Notas iniciais
Oi gente! A escassez de comentários no capítulo passado foi castigo por eu ter atrasado o capítulo? Problema não, continuo amando vocês! (Mas podem comentar esse) Qualquer coisa que não entendam sobre esse e acham que perderam algo, não se desesperem, tudo vai ser explicado no próximo, okay? Espero que gostem!

Liv

Viver no mesmo prédio que Nita sempre foi complicado, mesmo quando nada de sério tinha atrapalhado nossa relação; cruzar com ela nos corredores estreitos desse antigo edifício, aguentando seus olhares altivos, mesmo da cadeira de rodas, e o que sua presença sempre joga em cima de nós, como se soubesse de tudo, ou como se não tivéssemos cumprindo suas ordens. Só que, dessa vez, não queria cruzar com ela justamente porque cumpri sua ordem expressa. E como cumpri...

E foi por isso que cheguei, no dia anterior, e disse à Nita:

— Cumpri minhas ordens, Tobias já dormiu comigo e metade do Centro já sabe. Agora ele quer distância de mim, meus parabéns. Agora quero um dia de folga.

E Nita não discutiu. Afinal, ela deve estar feliz, seu plano está funcionando — isso caso eu ainda saiba alguma coisa sobre esse plano —, muito diferente de mim. Sinto-me suja, confusa, humilhada e, acima de tudo, fria, assim como a chuva que agora observo da janela do meu quarto. A chuva começou a cair durante a noite de ontem, enquanto eu permanecia acordada, sem conseguir fechar os olhos porque cada vez que o fazia não conseguia deixar de pensar nas cenas que estavam nas telas dos computadores do Centro.

Acho que não sou capaz de ver nada de bom ou agradável no mundo agora — a não ser a chuva, que ajuda minha melancolia.

Tobias não me ligou, para saber se vou trabalhar, espero que esteja me ignorando, como todos os outros, inclusive Derek — principalmente Derek.

Meus sentimentos sobre querer que ele estivesse aqui variam muito; seria bom ter alguém do meu lado, porém sei que ele me daria um amor que não sou capaz de retribuir nesse momento, porque não consigo sentir algo tão bom assim.

Já deve ser meio dia — não estou realmente contando —, quando batem na minha porta.

— Vá embora — sussurro, mas a pessoa parece não ouvir, porque empurra a porta. Para minha surpresa, é Trevor.

Ele me olha e, sem rodeios, fala em voz baixa:

— Esteja na porta da antiga prefeitura daqui a uma hora. Não se atrase.

E, na mesma rapidez que ele entrou, ele sai.

Continuo na cama, surpresa e confusa demais para me mover. Não sei o que pensar, meu raciocínio está um pouco lento. Porém, alguns segundo depois me ocorre que, seja lá o que for que Trevor quer comigo, Nita não sabe, por isso a discrição e a rapidez dele para falar comigo, e isso já me interessa.

Levanto-me um pouco rápido demais e fico tonta. Quando me recupero e olho no relógio, ainda não são nem nove da manhã. Passar a noite em claro definitivamente afetou minha percepção da passagem do tempo.

A imagem que vejo no espelho parece uma moradora da fronteira com ressaca, e talvez a segunda parte seja verdade, já que tem uma garrafa de Bourbon bem perto do fim na minha cabeceira, que foi o que tentei para dormir, mas não funcionou. Tomo um banho um tanto demorado, na esperança de lavar as lembranças ruins e as dúvidas. Mas parece que isso também não funciona.

Escolho uma calça jeans, uma blusa preta de mangas simples e um casaco bem grosso marrom. No espelho, vejo que minha aparência mudou muito, ou pelo menos tanto quanto possível, mas por dentro eu continuo acabada, e pronta para voltar para a cama. Mas não posso, então bebo o resto do whisky, pego minha bolsa e saio.

Infelizmente, sorte e eu não combinamos. Cruzo com Nita em um dos corredores.

— Onde vai? — ela pergunta.

— Ahn... — me perco um pouco. — Trabalhar.

— Não disse que queria um dia de folga?

— Bem, meu prefeito não acha que devo ter — respondo. — E, de qualquer forma, disse que queria folga do seu jogo.

— Pois bem — ela diz. — Bom dia.

Não respondo, porque não estou com tanto humor assim para ser falsa.

Dirijo até o antigo prédio — quase batendo duas vezes com o carro —, e estaciono o carro, ficando de pé, esperando sem saber exatamente o quê. Tenho sorte que a chuva parou. Olho para o relógio e vejo que está na hora que Trevor tinha me dito.

Depois de mais ou menos cinco minutos, um carro para ao meu lado e o vidro é abaixado. Derek está dirigindo, e, no banco de trás, estão Trevor e uma garota que desconheço.

— Entre — Derek diz, e obedeço.

Ele começa a andar imediatamente depois de eu fechar a porta. Olho para Derek com confusão, e depois para Trevor e a garota.

— Liv — Trevor diz —, essa é Ash.

Fico atônita demais antes de responder:

— A-ash, s-sua irmãzinha Ash? A que Nita...

— Nita ia mandar matar caso desistíssemos, é, ela mesma.

A garota sorri para mim, parecer ter onze ou doze anos, e se parece muito com o irmão. As mesmas madeixas e olhos cor de mel de Trevor, mas aparenta ser uma pessoa totalmente mais aberta e simpática que ele.

— Muito prazer — ela diz.

— O prazer é todo meu... — me viro de volta para Trevor. — Como?

— Descobri onde ela estava, depois de muito tempo procurando — ele explica. — Mas, enfim, o importante é que ela está aqui, longe das garras de Nita.

Viro-me para Derek, que está com os olhos vidrados na estrada. Ele está com medo, posso sentir, mas parece que também está feliz, ou aliviado, escolho não fazer perguntas agora.

Porém, depois de alguns minutos, vejo onde estamos indo: o cemitério.

— Ok — digo —, o que está acontecendo?

— Você vai ver — Derek diz simplesmente, e se cala até parar na entrada.

Esse lugar me dá uma sensação estranha, foi perto desses portões que Tobias me beijou pela primeira vez. Não que tenha sido ruim, mas eu não queria, teve gosto de obrigação.

— Vamos — Trevor começa a andar ao lado de Ash, que vai segurando uma sacola com flores, na minha frente.

Derek pega minha mão e a acaricia com a dele durante o percurso, como um “estou aqui” silencioso. Mas não consigo sentir nada.

Na lateral do cemitério, numa cova comum, está escrito “ABBY PARKER, NAMORADA FIEL”.

— Foi a única coisa que pensei em escrever — Trevor diz quando percebe que estou lendo.

— Como...? — pergunto novamente.

— Nita se encarregou de enterrá-la sem suspeitarem do assassinato. Ela tem contatos — é Derek quem me explica. — Trevor procurou mudar o que estava escrito aqui.

— Entendi...

— Achei que ela precisava, pelo menos, de alguém que se lembrasse dela — ele pega as flores e distribui entre nós.

Ash deposita suas flores e vejo que faz uma prece baixa, Trevor faz o mesmo. Quando chego perto da lápide e me abaixo, não sei exatamente o que pensar.

Conheci Abby por algum tempo, bastante tempo, isso é verdade. Porém nunca fomos amigas, e agora percebo que não sei quase nada sobre ela. A única coisa que sei é que queria justiça, e morreu sem consegui-la. Seus sonhos, o que ela queria fazer depois que conseguíssemos sair ganhando dessa revolução. Mas agora de nada isso adianta, não posso voltar no tempo e escolher conversar com ela em vez de olhar cegamente para Nita.

Derek abaixa ao meu lado e coloca suas flores.

— Vamos acreditar que ela está em um lugar melhor.

— Qualquer lugar deve ser melhor que aqui — sussurro em resposta, friamente. — Mas ela não devia ter morrido. Está tudo errado.

— Isso não é novidade — ele se levanta.

Quando me levanto, vejo que Ash foi sentar em um banco, próximo de nós mas longe de nossa conversa. Minha sensação é de que essa não vai ser a melhor das discussões.

— Presumo que não me trouxeram aqui para o “funeral” de Abby — faço aspas com os dedos.

— Não — Trevor responde.

— Vou perguntar novamente, o que está acontecendo?

Trevor suspira antes de responder:

— A única coisa que me prendia a Chicago está ali — ele olha para Ash —, não preciso mais continuar...

— Está indo embora?! — pergunto.

— Se concordarem...

— Se sair de Chicago, Derek vai preso, ou eu morro, ou nós dois morremos, ou todas as alternativas — digo, me sentindo nervosa ao extremo. — Não pode fazer isso conosco!

— Ouça o que ele tem a dizer — Derek pede.

— Não quero fugir sozinho, quero que venham conosco.

A frase me pega de surpresa. Deixar toda essa falsidade para trás, recomeçar... Parece bom, mas onde? Para onde iríamos? De quê viveríamos? Entretanto, por outro lado, não estou exatamente vivendo aqui. Se for possível, seria uma nova vida, novas oportunidades...

— É burrice — uma voz me faz voltar à realidade. É Beatrice, suas roupas estão molhadas, mesmo que já tenha parado de chover, e ela carrega algumas flores também.

Ficamos observando Beatrice passar por nós e depositar suas flores para Abby. Ela deve ter notado a interrogação em nossas expressões, porque, logo depois de se levantar, diz:

— Trabalhamos juntas — ela explica —, se cria laços, mesmo que distantes.

— Você cria laços com alguém? — pergunto, incrédula.

— Não sou o monstro que pensa — ela retruca.

— Ah, não? — rio com escárnio. — Poupe-me.

Ela dá de ombros.

— Não me importo com o que pensam a meu respeito, Abby não merecia morrer, mas são ossos do ofício — ela diz. — Agora, é burrice fugir.

— Por quê? Vai nos entregar a Nita? Somos a maioria aqui — Trevor a ameaça.

— Não preciso, já entregaram a si mesmos — ela desdenha. — Se agissem mais com a razão, nem estariam juntos aqui. Sabe a mulher que “adotou” Ash? Nita. O “amigo” que te ajudou a recuperá-la? Nita. Ela está e sempre esteve um passo a frente, ela sabe que está com ela e já tem pessoas para levá-la de você.

— E por que exatamente está nos avisando sobre isso? — Trevor indaga.

— Porque não estou interessada de ver uma criança morrer, e também não tenho nada melhor para fazer agora — ela responde. — Seus celulares.

— O que tem eles? — pergunto.

— Nita os está rastreando — ela diz como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, mesmo que pareçamos surpresos. — Ah, vocês nunca pensaram nessa possibilidade?

Nós pegamos os celulares e Beatrice indica que devemos jogar fora. Quando relutamos com o ato, ela diz:

— Têm alguma ideia melhor?

Ninguém tem. Andamos e jogamos os celulares em uma lixeira perto da entrada do cemitério.

Nessa altura, Trevor já está com Ash e todos encaramos Beatrice.

— Qual é o plano? — pergunto.

— Plano? Querida, não vou ajudá-los, ainda quero minha vingança, só estou colaborando com a garota.

— Por quê? — eu questiono.

— Já disse, não estou interessa...

— Não — eu digo —, por que mudou de atitude? Não nos ajudaria nem com isso há um dia.

— Fiz uma aposta com alguém, e não vou perder — ela diz simplesmente. — De qualquer forma, sou eu quem mais conhece Nita, então sigam meu conselho e não fujam.

Essa mudança repentina é tão estranha que me cheira a armação, mas não quero deixar passar a oportunidade, não sei quando Beatrice vai estar maleável assim novamente. Talvez seja agora ou nunca.

— Tudo sobre você, tudo que Nita contou... — começo.

— Não — Beatrice indica com a mão para que eu pare —, não me diga que tudo o que Nita disse sobre mim era mentira. Vai ser a segunda pessoa em um espaço de tempo muito curto.

— Mas... — tento continuar.

— Mas nada — ela encerra a discussão mesmo sem que eu entenda nada. — Essa é a minha decisão final e não vou acreditar em nada que disser, a não ser quando eu tiver provas.

— O que acontece quando tiver provas? — pergunto.

— Duas coisas — ela diz. — Você me conta a verdade e, se puder provar, Nita morre. Pelas minhas mãos.

***

Mesmo depois da mudança repentina de humor de Beatrice, ainda me sinto estranha.

Trevor levou sua irmã de volta como Beatrice sugeriu, como se tivéssemos desistido de qualquer coisa, e ela voltou para Nita. Mas ainda não estou disposta a voltar àquele prédio, então Derek me leva ao seu quarto na força policial, o qual ele divide com Trevor. Mas como este não chegaria tão cedo, ele me disse que aqui posso descansar. E ele tem razão. Além do corredor, onde temos de ter cuidado para não sermos vistos, o prédio é bem silencioso.

— Tudo bem? — ele me diz, já dentro do quarto, me abraçando.

Apenas balanço a cabeça, em negativa, e me afasto.

O quarto é pequeno, com duas camas de solteiro e móveis de madeira.

— O que foi? — ele pergunta. — Sabe que pode conversar comigo.

— Nada — minto. — Posso tomar um banho?

— Claro — ele pega uma toalha para mim e vou para o pequeno banheiro do quarto.

A água está bem quente, mas quase não sinto. Ainda sem sentir nada. Tomo um susto quando Derek entra no banheiro de repente.

— O que você quer?! — grito, fechando chuveiro e pegando a toalha.

Não que Derek nunca tenha visto meu corpo, mas hoje não.

— Eu ia tomar banho também.

— Esse banheiro é meio pequeno, não acha?

Saio do box quase correndo, e escorrego. Derek me segura, mas logo me desvencilho dele.

— O que foi? — ele me segue para fora do banheiro. — Está me recusando porque agora que dormiu com Tobias acha que ele é melhor que eu?

Ele não devia ter dito isso. Estou tão fora de mim que, antes de qualquer pensar, minha mão esbofeteia sua cara.

Infelizmente, Derek me conhece bem demais. Sabe que não sou assim, sabe que não queria ter feito o que fiz. Ele pega minha mão e coloca em suas costas, e começa a me beijar. E só basta senti-lo para que eu esqueça o que fiz com Tobias, que eu me esqueça da vergonha que senti e do quanto suja me senti. Toda a minha razão diz que eu não tenho cabeça para pensar em ficar com Derek enquanto tanta coisa está acontecendo. Tento lutar a favor disso com todas as forças, mas o desejo acaba ganhando. Derek sempre ganha.

Ele sabe exatamente como me fazer esquentar, como me fazer sentir. Sentir tudo. De repente, vejo que a toalha cai, mas não estou mais importando, a roupa de Derek também já está caindo pelo chão.

Escolhemos uma das camas e ele me beija e faz tudo como nunca fez, como se para me dar certeza de que era aquilo que eu precisava. Nesse momento, tenho certeza de que, não importa o quão ruim tenha sido qualquer coisa que eu tenha feio, ou que tenha acontecido, nunca vou ter tanta certeza de que existe conforto e existe uma razão de viver do que quando estou em seus braços.

Notas finais
Então, o que acharam? Ainda aceito opiniões para o próximo capítulo. Espero que tenham gostado, vejo vocês nos reviews. Ah, e minhas aulas voltaram, e, como estudo o dia todo, o tempo para escrever reduz muito (e a criatividade também), então tenham paciência com possíveis atrasos! Xoxo.