Notas iniciais
Olá gente! Semana que vem estreia Insurgente, no Brasil primeiro do que nos EUA! Espero que estejam tão ansiosos quanto eu, e que o capítulo novo ajude a entrar no clima. Espero que gostem, um pouco de FourTris para vocês!

Tobias

A primeira gota de chuva cai em mim assim que saio do carro e vou encontrar Christina, o céu está muito fechado, assim como meu humor.

— Ela ainda está aí dentro? — pergunto de imediato, olhando para o antigo prédio em minha frente.

— Sim — reponde ela, mas logo hesita —, acho que está.

— Você acha?! — exclamo.

— O que queria que eu fizesse? — ela se irrita. — Invadisse o prédio sozinha e desarmada?

— Desculpe — digo. — Mas essa é a nossa primeira pista concreta sobre Tris em muito tempo.

— É a minha única pista — ela corrige. — Ainda não entendo por que não fez nada.

Então Cara não era a única com essa impressão, penso.

— Não vamos discutir isso agora.

— Não, agora não — ela diz com um tom que significa “vamos conversar depois.”

— O que nós fazemos agora? — indago. — Não podemos ficar esperando que ela saia pela porta da frente e nos receba.

— Já passou por sua cabeça que os rebeldes podem estar todos nesse prédio?

— Talvez, mas precisamos pelo menos bater na porta.

— Dormir com Liv afetou seu raciocínio? — ela diz, incrédula, e quando vê minha expressão confusa, acrescenta: — Não pareça tão surpreso, notícias correm. Matthew me contou.

Que ótimo. Ignoro a vergonha que deve estar estampada em meu rosto e observo o prédio novamente, pensando em quantas pessoas podem estar dentro dele. Quantas poderia enfrentar para chegar até Tris, avaliando prós e contras.

Porém, não preciso pensar muito, meu celular vibra e vejo uma mensagem de um número que desconheço. Leio em voz alta:

Não sei por que está atrás da pessoa que quer te matar, ou é louco, ou tem uma estranha fixação pela morte. De qualquer modo, estou interessada. Mas, se quiser falar comigo, terá que me pegar.

– Beatrice

Sem que eu e Christina tenhamos tempo para pensar no que foi essa mensagem, um carro sai de trás do prédio, em alta velocidade. Olho para ela e, de modo sincronizado, entramos em seu carro, seguindo o de Tris.

— Para onde ela está indo? — Christina pergunta, quando já estamos há um tempo no carro, sem perder o de Tris por muito pouco.

— Não sei, continue seguindo — digo.

Fazemos uma última curva fechada quando avisto a linha férrea.

— Sei exatamente onde estamos indo — falo de repente. — Acelere.

— Já estou acelerando demais, devíamos...

Christina não consegue terminar, já que é interrompida pelo barulho de um trem.

— Ah não! — ela exclama. — Não me diga que vamos ter...

— Vamos — confesso.

Consigo ver o carro de Tris parando, ela desce e espera o trem. Ela olha para trás para ver onde estamos, e sorri quando avista o trem.

É quase como um sonho, ver Tris assim, sorrindo, mesmo que por motivos que não acredito serem os melhores.

O carro de Christina para e saímos no exato momento em que Tris está se preparando para pular. Para Christina, deve ser como um flashback de seu primeiro dia como iniciando da Audácia, o terror de poder falhar a qualquer momento. Agora não parece diferente, está chovendo mais forte, a noite já caiu, o que torna a queda mais fácil. podemos não ter uma oportunidade dessas nunca mais.

Tris pula majestosamente para dentro do vagão e corremos para alcança-la, mas o trem está indo muito rápido. É estranho como as facções ainda estão tão impregnadas em nós. Existem estações para pegar os trens, mas não é muito raro ver alguém pular para dentro de um, é difícil desapegar dos velhos hábitos.

Subo no trem vários vagões atrás do que Tris entrou, e Christina quase não consegue entrar, mas dou minha mão e ela está finalmente dentro.

— Acho que perdi a prática — diz ela. — Da primeira vez que pulei para um vagão de trem, eu fui a mão que ajudou Tris.

— Precisamos voltar a fazer isso — sorrio com a enxurrada de memórias que me assaltam. Será que vou voltar a pular para dentro de um vagão de trem com Tris?

Pego na mão de Christina e começamos a correr pelos vagões. O trem está bem vazio, o que já é normal. É quase zero o número de pessoas que pegam o trem nessa cidade fora dos horários de entrada e saída das escolas e trabalhos. Ficamos brincando de pega-pega durante um bom tempo, tempo demais. Até que avistamos Tris dois vagões a frente e corremos mais, porém ela também corre. No entanto, chega um momento que ela não tem mais para onde correr, a encurralamos.

— Estamos aqui — digo. — Pode me ouvir agora?

— Ainda não — ela diz. É tão difícil encará-la, sem poder tocá-la. Quero sentir o corpo de Tris contra o meu, me abraçando, me beijando, como sempre fez. — Disse que o ouviria se me pegasse.

— Não tem para onde ir — Christina diz. Consigo ver que ela está lutando para se controlar.

— Não tenha tanta certeza — Tris diz, e, tão rápido que não consigo acompanhar, ela dá uma banda em Christina e a derruba, seguindo direto para mim, mas dessa vez estou mais preparado.

— Por que simplesmente não para e me ouve? — digo, tentando derrubá-la no chão, mesmo que todos os meus instintos digam que não posso machucá-la.

— Não me esqueci do que fez.

— Do que está falando?

— Sabe do que estou falando — ela diz, se esquivando de uma tentativa minha. — Al, Eric.

— O que têm eles? — pergunto, confuso. O que está passando pela cabeça dela?

— Como você é inocente! — ela debocha, usando minha dúvida e passando por mim.

Ela corre e para na porta de um vagão, mas, quando tento ir atrás dela, Christina, já de pé, me detém.

— Espere — ela pede. — Pode fazer com que ela caia.

Olho para fora e finalmente vejo onde estamos, tenho que pular também.

— Na primeira vez que pulei nesse telhado, uma garota morreu — Christina comenta, caminhando para outra porta do vagão.

— No três — digo, já ao seu lado. — Um, dois...

— De novo não — ela diz e pula. Não procrastino mais, sigo-a.

Assim que aterrisso no telhado, tenho uma sensação estranha. Foi aqui que Tris decidiu mostrar quem era, a Careta que foi a primeira a pular.

— Quatro! — ouço Christina gritar. Olho para trás e vejo que ela está quase que pendurada no telhado.

Antes de correr para ela, avisto Tris, que, sem hesitar, pula do telhado. A primeira a pular novamente, penso.

— Aguente firme! — exclamo para Christina assim que pego em seus braços e começo a puxar.

— Mas que droga — ela diz, assim que já está salva no telhado. — Meu tornozelo.

Olho para o tornozelo de Christina, que tem um aspecto estranho, parece que ela torceu, e olho para trás, onde vi que Tris pulou.

— Vá — Christina diz.

— Não vou deixá-la aqui — digo, apesar de querer, como todas as forças, seguir Tris. — Está chovendo...

— Eu vou estar aqui quando voltar, talvez Tris não te espere. E não sou de açúcar — ela diz, ofegante. — Vá, e traga ela de volta para nós.

— Farei o possível — digo, pegando na mão de Christina. — Vou voltar para te buscar.

— Não se apresse. — Ela volta a olhar o tornozelo. — Ok, talvez se apresse um pouco.

Levanto-me, corro, e, sem olhar novamente para trás, pulo, ignorando a chuva, as roupas molhadas, focando em ver Tris. Sei que a rede está lá embaixo, nada no Complexo da Audácia foi mudado. Apenas as pessoas, que deixaram sua casa de tanto tempo para conhecerem uma nova sociedade.

Quando caio, preciso de uns momentos para me recuperar. Foi aqui que Tris pulou, foi aqui que disse a ela que poderia escolher um novo nome. Eu segurei em sua mão e anunciei um novo membro da minha facção. Não a Careta, mas Tris, a pessoa que mais amei no mundo.

Saio da rede e corro pelos túneis que tanto conheço. Algumas áreas permanecem iluminadas, outras, em breu total. Passo pela porta dupla que leva ao Fosso, a porta que introduzi aos iniciandos como sua nova casa.

Tudo me traz recordações, boas e ruins. De todas as brincadeiras, de todos os beijos de Tris, todos os treinamentos. As pessoas que conheci e perdi, e que tanto voltam a minha mente, Lynn, Marlene, Tori, Uriah, Al, e até Eric...

Tento seguir a lógica para saber onde Tris está. Ela me acusou em ter feito algo a Eric e Al. Eric não morreu na Audácia, porém Al sim, ele morreu... no Abismo.

Corro para o lado direito do Fosso, e chego ao Abismo. “O abismo serve para nos lembrar que há um limite tênue entre a coragem e a estupidez!”, lembro de ter dito aos iniciandos.

Desço até o final da passagem, chegando ao fundo do Abismo, na beira do rio. Foi onde beijei Tris pela primeira vez, me lembro de súbito, e uma vontade arrebatadora de voltar àquele tempo toma conta de mim. Era relativamente mais fácil, eu tinha Tris.

— Por que fez aquilo? — a voz dela ecoa pelo Abismo, mas não sei exatamente de onde veio, ela pode estar ao meu lado ou no oposto do rio, está muito escuro.

— Do que está falando? — repito a pergunta.

— Por que destruir minha vida?

— Tris — tento acalmar as batidas do meu coração, sendo paciente — o que aconteceu a você depois que ativou o Soro da Memória no Centro?

— Salvaram-me — diz ela. — Por quê? Queria ter a chance de me matar primeiro?

— Tris... Você morreu.

— Então está imaginando tudo que está acontecendo. Meus parabéns, você é muito criativo — ela ironiza.

— Não está entendendo, eu fui para fora do Centro, quando voltei, Cara disse que estava morta, que tinha ido no lugar de seu irmão. Eu espalhei suas cinzas pela cidade, eu chorei por você...

— Basta — ela diz, e, dessa vez, se mostra a poucos metros de mim, na pouquíssima luz do Abismo. — Não vou acreditar no que diz.

— E como consegue acreditar no que você mesma está dizendo? — pergunto, e, de repente, tiro a conclusão mais óbvia: — Você também perdeu a memória no Centro — afirmo.

— Mas eu sei de tudo.

— Da boca de quem? — indago.

— Isso não te diz respeito.

— Devia, já que prefere acreditar no que um estranho contou a você em vez do que seu namorado quer dizer.

Ela ri com escárnio.

— Namorado, é? — ela fala. — Eu nunca namoraria ninguém como você.

— Que garantia tem de que sou a pessoa que quem quer que tenha te contado sobre sua vida disse que sou?

— Essa pessoa salvou minha vida.

— E eu me culpo todos os dias por não ter conseguido salvá-la — confesso. — Essa pessoa te contou que uma garota inocente morreu em seu lugar?

— Como? — ótimo, vejo que pelo menos consegui plantar a semente da dúvida.

— Seu nome é Julie Stanford. Colocaram ela no seu lugar, para que eu e todos os outro pensássemos que estava morta. Cremaram-na como se fosse você, e eu espalhei as cinzas dela pela cidade. Eu desci na tirolesa para fazê-lo — rio —, você teria se orgulhado.

— Como posso saber se está dizendo a verdade?

— Como pode saber que não estou?

— Por que fariam isso? Colocar uma garota para morrer por mim e contar uma mentira sobre a minha vida?

— Para te usar — conto. — Contra mim.

Ela se senta, encostando na parede de pedra, e me olha.

— Qual é a sua versão da história?

Sento-me também, a uma boa distância, e conto tudo. Tudo mesmo, desde a escolha dela para Audácia, desde a iniciação, até o final, ou até onde eu achei que tinha sido o final. Tris não faz nenhuma pergunta, apenas me olha atentamente enquanto digo tudo.

Ficamos um bom tempo em silêncio, até que ela começa a falar.

— Não falou de Al e Eric.

— Você começou a ir muito bem na iniciação — explico —, e Al, mesmo sendo seu amigo, não gostou. Ele se uniu a outras pessoas e tentou te matar, mas não conseguiram, eu a salvei, Al te pediu perdão, você não o concedeu. Ele se atirou no Abismo.

Isso não parece chocá-la, apesar de não tê-la visto mudar de expressão desde que comecei a contar.

— E Eric... — ela me incita a continuar.

— Eric foi julgado, e executado — as palavras parecem arranhar minha garganta.

— Então você o matou.

— Você nunca teve nenhum tipo de relação boa ou até mesmo razoável com Eric — digo. — Mas sim, eu o executei, segundo as leis da Audácia.

— Então está me dizendo que eu nunca namorei Al ou fui amiga de Eric?

— Sim.

— E que não me coloquei na frente da causa GD?

— Sim. Na verdade, eu que me uni uma pessoa chamada Nita, e a um grupo para isso. Uriah, o irmão de Zeke, de quem falei, morreu nesse processo, e eu fui o culpado.

— Suponho que, se quisesse causar uma boa impressão, não teria dito que matou o irmão do seu melhor amigo — ela diz, se levantando.

— Minha intenção não é causar uma boa impressão, é te contar a verdade — digo e me levanto também.

Ela se aproxima de mim. Perto demais. Seus cabelos — bem maiores do que me lembro — estão molhados, e ela fica tão linda assim!

— Quer que eu acredite que tudo que venho fazendo há cinco anos foi compactuar com meus inimigos?

— Nossos inimigos.

— Está pedindo muito... — ela diz mais perto ainda. Todo meu corpo responde a essa aproximação.

Essa Tris está muito... atrevida. E acho que gosto disso. Preciso jogar seu jogo.

— Vamos fazer uma aposta — proponho.

— E quais seriam os termos?

— Observe quem quer que seja a pessoa para quem está trabalhando por uma semana. Procure por coisas concretas, como arquivos, ou até procure gente, pessoas que ache que são imparciais, farei o mesmo. No final da semana, nos encontramos aqui, com provas do que eu te contei, ou do que você acha que é verdade. Se você ganhar, pode fazer o que quiser, me matar, se for isso mesmo que desejar.

Ela pensa um pouco, mas decide aceitar.

— Tudo bem, parece justo, mas e se eu perder?

— Bem — me aproximo mais dela, nossos narizes se tocam —, você vem comigo, conhecer seus amigos de verdade. E, mais uma coisa, os rebeldes são nossos, tudo que qualquer coisa que souber sobre quem está matando as pessoas, você vai me contar.

— Não apostaria minha vida, se fosse você, mas eu topo. Apostado.

— Deveríamos apertar as mãos para selar o acordo agora.

Surpreendentemente, ela me dá um beijo.

— Considere selado.

Notas finais
Então?? Estou curiosíssima sobre o que acharam desse encontro, contem nos reviews, ficarei mega feliz em repondê-los. Boa estreia de Insurgente para vocês, e pra quem não vai ver na estreia também, eu te entendo, me abraça :( Xoxo, até o próximo!