se debatendo muito forte e seus olhos estão abertos, mas virados, quase sem que possamos ver suas pupilas.
Derek se levanta e vai segurá-la, mas Tobias parece em choque.
— Segure ela! — Derek grita e ele finalmente se move.
— Precisamos fazer isso parar! — ele quase arranca um dos fios conectados no corpo dela, mas eu o impeço.
— Se parar agora ela pode morrer — alerto a ele.
— Ela está morrendo! — ele exclama.
— Se perdermos essa oportunidade, vai tudo para o lixo, nós perdemos. Ela é forte, vai aguentar.
— Não pode ter certeza disso — Tobias está desesperado.
— Claro que pode — Derek tenta acalmá-lo. — Você viu as memórias dela? Viu por tudo que ela passou? Se tem alguém que pode aguentar isso é ela.
— Confie nela — eu peço.
A tela sendo desligada chama nossa atenção, e Beatrice para de se debater. Coloco os dedos em seu pescoço, mas não sinto a pulsação.
Balanço a cabeça negativamente para Derek.
— Não, não, não — Tobias se ajoelha ao lado dela, com os olhos vidrados.
— Cara... — Derek coloca a mão no ombro de Tobias, que levanta abruptamente e joga ele contra a parede. Ao mesmo tempo, Beatrice levanta tão atordoada que cai da cadeira.
— Ah meu Deus, não acredito! — digo, sorrindo.
Nós a ajudamos a voltar a se sentar, ficando um bom momento olhando para o nada, até que as lágrimas começam a cair. Ela se levanta e dá um longo beijo em Tobias, que está parado ao meu lado.
— Você está bem? — ele pergunta assim que se abraçam, mas ela ignora essa pergunta. O que ela diz então é bem baixo, mas estou próxima o bastante para escutar.
— Eu vou matá-la. Mas antes vou fazer com que ela pague por tudo que ela me fez — ela diz, com a voz mais fria que já ouvi. — Ela vai pagar muito, muito caro.
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