Ressurgente
17 Capítulo 16
Notas iniciais
Liv
— Liv! — ouço alguém me chamar, mas é muito longe, ainda estou com tanto sono... — Não tenho o dia todo, levante logo, sua vadia nojenta.
Abro os olhos com as últimas palavras e dou de cara com Beatrice.
— Ah, não. Você não... — mas paro de falar, minha cabeça está latejando muito devido à bebida da noite anterior.
— Nita me mandou para levá-la para casa, ela quer fazer uma reunião.
— Eu preciso ir trabalhar — pego meu celular e vejo a hora. — Droga, já estou atrasada.
— Então ligue para o prefeito e diga que está muito mal para ir ao trabalho, ele vai entender.
— Tanto faz — digo me levantando, e logo me arrependo mortalmente do ato. — Como Nita sabe que estou aqui?
Tobias me trouxe até aqui, que é o “meu apartamento” para manter as aparências. Mas não avisei a ninguém.
— Nita tem mais olhos e ouvidos do que pode imaginar.
— Preciso de um banho e de uma aspirina antes de ir — anuncio.
— Tudo bem, mas seja rápida, Nita não gosta de esperar. Nem eu — ela diz se sentando na cama.
Vou para o chuveiro e tento ir o mais rápido que uma pessoa de ressaca pode ir. Quando saio, Beatrice está mexendo no meu celular.
— Privacidade — digo arrancando o aparelho da mão dela.
— Várias ligações perdidas do Tobias — ela sorri com deboche —, eu não entendo.
— Entende o quê?
— Ele está totalmente na sua, não sei por que ainda não estão juntos, Nita está brava por causa disso. É claro que ele é um assassino, mas...
— Olha quem fala — comento baixo.
— O que disse?
— Nada — me apresso em falar. — Eu estou conquistando Tobias como Nita mandou, mas devagar.
— Já o conquistou, e Nita sabe sobre isso, sabe sobre ontem à noite.
— Ontem à noite? — pergunto. Como Nita pode saber algo sobre ontem à noite? Nem eu me lembro de tudo.
— Vou deixar essa discussão só para vocês — Beatrice se levanta. — Vamos.
Seguimos em silencio até o carro e permanecemos assim até que chegamos ao edifício onde moramos, para a minha sorte. No caminho ligo para Tobias e digo que estou passando muito mal.
Enquanto subo até nossa sala de reuniões, me preparo para o que vem a seguir. Não pode ser boa coisa.
— Finalmente — Nita diz assim que me vê —, não pensou em aparecer?
— A noite de ontem foi confusa, bebi demais, me desculpe...
— Deixe as desculpas para depois, vai precisar delas, sente-se.
Junto à mesa, além de Nita, estão Trevor, Abby e Derek. Sento-me ao lado do último. Ele pega em minha mão debaixo da mesa e automaticamente sei que está muito nervoso. Aperto sua mão de volta.
— Como sabem — Nita começa —, a situação está ficando crítica. Anthony tem um exército, e não quero enfrentar um. Derek, eu quero George Wu morto.
“Eu não tive escolha. Vocês também não vão ter.”, as palavras de Trevor ecoam na minha cabeça. E Derek desempenha muito bem seu papel.
— Quando?
— Assim que tiver a melhor oportunidade — tem alguma coisa errada, a ordem está muito vaga. Nita daria um prazo, a não ser que não acreditasse que ele cumpriria o que foi pedido.
— Claro — Derek assente.
— Liv — Nita se vira para mim —, quer desistir?
— O-o quê? — gaguejo. — C-claro que n-não. Por que está perguntando isso?
— Porque não está seguindo suas ordens. Acha que elas não são boas o suficiente?
— Fiz tudo que mandou! Tobias me beijou, ele gosta de mim.
— Então por que se afastou quando ele tentou beijá-la ontem? — ela se aproximou de mim na cadeira de rodas. — Ele te levou para o apartamento, por que não o convidou para entrar? — como ela sabe disso?!
— Por que eu deveria?
— Porque são as suas ordens! Eu disse para conquistá-lo como homem, e não como coleguinha de trabalho — ela diz perto demais de mim, consigo sentir sua irritação. — Ou não é mulher suficiente para levá-lo para a cama?
— Eu não sou sua prostituta! — grito.
E sinto o peso da mão de Nita no meu rosto.
— Por que fez isso? — Derek coloca o braço em volta dos meus ombros, um ato protetor.
— Para ela aprender, aliás, para todos vocês aprenderem quem está no comando aqui! — ela grita.
— Você está louca — Abby sussurra, mas, aparentemente, Nita consegue ouvir e tira uma arma da cintura.
— Quão louca, hein? — ela aponta a arma para Abby.
— Não é possível, você está numa cadeira de rodas! — Derek levanta e vai na direção de Nita, mas Beatrice fica entre eles.
— Passe por cima de mim antes de tocar nela — a garota diz.
— Só pode estar brincando, acha isso normal? Sadio? — Trevor pergunta.
— Nenhuma vingança é sadia, e Nita é a única pessoa que pode me ajudar a fazer justiça.
Eu posso desmascarar Nita nesse momento, eu posso dizer que é tudo mentira e que ela ama Tobias e odeia Nita, que foi tudo uma farsa, que nós a salvamos da morte e demos o soro da memória. Mas meus irmãos e minha mãe continuam aparecendo na minha mente, dizendo que Nita é necessária para que eles descansem em paz.
— Vocês farão tudo que eu mandar — Nita diz. — Se eu morrer, tenho uma pessoa para fazer todo o trabalho para mim. Derek, você vai para a cadeia. Acha que escolhi Julie Stanford por quê? Os pais dela vão querer justiça, vão querê-lo preso. Quem puniria você pela morte de uma garota como Rebecca Rogers? — ela percebe minha surpresa. — Eu sei de tudo, eu sei das garotas que Tobias foi visitar, eu sei que a irmã de Julie suspeita de você, Derek. Se qualquer um de vocês me trair, você vai para a cadeia, mas antes vê sua namoradinha morrer na sua frente.
“Liv, se me traírem, eu mato seu namorado muito lentamente, e você vai conhecer o que é tortura. Trevor, se houver traição, sua irmãzinha morre na sua frente, implorando que a ajude. E você, Abby... não está me sendo útil ultimamente, e não vai ser sua consideração por eles que vai te fazer ser leal. Então seja corajosa.”
E então Nita atira na cabeça de Abby.
Derek tampa minha boca para que eu não grite.
— Vai ficar tudo bem — ele sussurra —, vai ficar tudo bem.
Até Beatrice tem uma expressão assustada.
— Agora vocês vão fazer tudo exatamente como eu mandar. Começando por você, Liv, vá ao escritório e faça o que tem de fazer com Tobias. Vou saber se não fizer o trabalho completo.
Ainda em estado de choque, começo a andar em direção à porta.
— Vá em frente, está tudo bem — Derek diz, como que dando sua benção para que eu vá para a cama com outro.
Vou até o carro e dirijo até a prefeitura, sem conseguir conter as lágrimas. Nita está louca, e não posso fazer nada a respeito. Mesmo que eu e Derek quiséssemos dar um fim a isso, arriscar fugir ou algo assim, Nita ainda vai matar a irmã de Trevor, e não posso deixar que isso aconteça.
E agora Abby está morta. Não consigo acreditar.
Ouço uma buzina depois de passar por um cruzamento, quase bati o carro.
Você consegue, Olívia, você consegue, digo para mim mesma quando estaciono o carro.
Subo no novo prédio e entro na sala de Tobias muito apressada, para não ter tempo de desistir.
Ele levanta os olhos dos papeis e me olha.
— Mudou de ideia? — ele sorri. — Melhorou?
— Sim, e percebi que tinha de me desculpar sobre a noite passada, eu estava bêbada...
— Está tudo bem.
— Não, não está. Eu preciso recompensá-lo.
Ele se levanta e me olha, confuso, quando me aproximo e pego em sua gravata.
— E como pretende fazer isso?
— Tire a roupa.
***
— O que é aquilo? — pergunto do sofá da sala de Tobias, depois de ter cumprido meu dever.
— O quê? — ele pergunta, ainda com os braços em volta de mim.
— Isso — me desvencilho de seus braços e puxo minha roupa, colocando-a rapidamente e ando até uma estante de livros no outro canto da sala. Em cima de um livro de ciências, está uma micro câmera. — Você tem uma câmera no seu escritório que acabou de gravar tudo que fizemos e nem se deu ao trabalho de desligar?
— O quê? — ele se levanta com a mesma rapidez que eu para colocar a roupa e ver a câmera de perto. — Eu não coloquei isso aqui!
É claro, eu deveria saber! Como Nita saberia se eu dormi com Tobias ou não? Ela tem como controlar cada passo que eu e Tobias damos, e sabe-se lá quem mais.
— Eu tenho como descobrir quem está me observando — Tobias pega a micro câmera da minha mão e vai até seu notebook. — Ou pelo menos de onde está me observando.
Ele tirou um pequeno chip da câmera e colocou no computador, automaticamente um programa se inicia, parece um GPS.
— Como sabe como localizar? — pergunto.
— Eu aprendi algumas coisas úteis na Audácia — ele diz.
Ando de um lado para outro da sala. Nita não pode ser idiota ao ponto de se deixar localizar assim tão fácil.
Depois de alguns minutos, Tobias exclama.
— É do Centro! — ele está com raiva. — Se aquela criatura nojenta estiver fazendo isso comigo... Ele vai pagar muito caro.
Então o informante de Nita trabalha no Centro...
— De quem está falando?
— Ninguém, não tenho certeza ainda — ele diz, se levantando. — Pegue seu casaco, nós vamos para o Centro antes que estejamos passando na TV.
Obedeço e saímos rápido da sala dele para pegar o elevador até o estacionamento.
— Vamos no meu carro — ele diz.
Eu quero discordar, pedir para cada um ir no seu, mas vai ser um tanto suspeito depois do que fizemos.
— Tudo bem — respondo.
Como tudo sempre pode piorar, as ruas de Chicago estão com um fluxo muito grande de carros, e o trânsito está lento.
— Droga — Tobias soca o volante.
— Acho que devia ligar para Amar, quero dizer, isso é um crime, vigiar os outros com câmeras escondidas — digo, tentando qualquer coisa para evitar um silêncio constrangedor e, consequentemente, a conversa.
— Tem razão — ele pega o celular e fica alguns minutos explicando toda a situação para Amar. Depois que termina, se vira para mim: — Ele vai nos encontrar no Centro.
— Ótimo — digo.
— Liv... — ele começa.
— Não, por favor — peço.
— Então não vamos conversar sobre isso? Vamos fingir que não aconteceu?
— Aconteceu, e foi bom, e passou.
— Liv, o que foi aquilo?
— Sexo — respondo exasperada.
— Sabe que não é o que quero dizer. Ontem a noite você nem quis me beijar.
— Eu estava bêbada, e já me desculpei por isso.
— Não precisava se desculpar, e não precisava ter feito aquilo se não quisesse.
Ah, se soubesse como eu precisava.
— Eu quis — digo —, e gostei. Só não quero falar sobre isso.
— O que isso faz de nós? — ele pergunta.
Não, penso, não estou pronta para chamá-lo de namorado. A palavra me dá um nó no estômago.
— Um homem e uma mulher que dormiram juntos, nada mais — digo, mas percebo que foi grossa demais. — Por favor, não vamos apressar as coisas.
— Como quiser — ele diz, e ficamos calados até chegarmos ao Centro.
Chegando lá, na recepção cheia — bem diferente do dia em que fomos lá para roubar dinheiro para o resgate de Christina — Tobias foi logo recebido com o máximo de atenção.
— Posso ajudar, senhor prefeito? — um funcionário negro e alto sorri para nós.
— Na verdade sim, preciso de acesso aos computadores do Departamento de Ciências.
— Ahn... Desculpe, senhor — ele hesita —, mas o que precisa nos computadores...
— O Primeiro Oficial da força policial está a caminho, achei uma câmera em meu escritório, e o observador parece ser daqui, preciso checar os computadores, mas se eu precisar esperar Amar chegar, tudo bem.
— Não, senhor, não será necessário, venha comigo.
Ela nos guia pelos corredores até uma sala que diz “DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS – COMPUTAÇÃO” na porta. No caminho, cruzamos com David, para nosso desprazer.
— Senhor prefeito, senhorita — ele cumprimenta. — Seria uma grande honra recebê-lo em meu escritório, se o senhor não estiver com pressa.
— Acontece que estou — Tobias retruca.
— Bom, o assunto será com certeza do seu interesse. Vou esperá-lo lá mais tarde, quando acabar seus assuntos aqui.
— Eu vou — Tobias diz e me apressa para recomeçarmos a caminhada.
A sala que entramos é grande e com muitos computadores, várias pessoas estão trabalhando e erguem as cabeças, curiosas, quando nos ouvem.
— É aqui — o funcionário anuncia.
— Existe aqui algum computador que esteja conectado a todos os outros?
— Isso está fora do meu alcance, mas Matthew pode ajudá-los.
Olhamos para trás e Matthew vem caminhando em nossa direção. Vejo Caleb Prior sentado em frente a outro computador, e Cara também — ela acena para nós.
— Olá — Matthew nos cumprimenta. — O que estão fazendo aqui?
— Descobri uma câmera no meu apartamento, e estão me observando daqui.
— Daqui? — Matthew parece muito surpreso. — Bom, podemos olhar do computador central.
Ele nos guia até o fundo da sala.
— Quer que eu faça isso? — Matthew pergunta a Tobias.
— Não, eu posso descobrir quem é o desgraçado.
Tobias se senta em frente ao computador e começa trabalhar. Não sei muito bem o que está fazendo porque sou leiga quando se trata de computadores. Porém, de repente, a sala é tomada por um silêncio estranho. Estranho demais.
Viro-me para os outros computadores e vejo, com terror, porque estão todos quietos demais.
— Tobias... — chamo, enquanto vejo cenas de tudo que fizemos em todos os monitores.
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